Causas
estruturais da corrupção no Brasil
A
corrupção é o tema central do debate político contemporâneo
no Brasil. O caso de corrupção no PT
obteve tamanho espaço na mídia brasileira como, até então,
somente durante o processo de Impeachment de Fernando Collor de
Melo havia acontecido. O governo Lula está, desde então,
mergulhado em sua maior crise: tanto o Ministro da Casa Civil, José
Dirceu, como o presidente do partido, José Genoíno, e o Ministro
da Fazenda, Antonio Palocci tiveram de renunciar a seus cargos.
Embora a maioria dos acusadores esteja envolvida em corrupção (o
que lhe confere uma baixa confiabilidade), poucas provas concretas
tenham sido apresentadas e o caso, na realidade, envolva o PT e não
diretamente o governo Lula, foi intencionalmente difundida uma
imagem de que esse governo seria o mais corrupto da história do
Brasil. Nas intenções da discussão vigente, portanto, é possível
visualizar uma tentativa por parte da oposição e da mídia
conservadora de desestabilizar politicamente o governo Lula, com o
objetivo de impedir sua reeleição em 2006.
A
novidade no atual debate contemporâneo brasileiro é que, agora,
não somente os partidos conservadores, como já é de antigo
conhecimento, estão envolvidos em corrupção, mas mesmo o PT,
que, até então, era considerado isento desse problema. Com o
envolvimento do PT se fala de uma “democratização” da corrupção
no Brasil, ou seja, agora todos foram atingidos, o que explica a
satisfação de políticos corruptos com a atual situação, pois
o PT se beneficiou por muito tempo da sua tradição de ter
governado sem corrupção. O contexto no Brasil nos remete aos
seguintes questionamentos, que procuraremos abordar no presente
texto: 1) por que a corrupção está tão profundamente arraigada
no Brasil? 2) quais são as razões para isso? Como foi possível
que também o PT tenha sido atingido pela corrupção?
Metodologicamente iniciamos com a análise do conceito de corrupção
e o seu entendimento no Brasil, para, em seguida, apresentar o
sistema político brasileiro na relação com o tema e,
finalmente, centrar nossa abordagem em aspectos da cultura política
brasileira, com o objetivo de compreender o contexto atual do
debate sobre a corrupção no Brasil.
1.
O conceito de corrupção
Existem
no Brasil muitas palavras para caracterizar a corrupção:
cervejinha, molhar a mão, lubrificar, lambileda, mata-bicho,
jabaculê, jabá, capilê, conto-do-paco, conto-do-vigário,
jeitinho, mamata, negociata, por fora, taxa de urgência, propina,
rolo, esquema, peita, falcatrua, maracutaia, etc. A quantidade de
palavras disponíveis parece ser maior no Brasil e em países onde
a corrupção é visualizada cotidianamente. Originalmente, a
palavra corrupção provém do latim Corruptione e
significa corrompimento, decomposição, devassidão, depravação,
suborno, perversão, peita. A corrupção, entretanto, dependendo
do contexto, nem sempre assume uma conotação negativa. Ela
constitui, por exemplo, a base para o desenvolvimento da
linguagem: a língua portuguesa resultou de um “corrompimento”,
da modificação do latim, cuja variante brasileira é ainda mais
dinâmica e viva (mais corrompida, portanto) do que o português
de Portugal. Na linguagem política contemporânea, no entanto, a
corrupção sempre assume uma conotação negativa, o que, visto
numa perspectiva histórica, não foi sempre assim.
Historicamente, a corrupção esteve associada ao conceito de
legalidade, ou seja, corrupto era caracterizados aquele que não
seguia as leis existentes. Mesmo determinados termos extremamente
negativos que atualmente são usados para designar formas de
corrupção, como a peita, o nepotismo e o peculato, não tinham
essa conotação até há poucas décadas atrás: a peita estava
instituída como um pacto entre os fidalgos e a plebe nos regimes
monárquicos para garantir o pagamento de tributos do povo aos
nobres; o nepotismo era reconhecido como um princípio de
autoridade da Igreja na Idade Média, segundo o qual os parentes
mais próximos do Papa tinham privilégios sociais aceitos pela
sociedade da época; o termo peculato,
originalmente, indica que o gado constituía a
base da riqueza de determinados grupos sociais privilegiados e,
posteriormente, a expressão “receber o boi” passou a ser
usada para designar “troca de favores”, pois o gado servia
como uma forma de moeda em certas regiões rurais. O termo
peculato, atualmente utilizado para caracterizar favorecimento ilícito
com o uso de dinheiro público, continua com essa referência histórica
de que para ter acesso a determinados privilégios é necessário
um favor em forma de contrapartida.
