por JACQUELINE RAMOS DA SILVA

Discente do Curso de Letras na Universidade Federal de Alagoas

 

ROSEANNE ROCHA TAVARES

Docente da graduação Curso de Letras e do PPGLL da Universidade Federal de Alagoas

 

Ensino de Língua Estrangeira e Cultura no Espaço Digital

 

Introdução

Ao se estudar uma LE estuda-se, de forma simultânea, também a cultura a que esta pertence. Para que a aprendizagem seja considerada eficiente e desenvolva efeitos produtivos sobre o aluno, torna-se necessário que este tome conhecimento da posição que ocupa em cada contexto cultural, discernindo entre o que representa a própria cultura e o que representa a cultura alvo.

Alguns pesquisadores defendem que a aprendizagem cultural tem afetado positivamente os estudantes, mas outros acham que a cultura pode ser usada como um instrumento no processo de comunicação quando convenções comportamentais culturalmente determinadas são ensinadas (Byram et al. 1994, In: Tavares e Cavalcanti, 1996).

Questiona-se se o espaço digital tem sido realmente um lugar de mudança e inovação no ensino de LE, contribuindo com a construção de um Entre-espaço Cultural[1] (Kramsch, 1993; Tavares, 2005) para o aprendiz ou apenas se estabelece como mera reprodução da realidade das salas de aula de LE tradicionais. O material digital permite, devido às possibilidades de escolha, que o aluno determine a forma de navegação que seja mais adequada às suas necessidades pessoais ou a forma de estudar que lhe seja mais confortável.

O sucesso da interação depende diretamente da adequação dos textos aos interlocutores e aos contextos de uso previstos (Braga, 2001), por isso, autonomia do aprendiz é essencial para que este saiba como explorar as possibilidades comunicativas oferecidas pelo hipertexto[2] e pela hipermodalidade[3].

Mudanças tecnológicas e fatores sócio-culturais

As mudanças tecnológicas interagem com outros fatores sócio-culturais, determinando novas formas de aprendizagem, na qual a era da comunicação on-line, que ganhou força global, vincula-se a uma nova revolução, que é centrada no manuseio da informação, do conhecimento e das redes de comunicação. Tais mudanças vêm moldando os hábitos sociais contemporâneos de tal modo que favorecem a emergência de formas de comunicação e estilos de vida bastante diferenciados.

Segundo Nicholls, Língua e Cultura estão intimamente ligadas. O ensino de uma LE vem, assim, necessariamente acompanhado de um sistema complexo de costumes culturais, valores, modos de pensar, agir e sentir que geralmente são introduzidos junto com conteúdos lingüísticos. À medida que o aluno adaptar sua linguagem aos traços culturais da LE, o seu desempenho comunicativo se tornará bem mais significativo (Nicholls, 2001).

Como atividade da comunicação social, as línguas constituem fonte de ação e de interação humana. Para tanto, a Internet tem se tornado um dos meios de difusão de mensagens mais acessíveis e, desse modo, sua linguagem também se propagou e se tornou globalizada, o que foi considerado fator essencial para o contato entre as culturas.

O uso do computador como ferramenta mediadora da comunicação leva-nos a considerar textos que contemplam tanto a “interatividade tecnológica”, onde prevalece o diálogo, a comunicação e a troca de mensagens, quanto à “interatividade situacional”, definida pela possibilidade de agir, interferir no programa e/ou conteúdo (Silva, 2000: pg. 87 In: Braga, 2001: pg. 145).

Uma das marcas da globalização é a velocidade com que a tecnologia evolui, e a informática, responsável por esse avanço, tem contribuído para a melhoria da qualidade dos serviços em todas as áreas do conhecimento (Galli, 2001).  

