por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

A História não o absolverá

Fidel Castro e seus amigos brasileiros: um caso de renúncia à inteligência?

 

Certa fração da chamada intelligentsia brasileira – aquela que se considera de esquerda e, a esse título, se apresenta como aliada objetiva de Cuba socialista – não deixou de demonstrar sua comoção com o agravamento do estado de saúde de seu líder favorito: Fidel Castro. Inúmeras manifestações na imprensa confirmaram a preocupação de alguns representantes desse grupo nos dias seguintes ao anúncio de sua hospitalização, sob a forma de expressões públicas de solidariedade e de votos calorosos pelo seu pronto restabelecimento, manifestações apenas contidas pela ausência de maiores informações sobre seu real estado de saúde. Poucas vozes, aliás, se levantaram contra o fato de que vários jornalistas – que tentaram, nas horas e dias seguintes, aumentar um pouco o grau de informação pública sobre esse estado – tenham sido sumariamente expulsos da ilha, quando quiseram cobrir o episódio.

Um traço comum às diversas manifestações desse setor da intelligentsia, um clube hoje bem mais restrito do que no passado, apareceu nas entrelinhas das declarações feitas sobre a figura política do líder cubano: um número expressivo dos integrantes desse grupo acredita que Fidel Castro passará à história como um dos grandes homens de Estado do século XX. Pode até ser que Fidel Castro entre, efetivamente, na categoria dos estadistas – provavelmente bem mais do século XIX do que do XX, e certamente não do século XXI –, mas essa característica própria aos estereótipos correntes sobre grandes figuras históricas não deveria, a rigor, impedir essa mesma intelligentsia de reconhecer no homem, ou na figura política, o que ele é, de fato, neste século ou em qualquer outro: apenas mais um integrante da velha tropa de ditadores que desfigura a história da cultura e da civilização nos últimos três ou quatro séculos.

Com efeito, depois da derrocada dos regimes absolutistas e das monarquias de direito divino, bem como da ascensão paralela das idéias iluministas e democráticas, a partir do século XVIII, tornou-se bem mais difícil a legitimação histórica e política de ditaduras como formas aceitáveis de administração dos homens e das sociedades. Fidel Castro talvez constitua apenas mais um representante numa grande família de ditadores que marcou uma época ainda recente na história da humanidade, o “breve século XX” de Eric Hobsbawm, também conhecido como a “era dos extremos”. Sua bizarrice em relação a outros ditadores consistiu sempre em fazer longos discursos, imensamente longos, algo que precisa ser estudado por esse novo ramo da história que é sua vertente psicológica, em contraste com o lado secreto, ou recluso, da maior parte dos ditadores.

O século XX, de fato, se caracterizou mais pela imensa mortandade provocada por uma série de ditadores insanos – ao estilo de um Hitler, de um Mussolini, de um Stalin, de um Mao Tsé-tung e de um Pol-Pot – do que pelos imensos progressos trazidos pela ciência e tecnologia, o que ela efetivamente também produziu. Mas essas fantásticas inovações da sociedade científica empalidecem quando se leva em conta a imensa capacidade que tiveram esses personagens históricos em trazer destruição e morte não apenas para outros povos e nações, mas igualmente para suas próprias sociedades. Combinados, por meios diretos e indiretos, esses personagens “históricos” devem ter eliminado da face da Terra algo como 40 a 50 milhões de pessoas inocentes. Não se deve computar nesse número as outras dezenas de milhões de mortos provocados pela Segunda Guerra Mundial, que merecem uma contabilidade à parte: estamos apenas considerando as cifras daqueles envolvidos, por la razón o por la fuerza, na máquina de matar criada por esses ditadores para perpetuar o seu poder (sendo que, no caso de Mao, a contagem ainda não foi feita de modo adequado, a partir dos registros demográficos da época do “grande salto para a frente”, que aponta para números absolutamente inacreditáveis).

Por supuesto, Fidel não chega aos pés desses tiranos em matéria de eliminação física de centenas e centenas de milhares dos seus respectivos (e supostos) adversários – e até de alguns milhares de aliados objetivos da causa, como no caso do paranóico Stalin –, mas ele não se distancia, em absoluto, dos demais representantes da espécie, em matéria de estabelecimento e manutenção, contra o espírito do século XX – que, finalmente, conseguiu enterrar algumas velhas ideologias do século XIX –, de uma das mais paradoxais ditaduras de todos os tempos. Emprego o conceito de “paradoxal” porque jamais uma ditadura, pura e simples, foi tão aclamada e elogiada, sobretudo por membros de uma das frações da intelligentsia que se pretende humanista, como aquela que vigora na ilha de Fidel desde o início dos anos 1960.

