Apontamentos
sobre as relações entre patrimônio, natureza e cultura na América
As
questões do patrimônio cultural vêm de longa data suscitando
contendas entre os especialistas da área de história, arqueologia,
direito, geografia, meio ambiente, entre outros. Os debates sobre a
preservação das matas e florestas remontam ao século XIX, mas a
chamada “consciência preservacionista” na esfera ambiental se
consolidou apenas nas décadas finais do século XX. Por seu turno,
as mobilizações em torno do direito e da proteção ao meio
ambiente não partiram diretamente do Estado como ocorreu em relação
à proteção do patrimônio histórico no século XVIII, elas se
irradiaram principalmente por intermédio da comunidade científica
e de organizações preservacionistas que passaram a reivindicar
melhor qualidade de vida no planeta.
Nesse
sentido, o presente ensaio visa ratificar que a noção de patrimônio
conjuga uma dimensão tridimensional de tempo e espaço com
referenciais no presente, no passado e no futuro, que não pode ser
abstraída dos sentidos conferidos aos bens culturais. Por essa via,
considera-se imperioso retomar a idéia de que os conceitos são
historicamente construídos e que a acepção de patrimônio
materializa pontos de vista social sobre determinado tema ou fato.
O
patrimônio cultural se constitui de bens móveis
ou imóveis e de representações assentadas em conceitos históricos,
etnográficos, paisagísticos ou ambientais, que de algum modo
corroboraram para a formação das identidades de etnias ou grupos
sociais. Trata-se de bens que conjugam dados cognitivos, estilísticos
e afetivos com os quais as comunidades se identificam. Portanto, se
a acepção de patrimônio advém etimologicamente da concepção de
“herança paterna”, como salienta Pedro Paulo Funari (2005: 34),
o termo patrimonium faz
alusão à “propriedade herdada do pai ou dos antepassados” ou
“aos monumentos herdados das gerações anteriores”.
Não
obstante, Françoise Choay ressalta que a expressão “monumento
histórico” passou a ser reconhecida, sendo inclusive inserida nos
dicionários franceses, em meados do século XIX. O uso corrente do
termo foi adotado em 1880, por ocasião da criação da inspetoria
dos monumentos históricos, na gestão de Guizot, Ministro do
Interior da França. Segundo Choay, a preservação se tornou uma
questão de interesse público na medida em que atos de vandalismo
atingiram os brios dos iluministas que vislumbravam os monumentos
como receptáculos de conhecimento. Interpretados com a materialização
da identidade nacional francesa ou como “propriedades do povo”,
tais monumentos passaram a ser protegidos pelo Estado e respeitados
por seu valor didático-pedagógico (2001: 56).
A
retomada da acepção antropológica da cultura como “todo
conhecimento que uma sociedade tem de si mesma, sobre outras
sociedades, sobre o meio material em que vive e sobre sua própria
existência”, nos anos oitenta, provocou a ampliação do conceito
(Bosi, 1993). Este
passou a abarcar também as formas de agir e pensar do ser humano,
bem como as manifestações simbólicas dos seus saberes, práticas
artísticas e cerimoniais, sistemas
de valores e tradições. Essa noção de cultura, fomentada nas
convenções internacionais promovidas pela Organização
das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco),
adquiriu maior magnitude em 1985, por ocasião da “Declaração do
México”. A caracterização
ampliada da cultura, apresentada no documento supracitado, definiu o
patrimônio como produções de “artistas, arquitetos, músicos,
escritores e sábios”, “criações anônimas surgidas da alma
popular” e “valores que dão sentido à vida”, salientando que
a “preservação” e o “apreço” pelo patrimônio cultural
permitem aos povos, a “defesa da sua soberania e independência”.
Na
modernidade, o conceito de patrimônio cultural mantém-se
vinculado às acepções de memória – categoria basal na esfera
das ações patrimonialistas, uma vez que os bens culturais são
preservados em função dos sentidos que despertam e dos vínculos
que mantém com as identidades culturais. No entanto, apesar da
amplitude que o conceito de patrimônio cultural vem adquirindo,
tendendo a contemplar as mais diversas formas de expressão dos bens
da humanidade, tradicionalmente, o referido conceito continua sendo
apresentado de maneira fragmentada, associado às distintas áreas
do conhecimento científico (KERSTEN, 2000: 28-30).
