por IDALICE RIBEIRO S. LIMA

Doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo

 

Mundialização e trabalho precário: não espantem o mercado ou quanto vale a sua mão?

 

Um hipermercado francês, instalado no Brasil, bateu o martelo: voilà a mão direita de um jovem de 22 anos vale 5 mil reais.[1] Esta foi a indenização paga a um jovem trabalhador do açougue da empresa, que sofreu um acidente de trabalho e teve sua mão triturada não somente pela máquina de moer carne, mas também pelo moinho do que muitos designam “democracia de mercado”. Ele é casado e tem um filho ainda bebê para criar. Não cruzou os braços: decidiu reagir e lutar para que ele e outros trabalhadores sejam tratados com  dignidade. Mas permanece a pergunta: que fazer com a parca indenização e o salário de 350,00 reais por mês, a ser pago pelo INSS?

Não sem razão os jovens franceses tomaram os espaços públicos de várias cidades da França e lutaram (e ainda lutam) contra a precarização de suas condições de trabalho encarnada no CPE, Contrato Primeiro Emprego, que teve seu fim anunciado após mais de dois meses de resistência. O governo francês, demonstrando os altos índices de desemprego e a necessidade de flexibilizar o mercado de trabalho, defendia-o com o argumento de que não somente milhares de empregos estariam em jogo, mas também o crescimento do país. Alguns discursos pró-CPE afirmavam que a França precisaria ser competitiva e, assim, inserir-se em condições mais favoráveis na globalização econômica, principalmente a partir de medidas como a redução do altíssimo custo do trabalhador francês. Ainda no calor das discussões sobre o CPE, o Le Monde publicou a análise de Eric Heyer, diretor adjunto do Departamento de Análise e Previsão do Observatório Francês das Conjunturas Estatísticas.[2] Segundo ele, em 2005, o crescimento econômico mundial alavancou as economias de quase todos os países, mas não as dos países africanos e da França. Diferentes segmentos da sociedade francesa apoiaram a regulamentação do CPE e defenderam a redução do desemprego, a necessidade de empresas mais agressivas no mercado global e o fim do digamos excesso de direitos trabalhistas e sociais. Desta perspectiva, seria preciso senão acabar, pelo menos diminuir o tamanho do Estado de bem-estar social (seguridade social, políticas de igualdade de oportunidades, políticas públicas que visam melhorias na qualidade de vida etc.) criado nas condições favoráveis do período após a Segunda Guerra aos anos 1970, as quais não mais existem, e implementar as reformas de ajustamento à economia global, coûte que coûte.  Alguns reconhecem a perversidade de tais medidas, mas acabam por reclamar a “modernização” e a “adaptação” aos novos tempos, ou seja, seria preciso romper com a idéia de que o Estado deve proteção a todos, pôr fim ao excesso de proteção aos trabalhadores, diminuir os investimentos sociais, implementar uma reforma tributária etc. Noutras palavras, precisaria o Estado mínimo, pois que está em jogo a lei do mercado mundial onde sobreviverão os países competitivos. Em um dos fóruns disponíveis na internet,[3] um jovem de 24 anos se posiciona em defesa do CPE e reprova a juventude “anti-tudo”, “reacionária” e “conservadora”, assim adjetivada porque não deseja a mudança da sociedade, nem aceita a dinâmica do Mundo. Em suas proposições, não se vive toda uma vida na mesma sociedade; também não é o Mundo que deve se adaptar aos franceses, mas os franceses que devem se ajustar ao Mundo. Em geral, alguns discursos acentuam a existência, na França, da principal expressão do mercado global: a sociedade de consumo; o compartilhamento de objetos, de mercadorias. Ou seja, consome-se roupas, eletrônicos e diversos produtos fabricados na Ásia, vende-se souvenirs de Paris made in China, conecta-se os computadores com os de diferentes partes do mundo, ouve-se músicas de alhures, assiste-se aos filmes estrangeiros etc., mas não se aceita as mudanças que esse “novo mundo” traz. Assim, não se poderia viver imerso na mundialização e, ao mesmo tempo, ser oposto à ela. Há ainda as falas que condenam as manipulações dos jovens pelos sindicatos e reclamam da baderna e da desordem social, os terríveis dérangements que mostram ao mundo uma péssima imagem da França.

