Kyoto,
Montreal – e agora?
Em
dezembro do ano passado (2005), numa reunião de representante de
todos os países em Montreal, Canadá, celebrou-se a entrada em
vigor do Protocolo de Kyoto, assinado em 1997. O Protocolo
representa um acordo global sobre a redução de emissões de CO2
e outros gases poluentes que, quando aprisionados na atmosfera,
resultam no “efeito estufa” – o aquecimento da temperatura
terrestre.
Desde
1997, 161 países ratificaram os termos do protocolo que exigem dos
países
industrializados
reduzir a emissão de gases tóxicos ao nível de 1990., com prazo
até 2012.
Quase
oito anos depois da assinatura, as dificuldades e obstáculos à
realização das metas do acordo continuaram praticamente
inalterados. Como equacionar a relação custo/benefício a curto
prazo quando se trata de investimentos com maturação e retorno
incertos a longo prazo?
Ademais,
o governo norte-americano se recusa terminantemente a ratificar o
Protocolo, embora os EUA sejam responsáveis por 25%
das emissões de gases efeito-estufa. E para os países
“emergentes”, China, Índia, Brasil, África do Sul, grandes
consumidores
de carvão mineral de baixa qualidade e de petróleo, não foram
fixadas metas de redução sob a alegação que seu atraso
industrial lhes permitiria poluir até alcançar o nível dos países
desenvolvidos.
A
reunião de Montreal refletiu o dilema de empresas e de economias
nacionais – a distância entre os preços de petróleo e de
energias limpas alternativas – biomassas, eólica, solar.
É
economicamente difícil justificar a internalização dos custos de
pesquisa e desenvolvimento e a construção de uma infra-estrutura
de produção, armazenamento e distribuição a curto prazo, em
troca de benefícios incertos a longo prazo.
A
tolerância para com os países “emergentes”, todos empenhados
em ampliar suas frotas de veículos movidos a gasolina e diesel,
leva a estimativas de aumento do nível das emissões em até 50%
nas próximas duas décadas.
O
princípio “pré-caucionário” que deveria prevalecer em todos
os embates em que se considera as informações disponíveis são
insuficientes ou incompletas para evitar riscos e desastres, não
passa de um exercício retórico dos ambientalistas. Entretanto, a
“descarbonização”, ou seja, a redução do teor de CO2
na atmosfera tem merecido atenção prioritária. Sua presença na
atmosfera aumentou no último século de 288 para 350 ppm (partes
por milhão) o que representa aproximadamente 6 bilhões de
toneladas de CO2 liberados anualmente na atmosfera. O efeito-estufa,
as mudanças climáticas e o aumento da temperatura média da Terra
afligem toda a humanidade e, para enfrentá-los seriam necessários
esforços muito maiores do que a proposta de “estabilizar” as
emissões.
Necessitamos,
além de seqüestro de gases de efeito-estufa e a descarbonização,
de uma política global e solidária de reestruturação da economia
baseada em geração e consumo de energia com o uso crescente, em
vez de petróleo e carvão, de gás natural, biomassas, hidrogênio,
de energia solar e eólica os quais, apesar de avanços locais, não
têm progredido satisfatoriamente.
A
reconstrução da economia baseada na “desmaterialização” da
produção, ou seja, a redução progressiva de resíduos e dejetos
de aço, chumbo, alumínio, papel e plásticos e sua reciclagem
sistemática sera apenas o primeiro passo na racionalização da
produção e do consumo.
Mas,
sem mecanismos regulatórios
e de controle por parte do poder público, situação típica de países
e regiões periféricas, os efeitos da poluição do ar, das águas
e do solo se tornam mais letais e, muitas vezes, irreversíveis.
Por
isso a política de “ciclo de vida” do produto (“do berço ao
túmulo”) deve envolver todos os agentes dos setores econômicos
– produtores, atacadistas, distribuidores, consumidores e
“lixeiros” para diminuir os impactos ambientais que tornam a
vida no planeta insustentável.
