por ALEXANDRE BUSKO VALIM

Docente do Departamento de História da Universidade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí – FAFIPA

 

Missão em Moscou: notas para uma discussão sobre o Cinema e a Diplomacia Cultural estadunidense em meados do século XX

 

Primeiro filme pró-soviético produzido em Hollywood durante a II Guerra Mundial, Missão em Moscou (1943) foi exibido nos cinemas soviéticos em 1943; o primeiro filme estadunidense exibido na URSS desde o final da década de 1920. Produzido com base no livro homônimo de Joseph E. Davies – embaixador estadunidense na URSS entre 1936 e 1938 –, mais do que qualquer outro filme, e possivelmente mais do que qualquer outra produção cultural, Missão em Moscou desempenhou papel de destaque na diplomacia estadunidense em meados da II Guerra Mundial. As transcodificações entre o livro e o filme, e os referenciais temáticos centrais de ambos, serão brevemente abordados na discussão sobre determinados aspectos da geopolítica cultural entre EUA e URSS. Além disso, indicaremos os posicionamentos de alguns intelectuais ligados ao alto escalão do governo estadunidense em relação ao filme, bem como as tenuidades da fronteira entre poder e cultura presentes na Diplomacia estadunidense no alvorecer da Guerra Fria. O presente artigo apresenta aspectos introdutórios de um fenômeno político que surgiu no final da década de 1930 e foi desenvolvido ao longo da década de 1940 e início da seguinte. Não almejamos conclusões finais, mesmo porque serão indicados apenas alguns dos aspectos que julgamos serem fundamentais para uma discussão que será abordada posteriormente.

Ao longo do século XX, os estadunidenses lutaram contra o Japão, contra a Alemanha e contra a Itália, dentre outros. Durante a Guerra Fria, lutaram não somente na Coréia, nas selvas do Sudeste Asiático e da América Central, mas também na imprensa, nos filmes, nos desenhos animados, revistas em quadrinhos e nas músicas populares. Nesses contextos, é importante analisar como os inimigos da nação foram descritos através da cultura popular e percebidos pelo público que teve contato com tais produções. O que essas representações do inimigo nos dizem sobre as ansiedades e preconceitos da população estadunidense e de seus líderes?

Tradicionalmente, historiadores das relações exteriores têm abordado a cultura e a ideologia em termos binários: mito e realidade; realismo e idealismo; público de massa e elite política etc. Análises culturais recentes têm rejeitado tais construções em favor de um reconhecimento mais nuançado das relações entre a elaboração do conhecimento e o exercício do poder, mostrando que a análise cultural talvez possa ser usada para mudar a suposta divisão entre a cultura de massa e a tomada de decisões políticas.

Em um conhecido artigo publicado em 1970, Les K. Adler e Thomas G. Paterson, através do estudo de textos e declarações de diplomatas, políticos e intelectuais, afirmaram que os políticos estadunidenses “casualmente e deliberadamente articularam similaridades distorcidas” entre a Alemanha nazista e a União Soviética, antes e depois da guerra. Essa “analogia distorcida”, segundo os autores, tornou fácil para o público estadunidense transferir seu ódio de Hitler para Stalin, dificultando qualquer possibilidade de bom entendimento entre as duas potências durante a Guerra Fria (ADLER; PATERSON, 1970: 1049-1051). De fato, embora alguns estadunidenses tenham apontado similaridades entre fascismo e comunismo desde a década de 1920, as duas ideologias não foram ligadas no discurso público até o Pacto Nazi-Soviético em 1939 (MACDOUGALL, 1999: 60-66).

A partir de então, declarações como “o totalitarismo é o mesmo em todo lugar”, e “o Leopardo tem a mesma mancha em todas as selvas”, do Reverendo John Haynes Holmes, e “O povo Americano sabe que a única diferença significativa entre Hitler e Stalin é o tamanho de seus respectivos bigodes” do Wall Street Journal, se tornaram cada vez mais freqüentes, acentuando a desinformação sobre as diferenças presentes entre as origens da experiência soviética e da nazista (BUCKINGHAM, 1988: 49). Para boa parte da sociedade estadunidense, ideologias e objetivos tão díspares, pareciam naquele momento tão relevantes como a distinção “entre arsênico e estricnina” (ADLER; PATERSON, op cit: 1050; MADDUX, 1977: 92-96).