A informação no espaço digital

O texto impresso apresenta limites que não são válidos para o texto virtual devido à  possibilidade do apoio visual e oral, no qual a informação pode ser apresentada de forma estática ou em movimento, permitindo o auxílio de formas dinâmicas e acrescidas de som na apresentação de uma mesma informação através de canais diferenciados, o que pode auxiliar alunos que tenham estilos cognitivos distintos a encontrar sua maneira individual de aprendizagem através da possibilidade de escolha que, segundo Braga, permite que eles ajustem o material às suas necessidades individuais.

Porem, o excesso de informação oferecido no meio digital pode sobrecarregar cognitivamente e desencorajar os alunos que não possuam conhecimento na área da pesquisa (Burbules e Callister, 2000 In: Braga, 2001).

A rede mundial de computadores permite ao usuário o acesso a informações do mundo todo. Desse modo, ele troca, armazena e obtém informações globalizadas. Neste sentido, o desenvolvimento e a utilização da Internet acabaram produzindo, entre seus usuários, uma linguagem própria, repleta de termos típicos.

As expressões, no campo da lexicologia, ultrapassam o contexto cibernético, ou virtual, e representam um fator concreto da globalização (Galli, 2001). Como exemplos, temos palavras tipo deletar, já incorporada ao português, ou termos como e-mail, que apesar de existir tradução para o mesmo em português (mensagem/correio eletrônico), ainda é bastante usado.

A virtualização do texto

Os links eletrônicos, responsáveis pela interatividade constitutiva do hipertexto, cujo acesso se dá de forma não-linear, geram uma organização textual que não é totalmente nova (Braga, 2001).

Os textos eletrônicos se apresentam por intermédio de suas dissoluções. Eles são lidos onde são escritos e são escritos ao serem lidos (Joyce, 1995 In: Plaza, 2000). A dinamicidade e a interatividade[4] do hipertexto permitem ao leitor seguir diferentes “rotas” ou “trilhas” de leitura, acionando, assim, uma série de possibilidades de construção de sentido (Palácios, 2005) na qual a utilização da hipertextualização (tornar o texto virtual) dá ao interlocutor a oportunidade de ampliar as ocasiões de produção de sentido e enriquecer sua leitura (Galli, 2001).

No entanto, na tela essas ligações através dos links passam a ser fundamentais para a estrutura do texto, posto que o processo de navegação modifica a natureza dos segmentos em si, e as relações identificadas e criadas entre eles passam a ser essenciais para a construção do seu significado. 

O hipertexto difere radicalmente do texto impresso na medida em que oferece ao leitor possibilidades de trajetórias diversas, de forma não-seqüencial, ativando no leitor a expectativa de que haverá links atrelados aos diferentes segmentos textuais, sem uma seqüência pré-estabelecida, que pode ser observada ou não pelo leitor, exigindo que ele faça escolhas e também determine tanto a ordem de acesso aos diferentes segmentos disponibilizados no hipertexto, quanto o eixo coesivo que confere um sentido global ao texto lido. Isso difere radicalmente o hipertexto do texto impresso e faz com que o autor de um hipertexto tenha menos controle sobre o seu texto, tornando-se difícil para ele prever a gama de possíveis sentidos que podem ser construídos durante a leitura (Braga, 2001).

A idéia de Multi-linearidade[5] do Hipertexto, em contraposição a Uni-linearidade[6] do texto tradicional – ainda que leituras transgressivas sejam possíveis no texto tradicional, criando Multi-linearidades – é ainda mais evidente nos ambientes hipermídia, nos quais a hipertextualidade é agregada a multimodalidade[7], e aquela vai além desta da mesma forma que o hipertexto vai além do texto concebido tradicionalmente.

Tratando-se da relação do hipertexto eletrônico, a diferença incide somente no suporte e na forma e rapidez do acessamento, o que caracteriza a multiplicidade de possibilidades de construção e leitura abertas pelo hipertexto.

Construção do sentido textual

Como indica o estudo de Lemke, faz parte da nossa experiência como leitor integrar de forma significativa textos verbais e visuais, assim como orientar nossa leitura por uma série de recursos visuais. No texto hipermodal[8], esses recursos são ampliados e ressignificados.