Isso tem a ver, precisamente, com o objeto que me anima a escrever o presente artigo, cujo título, como sabem os mais informados, conforma uma paráfrase exata da famosa frase que o jovem advogado Fidel Castro empregou para recusar o julgamento que o condenava a uma pena média de prisão pela condução da invasão ao quartel de La Moncada, em julho 1953, numa tentativa de derrubar a ditadura de Fulgencio Batista. O homem e o seu asalto al Moncada, com tudo o mais que os cercam desde essa época, tornaram-se verdadeiros mitos – por boas e más razões – da esquerda latino-americana e como tal contribuíram para a formação e consolidação daquilo que se poderia chamar de um dos traços mais característicos dessa fração da intelligentsia (não apenas no Brasil): a renúncia à inteligência.

A despeito dos esforços desse setor por incensar Fidel Castro, o mais provável que ocorra é que o julgamento sereno da história não absolverá o líder cubano pelo fato dele ser, finalmente, um ditador como muitos outros. A sabedoria política mais corrente, aquela que se expressa nos ensaios acadêmicos e nos artigos da imprensa, tampouco deveria absolver seus aliados objetivos naquela fração da intelligentsia latino-americana que continua a prestar solidariedade a um dos últimos representantes da família dos ditadores. O curioso, em todo este “affair” é que estamos em face de algo ainda mais paradoxal do que a aceitação generalizada de uma banal ditadura por largos setores da intelectualidade dita progressista: o fato de seus membros terem deixado a inteligência de lado na consideração deste caso.

Essa renúncia à inteligência da suposta intelligentsia pode ser explícita, como no caso de certos de seus integrantes, que passam o tempo entre viagens de turismo político a Havana e a tradicional louvação da ditadura cubana na imprensa brasileira, à sua volta, mas ela também pode ser – e mais frequentemente o é – implícita, como no caso da maior parte dos intelectuais de esquerda, dos acadêmicos universitários e de tutti quanti acham que a oposição ao chamado “imperialismo americano” é mais importante do que a defesa das liberdades democráticas, em toda e qualquer circunstância. Esse ato de renúncia deliberada da capacidade de julgar – antes mesmo de se indignar com a miséria humana produzida por um sistema autocrático – é tanto mais surpreendente que essa suposta intelligentsia é diversa e complexa, política e ideologicamente, capaz de abrigar o que há de melhor e o que há de pior, em seu próprio seio e na sociedade brasileira, em termos de reflexão isenta a partir da matéria-prima da história: os fatos.

O primeiro desses fatos é o caso escandaloso dos jornalistas estrangeiros expulsos aos magotes da ilha caribenha quando tentavam entrar para desempenhar o que parece ser o seu ofício: cobrir fatos, nada mais do que fatos, neste caso, o súbito agravamento do estado do ditador supremo. Alguns jornais até chegaram a relatar essas expulsões, constrangedoras para si mesmos e seus correspondentes despachados às pressas para a ilha, com vistos de turistas, sem tempo para aguardar burocraticamente que as autoridades cubanas concedessem o visto apropriado. Não há registro, contudo, de que algum jornal tenha elaborado extensivamente, em reportagens específicas ou editoriais sobre o tema, que virou, manifestamente, matéria de jornal, uma notícia em si, merecendo portanto que, ao lado dos fatos, se fizesse uma análise dos mesmos.

Isto se deve, provavelmente, à natureza especialíssima das relações entre o Brasil e Cuba, ou entre Fidel e os jornalistas, relações esquizofrênicas, para dizer o mínimo, e que motivam estas minhas reflexões. As relações efetivas entre Cuba e Fidel Castro, de um lado, e o Brasil e sua imprensa, de outro, tomados tanto como países, como sociedades, como um líder político e enquanto formadores de opinião, essas relações sempre foram, ao mesmo tempo, esporádicas e intensas. Esporádicas, obviamente, em vista dos reduzidos contatos ocorridos no plano oficial ao longo do último meio século: conta-se nos dedos de uma só mão as viagens e visitas recíprocas. E, a despeito de um intenso “turismo político” ao longo desse período, os contatos entre jornalistas de ambos os lados também podem ser classificados de esporádicos.