Nesse contexto, a história diplomática/cultural do livro e, posteriormente, do filme Missão em Moscou torna claro que certamente mais do que qualquer outro filme estadunidense, e possivelmente mais do que qualquer outro artefato cultural figurando em um contexto diplomático, ilumina as conexões entre cultura e poder. Para conectar esses dois aspectos em um sistema de relações internacionais, alguns historiadores têm analisado esses textos mostrando como conceitos de gênero e raça, moldavam a formulação de políticas nacionais e internacionais (FISCHEL, 2003; MACDOUGALL, op cit; BENNETT, 1995).

O livro e o filme Missão em Moscou estão relacionados diretamente à construção de suporte nacional para a política exterior estadunidense, exemplificando como é feita a transmissão e recepção de ideais através de fronteiras nacionais, expandindo, assim, nosso entendimento sobre as aplicações geopolíticas da cultura em meados do século XX. O impacto da cultura nacional na política externa, a interação de sistemas culturais divergentes em um sistema global e a transmissão cultural através de um mecanismo específico, são elementos essenciais para o entendimento de como setores da sociedade estadunidense tentaram promover interesses nacionais exportando suas idéias através dos meios de comunicação como mercadorias de consumo.

Entre 1941 e 1945, os EUA e a URSS, eram aliados na guerra contra a Alemanha, e o esforço de guerra demandava que todos os aliados dos EUA fossem retratados da melhor maneira possível. A URSS empenhou milhares de soldados diariamente para controlar a invasão alemã, cujas cenas foram apressadamente reunidas em documentários como The Battle of Rússia e Our Russian Front preparando o público estadunidense para “um persistente grupo de histórias sobre nossos valiosos aliados” (BARSON, 1998: 26). Correspondentes de guerra contavam ao público sobre o bravo e patriótico Exército Vermelho e sobre os igualmente corajosos e guerreiro povo soviético (WEST, 1974: 87-88). Em março de 1943, um número especial da revista Life foi dedicado inteiramente à URSS para dar aos soviéticos a maior lisonja possível: “a NKVD, a polícia secreta russa, não era diferente da FBI americana. Grupos de crianças paramilitares eram equivalentes aos Boys Scouts, bem como o Partido Comunista Soviético parecia-se com o Rotary Club Americano” (MACDOUGALL, op cit: 59).

Outros escritores fizeram comparações similares. O Volga era o Mississippi soviético, e as estepes eram as grandes planícies. Até o clima recebeu um tratamento favorável, como o publicado no National Geographic Magazine apresentando um artigo chamado “A Ensolarada Sibéria” (WEST, op cit: 89-95).

Davies e StalinHollywood também aderiu à causa pró-aliada. The Boy From Stalingrad (1943) e The North Star (1944) dramatizaram os soviéticos lutando contra os nazistas, enquanto filmes considerados de segunda categoria (B movies) como Three Russian Girls (1943) usava a Guerra como pano de fundo para um adocicado romance. Em Song of Rússia, um motorista estadunidense se apaixona por uma camponesa soviética que vivia em uma fazenda não coletiva, mas familiar.[1] Todos pareciam ter ótimos momentos durante as cenas, “tão bons que levaram a HUAC a questionar em 1951 porque Ann Harding estava sorrindo tanto no filme” (SHINDLER, 1979: 59).[2]

O esforço pró-aliado ia de encontro às várias pesquisas de opinião feitas no período. A pesquisa feita pela revista Fortune em julho de 1942, mostrou que 35% dos americanos viam os Alemães e a URSS como “igualmente maus” e 32% disseram que os soviéticos eram somente “um pouco melhores”. Em junho de 1942, uma pesquisa conduzida pelo Office of Public Opinion Research, uma organização privada sediada na Princeton University, indicou que somente 41% dos entrevistados acreditavam que os soviéticos poderiam ser confiáveis em uma cooperação com os EUA para se alcançar uma vitória. Embora em agosto de 1942 o número tenha subido para 51% (o maior índice alcançado até o ultimo ano da Guerra), é tímido em comparação com a percentagem dos que acreditavam nas boas intenções de outros dois aliados, Inglaterra (72%) e China (88%) (BUCKINGHAM, 1988: 48-50).

