por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Escola apostilada:  ilusão ou barbárie?

 

Fonte: http://www.digshop.com.br/detalhes.asp?produto=105O ensino apostilado foi adotado por 129 municípios do estado de São Paulo. É um número significativo se pensarmos que este estado possui 645 municípios.

A rede pública escolar destes municípios usa recursos federais para pagar convênios com empresas particulares que fornecem material e treinamento para professores a um custo de R$145,00 a R$260,00 por aluno/ano (Folha S.Paulo,30/01/2006), visando melhorar o ensino ou diminuir os números de fracasso na aprendizagem. 

Para especialistas em educação copiar o modelo de ensino apostilado das escolas particulares representa uma desvalorização do ensino público e abre caminho para a “mercantilização e massificação do conhecimento, transformando o ‘ensino’ em mais um produto da Indústria Cultural” (Cad. Cedes, ano XXI, nº 54, agosto/2001).

"Isso já ocorreu no Chile. As prefeituras, sobretudo das pequenas e médias cidades, privatizaram o ensino por pura falta de condições de mantê-lo com qualidade. E o processo de apostilamento foi um dos primeiros passos até que se chegasse à privatização", argumenta o presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Carlos Ramiro de Castro.

Paira a suspeita de que o mesmo interesse de investir no ensino apostilado não tem uma contrapartida de também investir na qualificação e remuneração dos professores. 

Entrevistas realizadas com pais e alunos revelam que eles preferem optar por um modelo de ensino de ‘grife’ que os levará a “vencer no vestibular”; entrar na universidade – a meta é a universidade pública – parece-lhes mais importante do que investir numa formação integral ou que valoriza a cidadania. As apostilas “importadas” de um colégio renomado – de grife – carregam o fetiche de ser a única salvação da escola pública. Uma escola apostilada adquire certo prestígio perante a “clientela” da classe média empobrecida evadida do ensino particular.

Parece vir somente de “fora” da escola a crítica contra o ensino apostilado, direcionada principalmente contra a ideologia do ”kits de ensino”, a supressão da liberdade de ação do professor, a anulação das diferenças de estilo, a tendência neoliberal da nossa educação, etc. Para além destas críticas, é preciso questionar: será que existe autonomia didática do professor que trabalha sem apostila? Será que o professor da escola pública ainda não apostilada tem liberdade de ação para experimentar novos métodos de ensino, mas de acordo com o seu estilo pessoal de trabalho?

O uso eventual de apostilas e o “ensino apostilado”

As apostilas foram usadas como meio fundamental de ensino pelos cursinhos pré-vestibulares, na década de 1970. Mas elas eram conhecidas, desde 1950, como um instrumento de ensino mais prático e moderno para a nova realidade da educação brasileira. No final da década de 1990, as escolas privadas adotaram as apostilas, preocupadas em atender pais e alunos ansiosos com a concorrência do vestibular.

“Apostilas são marmitas da cultura”, ironizava o professor Antonio Carlos Brugmaro, do cursinho Objetivo-SP, no início da década de 1970. Elas podem facilitar mais ou menos o processo de aprendizagem: pode funcionar “bem” quando o professor não fica restrito aos textos fragmentados e resumos, mas é uma ilusão pedagógica quando leva o aluno a imaginar que todo o conhecimento humano está impresso nos tais cadernos descartáveis. Faz parte da função do professor alertar ao aluno que nem “tudo” está ali para ser aprendido e discutido. Até porque as apostilas tanto podem ser usadas para ensinar conhecimentos de modo crítico e reflexivo como podem ser um instrumento de doutrinação dos alunos. Se não estimulam a atitude crítica elas funcionam mais como instrumento ideológico, ou seja, induz ao silêncio em vez de provocar a reflexão, a pesquisa e o debate democrático. Portanto, o bom ou mau uso das apostilas depende de alguns fatores: a seleção dos conteúdos, o modo como o professor conduz a aula, se ele estimula os alunos à aprender a selecionar as leituras necessárias para a complementação de sua formação intelectual, etc.