Carlos
Lemos (1987), retomando as assertivas do francês Hugues de Varine
Boham, na obra A experiência internacional: notas de aula, publicado
em 1974, destaca que o patrimônio cultural reúne elementos
representativos da memória social, cindidos em três grandes
grupos. O primeiro deles refere-se aos elementos da natureza ou do
meio ambiente. O segundo engloba a produção intelectual humana, o
conhecimento e o saber armazenado ao longo da história. O último
agrega os bens culturais resultantes das relações estabelecidas
entre o homem e o meio no processo de sobrevivência.
Certo
é que os sítios patrimoniais, na atualidade, são
divididos em três categorias. Conforme os dados do Instituto do
Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN) e da Unesco, os sítios
naturais, constituídos
por formações físicas, biológicas ou geológicas
consideradas excepcionais, habitats animais e vegetais ameaçados, e
áreas que tenham valor científico, de conservação ou estético.
Os sítios culturais
englobam bens materiais e imateriais que se referem à identidade,
à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade humana, manifestos por meio de
formas de expressão; os modos de criar, fazer, viver; as
criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras,
objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios
de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico. Os
sítios mistos que reúnem os elementos dos sítios naturais e
culturais.
De
toda forma, a ação de órgãos internacionais, como a Unesco e o
International Council of Monuments and Sites (Icomos),
têm difundido o respeito à diversidade cultural e ambiental. Dessa
forma, vem se multiplicando o reconhecimento de uma ampla gama de
bens patrimoniais, sejam eles de valor nacional, provincial ou
municipal. Os bens culturais de comunidades indígenas, grupos étnicos,
minorias sexuais, grupos religiosos ou esportivos também vêm
adquirindo maior visibilidade. Essa ampliação do acervo
patrimonial mundial pode ser interpretada a partir da crescente
participação de diversos segmentos sociais e indivíduos na gestão
dos bens patrimoniais, culturais e ambientais (FUNARI e PELEGRINI,
2006: 10-15).
Nessa
direção, a leitura atenta da obra organizada por Gilmar Arruda,
intitulada “Natureza, fronteiras e territórios: imagens e
narrativas” (2005) pode suscitar reflexões imprescindíveis sobre
as relações entre a ação humana e a história da ocupação de
algumas áreas do continente americano, em especial da região sul
do Brasil, da Nicarágua e da Argentina. O volume estimula o leitor
a pensar sobre as questões que envolvem o patrimônio cultural e a
apropriação do meio ambiente na atualidade. Tal diretriz aponta as
múltiplas facetas da problemática enfrentada pelos autores que
participam do livro e a relevância da crítica às concepções
simplistas que tendem a dissociar as referências culturais, das
acepções de tempo e espaço.
Talvez,
por essa razão, os embates entre as “antigas” e as “novas”
concepções de natureza, espaço, cultura e tempo emergentes no
cerne do mundo urbano e industrial constituam os principais eixos
norteadores das discussões devotadas ao patrimônio. Por outro
lado, as intrincadas relações entre o homem e a natureza,
acirradas pelo crescimento industrial e pelo aumento da densidade
populacional nas grandes metrópoles, observados no decorrer do século
XIX e XX, intensificaram a agressão ao meio, criaram a necessidade
de reformas urbanas e o conseqüente aumento das demolições nas áreas
históricas. Não por acaso, esses temas foram alvos de
entusiasmados discursos críticos e concepções estético-sociais
de William Morris (1834-1896), John Ruskin (1819-1900) e Camilo
Sitte (1843-1903).
Na
aurora do século XX, a reflexão acerca das proposições
idealistas desses pensadores fundamentou as plataformas originárias
do chamado urbanismo ecológico e organicista, e ainda, abalizaram
as teorias modernas de restauro do patrimônio. A combatividade e os
projetos inovadores dos referidos personagens motivou a organização
de eventos internacionais, cuja finalidade centrou-se na busca de
soluções para os desafios da preservação do patrimônio cultural
numa época de significativa expansão urbana e industrial. Não
menos relevante foi o alcance da destruição causada pelos
confrontos bélicos decorrentes da II Guerra Mundial (1939-1945),
uma vez que, este trouxe à tona a necessidade de se criar
expedientes internacionais de proteção ao patrimônio cultural e
ambiental, além de afiançar o restauro de monumentos e a reconstrução
de inúmeras cidades (FUNARI e PELEGRINI, 2006).