Mas essas relações são especialmente intensas, e elas sempre o foram, no plano puramente “informativo” e “opinativo”, tendo em vista que a presença de Fidel e de Cuba na imprensa e nos meios intelectuais do Brasil tem sido, ao longo do tempo, propriamente avassaladora, assumindo um “volume” absolutamente desproporcional à real importância de um e de outro para a vida prática do Brasil e a de sua sociedade. Pergunto: que importância prática têm a economia, a política e a sociedade cubana para seus exatos correspondentes neste país, que contempla com tanta intensidade a ilha caribenha desde meio século? Se alguém souber me dar uma resposta inteligente a esta pergunta, apontando exatamente a elevada contribuição da ilha e de seu comandante para nossa vida diária, leva um charuto cubano de presente.

Digo isto porque fiquei mais uma vez surpreendido com o comportamento da imprensa brasileira em relação ao simples fato de que os seus jornalistas foram impedidos de trabalhar no momento mais crucial do que representa sua profissão: o levantamento dos fatos, para depois sustentar análises e reflexões. Talvez esse comportamento também deva ser resumido na mesma expressão consagrada neste ensaio: renúncia da inteligência.

Este é provavelmente o sentido que atribuo à atitude beata, ou complacente, assumida por grande parte dos jornalistas de opinião e pela imensa maioria dos chamados “intelectuais” brasileiros em face de uma situação que constitui um dos casos mais notórios de que se tenha notícia de ditadura personalista. De fato, as matérias sobre Cuba que se lêem nos meios jornalísticos e acadêmicos do Brasil são tão complacentes em sua forma – uma vez que tendem sempre a assinalar o embargo norte-americano como fonte dos males passados e presentes do pequeno país caribenho – quanto superficiais em conteúdo, já que carentes de visão crítica naquilo que seu personagem principal mais encarna: o ditador absoluto de uma ilha convertida praticamente em sua “fazenda” pessoal nos últimos 47 anos.

Conhece-se muito pouco, no Brasil, das duras realidades da vida cotidiana em Cuba, assim como das duras materialidades do castrismo enquanto sistema político dominado pela figura ímpar do ditador cubano. Na verdade, essas realidades nos chegam envolvidas numa aura de generosidade idealista e de encantamento romântico, tal como propagandeadas pelos aliados do regime, que estão longe de refletir as agruras efetivas do povo cubano. A literatura econômica e política de qualidade sobre Cuba, produzida em sua maior parte nas universidades americanas, nunca foi traduzida e publicada no Brasil.

Os jornais até chegam a cobrir algumas obras de cubanos dissidentes, mas não me lembro de que eles tenham feito o mesmo em relação ao volume significativo de análises de boa qualidade que emerge das universidades americanas. O que aqui se teve de mais conhecido em matérias de “análise” foi, justamente, o livro de um conhecido jornalista profissional, convertido em “cronista” de personalidades, chamado A Ilha, que conheceu inúmeras edições. Seu sucesso foi estrondoso, tendo sido aclamado (preciso dizer?) de maneira complacente pelos habituais formadores de opinião, que são os seus colegas jornalistas. A contribuição efetiva desse livro para o conhecimento da real situação na ilha foi pouco menos que marginal, tendo em vista a falta de isenção de seu autor em considerar o ponto de vista do cubano comum. Ele ainda se orgulha de ser amigo do ditador, estando pronto para viajar imediatamente para a ilha, nesta hora de angústias, para prestar-lhe as homenagens do momento, se nisso não fosse impedido pelas próprias autoridades cubanas: patético, não é mesmo?

Os intelectuais progressistas do Brasil, aqui incluídos os jornalistas de opinião, sempre prontos a veicular o seu horror em face das operações de guerra de Israel ou dos EUA no Oriente Médio, ou a manifestar sua absoluta desconformidade em relação aos prisioneiros ilegais da base americana de Guantanamo, têm estado surpreendentemente silenciosos em face dos abusos recentemente perpetrados pelas autoridades cubanas em face das tentativas de seus colegas repórteres de simplesmente exercerem o seu ofício. Seria mais um caso de simples omissão cúmplice dos comentários de ocasião ou de uma nova e inexplicável renúncia à inteligência?

Esses intelectuais benevolentes já tinham ficado silenciosos quando, há mais de dois anos, o regime ditatorial cubano condenou a duras penas de prisão dezenas de dissidentes políticos e fuzilou, depois de rápido julgamento, os autores de um seqüestro de um barco que estavam apenas tentando fugir da ilha. Essas decisões não resultaram de uma tramitação normal do sistema judiciário cubano, mas derivaram diretamente da vontade pessoal do líder político cubano, como enfatizaram diversos observadores independentes na ocasião.

