por FELIPE DE PAULA SOUZA

Mestrando em Cultura e Turismo na UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, Bahia

 

Um olhar sobre os fotógrafos Lambe-lambes de Ilhéus, Bahia

 

1. Introdução

A cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, já foi, por repetidas vezes, divulgada como um pólo centralizador de uma prodigiosa cultura. A obra Amadiana é, sem dúvida, grande responsável por levar o nome da cidade para muito além das divisas sul-baianas. Com seus 472 anos de existência, a “princesinha do sul” – como era conhecida a cidade – é dona de uma rica e extensa história cultural. Porém, a cidade conta com um interessante fenômeno que foi, e é, muito pouco explorado, para não dizer completamente ignorado.

A praça J.J. Seabra, no centro da cidade, além de abrigar a Prefeitura local, dá espaço para um grupo de profissionais muito raro na atualidade. Diariamente, cerca de dez fotógrafos lambe-lambes trabalham na referida praça.

Esses profissionais, facilmente identificáveis com suas câmeras – que são “caixotes” de madeira, com uma lente em fole de um lado e o tradicional pano preto do lado oposto – estão, há alguns anos, vivendo um processo de gradual extinção. Com o desenvolvimento de tecnologias fotográficas modernas, como o padrão digital, o profissional lambe-lambe passa a ter sérias dificuldades na concorrência. A praticidade, a rapidez e o baixo preço das novas tecnologias acabaram por, pouco a pouco, condenar esse tipo de fotógrafo.

A diminuição das possibilidades profissionais dos lambe-lambes não está associada à ausência de importância desses profissionais. Essenciais no desenvolvimento da fotografia no Brasil, esses fotógrafos colaboraram com seu saber técnico e com sua imensa capacidade de improvisação.

Uma suposição a respeito da origem do nome lambe-lambe, vem de um gesto corriqueiro no exercício da profissão. Para não cometer o erro de colocar a chapa com a emulsão na posição contrária à lente, o fotógrafo molha a ponta dos dedos, indicador e polegar, com saliva e faz uma leve pressão dos dois lados da chapa fotográfica. O lado que apresentar a sensação de "colagem" do dedo é o correto. Acredita-se que populares acabaram batizando esses fotógrafos ao observarem esse gesto.

2. Teorizando a prática

A fotografia se constitui como uma importante ferramenta de manutenção da memória de uma localidade. Uma cidade como Ilhéus, possuidora de uma história tão longa quanto rica em detalhes, pode dar o devido valor a prática e a pesquisa da fotografia. “Para que haja memória, é preciso que o acontecimento (...) saia da indiferença, que ele deixe o domínio da insignificância. É preciso que ele conserve uma força”. (DAVALLON. 1999: p.25) A fotografia tem a capacidade de manter essa importância, pois mesmo “após o fim do evento, a foto ainda existirá; conferindo ao evento uma espécie de imortalidade que de outro modo ele jamais desfrutaria”. (SONTAG. 2004: p. 22) Sabemos que “a maioria das fotos (...) têm como objeto aquilo que se sabe estar ameaçado de desaparecer”, (DEBRAY. 1993: p. 28) portanto a preservação da atividade fotográfica é ponto chave na manutenção do patrimônio histórico-cultural de uma sociedade. Kossoy (1999: p.21) diz:

Quaisquer que sejam os conteúdos das imagens, devemos considerá-las sempre como fontes de abrangência multidisciplinar. Fontes de informação decisivas para seu respectivo emprego nas diferentes vertentes de investigação histórica, além, obviamente, da própria história da fotografia. As imagens fotográficas, entretanto, não se esgotam em si mesmas, pelo contrário, elas são apenas o ponto de partida, a pista para tentarmos desvendar o passado.

A fundamentação de uma sociedade passa diretamente pela preservação de sua história e cultura. Como Canclini (1998: p.160) afirma:

Esse conjunto de bens e práticas tradicionais que nos identificam como nação ou como povo é apreciado como um dom, algo que recebemos do passado com tal prestígio simbólico que não cabe discuti-lo. As únicas operações possíveis – preservá-lo, restaurá-lo, difundi-lo – são a base mais secreta da simulação social que nos mantém juntos.