A
responsabilidade pela Produção Limpa, a eficiência no uso de
materiais, o desenho de produtos mais leves, menos
energia-intensivas passará para toda a sociedade e seus
representantes legítimos que irão mudar a filosofia dos
investimentos e redimensionar os acordos de comércio em função não
somente de um mundo mais limpo e habitável, mas também mais justo
e equilibrado.
A
mídia e a opinião pública têm dado maior atenção aos relatos
sobre a concentração de gases tóxicos na atmosfera e suas conseqüências
para a mudança climática. Entretanto, a lista de problemas
ambientais a serem enfrentados pela humanidade, é muito mais
extensa.
Destaca-se
a crescente escassez de água potável cuja demanda aumenta com o
aumento da população, do desenvolvimento industrial e da
agricultura irrigada. Por outro lado, verifica-se uma oferta
limitada de água potável distribuída de forma muito desigual,
social e regionalmente.
Estima-se
que só 3% da água do planeta são aproveitáveis, embora não
imediatamente utilizáveis porque uma grande parte está nas
geleiras polares e outra, em aqüíferos profundos.
Um
relatório do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente) estima que 40% da população mundial sofrem de escassez
de água.
A
falta de acesso ao abastecimento seguro e ao saneamento básico tem
resultado em centenas de milhões de doentes, provocando mais de 5
milhões de mortes anualmente.
A
poluição dos rios, lagos, zonas costeiras e baías têm causado
degradação ambiental contínua por despejo de volumes crescentes
de resíduos e dejetos industriais e orgânicos. O lançamento de
esgotos não tratados aumentou dramaticamente nas últimas décadas
com impactos entrópicos severos sobre a fauna e flora e os próprios
seres humanos.
A
degradação dos solos por erosão, salinização, o avanço contínuo
da agricultura irrigada, os desmatamentos com a remoção da vegetação
natural, o uso de máquinas pesadas em monoculturas contribuem para
a escassez de terras cultiváveis e ameaçam a segurança alimentar
da humanidade.
Outro
relatório do PNUMA estima a perda total de florestas no Brasil de
94.000 km2, ou seja, uma média de 15.000 km2
anualmente, já abatendo as áreas reflorestadas. Emblemático a
respeito é a devastação da Mata Atlântica da qual sobraram
somente 7%, segundo levantamento patrocinado pela SOS Mata Atlântica.
Uma
das conseqüências do desmatamento é a destruição da
biodiversidade, sobretudo nas áreas tropicais. Mudanças climáticas,
extração predatória de recursos minerais e naturais causam
transformações no uso do solo e estão dizimando os ecossistemas
em diversas regiões do mundo.
Embora
não existam dados precisos sobre espécies extintas nas últimas três
décadas, o relatório do PNUMA estima que 24% (1183) das espécies
de mamíferos e 72% (1130) de pássaros estariam ameaçados de extinção.
A
situação se afigura particularmente dramática nas áreas urbanas
e metropolitanas nas quais vive quase metade da população mundial,
a maioria em condições de habitação, alimentação, saneamento e
facilidades de lazer cada vez mais precárias.
Outro
relatório das Nações Unidas estima em 800 milhões as populações
urbanas que vegetam abaixo da linha de pobreza, o que os torna
extremamente vulnerável a mudanças ambientais e desastres
naturais.
Essas
condições desfavoráveis são diretamente responsáveis pela saúde
deteriorada e a baixa qualidade de vida. Ademais, a concentração
ininterrupta de desempregados e subempregados do mercado informal,
excluídos nos espaços urbanos e metropolitanos caracterizados por
desigualdades extremas produz e reproduz os fenômenos de anomia
social – marginalidade, delinqüência e violência que tendem a
enfraquecer ainda mais a precária governabilidade.
