Sobre
Chávez, Morales e Obrador.
Notas sobre o (neo) populismo na América
Latina
É
difícil imaginar um termo mais recorrente para descrever a política
latino-americana nas últimas décadas do que o de
“populismo”. Os historiadores, por exemplo, discutem até que
ponto é possível utilizar esse conceito para descrever regimes
como os de Vargas no Brasil, Cárdenas no México e Perón na
Argentina, entre outros. Também os cientistas políticos e
jornalistas apreciam a utilização desse termo para
designar regimes e pessoas dentro do continente, com maior
ou menor ênfase, conforme o período.
Nos
últimos anos, temos vivido um daqueles momentos em que o uso da
expressão “populista” ou
do termo “populismo” está
novamente na moda. Parece óbvio que isso tem relação com o
fortalecimento de pessoas e movimentos, por todo o continente
latino-americano, de pessoas e movimentos que poderiam ser
chamados de “populistas”. Hugo Chávez na Venezuela e Evo
Morales na Bolívia são os nomes mais evidentes a serem
recordados nesse aspecto. Líderes como López Obrador no México,
Ollanta no Peru e outros também são continuamente
lembrados como “populistas”, mas o termo também é
utilizado, muitas vezes, para fazer referência a Lula no Brasil,
Kirchner na Argentina, Tabaré Vazques no Uruguai e outros. Enfim,
o termo parece ter voltado para ficar, ao menos pelos anos a
seguir.
O
grande dilema no uso da expressão “populista”
ou “populismo” é que o conceito em si é extremamente
vago e aberto a mil e uma interpretações. Basta uma passada de
olhos na abundante literatura que discute, por exemplo, se o
Brasil entre 1945 (ou 1930) e 1964 pode ser chamado de populista
para verificar como o debate relativo ao conceito é complexo. Além
disso, o termo assumiu também um caráter de adjetivo, o que
complica ainda mais as coisas.
Assim,
para certos grupos, ser populista é manter um contato direto e
aberto com as massas populares, com o povo, e buscar a melhora da
vida dessas massas frente às elites.
Algo positivo, pois. Para outros, o populismo é
simplesmente manipulação, jogar com os desejos e necessidades
imediatas dos pobres, passando por cima das instituições, de
forma a gerar um capital político capaz de manter o populista no
poder. Algo negativo e quase um insulto.
Se
pensarmos em linhas gerais, talvez o populismo seja tudo isso. De
um lado, ele é manipulação a partir de um líder ou movimento
que trabalha os desejos e necessidades das massas populares para
formar uma base de apoio que mantém esse líder ou movimento no
poder. De outro, também é uma forma das massas populares se
expressarem e verem atendidas ao menos algumas de suas reivindicações
e necessidades.
Dessa
forma, parece haver um jogo e um equilíbrio entre um líder que
manipula as pessoas, mas que também tem, em alguma medida, que
representa-las e defender os seus interesses. Claro que essas
fronteiras entre representação e manipulação variam
continuamente, o que explica momentos em que o líder parece ser
conduzido pelas massas e outros em que ele parece leva-las para
onde deseja, em termos políticos.
Essa
definição de populismo parece ser razoável para entender
aspectos da política latino-americana hoje. Eu não diria que o
continente está dominado, hoje, pelo populismo. No Chile e na Colômbia,
por exemplo, candidatos avessos a esta política foram eleitos
para a presidência. No Brasil, na Argentina ou no Uruguai, por
sua vez, a política ainda funciona dentro do sistema
representativo e a mobilização das massas é muito limitada,
para dizer o mínimo. Lula, por exemplo, pode manter algumas práticas
populistas, como a transferência de renda para os mais pobres
(com retorno, em termos de votos, excepcional), uma tentativa de
desligar a sua imagem do PT (compreensível, dada a situação
atual) e outras, mas não vemos nenhum sinal de rompimento da prática
democrática. A princípio, poderíamos dizer o mesmo de Kirchner
na Argentina, por exemplo, que utiliza sua popularidade para
aumentar seus poderes, mas dentro da lei.
Já
em países como a Venezuela (e talvez a Bolívia), está havendo
uma radicalização excepcional do processo. Chávez não rompeu
completamente com o sistema democrático tradicional, mas se
afastou deste a níveis inimagináveis em outros países da região.
Não vemos ainda sinais de uma ditadura “bolivariana” sendo
implantada, mas estamos chegando perto. Uma responsabilidade de Chávez,
claro, que parece querer se manter no poder a qualquer custo, mas
também dos seus próprios inimigos. Foram as elites tradicionais
venezuelanas, afinal, que, incapazes de aceita-lo no poder,
optaram por tentar um golpe militar anti Chávez em 2002. Este,
fracassado, radicalizou ainda mais as posições e não espanta
como, hoje, a sociedade venezuelana esteja extremamente dividida e
como o sistema democrático esteja sendo questionado diretamente.
Em
resumo, com mais ou menos ênfase; combinado com o sistema de
representação política tradicional ou em oposição a ele;
centrado em um líder ou em um movimento, fica claro como o
populismo, visto em nível muito geral,
está de volta ao cenário político latino-americano.