Neste ponto surge a figura do fotógrafo, cooperando com essa preservação. Segundo Kossoy (2001: p.32):

É óbvio que as pesquisas (...) – nas quais fontes fotográficas são empregadas como meios de informação visual para a recuperação dos fatos passados – não podem prescindir dos conhecimentos advindos das histórias da técnica fotográfica e dos fotógrafos, aqui entendidos enquanto autores daquelas fontes.

Preservando momentos passados, a fotografia constitui-se em uma importante peça da cultura. Um povo só possui uma identidade graças à salvaguarda de sua história, costumes e tradições. A cultura local é transmitida de gerações em gerações e, mesmo com as adaptações que esta cultura possa sofrer, ela só se constitui verdadeiramente através da preservação histórica. Surge aí a fotografia como ferramenta dessa preservação. Imortalizando instantes, ela contribui com o melhor entendimento de um povo a respeito de sua história.

Nota-se que o estudo da fotografia é de grande importância para quaisquer sociedades que desejam saber mais de sua existência. Kossoy (2001: p.32) ainda coloca: “entendemos ser o estudo das imagens uma necessidade; um caminho a mais para a elucidação do passado humano”. O historiador André Luiz Rosa Ribeiro, prefaciando obra de Soub (2005: p.09-10), complementa o raciocínio de Kossoy destacando a fotografia nesse processo: “é cada vez mais constante o uso da fotografia como um recurso pedagógico, destinado a despertar o interesse de pessoas das mais diversas áreas pela história”.

A vivência humana é extremamente imagética. Na contemporaneidade, grande parte das informações que o ser humano recebe chega até ele através de imagens. Portanto, preservar o trabalho do profissional que capta essas imagens é extremamente positivo.

O ofício do fotógrafo é de grande importância histórico-cultural. Retratando a realidade e os costumes de um povo, estes profissionais colaboram para que essa população se aproprie de seu patrimônio e memória de maneira bastante eficiente. Nas palavras do fotógrafo francês Cartier-Bresson, citado por Fernandes[1]: "Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar outra vez”. Em outras palavras, o fotógrafo colabora para um prolongamento de memórias e de costumes passados.

3. O grupo

Nos contatos feitos com o grupo dos fotógrafos lambe-lambes ilheenses foram colhidos alguns dados. O grupo é inteiramente masculino, com idades entre 35 e 60 anos. Marcando presença na praça existe um grupo que, dependendo do dia, flutua entre seis e dez profissionais.

Todos os fotógrafos contatados por esta pesquisa estão há muitos anos trabalhando no ramo, o mínimo declarado foi dez anos de profissão. O grupo, na absoluta maioria, tem na fotografia sua única fonte de renda.

Trabalhando de segunda à sexta feira, das sete da manhã às dezoito horas, os lambe-lambes, em geral, se mostram bastante satisfeitos com a profissão. Todos declaram ter um satisfatório grupo de clientes que apresentam grande fidelidade aos serviços prestados na praça.

Quando questionados do motivo de alguém procurar o serviço que eles oferecem os lambe-lambes dizem que isso se deve, principalmente, à qualidade do serviço e à amizade que todos oferecem.

Um tom saudosista pode facilmente tomar conta daquele que observa o grupo de fotógrafos ilheenses trabalhando. Em um tempo de rápido desenvolvimento tecnológico, de ampliação do mercado de máquinas digitais, os lambe-lambes sul-baianos aparecem como uma “janela” para um passado romantizado. Remetem a uma vida pacata, de longas tardes de conversas na praça – isso em uma época em que a tecnologia se desenvolve tão rapidamente que torna obsoletos produtos praticamente novos.

Um ponto bastante interessante é que boa parte dos entrevistados mencionou que a agilidade das novas tecnologias seria a principal responsável pela diminuição de sua clientela. Segundo eles, as máquinas digitais, além de baratearem, também aceleram o processo – atraindo fregueses para esse tipo de serviço e deixando-os com menos clientes.

Até aí um discurso correto. Porém, é conveniente destacar que alguns dos lambe-lambes de Ilhéus também fazem uso das tecnologias digitais de fotografia. As tradicionais máquinas de fole são mantidas – servindo de meros chamarizes, pois alguns deles aderiram ao método digital – apesar de criticá-lo e culpa-lo pela diminuição de sua clientela.

