Indústria
cultural: astúcia e triunfo
“A
diversão favorece a resignação que nela se quer esquecer.”
(Adorno e Horkheimer)
Seria
literalmente “chover no molhado” afirmar, pura e simplesmente,
que o futebol é o substituto atual quase perfeito da religião e
que, com isso, é o novo “ópio do povo”. De fato, ambos são
mesmo muito parecidos e não fica difícil estabelecer uma comparação
entre os dois. A legião de fiéis, o ritual formalmente
hierarquizado, a presença de elementos metafísicos como a crença
em forças do além que podem ser invocadas em benefício de quem
participa, a expulsão de demônios, os gritos em forma de prece ou
as preces expressas através de gritos se consumam no êxtase e na
purificação da alma ao se constatar que o contato com o além é
real, que o mesmo intervém e opera de forma eficaz em nossa
realidade. Quem se nega a participar do ritual é visto com olhar
suspeito ou, até mesmo, censurado. Um esquema pré-fabricado serve
para classificar as pessoas. Os fiéis se perguntam como é possível
que alguém não queira participar ou que, simplesmente, não
consiga gostar de algo tão apreciado por milhões e milhões de
pessoas. O próprio dogmatismo, fundamento da crença, não raro,
incita ao combate contra os outros credos, isto é, leva ao
fanatismo e à violência. Enfim, sem que fosse necessária uma
lista muito grande de semelhanças e exemplos o quadro já estaria
analisado.
Entretanto,
é bem aí que está a malícia, isto é, justamente por ser notória
a alienação produzida pelo futebol é que se pode dizer que a astúcia
da indústria cultural consegue prevalecer. A simples afirmação de
uma narcotização coletiva é ela mesma um elemento narcotizante.
Todos aqueles que criticam o futebol enquanto fenômeno massificante
e, com isso, toda a fanfarronice futebolística, isto é, todo o
espetáculo produzido em torno dele, crêem que estão
prestando um grande serviço para a desmistificação ou, em
outras palavras, estariam atuando contra a alienação e pelo
esclarecimento das pessoas. Não estão plenamente errados ao
pensarem assim. Mas reside aí também um equívoco. A análise
finda justamente onde deveria continuar. O futebol é o alvo fácil
da indústria cultural. Ele é colocado como tal intencionalmente
para atrair o olhar da crítica, como a isca para a caça. Essa é a
“grande jogada” ou “o gol de placa” que a indústria
cultural consegue marcar contra nós. A impressão obtida é que ao
fazer-se a crítica do futebol estaria feita toda a crítica e,
justamente por isso fica-se novamente impotente, enquanto ela avança
triunfal e implacavelmente na dominação progressiva de todos os
setores da vida.
Ora,
ao ser constatado nestes termos e utilizado com este propósito, o
futebol cumpre uma dupla alienação. Aliena a massa enquanto a
distrai e aliena a própria crítica porque confirma-se diante dela
como “bode expiatório” e absorve desta toda a atenção.
Enquanto ambos ficam cada um ao seu modo absorvidos antiteticamente,
isto é, a massa por afirmar o futebol, a crítica por negá-lo, eis
que ele ressurge numa terceira perspectiva de forma ainda mais
redentora. Ele manifesta-se como metáfora da política para aplacar
a ira da crítica e promete para a massa a quebra da tediosa rotina.
Por
isso mesmo é que se auto-afirma como livre no que se refere a
ideologias e faz uma divulgação de si mesmo como verdadeira
democracia: todos são
iguais dentro do campo e as regras valem igualmente para todos.
Entretanto, quanto mais se afirma como livre e democrático, tanto
mais confirma sua não-neutralidade, sua não-pertença a si mesmo e
ao público, o qual ainda acredita que o esporte é um bem cultural
de todos. O embuste é bem esse: o espetáculo tem dono. Palco,
atores, cenário, indumentária, instrumentos, simplesmente tudo
pertence a filiais do mesmo terrível e onipresente “patrão”.
Conforme Adorno e Horkheimer “a unidade implacável da indústria
cultural atesta a unidade em formação da política. (...) O
fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidades serve
apenas para uma quantificação ainda mais completa.”