No
Brasil se associa a esse contexto histórico a assim chamada Lei
de Gérson, ou seja, o comportamento de querer “tirar vantagem
em tudo”, pressupondo que os sujeitos aguardam o máximo possível
de benefícios, visando exclusivamente o beneficio próprio. Esse
tipo de comportamento, contudo, se adapta perfeitamente ao “espírito
capitalista”, como pré-condição esperada dos seres humanos
numa sociedade centrada nos valores da economia de mercado. Adam
Smith, por exemplo, caracterizava esse comportamento como a melhor
forma de contribuir com o progresso social (Smith, 1990).
É
claro que a corrupção é mais antiga que o capitalismo, mas ela
encontra neste modo de produção condições ideais para sua
continuidade. Através da instituição da dominação forçada do
capital sobre o trabalho,
a qual permite aos capitalistas a apropriação privada da mais
valia gerada pelo trabalho de outros seres humanos, uma das formas
mais básicas de corrupção passou a ser reconhecida legalmente
na sociedade capitalista. Nesse sentido, a forma moderna da corrupção
precisa ser compreendida no contexto da injustiça fundamental
presente em todas as sociedades de classes: a injustiça no acesso
aos meios de produção, que constitui a origem da desigualdade
social e está em frontal contradição com os ideais de
democratização, justiça social e solidariedade entre os seres
humanos. É por isso que, historicamente, a corrupção é
proporcionalmente maior em sociedades com maior injustiça social:
onde o contraste entre ricos e pobres é maior. A ausência e a
dificuldade no acesso a bens e serviços facilita a privatização
de setores públicos e sua transformação em mercadoria, tendo
como resultado o seu uso/abuso em benefício privado. Nesse
contexto, por exemplo, bens e serviços públicos passam a ser
usados como mercadorias em troca de votos em períodos eleitorais
e parlamentares votam a favor de determinadas leis se houver a
possibilidade de, com isso, aumentar recursos no orçamento para
as regiões onde se concentra o maior número de seus eleitores
(através das famosas “Emendas Parlamentares”).
A
corrupção é um fenômeno mundial e, de acordo com a declaração
final do IV Fórum Global de Combate à Corrupção, realizado de
7 a 10 de junho de 2005 em Brasília, ela impõe “ameaças à
democracia, ao crescimento econômico e ao Estado de Direito”.
De acordo com esse entendimento, o IPC (Índice de Percepção da
Corrupção)
serve de parâmetro internacional para investimentos do Banco
Mundial, supostamente para impedir que os créditos internacionais
sejam utilizados de forma indevida por governos corruptos e para
comprometer governos a tomar medidas de combate à corrupção.
Por outro lado, essa forma de proceder vem sendo usada como
argumentação para justificar o subdesenvolvimento de países
pobres. Nos países mais pobres, especialmente na África, há uma
ampla aceitação da tese de que a corrupção origina o
subdesenvolvimento, como se a existência da estrutura social
injusta nestes países fosse meramente o resultado de “maus
governos”. Com essa linha de argumentação são omitidas as
causas estruturais e históricas da corrupção, por um lado, e,
por outro, a responsabilidade dos países colonizadores (os quais
continuam sendo beneficiados através da dependência e subordinação
de muitos países pobres) passa a ser transferida à população
oprimida ou a seus governos, como se estes fossem os “culpados
pelo seu subdesenvolvimento”.