O presidente Roosevelt, que prestava cuidadosa atenção às pesquisas de opinião, havia acabado de se encontrar com Molotov, e prometido abrir um segundo front naquele ano. Roosevelt suspeitava que uma invasão talvez não fosse possível em 1942, e ele consequentemente tinha medo de que os soviéticos pudessem não sobreviver ou, pior, fazer um novo pacto em separado com Berlim, possibilitando uma ofensiva massiva de Hitler no front oeste. FDR acreditava que a sobrevivência da URSS e sua contínua participação na Grande Aliança eram ingredientes cruciais para a vitória, chegando a considerar o aumento da ajuda financeira ou até o reconhecimento de uma possível expansão das fronteiras soviéticas no pós-guerra, para manter a amizade soviética.

Todavia, o Congresso, onde o sentimento anticomunista era acentuado, não permitiu a ajuda financeira. FDR acreditava que se os EUA aceitassem as demandas territoriais de Moscou, certamente haveria uma reação negativa dentre a população, especialmente entre os descendentes de poloneses, católicos, conservadores e nacionalistas. Desde 1942 a manutenção da unidade doméstica, que ele considerava indispensável para um efetivo prosseguimento da guerra, estava entre suas prioridades. O empenho para a construção de uma opinião pública positiva sobre a URSS é fruto dessa preocupação.

“O front cristão da magnífica cruzada”

Em Janeiro de 1937, o advogado Joseph E. Davies se tornou o Embaixador estadunidense em Moscou, substituindo William Christian Bullit, que deixou o cargo acusando “os bolcheviques” de serem frios em suas relações, e alertando o governo sobre o “poder destruidor” das Forças Armadas Soviéticas (COSTIGLIOLA, 1997: 1311-1312). Posteriormente, em 1941, o ex-embaixador Davies, com o apoio pessoal de FDR, escreveu um livro baseado em sua experiência na URSS entre 1936 e 1938. O livro, Missão em Moscou, rapidamente ganhou a reputação de ser pura propaganda stalinista.

Davies escreveu o livro objetivando “ter uma melhor aceitação pública para ajudar a Rússia, que era vital para o front Cristão, e para o Chefe (Roosevelt) em sua magnífica cruzada” (BENNETT, 2001: 491). A despeito de sua inclinação pró-soviética, o livro, que apareceu somente duas semanas após o ataque de Pearl Harbor, foi um enorme sucesso.

De modo surpreendente, foi um best-seller nacional, vendendo incríveis 700.000 cópias. Foi traduzido em 13 línguas e publicado em 9 paises. Davies começou a vender seu livro em junho de 1942, logo após a Alemanha ter invadido a URSS, deixando FDR, um antigo amigo da Administração de Woodrow Wilson, bastante satisfeito com seu empenho no encorajamento do esforço de guerra.

Sumner Welles, assistente do Secretário de Estado, permitiu que Davies usasse documentos do Departamento de Estado classificados como confidenciais. Dentre esses documentos estavam despachos confidenciais que ele havia escrito para o Departamento de Estado, bem como suas anotações em seu diário pessoal, e a correspondência entre ele e vários outros oficiais (RADOSH; RADOSH, 2004: 364-366).

O fato mais importante no livro para o público, de acordo com uma pesquisa do Gallup encomendada por Davies em outubro de 1942, foi seu posicionamento sobre os expurgos ocorridos entre 1936 e 1938. Nesses julgamentos, muitos dos velhos líderes bolsheviques foram acusados e culpados de tramar com a Alemanha Nazista a queda do governo soviético. Os julgamentos de Moscou foram recebidos pela esquerda em todo o mundo como uma bomba.

