RESENHA:
Carlos
Hasenbalg. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. 2ª
edição, Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ,
2005.
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“Discriminação
e desigualdades raciais no Brasil”: 26 anos depois
O
livro “Discriminação e desigualdades raciais no Brasil” de
Carlos Hasenbalg, publicado no ano de 1979, representou um marco na
produção sociológica brasileira. Além do impacto causado na área
acadêmica, repercutiu fortemente entre os militantes do movimento
negro brasileiro, pois as conclusões apresentadas pelo autor, ao
longo do livro, convergiam para as reivindicações daqueles que
lutavam em favor da igualdade racial.
Vinte
e seis anos depois, no ano de 2005, no momento em que o Brasil já
dispõe de iniciativas como a Secretaria Especial de Promoção de
Política da Igualdade Racial (SEPPIR) e em que se encontram avançadas
as discussões sobre o Estatuto da Igualdade Racial, a nova geração
de intelectuais, militantes e todos aqueles que lutam pelo fim das
desigualdades são premiados, tardiamente, é verdade, com a 2ª edição
do livro de Hasenbalg.
Talvez
não seja comum resenhar a segunda edição de um livro, ainda mais
que, nesses 26 anos desde a primeira edição, muito foi lido e
discutido sobre ele. Entretanto, é fundamental que retomemos a
forma densa (e mesmo provocativa) como o autor constrói a história
das desigualdades raciais no Brasil, as conclusões tiradas de suas
pesquisas nos anos de 1960-70 e, por fim, a discussão em torno do
polêmico conceito de raça, ainda forte na contemporaneidade e
presente no Estatuto da Igualdade Racial, que recebeu (e continua a
receber) uma série de críticas.
Para
Carlos Hasenbalg, as razões da marginalização social do povo
negro são encontradas nas práticas ditas “racistas” e
discriminatórias subjacentes ao período posterior à abolição. A
tão propagada “democracia racial” brasileira não passa de um
mito, um instrumento ideológico que visa ao controle social pela
legitimação da estrutura vigente de desigualdades raciais,
impedindo que a situação se transforme em questão pública e,
conseqüentemente, sujeita a intervenções estatais. Critica também
a idéia da escola sociológica paulista (notadamente Florestan
Fernandes) ao considerar o racismo como um “resíduo” da ordem
escravocrata. Para ele, a discriminação racial no Brasil é
resultado direto das desigualdades entre brancos e não brancos em
diferentes esferas – educação, economia, acesso ao trabalho –
e foi reconstruída no tempo presente pela ordem capitalista. Com
base em dados estatísticos, seu livro é importante por mostrar a
condição de miserabilidade vivida pelo negro e por possibilitar a
retomada da discussão da realidade racial brasileira.
A
tese central do livro é que a exploração de classe e a opressão
racial se articularam como mecanismos de exploração do povo negro,
alijando-o de bens materiais e simbólicos. Partindo de um dualismo
que lhe é próprio, Hasenbalg afirma que os negros foram, ao longo
do tempo, explorados economicamente e que esta exploração foi
praticada por classes ou frações de classes dominantes brancas.
Para ele, a abertura da estrutura social em direção à mobilidade
está diretamente ligada à cor da pele, e, nesse âmbito, a raça
constitui um critério seletivo no acesso à educação e ao
trabalho.
Não
existiram ações coletivas duradouras, por parte da população
negra; ao contrário, houve uma subordinação “aquiescente” dos
negros, graças, principalmente, à cooptação de parte da população
de cor em razão da mobilidade ascendente e das “armas ideológicas”,
como o branqueamento e o mito da democracia racial.
O
livro foi lançado no final dos anos 70, momento em que o Movimento
Negro Unificado (MNU) atacava a idéia de “democracia racial” e
recuperava a idéia de raça, reintroduzindo-a na discussão sobre a
nacionalidade brasileira. As conclusões tiradas por Hasenbalg “caíram
como uma luva” no suporte científico das bandeiras de luta desse
movimento. Ao recuperar a idéia de raça, o MNU procurou dividir a
população brasileira entre brancos e negros (recusando outros
termos, como mestiços, morenos, pardos, etc), tal qual faz
Hasenbalg, para quem os indivíduos, considerados pelos IBGE como
“pardos” e “pretos”, em sua estatística são agrupados sob
a nomenclatura de “negros”. Ele fez em sua análise acadêmica o
que o MNU fazia na política.
Não
podemos deixar de destacar o impacto dos movimentos negros do Brasil
(e particularmente do MNU) que conseguiram forçar o reconhecimento
do racismo como um aspecto estruturante da sociedade brasileira,
destruindo de vez o “mito da democracia racial”. Hoje, questões
como o combate ao racismo, as relações políticas e teóricas
entre raça e classe, as interações entre anti-racismo político e
a consolidação da sociedade civil e da democracia, entre outras, são
questões já suficientemente debatidas pela intelectualidade
brasileira e pelas organizações negras organizadas. Entretanto, não
podemos permanecer fechados em um antagonismo maniqueísta, baseado
num simbolismo de cores, preto e branco, que nos levaria a uma posição
extremada de que a liberdade e a cidadania para os negros só virão
com a criação de uma “república negra autônoma”, coadunando,
assim, com a lógica segregacionista e “guetificadora” de parte
da elite brasileira.
Outro
sério problema diz respeito ao conceito de raça. Mesmo sendo
sustentado oficialmente, tal conceito não resistiu às questões
feitas por seus próprios defensores. A idéia de grupos étnicos
surgiu, então, como um definidor dos grupos humanos que melhor dá
conta das aglutinações culturais historicamente verificáveis
entre os seres, cujas interações se dão para além da cor da pele
e permite que se perceba o homem na sua diversidade, como um animal
essencialmente cultural.
Não
podemos também tomar somente a questão racial como elemento
definidor das desigualdades sociais. Outros fatores como a questão
de gênero e classe, por exemplo, também são fundamentais para
entendermos como se constitui no Brasil uma sociedade marcada pelas
enormes disparidades sociais.
Por
fim, cabe destacar que as conclusões tiradas por Hasenbalg ainda são
válidas para boa parte do movimento negro do Brasil, o que resulta,
nos dias de hoje, nas disputas em torno do Estatuto da Igualdade
Racial que, a despeito de sua importância histórica, já nasce
envolto em uma idéia do século XIX, retomada nos anos 1970 e que
se recusa a morrer.
por
WASHINGTON SANTOS NASCIMENTO