Em contraposição, os jovens anti-CPE e outros segmentos sociais contestaram a política de geração de empregos a qualquer custo e propuseram uma reflexão coletiva na busca de melhores soluções para o problema do desemprego e da precariedade. Seria preciso, então, atentar-se à miséria do mundo e resistir às perversidades da mundialização coûte que coûte. Segundo um dos adversários do CPE, não se poderia enlear nos discursos da “França decadente e seu declínio”, ou seja, de uma sociedade que não está em seu tempo, e na inevitablidade dos imperativos da globalização.[4] Em outras falas também aparece a necessidade de contrapor-se às idéias de que se a França não implementar mudanças consentâneas à economia global, as empresas que geram quantidades significativas de  empregos se mudarão para outros países, onde é possível encontrar mão-de-obra barata e descartável e, assim, firmar contratos de trabalho tão precários quanto os que vigoram na China. Nos discursos de parte dos jovens anti-CPE, a mundialização aparece como algo desejável e aceitável somente se for fundada na solidariedade; num sistema de relações que favorecesse a maioria no mundo, os mais fracos. Se assim fosse, um trabalhador poderia receber um bom salário e ter condições dignas de vida tanto em Paris, quanto em Pequim. Numa aproximação de idéias, é como afirmou Zigmunt Bauman: “a qualidade de uma sociedade também não se mede pelo PIB, pela renda da sua população, mas pela qualidade de vida de seus membros mais fracos.”[5] Trata-se então de acreditar na possibilidade de um outro Mundo, onde as pessoas, de algum modo, sintam-se responsáveis umas pelas outras e não impere a “cultura do narcisismo”, do Eu, primeiro.[6]

Os argumentos contra o CPE são muitos, mas interessa-nos destacar o de que os jovens franceses não podem se entregar ao sacrifício no “altar da mundialização”, visto ser uma maneira de percebermos o deslocamento do Mundo indesejado, cujo conteúdo e forma são decisões irreversíveis tomadas por grupos econômicos hegemônicos, aparentemente inacessíveis e inatingíveis, e a retomada da dimensão do possível. Estariam os jovens anti-CPE “fora de lugar” no mundo, quando interpelam as perversidades do mercado global?

Sobre o estar “fora de lugar” Bauman afirma que o dissenso é “o único meio de resguardarmos nossa automia e liberdade. Estar ‘dentro’ mas parcialmente ‘fora’ é um meio de preservar o frescor, a inocência e a abençoada ingenuidade de visão. Quem está assim situado tende a fazer perguntas que não ocorreriam àqueles estabelecidos mais solidamente; tende a notar o estranho no familiar, o anormal no óbvio.” Sua idéia do móbil que leva à luta por uma sociedade melhor é comparada a “uma dor aguda e constante de consciência que nos impulsiona a corrigir ou a remover as variedades sucessivas de injustiças.”[7]  Assim,  estaríamos ouvindo não o ruído da boca dos jovens filhos de uma “velha caduca”, a França rejeitada nas representações de parte dos pró-CPE, mas a irrupção do silêncio, a tomada da palavra e a interpelação de uma política do trabalho que consideram injusta,[8] cujos desdobramentos também foram noticiados na Coréia do Sul, onde, segundo o jornal francês Libération, apesar da proibição da greve, os trabalhadores tentaram se mobilizar contra a votação de uma lei de contrato de trabalho temporário – flexibilidades que, pela lei, há tempos, vigoram no Brasil, onde nem por isso elevou-se a quantidade de empregos aos níveis desejados ou necessários.