A
percepção do tamanho da corrupção e da sua amplitude,
entretanto, está pouco vinculada à existência do IPC, se
comparada à importância dos meios de comunicação, do acesso a
informações, da transparência de governos e, não por último,
do próprio combate à corrupção. Governos que tomam medidas
efetivas de combate à corrupção contribuem de forma decisiva
para que a opinião pública se ocupe desta temática e
identifique ações corruptas como um problema. No Brasil,
historicamente, a maioria dos casos de corrupção se tornaram públicos
somente em função de conflitos privados. Por isso, o país está
confrontado com uma situação completamente nova, pois, no
governo Lula, as denúncias de corrupção resultaram de um
confronto político: políticos subornados foram à imprensa
apresentando-se como “vítimas” à opinião pública, com o
objetivo de atacar o PT, reforçar a oposição e impedir a reeleição
de Lula. Isso explica a satisfação de políticos de direita no
país, alguns deles (como Jorge Bornhausen)
acreditam inclusive, terem a oportunidade de, finalmente, poderem
“acabar com essa raça” (referindo-se ao PT). A corrupção
segue servindo de instrumento político na campanha eleitoral,
coerente com a estratégia das elites brasileiras corruptas de
apresentá-la à sociedade como um “problema endógeno da
cultura brasileira”. A naturalização da corrupção, ou seja,
a tentativa de apresentá-la como sendo algo natural e óbvio
(utilizando expressões típicas de que “ela sempre existiu”,
“todos são corruptos e corrompíveis”, “precisamos saber
conviver com a corrupção, assim como convivemos com as estações
do ano”), reduz a possibilidade de combater efetivamente ações
corruptas, embora estas sejam construídas por seres humanos e,
por isso mesmo, poderiam ser justamente controladas e modificadas
pela ação humana.
2.
O sistema político brasileiro
No
debate teórico sobre a corrupção no Brasil podem ser
visualizadas, no mínimo, duas grandes correntes de pensamento: a)
alguns cientistas políticos partem do pressuposto de que a corrupção
brasileira é uma herança do patrimonialismo ibérico; b) outros
autores apresentam a ausência de uma história feudal no país
como um elemento importante para descrever a falta de separação
entre as esferas públicas e privadas, o que seria similar ao
patrimonialismo oriental. Em nosso entendimento, entretanto, o
desenvolvimento do Brasil está marcado por um processo de
modernização e de manutenção do patrimonialismo, ambos
ocorrendo ao mesmo tempo. Isso significa que continua existindo
uma estrutura de dependência
do país em consonância com a manutenção do status quo
das elites no país. Por isso, pode-se falar de uma modernização
conservadora no Brasil, pois não se trata de uma nova ordem e sim
de mudanças pontuais que, em última instância, contribuem para
a consolidação da estrutura social injusta e desigual. O
conceito de “modernização”, portanto, é constantemente
influenciado por elementos econômicos, sociais, políticos e
culturais que constituem a base de um debate acerca de diferentes
processos de modernização possíveis ao país, diante dos quais
os diferentes atores políticos estão confrontados. O desigual
acesso aos meios de produção, desde os tempos da colonização,
constitui a base do patrimonialismo brasileiro, uma corrupção
original que se expressa no âmbito político e que pode ser
encontrada de forma semelhante também em outros países
latino-americanos. Uma importante particularidade de todo o
continente sul-americano é a coexistência entre modos de produção
pré-capitalistas e semi-capitalistas, embora o capitalismo tenha
se desenvolvido como predominante e sobre ele se concentre
prioritariamente a maioria dos estudos e análises críticas. Por
isso, particularmente no Brasil, é possível constatar um
desenvolvimento capitalista de forma desigual e dependente, com um
acesso à modernidade sem que tenha havido uma ruptura com o seu
passado patrimonialista.
Nesse
sentido, não há um Estado de Direito consolidado no Brasil, e
muito menos se poderia falar da existência de um Estado de
bem-estar social. O Estado neopatrimonial surgido em decorrência
do desenvolvimento desigual e dependente do país serve
prioritariamente aos interesses de grandes proprietários de
terras, empresários e outros representantes do capital. Trata-se,
portanto, de um Estado autoritário e centralizado. Nós
defendemos a tese de que quanto mais autoritário e centralizado
estiver organizado o poder, maior será a probabilidade de se
confundir o interesse público (res publica) com interesses
privados. Muitos crimes no Brasil surgem no interior da própria
estrutura do Estado e estão com ela conectados, de forma que a
criminalidade muitas vezes é incentivada por estruturas estatais
(especialmente no interior de setores da polícia e do Poder
Judiciário). A maioria dos políticos é eleita como
representante de poderosos interesses na sociedade e concorre
visualizando a possibilidade de ter acesso a benefícios da
estrutura do Estado. Inclusive criminosos se candidatam em eleições
com a finalidade de serem protegidos pela imunidade parlamentar,
constituindo a assim chamada “bancada do crime” que, de acordo
com Francisco Weffort, já chegou a atingir 10% do Congresso
Nacional.