Outros, porém, acreditam que as novas tecnologias não chegam a incomodar porque muitas pessoas não se sentem à vontade nos estúdios e preferem apelar para os lambe-lambes. Segundo os fotógrafos, a “frieza” – termo utilizado por eles – dos laboratórios digitais, automatizados, não substitui de maneira adequada o atendimento que eles prestam na praça.

4. Ligação com o turismo?

Um grupo de profissionais como os fotógrafos lambe-lambes ilheenses não se encontra facilmente. A gradativa extinção que a profissão sofreu faz com que as máquinas de fole, com seu visual romântico, sejam encontradas, na maioria das vezes, apenas na memória daqueles que tiveram o prazer de conhecê-las nos seus tempos áureos.

Ilhéus é dona de um grande potencial turístico, sendo inclusive classificada em recente pesquisa na internet[2], como um dos dez destinos turísticos mais importantes do país. E as ações voltadas para o turismo em Ilhéus são sempre, através do turismo cultural, visando resgatar o período áureo da lavoura cacaueira. Período esse que se deu, principalmente, entre as décadas de 20 e 40. Décadas estas que foram justamente as épocas em que os fotógrafos lambe-lambe obtiveram seu auge profissional.

Essas razões já são suficientes para se constatar que o grupo possui o potencial para ser aproveitado pelo poder público municipal nas atividades ligadas ao turismo cultural.

Abre-se aí a possibilidade de criação de um projeto que, além de preservar o trabalho dos fotógrafos, criaria mais um fator condicionante ao turismo cultural.  Os lambe-lambes têm – pelo romantismo da profissão – um forte atrativo turístico, e isso pode ser aproveitado utilizando-se esses profissionais de maneira estratégica. A profissão de lambe-lambe ainda é bastante viável se associada a eventos culturais e turísticos, permitindo explorar o grande apelo desse tipo de profissional: imortalizar momentos especiais.

Não se alvitrarão neste artigo propostas específicas para a utilização destes profissionais no turismo cultural. Tal empreendimento demandaria um planejamento mais elaborado, através de discussões entre o poder público e os profissionais a fim de se estabelecer a melhor proposta para os envolvidos.

O objetivo aqui é destacar a possibilidade – e principalmente a proeminência – de se utilizar tais profissionais. Tal proposta – levada adiante – estariam colaborando tanto com a cultura local, preservando uma profissão rara, quanto incentivando o trabalho destes profissionais e oferecendo mais um atrativo para o receptivo turístico de Ilhéus.

Criar uma situação, um atrativo turístico pode – e muitas vezes deve – ser construído pelo poder político e econômico. Recriar a história, adequando-a a interesses turísticos, se mostra uma alternativa positiva que se aplica bem à cidade de Ilhéus. O trabalho dos lambe-lambes já se perdeu em diversos pontos do país devido ao processo de globalização e de desenvolvimento, resgatar isso é vantajoso para a cidade, para o turismo local e também para esses profissionais. Luchiari (2000: p.106) diz que o turismo:

É uma atividade que não depende mais exclusivamente da “vocação natural” de uma região, pois pode ser construída artificialmente pelo poder econômico e político, pela criação de parques temáticos, de uma natureza artificial, de uma autenticidade histórica reinventada para saborearmos costumes, hábitos e tradições sociais que foram perdidos na corrida frenética para obter um papel no processo de globalização contemporâneo.

Não se observou ainda nenhuma ação por parte do poder público municipal no sentido de se empregar de alguma forma o trabalho dos lambe-lambes. Pelo contrário, a relação entre tais profissionais e a Prefeitura já chegou – em administrações anteriores – a ser conflituosa. Dividindo a praça J.J. Seabra com o prédio da prefeitura há décadas, os fotógrafos declaram que alguns prefeitos chegaram a ordenar a retirada deles da praça.

No contato com o grupo, percebe-se facilmente um desagrado quase que generalizados dos fotógrafos para com o poder público. Nos diálogos estabelecidos com esses profissionais, basta que seja citado o nome da prefeitura para que uma verdadeira enxurrada de reclamações surja. O tipo de colocação mais comum é de que a prefeitura nunca fez nada por eles, dizem que sempre estiveram por ali e nunca receberam nenhum tipo de atenção.