Lemke explica o potencial multiplicador de sentidos inerentes aos construtos multimodais retomando três categorias postuladas por Halliday: os significados aparentes, que são construídos principalmente pelo conteúdo ideacional dos textos verbais e pelo que é mostrado ou retratado pela imagem nos textos visuais; o significado performativo, que veicula o que está acontecendo na relação comunicativa e o lugar que os diferentes participantes assumem entre si em relação ao conteúdo apresentado; e o significado organizacional, que permite que o significado aparente e o performativo sejam integrados de forma a atingir graus mais elevados de complexidade e precisão (Lemke In: Braga, 2001).

Como esses diferentes tipos de significados se integram na construção do sentido textual, é possível compreender por que em produções multimodais as possibilidades de construção de sentido se ampliam, explicando, assim, a multiplicidade de leituras possíveis para os textos multimodais. As vantagens que o material multimídia[9] e hipermídia[10] abre para o ensino/aprendizagem justificam o investimento de recursos humanos e financeiros para sua produção (Braga, 2001).

A leitura em segunda língua

Na compreensão de leitura em segunda língua, enfatiza-se a importância que o contexto e o conhecimento prévio do leitor têm para a melhoria da aprendizagem de textos verbais, tendo o uso de recursos visuais como uma alternativa promissora para levar o aluno a ativar, antes do início da leitura, o conhecimento prévio que é relevante para a compreensão do texto (Chun e Plass, In: Braga, 2001). As análises apontam que a imagem, apresentada de forma estática ou em movimento, agregada ao texto verbal pode contribuir positivamente para a retenção de vocabulário em uma língua estrangeira. Da mesma forma, a apresentação de uma mesma informação através de canais diferenciados pode auxiliar alunos que tenham estilos cognitivos diferentes.

A autonomia do aprendiz é essencial para que esse saiba como explorar as possibilidades comunicativas oferecidas pelo hipertexto e pela hipermodalidade. Porém alguns princípios não se alteram: aprendemos a interagir com textos a partir da prática situada em contextos sociais concretos; o sucesso da interação depende diretamente da adequação dos textos aos interlocutores e aos contextos de uso previstos (Braga, 2001).

Conclusão:

O hipertexto desmistifica a idéia de texto como um todo composto de começo, meio e fim definidos. A arte em rede problematiza as trocas sócio-culturais relacionadas com o progresso tecnológico, onde o sentido evolutivo da tecnologia é abrir novas possibilidades de ação, abrir novos espaços sociais e culturais.

Segundo Lemos, podemos compreender a interatividade digital como um diálogo entre homens e máquinas, onde a tecnologia digital possibilita ao usuário interagir, não mais apenas com o objeto (a máquina ou a ferramenta), mas com a informação, isto é, com o “conteúdo”. O ciberespaço tem sido assim, um espaço onde a sociedade contemporânea tem redefinido suas identidades culturais e imposto um novo modo de socialização interpessoal.

A interatividade digital caminha para a superação das barreiras físicas entre os agentes (homens e máquinas), e para uma interação cada vez maior do usuário com as informações (Lemos, 2005). Dessa forma, as infinitas possibilidades de conexões entre trechos de textos e textos inteiros favorecem a flexibilização das fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento humano (Correia e Andrade).

Durante o processo de leitura, são ativados esquemas mentais no indivíduo, de modo que a informação recebida possa ser integrada a conhecimentos já existentes, ampliando e modificando-os, permitindo a produção de sentidos e, dessa forma, o surgimento de interpretações e formas de leituras diferentes.  Por isso se fala da incompletude do texto, pois o sentido não está nem no texto nem nos interlocutores, mas no espaço discursivo criado pelos dois, autor e leitor, na interação através do texto.

O hipertexto, devido às várias possibilidades de escolha que oferece ao leitor, tanto pode aumentar a qualidade da informação, quanto pode facilitar seu uso, à medida que disponibiliza ferramentas consistentes para apresentação e manipulação do conteúdo.