A
falta de transparência, a exclusão da maioria da população das
decisões políticas mais importantes, a baixa participação política
da sociedade civil e a impunidade com relação à corrupção são
as conseqüências do sistema político brasileiro, constituindo
um ciclo vicioso que facilita ações corruptas. Soma-se a isso a
tendência de crescente profissionalização da política, o que
aumenta o custo das campanhas eleitorais e a dependência de
candidatos de empresários dispostos a “investir em seu
futuro”. Também não devemos subestimar que o interesse de
obter um cargo público como troca de favor em governos aumenta
significativamente em tempos de altas taxas de desemprego. Somente
no governo federal brasileiro há em torno de 25 mil cargos de
confiança que podem ser “trocados” dependendo do resultado de
cada eleição. Especialmente o sistema eleitoral brasileiro
contribui para que a corrupção seja vista como parte integrante
da política. A ausência de limites no financiamento privado de
campanhas eleitorais aumenta a probabilidade de um futuro
beneficiamento de empresas com dinheiro público e o fato da
maioria dos partidos políticos não terem um programa político
claramente definido os transforma em instrumentos políticos a
serviço de grandes empresários. O voto na pessoa (motivado por
critérios e influências pessoais), a ausência de fidelidade
partidária, a constante troca de partidos e a constituição de
alianças políticas antes das eleições são fatores que
aumentam significativamente a tendência de transformar votos em
mercadorias. Soma-se a isso o sigilo bancário que facilita a
“lavagem de dinheiro” e as concessões de meios de comunicação
a políticos, aumentando o potencial de manipulação da opinião
pública. A experiência política brasileira demonstra claramente
que a tão propalada democracia representativa não é democrática
nem representativa, pois não existe a soberania popular, não há
a responsabilidade dos eleitos com relação aos eleitos, e
inexistem mecanismos de controle dos eleitos após as eleições,
um contexto no qual o combate efetivo à corrupção se torna
realmente muito difícil.
3.
A cultura política
Mesmo
que a corrupção no Brasil esteja principalmente relacionada ao
sistema político e ao modelo de desenvolvimento econômico, é
possível visualizar uma linha de continuidade entre a vida
cotidiana e a corrupção. Essa percepção vem sendo
constantemente estimulada por parte de jornalistas e políticos
conservadores, os quais apresentam a corrupção como uma espécie
de “lei da natureza”. Roberto Pompeu de Toledo escreveu em
1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos, sem sombra de dúvida, que
a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o
arroz e o feijão de nossas refeições”. Adib Jatene, Ministro
da Saúde no governo Collor, afirmou em 1992: “Quem faz o Orçamento
da República são as empreiteiras”. Maria Helena Guinle,
socialite carioca, em uma entrevista concedida à Revista
Interview, se referia a Collor como sendo uma “uma pessoa
fascinante”, que “se veste bem, sabe falar” e que, como
presidente, “só nos orgulhava”. Mesmo após todas as provas
terem sido apresentadas e o ex-presidente ter sido afastado do
cargo através do processo de Impeachment, Guinle não deixou de
defender Collor, desta vez com a seguinte argumentação:
“Deslizes acontecem a vida inteira. No momento em que você
ocupa um cargo que te favoreça de alguma forma, acho até um
pouco de burrice não aproveitar a situação”. Mário Amato,
ex-presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo), disse, categoricamente, que “somos todos corruptos”.
Essas declarações demonstram que há uma relativa tolerância
com a corrupção no Brasil ou, no mínimo, uma atitude de
compreensão para com os corruptos, o que acaba apoiando-os e
reforçando-os em suas atitudes.
Um
dos elementos culturais mais importantes da corrupção no Brasil
é o acima referido patrimonialismo. A cultura patrimonialista
concebe as estruturas públicas como áreas privadas, o que está
estreitamente imbricado com a história de desenvolvimento do
Brasil, marcada pela apropriação privada e pela dependência. No
período colonial os 10% mais ricos possuíam dois terços da
riqueza do país. Naquele período sequer se falava da existência
de uma ética geral, pois a ética ficava restrita ao âmbito
familiar. Atualmente os 10% mais ricos possuem 50% das riquezas
geradas no país. Será que isso poderia ser interpretado como um
sinal de que há mais de 500 anos o país está no caminho errado?