O
alívio ou a frustração proporcionados pelo resultado são no
fundo equivalentes: a partida já foi decidida antes mesmo de o jogo
começar. Os talentos estão todos negociados por um preço
criteriosamente calculado antes mesmo de aparecerem no mundo. A
divisão da sociedade em classes e a exploração do ser humano pelo
próprio ser humano se perpetua, entre outros fatores, no instante
em que um pai obriga o filho a querer ser astro de alguma coisa. O
sacrifício de si é o preço de pertença a esta realidade. E o
pior, a monitoração é coletiva: na ânsia incontrolável de ser
astro, popstar ou algo parecido, vale tudo. Passar pelo ridículo,
cometer um atentado trará, ainda que pelo seu avesso, um momento de
fama e de (in)glória. A mesma indústria que inculca no inconsciente
coletivo aquela ânsia é a mesma que se coloca na condição de
juiz que condena. E assim os bonecos acreditam que têm vida própria.
A
sensação frustrante do vazio é a única verdade e, só ela,
indicia e abre caminho para desfazer a crença na mentira de que se
é livre e feliz. Neste sentido, “a indústria cultural não cessa
de lograr seus consumidores quanto àquilo que está continuamente a
lhes prometer. A promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e
pela encenação é prorrogada indefinidamente: maldosamente, a
promessa a que afinal se reduz o espetáculo significa que jamais
chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve se contentar com a
leitura do cardápio.”
O
triunfo é por tudo isso perpetuado. O controle sobre a ação do
trabalhador, exercido dentro da fábrica, se estende para todos os
campos possíveis fora dela. O próprio lazer é uma continuidade do
trabalho organizado. “A diversão é o prolongamento do trabalho
sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao
processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições
de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal
poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre sua felicidade, ela
determina tão profundamente a fabricação das mercadorias
destinadas à diversão, que esta pessoa não pode mais perceber
outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo de
trabalho.”
Deste modo, o domínio se estende para muito além do mundo do
trabalho, isto é, consegue penetrar pela via da cultura em seus
diversos segmentos e transforma a própria vida das pessoas num
produto descartável. A arte – e neste caso até mesmo a arte do
futebol – é produzida em série e enfraquecida em seu potencial
emancipador.
Ainda
que este quadro seja desolador, a esperança representa ainda um
caminho possível de resistência e inconformismo. Enquanto
totalmente outros e a despeito de todo o (ab)uso que a indústria
cultural deles possa fazer, tanto a arte quanto a natureza podem ser
fontes de regeneração do que entendemos por lazer ou por diversão.
Na medida em que a indústria cultural só consegue dominar movendo,
entre outros, estes dois elementos – natureza e arte – ela abre
precedentes para que possamos nos situar com
e a partir deles – não simplesmente usá-los, o que já nos colocaria na sua lógica – e
com isso nos desviarmos da rota por ela planejada, contra sua
monitoração. Isto é, por mais que a indústria cultural
transforme e utilize natureza e arte para o seu objetivo de produzir
uma homogeneização no modo de pensar e de agir
das pessoas, ela não consegue, por outro lado, encobrir ou
apagar totalmente a disposição originária da natureza e da arte,
isto é, seu impulso fundamental que é a independência. A natureza
enquanto tal (e nós mesmos enquanto parte dela) constitui o ponto
de partida da existência histórica do ser humano e, como tal,
conserva ainda em si potencialmente a liberdade que é negada no
processo totalizador do consumo. Neste sentido, o único caminho é
sair dos trilhos da domesticação por ela estabelecida. E aqui o
retorno à natureza, não simplesmente considerada como algo externo
a nós, mas assumida em primeiro lugar em nós, e considerada como
instância à qual originariamente pertencemos, é o que pode nos
regenerar. Infelizmente a noção de diversão que temos ainda está
definida nestes termos, que os frankfurtianos expressaram:
“Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o
sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é sua própria
base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da
realidade ruim, mas da última idéia de resistência que essa
realidade ainda deixa subsistir.”
por
ROBINSON DOS
SANTOS