 

Bibliografia

BRAGA, Denise Bértoli. A comunicação interativa em ambiente hipermídia: as vantagens da hipermodalidade para o aprendizado no meio digital. In: Hipertexto e Gêneros Digitais: novas formas de construção do sentido/ Luiz Antônio Marcuschi, Antônio Carlos dos Santos Xavier (orgs.). Rio de Janeiro: Lucena, 2004.

CORREIA, Cláudia e ANDRADE, Heloísa. Noções Básicas de Hipertexto. Disponível: http://www.facom.ufba.br/hipertexto (Acessado em Setembro de 2005)

GALLI, Fernanda Correia Silveira. Linguagem da Internet: um meio de comunicação global. In:Hipertexto e Gêneros Digitais: novas formas de construção do sentido/ Luiz Antônio Marcuschi, Antônio Carlos dos Santos Xavier (orgs.). Rio de Janeiro: Lucena, 2004.

KRAMSCH, Claire. Context and culture in language teaching. New York: Oxford University Press, 1993.

LEMOS, André.  Anjos Interativos e Retribalização do Mundo: Sobre interatividade e interface digitais. Disponível: www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/lemos/interativo.pdf (Acessado em Setembro de 2005)

NICHOLLS, Susan Mary (ex Uchôa). Aspectos Pedagógicos e Metodológicos do Ensino de Língua Estrangeira. Maceió, AL: Edufal, 2001.

PALACIOS, Marcos. Hipertexto, fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva. Disponível: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/palacios/hipertexto.html (Acessado em Setembro de 2005)

PLAZA, Júlio. Arte e Interatividade: Autor-Obra-Recepção. Disponível: http://www.plural.com.br/jplaza/texto01.htm (Acessado em Setembro de 2005)

SIQUEIRA, Débora C. Hipertexto. Disponível: http://ead1.unicamp.br/e-lang/multimodal (Acessado em Setembro de 2005)

TAVARES, R. R. e CAVALCANTI, I de F. S. Developing Cultural Awareness in EFL Classroom. FORUM, vol. 34, No. 3-4, 1996.

 

por JACQUELINE RAMOS DA SILVA & ROSEANNE ROCHA TAVARES 

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[1]Entende-se por Entre-espaço Cultural o lugar onde o aprendiz cria significados, que só têm valor dentro da cultura, para as lacunas que ficam entre a cultura em que cresceu e as novas em que ele venha a ser introduzido.

[2] Conjunto de informações textuais, podendo estar combinadas com imagens (animadas ou fixas) e sons, organizadas de forma a permitir uma leitura (ou navegação) não linear, baseada em indexações e associações de idéias e conceitos, sob a forma de links (Siqueira).

[3] Relação dentro de uma estrutura hipertextual de unidades de informação de natureza diversa – texto verbal, som, imagem – gerando uma nova realidade comunicativa que ultrapassa as possibilidades interpretativas dos gêneros multimodais tradicionais.

[4] A interatividade pode ser considerada como uma simulação da interação, e graças a ela o diálogo entre realidades diferentes se torna possível.

[5] Várias seqüências possíveis estabelecidas pela ordem de acesso ao texto.

[6] Seqüência de leitura pré-estabelecida pelo autor do texto.

[7] Uso simultâneo de dados em diferentes formas de mídia, tais como: texto, vídeo, músicas, voz, animações, gráficos e imagens.

[8] Processo de co-construção de conhecimento entre fontes e destinos de informação por meio de estímulos que podem estar materializados sob a combinação de mais de uma dentre as diferentes modalidades: visual (textual, gráfica), sonora (verbal, ruídos), olfativa, tatual e palatal.

[9]Uso simultâneo de dados em diferentes formas de mídia.

[10] Associação entre hipertexto e multimídia. Textos, imagens e sons tornam-se disponíveis conforme o leitor percorre as ligações existentes entre eles.

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