A única relação que esta pesquisa observou entre fotógrafos e prefeitura é que, desde o início de 2005, os lambe-lambes vêm guardando suas máquinas de fole no prédio do anexo da Prefeitura Municipal de Ilhéus todas as noites. Não foi identificado se isto ocorre com autorização superior ou não passa de uma cortesia dos guardas municipais que fazem o plantão noturno do prédio.

5. Conclusões

Durante o período em contato com os lambe-lambes ilheenses puderam ser tiradas algumas conclusões.  Tais profissionais possuem grande potencial para serem aproveitados pela indústria responsável pelo turismo cultural. O romantismo que envolve a profissão, o ar de saudosismo que carrega a imagem desses homens e de suas máquinas de fole, se adequam perfeitamente a linha historicamente adotada no turismo cultural de Ilhéus.

Além da questão turística, os lambe-lambes são atraentes para a cultura. Preservá-los significa preservar em anexo parte da história e da memória local. Acrescenta-se aí a potencialidade de informações que os lambe-lambes ilheenses têm a oferecer. Há muitos anos trabalhando em praça pública, esses profissionais são testemunhas - através de seus olhos e de suas lentes - da formação histórica, cultural e política da cidade de Ilhéus.

Porém é necessário destacar que a simples potencialidade da profissão não garante o sucesso numa empreitada desta espécie. Seria fundamental observar o interesse da parte dos fotógrafos. Isso não acontece. Apesar de, na maioria das vezes, utilizarem um discurso politizado, contestador, firme, tais qualidades não surgem nas atitudes.

O grupo não é coeso, não há uma noção de classe, de união. Alguns chegam até a não se falar, apesar de trabalharem na mesma praça diariamente há vários anos. Todos os entrevistados declararam ter interesse em projetos que fossem ligados ao turismo, porém alguns resistiram até mesmo a cederem uma entrevista a esta pesquisa. Pode-se observar no grupo uma espécie de “comodismo” onde se identifica uma tendência a se colocarem como “vítimas” das circunstâncias criadas por aqueles que possuem o poder.

Como dito neste artigo, não se oferecerão aqui propostas para a utilização destes profissionais num sentido de preservá-los e de utilizá-los de maneira produtiva no turismo. O objetivo aqui foi apenas estabecelecer um recorte visual sobre o grupo para, destarte, voltar atenções sobre os lambe-lambes e promover um futuro debate sobre as possibilidades envolvidas na situação.

 

Referências

CANCLINI, Nestor G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 1998.

DAVALLON, Jean. A imagem, uma arte de memória? In: ACHARD, Pierre...[et al.] Papel da memória. Campinas, SP: Pontes, 1999.

DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.

FERNANDES Jr., Rubens. Desconhecidos íntimos: o imaginário do fotógrafo lambe-lambe. Disponível em: http://www.mnemocine.com.br/fotografia/rubens.htm Acessado em 02 de Setembro de 2004.

KOSSOY, Boris. Fotografia e história. 2 ed. São Paulo: Ateliê editorial, 2001.

_____. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.

LUCHIARI, Maria. Urbanização turística: um novo nexo entre o lugar e o mundo. In: SERRANO, Célia; BRUHNS, Heloísa; LUCHIARI, Maria. (orgs.) Olhares contemporâneos sobre o turismo. 2 ed. Campinas: Papirus, 2000.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia.  São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SOUB, José Nazal. Minha Ilhéus: fotografias do século XX e um pouco de nossa história. Itabuna, BA: Agora, 2005.

 

por FELIPE DE PAULA SOUZA

   

 

 

 

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[1] O artigo de Fernandes, retirado da internet - acessado em 02 de Setembro de 2004, dá a seguinte referência para as palavras de Cartier-Bresson: CARTIER - BRESSON, Henri. O momento decisivo. In Revista Bloch Comunicação.  N° 6. Rio de Janeiro: Bloch Editora, p. 19-26, s.d.

[2] Pesquisa realizada pelo site MSN –  Informação divulgada pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Ilhéus através do programa de rádio Agenda Ilhéus veiculado na rádio Gabriela FM no dia 10 de Março de 2006.

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