A
crescente integração das economias em um mercado globalizado,
efetivamente produz maiores riquezas e maior volume de transações
comerciais. Mas paradoxalmente, gera também mais pobreza e exclusão
social que aumentam em ritmo e intensidade mais rapidamente do que a
riqueza material. Afluência (para não dizer desperdício) e
desigualdade são cada vez mais polarizadas e concentradas em nossa
sociedade, tornando-se maiores obstáculos de um processo de
desenvolvimento sustentável.
Urbanização
desenfreada e industrialização não planejada produzem efeitos
prejudiciais ao meio ambiente e, conseqüentemente, à saúde da
população. À insuficiência de serviços básicos de saneamento,
de coleta e reciclagem do lixo e as condições precárias de
moradia, estreitamente relacionadas à pobreza e ao
subdesenvolvimento somam-se a poluição química e física do ar,
da água e do solo, causando uma vasta gama de doenças e deformações
congênitas.
Abordar
esses problemas de uma perspectiva fragmentada, reducionista e
unidimensional seria ineficaz e até contraproducente. O enfoque
alternativo – uma abordagem sistêmica multi e interdisciplinar
– abre novas perspectivas para a compreensão de processos
complexos e seus fatores determinantes, com profundas repercussões
na teoria e na prática da transformação social, levando à
construção de uma sociedade democrática e includente que respeite
a liberdade e a diversidade de seus membros.
Investimentos
em controle da poluição não devem mais ser considerados
“custos” do negócio e a contabilidade e o balanço das empresas
devem registrar devidamente os ganhos e as perdas totais dos
processos produtivos, desde a extração e o beneficiamento da matéria-prima
até a reciclagem dos produtos fabricados e sua embalagem.
A
produção de um volume crescente de bens e serviços em conseqüência
da industrialização baseada em progresso técnico e abundância de
matérias-primas resultou em um número infinito de problemas
sociais e ambientais externalizados como “custos sociais”.
Somente
nas últimas décadas, a sociedade civil começou a resistir e a
reivindicar a internalização dos custos ambientais causados pelas
atividades econômicas. ONGs e outros movimento sociais pressionam
os governos e exigem proteção contra dejetos tóxicos, fumaça, água
e ar poluídos.
O
uso mais racional de recursos cada vez mais escassos estimula
processos baseados em inovação, conservação e invenção de
novos produtos recicláveis e biodegradáveis. Novas indústrias estão
crescendo e se expandindo, seja pelo reflorestamento de áreas
degradadas, a administração mais racional de recursos hídricos ou
a restauração de prédios e distritos inteiros nas cidades. Uma
transformação similar, embora mais silenciosa, está ocorrendo na
agricultura. Um número crescente de consumidores está virando as
costas para produtos alimentares industrializados, preferindo comida
natural à base de fertilizantes orgânicos e controle biológico de
pragas.
O
novo paradigma de produção limpa em direção à sustentabilidade,
se expande não somente nas atividades industriais e agrícolas, mas
penetra também cada vez mais no setor de serviços. Grandes
empresas, antes estruturadas burocrática e hierarquicamente, estão
sendo substituídas por instalações e lay outs em menor
escala e por organizações mais flexíveis e sistemicamente
integradas. A integração sistêmica baseada em informações
altamente interativas e serviços de comunicação, introduz mudanças
no lay out, fluxo de bens e serviços e, sobretudo no
relacionamento humano interno à organização. Novos conceitos e
esforços para introduzir o trabalho em grupo, a participação
ativa e a eficiência coletiva constituem os princípios
norteadores, em substituição às práticas da administração
fordista, em nível da fábrica. Gerentes e líderes de grupos são
treinados para se tornar formadores de equipes, cujo papel principal
é motivar antes de controlar ou penalizar os trabalhadores, com
recompensas materiais ou simbólicas por idéias criativas,
melhorias de qualidade e inovações incrementais.
Para
construir uma sociedade sustentável, é essencial entender que um
meio ambiente saudável é condição necessária e indispensável
para o bem-estar, o funcionamento racional da economia e a sobrevivência
da vida no planeta.
por
HENRIQUE
RATTNER