A
análise das narrativas discursivas, produções simbólicas e imagéticas
referentes às possíveis fronteiras entre o mundo civilizado e a
barbárie, entre o espaço urbano e o rural contribuem para a
interpretação das radicais transformações das relações entre o
homem e o meio. Em especial, após o advento da segunda revolução
industrial, quando se intensifica a procura de matérias-primas
necessárias ao desenvolvimento capitalista e se acirra o
deslocamento de verdadeiros contingentes populacionais de um
continente para outro. Nesse processo, não são desprezíveis as
modificações da paisagem natural e o desmatamento, além de outras
agressões ao meio, decorrentes da tentativa de incorporação dos
espaços ao circuito da modernidade então vivenciado na Europa.
Curiosamente,
a transformação da paisagem natural em uma paisagem cultural
torna-se objeto de investigação de várias áreas do conhecimento.
As diversas formas de apropriação do espaço e os signos do
progresso nas cidades que começam a ser urbanizadas passam,
paulatinamente, a integrar narrativas sobre a ocupação e o
desenvolvimento urbano, materializadas em fotografias, pinturas,
murais, poéticas e crônicas, entre outras formas de expressão artística.
Tais referências, não raro, são retomadas em datas comemorativas
e celebrações que buscam oferecer visibilidade às conquistas
realizadas pelas municipalidades e articular imagens de um passado
remoto ao presente e ao futuro – projetado de acordo com a “vocação”
regional do logradouro.
Os
impactos ambientais nas áreas de assentamentos humanos também têm
despontado como tema de muitas pesquisas. Recentemente, Vicente
Lucio Michaliszyn utilizou recursos de avançada tecnologia e tomou
as imagens de satélite como base para a investigação sobre as
alterações na cobertura florestal do assentamento rural Ireno
Alves dos Santos, localizado no sudoeste do Estado do Paraná, entre
1994 e 2000. A partir da análise comparada entre as imagens
captadas pelo satélite antes e depois da ocupação dessa área, o
autor constatou o preocupante arrefecimento da cobertura florestal
na área do assentamento (2005: 163). Ora, essa aferição talvez
possa relativisar a tão combatida idéia propagada pelas correntes
naturalistas do século XIX, segundo as quais a maneira mais
eficiente de se garantir a proteção das áreas naturais consiste
em subtraí-las da convivência humana, e ainda, abalizar o quão
imperiosos são os estudos sobre as formas alternativas de manejo do
meio ambiente.
As
construções simbólicas e imagéticas sobre a “natureza
intocada” e as intervenções da sociedade humana no continente
latino-americano constituíram significativos argumentos para
justificar alterações no processo de apropriação do espaço
circunscrito ao Mar del Plata, na Argentina. A estratégia da
urbanização do litoral, tomada como um dos signos da modernidade
vivenciada pelo referido país, no final do século XIX, se inseriu
num projeto mais amplo de controle de fronteiras e territórios
subtraídos dos domínios indígenas. Essa problemática pode ser
detectada por meio de mapas cartográficos, pinturas, desenhos e
fotografias que registram a transformação nas concepções de
trabalho e lazer, nas representações da domesticação da natureza
emergentes no contexto da modernidade.
Aliás,
entre as demandas da modernização do continente americano, chama
especial atenção às formas como as elites latino-americanas
enfrentaram o desafio de debelar a natureza “selvagem” do
continente e legislaram em favor da normatização da apropriação
do que consideravam ser seus territórios.
Esse tema particularmente investigado por Zélia Lopes da
Silva resultou na produção de artigos (2005) e livros (1999)
devotados às percepções das elites brasileiras acerca da
natureza, do trabalho, do lazer, do direito e da política nas décadas
de 1920 e 1930. A autora, ao pesquisar os debates que circundaram a
preservação ambiental nos anos trinta, constatou que essa matéria
não se circunscreveu às visões utilitaristas da natureza como supõe
parte da bibliografia dedicada ao tema e salienta que a apreensão
da legislação ambiental (entre 1932 e 1937) é essencial para a
compreensão das diretrizes que nortearam as políticas ambientais
no Brasil (SILVA, 2005: 177-215).