O que os jovens anti-CPE parecem querer não é a sujeição inexorável à regulagem mundial, mas uma regulação concernente à ordem social desejada a partir do lugar (e sua historicidade) onde vivem e de onde falam. É como afirmou Milton Santos: “o mundo da globalização doentia é contrariado no lugar”, onde é possível “a extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário”.[9] Mas parece que, nos últimos tempos, andamos um tanto acostumados com o turbilhão da modernidade, que nos imerge num tempo a-histórico e, muitas vezes, como areia a arder nos olhos, impede-nos a percepção do possível. Não poucos jovens franceses se viram perplexos mediante as interpelações dos governantes e a busca de uma resposta ao problema do desemprego: e agora, o que têm a dizer? O problema é enorme: que soluções concretas podem nos trazer? Quem de nós teria respostas plausíveis?

Sim, o mundo muda e emerge uma “sociedade global de controle” que, parece, ainda estamos longe de definir seus contornos, sua configuração. O mercado “sem coração” torna-se tirânico e o Estado impotente, frágil. A democracia deixa de ser uma forma de vida social em que a cidadania é valorizada como o que mantém as pessoas juntas; dependentes, mas também responsáveis umas pelas outras, e afigura-se um artigo de luxo disponibilizado nas prateleiras do mercado mundial, a ser consumido pelo processo de consumo. Vivemos, dessa maneira, a privatização da existência social encarnada nas leis do mercado, na política em função da lógica do indivíduo, no desprezo pela coisa pública, na atomização da sociedade, na busca da felicidade individual e, dentre muitas outras coisas, na ausência de visão do futuro, no sentimento de impotência de sentir, pensar e fazer política. Sentimento que bem poderia ser traduzido pela divisa política de um jovem trabalhador brasileiro numa empresa call center, que é o trecho da letra de uma música de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar/Vida leva eu”.  Contentar-se da situação dada ou ceder-se aos sacrifícios impostos por políticas perversas e preterir a “baderna” social, os dispêndios de esforços e as incertezas que as lutas sociais trazem; o incômodo das manifestações públicas que infernizam o trânsito, bloqueiam passagens, paralisam projetos e trabalhos e não deixam fluir a ordem do mundo são alguns dos posicionamentos de jovens trabalhadores e outros atores sociais tanto no Brasil, quanto na França ou outros lugares do mundo. Enquanto se tem o que é seu, vai-se levando. Mas o que acontece quando se perde a fonte de sobrevivência, o emprego, a competência ou a saúde para trabalhar? Dá-se a corda para os indivíduos enfraquecidos, empobrecidos e aleijados enforcarem-se como manda a lei do mercado? Muitas vezes, as tentativas de soluções para os problemas sociais restituem as perguntas a serem respondidas. É como se a sociedade estivesse irremediavelmente perdida na escuridão do Mundo. Uns advertem que não basta apenas falar, indignar-se, mas é preciso, não sabem como, agir concreta e efetivamente; outros dizem que uma coisa é ser oposição, outra é ser governo e identificam a democracia como bloqueio à ação dos dirigentes; aqueloutros vêem o povo como massa informe e ignara, que, sem nenhuma formação econômica, seria incapaz de formular as soluções necessárias ou desejadas para economia do país, o que tornaria necessária a intervenção dos especialistas.