De acordo com a opinião hegemônica da elite brasileira, porém,
os grandes problemas sociais do Brasil há séculos, como a fome,
a concentração de riquezas, a crescente desigualdade social, a
privatização do setor público e, não por último, a corrupção,
jamais foram encarados como obstáculos ao desenvolvimento do país.
Segundo as elites, trata-se de “promover mudanças para que tudo
fique como está”. Diretamente relacionados à concepção
patrimonialista da cultura política das elites brasileiras se
situam os fenômenos do coronelismo e clientelismo,
os quais constituem a base histórica do populismo e do
assistencialismo no país. O coronelismo está baseado no poder
político de grandes proprietários rurais (os coronéis),
exercido através da estrutura de dependência da propriedade da
terra sobre os trabalhadores rurais. Amizade e parentesco assumem
uma importância decisiva nas relações sociais predominantes nas
fazendas, assim como a subordinação dos oprimidos em forma de
fidelidade e reconhecimento em troca de proteção patriarcal e do
acesso a determinados “privilégios”. O clientelismo é a versão
urbana do coronelismo, uma vez que a maioria dos proprietários
rurais era também advogado ou médico, tratando seus eleitores,
tradicionalmente, como “clientes”. Tanto o coronelismo como o
clientelismo estão, historicamente, fortemente vinculados ao
desenvolvimento brasileiro, pois a assim chamada economia de
mercado foi, originalmente, controlada pelos proprietários de
terra. Em seus territórios de influência os coronéis foram
constituindo pequenos “reinos de poder” nos quais sentiam
orgulho ao mostrar “seu povo” publicamente, como símbolo do
seu poder local e regional. Apesar da “modernização”
capitalista do país ficou conservado um equilíbrio na distribuição
de poder entre os grandes proprietários industriais e rurais na
maioria dos Estados da federação. O presidente Getúlio Vargas,
como liderança rural carismática e populista, foi quem melhor
soube se adaptar a essa realidade. Com sua estratégia de combinar
interesses do povo com os dos grandes proprietários rurais e
industriais, Getúlio governou o Brasil por 15 anos. Para evitar
maiores conflitos políticos com o povo, o getulismo ficou marcado
pela manipulação da classe trabalhadora, instituindo importantes
políticas sociais e extinguindo a autonomia das organizações
sociais e populares existentes no período. O getulismo é a base
do populismo e do assistencialismo no Brasil, propondo concessões
sociais para conservar o poder ou, em outras palavras, a política
de “entregar os anéis para poder seguir conservando os
dedos”.
Um
outro elemento importante da cultura política brasileira é a
tendência de não encarar determinados crimes (como, por exemplo,
o contrabando e a corrupção) como problemas se o seu objetivo é
visto como positivo ou justificável. Assim, a corrupção passa a
ser tolerada e pessoas corruptas são, tendencialmente, encaradas
como espertas ao invés de serem caracterizadas como criminosas, o
que também está fortemente relacionado à forma sensacionalista
como os escândalos de corrupção geralmente são apresentados à
opinião pública. Essa forma de encarar determinadas situações
é comumente chamada de “jeitinho brasileiro”, como sendo a
“criatividade de encontrar uma saída para tudo”. De acordo
com pesquisas de opinião, no entanto, a maioria do povo
brasileiro condena a corrupção: 83% afirma, por exemplo, que
jamais venderia seu voto; ao mesmo tempo, porém, 73% dos
entrevistados acredita que seus compatriotas o fariam, um sinal
evidente da predominância da idéia de que a maioria das pessoas
no país seja corrupta. Também as justificativas de caráter
pessoal assumem uma importância central no debate sobre a corrupção
no Brasil. A referência à amizade é geralmente mais forte do
que à idéia de responsabilidade política dos eleitos. Trata-se
de um acordo de reciprocidade, do reconhecimento da idéia de que
os seres humanos dependeriam uns dos outros e, por isso, a confiança
e a lealdade deveriam ser vistas como os valores mais importantes
para a convivência. A confiança é, muitas vezes, caracterizada
como o cimento das relações interpessoais, assim como a
solidariedade e a predisposição à ajuda, valores que, muitas
vezes, são corrompidos ao servirem de base à justificação de
atitudes corruptas. Nessa lógica, instituições públicas passam
a ser utilizadas com a finalidade de retribuir favores pessoais e
boas relações são usadas como instrumento de intermediação
para obter benefícios e privilégios, já que estão baseadas na
intimidade, na confiança mútua, numa maior facilidade de
comunicação e acesso a pessoas em cargos importantes. Nessa
concepção, a corrupção, assim como a vida, são encaradas como
um intercâmbio, como um constante processo de “trocas” entre
pessoas. Nessa
perspectiva, vale a pena investir em boas relações com políticos
e funcionários públicos, o que, obviamente, tem seu preço político:
concessões econômicas são trocadas por concessões políticas e
as dificuldades inerentes à concessão dos benefícios esperados
aumentam proporcionalmente o preço político na relação de
“troca”.