Alguns dos réus, até então heróis da Revolução Soviética, foram acusados de crimes odiosos, como planejar o assassinato de Stalin, sob a direção do exilado Leon Trotsky, e também de conspirar com a Alemanha Nazista e o Japão Imperial para destruir a URSS. Como se essas acusações não fossem o bastante, foram incluídas nos julgamentos acusações, de que durante a Revolução de Outubro, eles haviam secretamente sido aliados dos militares ingleses para impedir que Lênin chegasse ao poder.

Em 1943, Missão em Moscou foi levado para as telas dos cinemas como “o esforço mais extremo de Hollywood para intensificar o apoio para um aliado impopular nos EUA” (Idem, Ibidem: 375). Ao invés de concentrar-se no cotidiano dos soviéticos, o filme foi fiel aos mesmos referenciais temáticos presentes no livro, destacando-se aí o Pacto Nazi-Soviético, os expurgos stalinistas, o modo de vida soviético e a invasão da Finlândia.

Em relação aos expurgos, para os propósitos do filme, três julgamentos diferentes, ocorridos ao longo de três anos, foram encurtados em apenas um grande julgamento ocorrido em 1938. Essa transcodificação foi uma necessidade técnica, mas acabou por reforçar a idéia de que a conspiração sob a qual o julgamento se voltava, era real dando credibilidade às acusações do regime stalinista. 

Os julgamentos, de acordo com o filme, permitiriam Stalin libertar a URSS da nascente Quinta Coluna que estava pronta para destruir o regime e pô-lo nas mãos de Hitler. Embora essa fosse uma grande produção de Hollywood com atores famosos como Walter Huston, ela também teve a aura de um documentário, e foi feito para convencer a audiência de que o filme não contava somente a história por detrás das manchetes, mas era baseado em documentos secretos dos EUA. No filme, o epílogo de Davies reforça a idéia de verossimilhança:

Quando eu era embaixador na Rússia, jamais pensei em escrever um livro em Moscou, ou vê-lo projetado numa tela. Mas quando a Alemanha atacou a Rússia, a URSS se tornou uma das nações combatendo Hitler, e foi um momento terrível. (...) A unidade das forças combatendo Hitler era vital. Nada, no meu modo de ver, era mais importante do que os Aliados em se entenderem e confiarem. Havia tanto preconceito e desconhecimento em relação à URSS, os quais eu também assumia. Então, decidi ser minha obrigação contar a verdade sobre a URSS, como a via, pois tal visão era o meu objetivo. [3]

Tido por muitos conservadores como um dos mais infames filmes da história estadunidense, a produção chegou a ser acusada de ter membros do Partido Comunista do EUA (CPUSA) infiltrados no projeto, produzindo uma peça de propaganda comunista. Com mais cuidado, alguns historiadores têm detalhado a história da produção do filme, argüindo que ela era bem intencionada, mesmo sendo uma exagerada e malsucedida tentativa de FDR, Davies, Warner Bros. Studios, e a agência oficial de propaganda durante a Guerra, o Office of War Information (OWI), de diminuir a desconfiança estadunidense sobre seus aliados socialistas, supostamente totalitários (BENNETT, 2001: 498).

Depois de ler o roteiro final, em novembro de 1942, o Office of War Information (OWI) expressou sua esperança de que Missão em Moscou pudesse “se tornar um dos mais extraordinários filmes dessa guerra” e “uma grande contribuição para o programa de informação de guerra”. Poderia “ser o maior meio de mensagens convincentes para ajudar os americanos a entender seus aliados soviéticos. Por ser uma história verdadeira contada por um homem que não pode ser acusado de inclinações comunistas, poderá acalmar duplamente os americanos” (Idem, Ibidem: 501).

Embora os produtores Harry M. Warner e Jack L. Warner fossem apoiadores de Roosevelt e aliados dos liberais do New Deal, eram homens de negócios, relutantes em sacrificar o entretenimento por uma mensagem política que era presumida como um sério problema para as bilheterias dos cinemas. A história das produções envolvendo Hollywood e Washington tem mostrado que, na maioria das vezes, é somente através de barganhas corporativistas que industriais dão sua cooperação trocando apoio nacionalista por recompensas financeiras domésticas e internacionais. Dessa maneira, a colaboração muitas vezes evidencia campanhas comuns para a expansão de mercados.