Há tempos, no entanto, especialistas de toda sorte põem-se a prescrever à sociedade o dever ser das pessoas e o como fazer, muitas vezes, afinados com a lógica dominante e insensíveis aos problemas da maioria ou dos mais fracos no jogo político. Assim, passam a intervir nas questões de vida e de morte no mundo. Da intimidade à sociabilidade; do como se alimentar ao como ser inteligente, querido ou carismático, existem inúmeros pequenos modelos científicos inculcados, os quais tanto procuram formar, quanto informar e enformar a vida das pessoas. Mas nem sempre elas se sentem concernidas nesses saberes, pois vivem, sentem e pensam. Percebem que a sociedade não se constitui de estruturas que existem e funcionam por si, menos ainda de uma lógica, de uma racionalidade que independe delas.  Fazem distinções dos problemas fundantes da política, o partilhável e o participável, não, talvez, com categorias de análise dos especialistas, mas com o saber de quem vive e sente, a cada dia, os problemas que lhes concernem, nas mais variadas dimensões da sociedade, seja a indignação de um jovem trabalhador e sua dor na mão engolida pela máquina, seja a resistência dos jovens franceses ao trabalho precário. E é com essa sensibilidade política que tanto resistem lá onde a meritocracia é contra-resistência nas regulagens da sociedade, quanto procuram abrir cenas políticas na grande cena do Mundo inclemente, onde a democracia saída das regulagens do mercado, e das desigualdades, suas crias, é ilusória e constitui-se de mecanismos que não fazem senão desrealizá-la. Trata-se, portanto, de uma lógica democrática que volta-se contra a própria democracia e impossibilita efetivamente a sua realização plena. Se como afirmou Fredric Jameson “o mercado como conceito, raramente tem qualquer relação com a escolha ou a liberdade, uma vez que estas nos são todas determinadas de antemão”,[10] conseguiriam as pessoas, em luta, as suas parcelas na aparentemente irresistível “democracia de mercado”?  

Talvez fosse mais plausível acreditar, como Marcuse, que se somos capazes de criar o inferno, também podemos criar o seu contrário.


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[1] SEVERO, Leonardo. No Carrefour de Uberlândia. Central Única dos Trabalhadores. São Paulo, 28 mar. 2006. Notícias. Disponível em < http://www.cut.org.br/publique>. Acesso em 11 abr. 2006.   

[2] La France est-elle compétitive?. Le monde, Paris, 11 abr. 2006. Disponível em:  <http://www.lemonde.fr>. Acesso em 14 abr. 2006. Sobre o crescimento da economia francesa há várias informações na revista eletrônica do OFCE, disponível em: <http://www.ofce.sciences-po.fr>.

[3] FORUM: CPE, precarieté, quelles réponses?. L’Humanité, Paris, [diversos comentários em diferentes datas]. Disponível em: <http://www.humanite.presse.fr>. Acesso em: 18 abr. 2006. Há ainda comentários e  informações em jornais e revistas: Le Monde Diplomatique, La Croix, Le Figaro, AgoraVox, L’Express, Le Point, Journal L’UNEF, Le Grand Soir etc.

[4] FORUM: CPE, precarieté, quelles réponses?. L’Humanité, Paris, 22 mar. 2006. Disponível em: <http://www.humanite.presse.fr> . Acesso em: 27 mar. 2006. (Intervenção de  François Guérin).

[5] Bauman, Zigmunt. Entrevista com Zigmunt Bauman. In: Tempo Social. Revista de Sociologia da USP/ Departamento de Sociologia. São Paulo: FFLCH, USP, v.16, n. 1, p. 301-325, jun. 2004. Entrevista concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. p. 313.

[6] LASCH, Christopher. La culture du narcissisme. Paris: Éditons Climats, 2000.    

[7] Idem, p. 314.

[8] GAUDEMAR, Antoine de. Irruption; Avec la génération qui crise. Libération, Paris, 14 abr. 2006. Disponível em:  <http://www.liberation.fr>. Acesso em: 20 abr. 2006. Sobre política, ver: RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. Trad. Angela L. Lopes. São Paulo: Editora 34, 1996.

[9] SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1997. p.36

[10] JAMESON, Fredric. O pós-modernismo e o mercado. In: ZIZEK, Slavoj (Org.).  Um mapa da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. p. 284.

 

por IDALICE RIBEIRO S. LIMA

   

 

 

 

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