O
PT pagou um preço político alto. Trata-se, acima de tudo, de
poder e governabilidade. Ao
invés de constituir alianças políticas com vistas à implementação
de reformas sociais previstas em seu programa, o PT constituiu
alianças com o objetivo de alcançar poder. O meio se transformou
em fim e os pragmáticos do partido, aparentemente, posam como
vitoriosos na disputa interna sobre os rumos do PT. Em nosso
entendimento, isso não pode ser caracterizado como traição,
pois não partimos do pressuposto de que Lula ou o PT tenham sido
modificados ou cooptados pelo “aparelho de poder do Estado”. O
contrário é mais provável: não por ter poder no governo, mas
exatamente para obter poder, para poder governar, é que o PT está
abandonando seu programa. Esse processo de abandono programático
está em curso desde o início da década de 1990 e,
gradativamente, foi constituindo uma estratégia política para a
maioria da direção do partido, tendo seu auge na eleição de
Lula em 2002: progressivamente, o partido abriu suas portas para
filiações em massa, integrando novos membros sem qualquer relação
com a tradição do PT; abriu espaço para a filiação de
parlamentares, que começaram a ver no PT melhores chances
individuais para se eleger; introduziu as eleições diretas para
a direção partidária em todas as suas instâncias, reduzindo a
importância do debate interno; aumentou os investimentos em marketing
e profissionalização da estrutura partidária; e, não por último,
reduziu drasticamente a formação política e o debate programático
(Pont, 2003). Como no presidencialismo há a tendência de um
presidente com minoria parlamentar se ver obrigado a construir
alianças com outros partidos para poder governar, os acordos políticos
representam um importante meio para alcançar maior
governabilidade. Considerando que a maioria dos partidos no Brasil
conquista votos, normalmente, de forma corrupta no período
eleitoral, supostamente com o objetivo de aumentar seu poder político,
é muito provável que os acordos políticos entre partidos e
parlamentares também sejam marcados pela corrupção. Isso, porém,
não pode, de forma alguma, servir de justificativa ao PT, pois,
na maioria das situações em que o partido governou até hoje,
ele não pôde contar com uma maioria parlamentar. Mas não era
somente por contar com uma minoria parlamentar que o PT priorizava
a mobilização da sociedade civil com vistas à implementação
de reformas sociais em benefício da maioria da população. A
mobilização social constituía o elemento central da sua estratégia
de construção de hegemonia política, baseada na compreensão de
que o poder precisa ser conquistado num processo de
contra-hegemonia, no qual a participação e a auto-organização
dos trabalhadores permitem o avanço na tomada de consciência política
da população.
Essa
é a mudança fundamental do PT com o governo Lula, o qual não se
dispõe a avançar na democracia participativa (seguindo a exitosa
experiência do partido com o Orçamento Participativo), correndo
o risco constante de degenerar politicamente e eticamente ao se
adaptar à lógica corrupta da democracia representativa
brasileira. Para o Brasil esse processo de degeneração
representa um enorme retrocesso na história de democratização
do país, pois o PT incorporava, até então, como único partido
programático existente, a grande esperança de transformações
sociais, as quais poderiam ser conduzidas de forma democrática
(de baixo para cima) através de uma crescente mobilização
social. A degeneração política do PT, através da sua adaptação
cada vez maior à tradição historicamente autoritária,
populista e fisiologista da política brasileira, é profundamente
lamentável porque desta forma o partido abandona seu papel de
protagonista e de portador de esperanças em transformações
sociais construído duramente nas últimas décadas. E a degeneração
ética do PT, que também está em curso, contribui decisivamente
para uma maior naturalização da corrupção, o que dificulta
ainda mais a construção de medidas efetivas de combatê-la.
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