Como outros filmes de Hollywood, Missão em Moscou foi uma mercadoria vendida em mercado internacional. Como tal, o filme promoveu a prosperidade doméstica gerando uma balança econômica favorável e agindo como uma vitrine para outros produtos nacionais mostrados nas telas. Embora a renda do filme na URSS tenha sido simbólica, o filme ajudou a abrir o potencialmente lucrativo mercado soviético para outros produtos estadunidenses.

Uma vez circulando como uma forma de moeda internacional, os produtos culturais também vendem nações e seus modos de vida. Missão em Moscou, nessa perspectiva, para além de seu caráter diplomático, é uma das primeiras exportações de versões idealizadas do American way of Life, isto é, uma tentativa de influenciar audiências estrangeiras através da atração do “soft power”.

Junto com a idéia de suporte para a segurança coletiva, a história apresenta os soviéticos como um povo bastante simpático. Houve dessa forma, um grande esforço para mostrar que os soviéticos e os estadunidenses não eram tão diferentes. Os soviéticos são mostrados comendo bem e vivendo confortavelmente, o que deve ter sido uma surpresa para muitos estadunidenses.

Completado no final de abril de 1943, nas palavras do co-produtor Robert Buckner, o filme era “um expediente mentiroso para propósitos políticos, cobrindo brilhantemente importantes fatos com informações parciais ou mesmo completas com sua falsa apresentação”. Ainda que Buckner tenha feito tal crítica no contexto da “caça às bruxas”, de fato, o filme camuflou os expurgos, racionalizou a participação de Moscou no Pacto Nazi-Soviético e a invasão da Finlândia, e mostrou a URSS como um estado que estava se movendo na direção do modelo estadunidense. Finalmente, a produção justificou a diplomacia soviética e agressão pré-guerra, apresentando a URSS como uma benfeitora do internacionalismo.

Estreado nos cinemas estadunidenses em 30 de abril de 1943, Missão em Moscou, que alguns apelidaram de “Submissão em Moscou”, causou uma tempestade de críticas. Poucos defenderam o filme. As reações e criticas sugerem certa rejeição da audiência, o que pode ter aumentado, e ocasionado um decréscimo no suporte doméstico para ambos, a URSS e a diplomacia cultural de Roosevelt.

Davies e StalinFoi nesse contexto que o filme se tornou uma parte integral da missão diplomática de Davies e da política exterior de Roosevelt para com a URSS.

Enquanto as intenções originais de Roosevelt e Davies eram seduzir Stalin através de expressões de colaboração com a URSS, as mensagens intencionais nem sempre foram recebidas como planejadas. As múltiplas, e muitas vezes contraditórias mensagens do cinema, ocasionalmente não produzem os significados esperados. O exemplo de Missão em Moscou demonstra a impossibilidade de policy makers em controlar o cinema como um instrumento de diplomacia. Quando o produto foi lançado na URSS, embora tenha mostrado ao público uma confirmação visual do padrão superior de vida estadunidense, suas racionalizações dos expurgos e do Pacto Nazi-Soviético aumentou a força doméstica do regime, ao passo que nos EUA aumentou a rejeição à URSS.

Concluindo, o filme não apenas falhou em inspirar um pensamento pró-soviético, mas, teve um efeito contrário. Missão em Moscou facilitou a reintrodução de filmes americanos na URSS e a chamou a atenção de Washington para as ofensivas culturais que se tornariam freqüentes durante a Guerra Fria. Nos EUA, o filme foi o resultado de uma intrincada e corporativista rede de poder e relacionamentos construídos por Roosevelt, Davies, Office of War Information OWI e produtores de cinema. Esses esperavam que o filme não apenas pudesse fortalecer uma imagem positiva estadunidense no exterior, mas também diminuir naquele momento o anticomunismo interno e cultivar um consenso doméstico para a política pró-soviética.