Resta perguntar se isso é positivo ou negativo, sinal de
maturidade ou de infantilidade dos latino-americanos.
A
meu ver, as políticas populistas são, em última instância,
prejudiciais ao desenvolvimento, tanto político como econômico.
Em termos políticos, elas solapam as instituições das quais
depende o funcionamento da democracia e do Estado de direito (o
Parlamento, os partidos, o Judiciário, etc.) e tem o potencial de
gerar uma radicalização e
uma divisão na sociedade que só pode ser negativa, como a que
ocorre hoje na Venezuela.
Já
em termos sociais e econômicos, o custo de atender as reivindicações
imediatas das massas populares acaba por abalar as contas públicas,
o que desvia recursos necessários para investimentos em
infraestrutura, educação, etc. Os gastos sociais, ainda que
socialmente defensáveis, não induzem ao crescimento econômico
que, em longo prazo, permitiria, inclusive, que o Estado não
precisasse fazer caridade para com os pobres. O que gera
crescimento econômico é investimento, que é justamente o que
os Estados marcados pelo populismo menos fazem, até para ter os
recursos para as políticas de assistência social.
Vide,
por exemplo, o que ocorre na Venezuela. Os imensos recursos do
petróleo estão sendo canalizados para saúde, educação, subsídios
nos preços de alimentos e remédios para os pobres, etc. Ninguém
de bom senso poderia ser contra esse tipo de gastos, mas o
problema é que eles são tão altos que sobram poucos recursos
para a infraestrutura (até mesmo do próprio sistema de produção
de petróleo) e para investimentos. Do mesmo modo, não há estímulos
para que se busque a diversificação da economia venezuelana e
para que ela se prepare para o futuro.
Por
agora, os recursos do petróleo permitem a manutenção do sistema
(e não espanta que Evo Morales também queira uma fonte de
dinheiro simples e fácil como esta, no caso, através do aumento
dos preços do gás natural) e talvez seja possível, dados os
altos preços dos hidrocarbonetos, manter essa situação ainda
por muito tempo. Mas o desenvolvimento real, com crescimento econômico
e de renda, formação de cidadãos, etc, parece não estar no
horizonte.
Enfim,
fica claro como esse modelo, que podemos chamar aqui de populista,
não é o ideal. Politicamente, devemos lutar pela democracia
representativa e pelo Estado de direito, com partidos fortes,
Legislativo atuante, Judiciário independente e funcional,
liberdade de imprensa, etc. Em termos econômicos, muito
mais interessante é um modelo que privilegie a estabilidade
macroeconômica e o crescimento, pois só uma combinação de
crescimento econômico (induzido pelo setor privado e público) e
investimentos maciços em educação pode realmente transformar o
Brasil e a América Latina. Tudo o mais é mero desvio de rota.
No
entanto, fica a pergunta se os latino-americanos são tão
imaturos ou ignorantes como parte da mídia quer nos fazer crer.
Para esta, só analfabetos e pobres poderiam se vender por tão
pouco, por uma cesta básica ou por um vale alguma coisa de trinta
reais. No entanto, será que os seduzidos pelos apelos populistas
não estão simplesmente fazendo o correto? Afinal, se eles
recusarem estes apelos, qual a alternativa?
Realmente,
é muito fácil criticar as pessoas por serem
seduzidas pelo populismo quando esquecemos a alternativa
que sempre esteve presente. Nós não temos, e nunca tivemos,
nessa parte do mundo, salvo
exceções, um sistema político ou uma estrutura econômica que
privilegie a construção efetiva da democracia ou a prosperidade
geral. Assim, se as opções são a nossa democracia limitada e o
nosso modelo econômico excludente ou o populismo, nada mais
correto do que ser populista.
Afinal,
se as alternativas são uma democracia consolidada ou um sistema
populista, a primeira é melhor. Mas se as opções são um
populismo onde os pobres são ao menos escutados ou um sistema no
qual os partidos e os políticos só trabalham para si próprios e
a apatia é geral, talvez a primeira escolha seja correta e até
indicativa do amadurecimento político das pessoas, superando a
velha ordem. Igualmente, se a escolha é entre uma política econômica
que visa o crescimento e uma meramente distributiva, a primeira é,
em teoria, melhor.
Mas se as opções verdadeiras são um sistema econômico que mantém
os pobres permanentemente na periferia e um outro no qual ao menos
eles ganham algo, como questionar se o povo prefere a segunda?
Em
resumo, é fácil
criticar a população por se “vender barato”
quando não se recorda as opções reais que ela tem. A
escolha que muitas pessoas fazem hoje, no longo espaço ao sul do
rio Grande, não é a minha e o que vivemos hoje talvez seja um
sinal claro da incapacidade da América Latina em chegar à
modernidade. Mas, talvez, as pessoas estejam fazendo a única
escolha viável nas atuais circunstâncias e, portanto, fazendo
política, no sentido mais positivo da palavra.