A escola cujo ensino é totalmente apostilado sabe que comete uma fraude pedagógica. Os resumões da literatura, por exemplo, em vez de estimular o aluno a ler o livro todo e ensiná-lo a fazer resenhas, engana ser conhecimento genuíno. Há escolas que até usam apostilas, mas seu ensino não se sustenta em apenas seguir as apostilas. “O que lá – na Escola de Aplicação da USP – não se tolera é o ensino apostilado...”, afirma Vanderlei Bispo (Jornal da USP, 20004).

O sistema público educacional do Brasil, tradicionalmente, fez opção pelos manuais, os livros didáticos e apostilas artesanais; mas, o “apostilamento” do ensino faz parte da logística e da estratégia da indústria e do comércio interessados em ampliar seus negócios usando as brechas da legislação para cooptar a rede pública de ensino. Portanto, a crítica não deve ser dirigida ao uso eventual de apostilas artesanalmente elaboradas pelo professor ou por sua escola, mas sim, à pressão da ideologia do mercado que faz da apostila um método único de saber e de poder; de ensinar tudo a todos como se estivéssemos no séc. 17, mas envoltos numa aura de ensino “moderno” ou “pós-moderno”. Isto é mais do ter uma intenção de enganar, é quase uma barbárie.

Ensino “neoconservador”

Especialistas em educação alegam que o “apostilamento” não passa de “um dos símbolos magnos dos tempos neoconservadores que rondam as práticas pedagógicas atuais” (AQUINO, 2006, p. 54). O uso de apostilas guiando o todo do ensino não dá espaço para o aluno produzir seu próprio conhecimento; também pode levá-lo a distorcer o aprendizado da ciência e boicota a formação do hábito de freqüentar a biblioteca, já que as apostilas industrializadas proporcionam um ensino falsamente enciclopédico, compartimentalizado, esquemático, resumido e sintético. Os resumões da literatura, sem dúvida, jamais podem substituir a leitura direta do livro. O aluno termina tendo que memorizar tais conteúdos de modo “bancário” (FREIRE,1975). No fundo, trata-se de uma visão da escola como se ela fosse uma empresa, que deve ser eficiente e obter resultados. 

Há que ser superado o ‘abstracionismo pedagógico’ (AZANHA, 1992) dos nossos cursos de pedagogia, mestrado e doutorado, reorientando os alunos no caminho da ousadia de fazer pesquisas sobre os efeitos concretos do ensino apostilado. O crescente número de municípios que adotam o modelo de ensino apostilado não prova ser este o melhor caminho para melhorar o ensino público ou privado. Enfim, faltam argumentos científicos consistentes pró ou contra o “apostilamento”.

Também, precisamos ser prudentes e coerentes em nossa crítica direcionada para esse tema, sobretudo, se temos telhado de vidro. Isto é, que moral temos para fazer uma crítica automática a este tipo de ensino se nossos filhos estudam numa escola “apostilada”? Afinal, devemos seguir o rebanho que optou por um ensino cujo resultado maior é entrar na faculdade ou devemos reinventar outro modelo pautado na valorização do ser humano ‘integral’?

 

Referências

AQUINO, Julio Groppa. Os desmandos do “apostilamento”. In: rev. Educação, Ano 10, n. 111, 2006. 

AZANHA, José Mário Pires. Uma idéia em pesquisa educacional. São Paulo: Edusp, 1992.

CADERNO Cedes. Ano XXI, n. 54, ago. 2001.

ESCOLA é inaugurada no Sonho Nosso. Disponível em: http://comerciodojahu.uol.com.br/noticiacompleta.php?codgrupo=27&codigo=85166> Acesso em: 31 jul. 2006.

FOLHA DE S. PAULO. 30 jan. 2006.

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

JORNAL DA USP. Como estudar para a vida. Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2004/jusp681/pag0607.htm> Acesso em: 31 jul.2006.

 

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

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