Ademais,
argumenta que na segunda metade da década de trinta a sociedade
civil brasileira surpreendentemente já se mobilizava em torno dos
efeitos do “desmatamento predatório”, das “queimadas” e da
“descarga” de dejetos residenciais e resíduos industriais nos
rios e mares, discutindo avidamente a temática da destruição da
natureza. Tais questões eram disseminadas através do jornal Correio
da Manhã e de associações como a Academia Brasileira de Ciências,
a Sociedade Amigos das Árvores e a Sociedade Amigos de
Alberto Torres (SILVA, 2005:
186).
Ao
ocupar-se de uma análise comparativa entre as Constituições de
1934 e1937, a autora assegura que a segunda “avançou” em relação
à primeira, uma vez que, a Carta Magna de 1937 ampliou as
interpretações sobre as gestões entre a natureza e a economia,
tratando os bens naturais como “monumentos” da nação
brasileira. A defesa efetiva dos bens naturais e culturais do
país acabou sendo implementada através do Decreto-Lei no. 25/1937
referente ao tombamento. Cabe lembrar que mesmo assim, os termos
dessa proteção ainda se mantiveram restritos, conforme o artigo
primeiro da referida lei, aos seus valores paisagísticos e estéticos.
Passados cerca de cinqüenta e um anos, os bens enumerados no artigo
no. 216, da Carta Constitucional do país (1988), continuam
articulando as noções de patrimônio ambiental aos “conjuntos
urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico”.
Não
obstante, as transformações nos modos de ver e enfrentar a questão
ambiental, de certa forma, alteraram as perspectivas pautadas nas
concepções naturalistas do século XIX que propagavam o irrevogável
antagonismo entre a vivência humana e a conservação da natureza.
Outrossim, no século XXI, percebe-se a crescente tendência a
compatibilizar a existência de populações tradicionais em áreas
protegidas. Na atualidade, evidencia-se a emergência de um
ecologismo diferenciado, questionador do mito da “natureza
intocada” e capaz de apostar na possibilidade de integração
entre o homem e o meio, enquanto os movimentos sociais parecem cônscios
de que o “equilíbrio dos ecossistemas” deve pautar-se pela
defesa da diversidade e investir na luta pela gestão democrática
dos espaços territoriais e pelo adequado manejo das áreas de proteção
ambiental (DIEGUES, 1996: 141-151). Portanto, faz-se necessário
superar os discursos que tendem a confiar nas potencialidades
infinitas da tecnologia moderna, considerada apta a reverter
qualquer impacto das atividades humanas sobre a natureza.
As
noções de paisagem relacionadas ao patrimônio natural incorporam
não só as interferências do homem no ambiente natural, mas também
os modos de viver e de usufruir do espaço, contribuindo para produção
das chamadas “paisagens culturais”. Sob esse ângulo, as percepções
do próprio patrimônio se ampliam e alcançam acepções culturais
apreendidas como “formas de organização simbólica do gênero
humano” que se estendem a “um conjunto de valores, formações
ideológicas e sistemas de significação” que norteiam os
“estilos de vida das populações humanas no processo de assimilação
e transformação da natureza” (LEFF, 2000: 123).
A
qualidade de vida e o acesso aos bens culturais só podem ser afiançados
mediante a edificação de princípios e práticas devotadas ao
desenvolvimento sustentável da sociedade .
A partir deles, a implementação de medidas capazes de promover as
características singulares de cada região e suas potencialidades
certamente intensificarão o sentido de pertencimentos dos cidadãos
e fortalecerá os laços de solidariedade entre eles e o meio, de
modo a atender os imperativos da sobrevivência humana sem inibir o
acesso aos bens culturais e naturais às futuras gerações (MALLIER,
1997).
Por
fim, cabe reconhecer que embora haja um grande esforço das
entidades internacionais em relação à salvaguarda dos bens
culturais da humanidade, o respeito ao meio ambiente e as tradições
das mais diversas etnias e comunidades deve constituir a base dos
debates sobre a importância da preservação. Essa proposição
necessita ultrapassar os interesses econômicos e militaristas das
grandes potencias mundiais e das instâncias privadas e públicas,
deve assentar-se num grande pacto internacional capaz de
sensibilizar a todos os povos do planeta a promover o respeito à
diversidade e difundir o direito à diferença, às memórias, às
histórias e às identidades, no seu sentido mais amplo e plural.
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