Difícil de explicar a pouca atenção que se dá na imprensa brasileira a fatos como esse, que causariam horror se fossem cometidos em outros países, se não fosse pela absoluta complacência com que são aqui recebidos notícias e fatos relativos à vida política na ilha. No sentido contrário, “explicações” de alguns intelectuais de aluguel foram veiculadas na imprensa, sempre livre para acolher todo tipo de bobagem impressa, tentando justificar o injustificável: Cuba precisava se proteger dos “inimigos” do regime, dos que se colocam a serviço do imperialismo, dos que querem destruir as “conquistas do povo”. Seria novamente patético se não fosse trágico.

Normalmente se aceita, entre esses jornalistas de “opinião” e entre os acadêmicos que figuram na categoria dos “progressistas”, que os cubanos possam viver em “regime econômico especial” – isto é, caracterizado por privações constantes – e privados de liberdade política, apenas porque a ilha sofreria, supostamente, as dificuldades de uma situação de “embargo” imposta pelo imperialismo dos EUA (o que constitui, obviamente, um dos muitos equívocos cometidos por aquele país, mas isso não vem ao caso agora). O que esse suposto embargo representa como justificativa ilegítima do ponto de vista das liberdades políticas em Cuba não é jamais posto em questão na imprensa brasileira, uma vez que não haveria qualquer elemento lógico que o pudesse sustentar racionalmente. O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao problema econômico: Cuba pode comerciar com quaisquer outros países, o país é membro original do GATT e da OMC e o embargo americano afeta marginalmente alguns fluxos comerciais e financeiros da ilha, sem impedir absolutamente sua inserção nos mercados globais de mercadorias e serviços.

Os problemas econômicos cubanos derivam da ineficiência geral do seu sistema econômico, estatalmente centralizado, não do embargo americano. Seus problemas políticos derivam única e exclusivamente da vontade de seu líder em manter um regime de partido único, administrado pessoalmente por ele como única fonte possível de legitimidade política e institucional. O anacronismo e a falência iminente de um e outro sistema, em pleno século XXI, são evidentes, mas esses aspectos não aparecem nas análises que se lêem na imprensa do Brasil sobre os problemas da ilha.

Agora que a pessoa do ditador caminha para o seu ocaso, sua figura não mais deveria comandar uma espécie de paralisia mental nos meios jornalísticos e entre os analistas acadêmicos em relação aos principais problemas da ilha. O primeiro ponto a ser refletido por eles, numa situação de transição da antiga liderança carismática para um sucessor designado, seria justamente este: porque regimes comunistas, supostamente ditaduras do proletariado, deveriam ter um tipo de sucessão de tipo dinástico, com arranjos familiares sendo conduzidos em prejuízo de uma consulta efetiva ao conjunto da população?

Curiosamente, os dois únicos países que conheceram esse tipo de situação, nos últimos dez anos, foram as duas únicas ditaduras comunistas sobreviventes da era da Guerra Fria: a Coréia do Norte e Cuba. São os dois únicos países onde a falta de liberdade política e econômica é total, uma vez que mesmo na China e no Vietnã, ainda formalmente socialistas, as franquias econômicas e os direitos políticos têm sido ampliados de forma significativa nos últimos anos.

O desaparecimento do ditador cubano poderia suscitar um tipo de reflexão que raramente se colocou no Brasil: sobre a natureza essencial do regime cubano e os males que daí derivam para a imensa maioria da população da ilha. Aqueles que se escudam numa suposta excelência do sistema cubano de saúde ou nas supostas maravilhas de seu sistema educacional provavelmente nunca leram análises isentas sobre o funcionamento real desses dois sistemas, ou sobre as condições efetivas de seu fornecimento, preferindo ater-se à propaganda feita pelo próprio regime em torno desses dois únicos bastiões do que resta de credibilidade social.

O mais provável é que o desconhecimento da real situação na ilha continue marcando as análises dos formadores de opinião no Brasil, a despeito das inúmeras fontes americanas, isentas, que estão desde muito disponíveis ao freqüentador da internet. Mas, o desaparecimento do ditador poderá, pelo menos, retirar do caminho um obstáculo mental à elaboração de análises mais acuradas e fiáveis sobre a difícil situação da ilha. A inteligência analítica não terá mais porque ficar toldada pela figura carismática de um líder político que já teve seu momento de glória na história e que, desde muitos anos, tornou-se, simplesmente, um ditador de literatura, como esses patriarcas de eras passadas que teimam em subsistir no presente. Seria simplesmente patético, se não fosse trágico para a população cubana.

 

por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

   

 

 

 

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