Ainda que tenham falhado em seu desígnio inicial, “a jornada americana através da verdade” teve outra aplicação ao Estado sem precedentes. Quando FDR e Davies o usaram para persuadir Stalin da força da Grande Aliança, eles integraram Missão em Moscou em um processo de negociação diplomática, fazendo dele um instrumento para alcançar um poder geopolítico. No entanto, ao liberar o filme para o publico soviético, o Kremlin possibilitou que uma nova série de forças fosse desatadas, algumas além do controle ou das expectativas de Washington.

 

Bibliografia:

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BARSON, Michael. Better Dead Than Red! New York: Hyperion, 1992.

BENNETT, Edward M. Joseph E. Davies: Envoy to the Soviets by Elizabeth Kimball MacLean. The American Historical Review. Washington: Apr 1995.Vol. 100, Iss.2.

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BUCKINGHAM, Peter H. America Sees Red: Anti-Communism in America, 1870s-1980s. Claremont: Regina Books, 1988.

COSTIGLIOLA, Frank. "Unceasing pressure for penetration": Gender, pathology, and emotion in George Kennan's formation of the Cold War. The Journal of American History. Bloomington: Mar 1997. Vol.83, Iss. 4.

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FISCHEL, Jack. Reds and radicals in Hollywood. The Virginia Quarterly Review. Charlottesville: Winter 2003.Vol.79, Iss. 1.

MACDOUGALL, Robert. Red, brown and yellow perils: Images of the American enemy in the 1940s and 1950s. Journal of Popular Culture. Bowling Green: Spring 1999.Vol.32, Iss. 4.

MADDUX, Thomas R. Red Fascism, Brown Bolshevism: The American Image of Totalitarianism in the 1930s. Historian: 1977.

MAYHEW, Robert. The Making of Song of Russia. Film History. Sydney: 2004. Vol.16, Iss. 4.

RADOSH, Ronald; RADOSH, Allis. A Great Historic Mistake: The Making of Mission to Moscow. Film History. Sydney: 2004.Vol.16, Iss. 4.

SHINDLER, Colin. Hollywood Goes To War: Films and American Society, 1939-1952. London: Routledge, 1979.

VALIM, Alexandre B; MUNHOZ, Sidnei J. Comitê de Atividades Anti-Americanas (HUAC) In: SILVA, Francisco Carlos T. da et al. Enciclopédia do Século XX: Guerra & Revoluções – Eventos, Idéias e Instituições. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

WEST, Elliot. The Roots of Conflict: Soviet Images in the American Press, 1941-1947. Essays on American Foreign Policy. MORRIS, M. F. e MYRES, S. L. (ed.). Austin: Western Press, 1974.

por ALEXANDRE BUSKO VALIM

   

 

 

 

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[1] Sobre Song of Rússia ver: MAYHEW, Robert. The Making of Song of Russia. Film History. Sydney: 2004. Vol.16, Iss. 4; pp. 334-358.

[2] O House On Un-American Activites Comittee - HUAC foi criado em 1938 para investigação de atividades subversivas nos EUA. A partir de 1945 a HUAC se fortaleceu dando poder e status a políticos inescrupulosos como J. Parnell Thomas, e intensificando o crescimento de uma opinião pública anticomunista. Em março de 1947, a HUAC anunciou a intenção de investigar o que afirmava ser uma infiltração comunista no cinema. Diretores, roteiristas, atores e produtores foram intimados a comparecer perante essa Comissão com o propósito de darem explicações sobre a suspeita de subversão que pairava sobre eles. A maioria dos acusados passou diretamente para listas-negras, o que causou desemprego e, em alguns casos, o exílio e a clandestinidade. A HUAC contou com um expressivo corpo de denunciantes, desde membros de organismos policiais, como o FBI, até personalidades que viriam a se tornar famosas, como Ronald Reagan. (VALIM; MUNHOZ, 2004: 178-179).

[3] Cf. MISSÃO em Moscou (Mission to Moscow) Direção de Michael Curtiz. Roteiro de Joseph Davies e Howard Koch. USA. Produzido por Robert Buckner e Jack L. Warner. Dist. Warner Bros, 1943. 1 fita (123 min.); p&b: VHS.

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