Escola
apostilada: ilusão ou
barbárie?
O
ensino apostilado foi adotado por 129 municípios do estado de São
Paulo. É um número significativo se pensarmos que este estado
possui 645 municípios.
A
rede pública escolar destes municípios usa recursos federais para
pagar convênios com empresas particulares que fornecem material e
treinamento para professores a um custo de R$145,00 a R$260,00 por
aluno/ano (Folha S.Paulo,30/01/2006), visando melhorar o ensino ou
diminuir os números de fracasso na aprendizagem.
Para
especialistas em educação copiar o modelo de ensino apostilado das
escolas particulares representa uma desvalorização do ensino público
e abre caminho para a “mercantilização
e massificação do conhecimento, transformando o ‘ensino’ em
mais um produto da Indústria Cultural” (Cad. Cedes, ano XXI,
nº 54, agosto/2001).
"Isso
já ocorreu no Chile. As prefeituras, sobretudo das pequenas e médias
cidades, privatizaram o ensino por pura falta de condições de mantê-lo
com qualidade. E o processo de apostilamento foi um dos primeiros
passos até que se chegasse à privatização",
argumenta o presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do
Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Carlos Ramiro de Castro.
Paira
a suspeita de que o mesmo interesse de investir no ensino apostilado
não tem uma contrapartida de também investir na qualificação e
remuneração dos professores.
Entrevistas
realizadas com pais e alunos revelam que eles preferem optar por um
modelo de ensino de ‘grife’ que os levará a “vencer no
vestibular”; entrar na universidade – a meta é a universidade pública
– parece-lhes mais importante do que investir numa formação
integral ou que valoriza a cidadania. As apostilas “importadas”
de um colégio renomado – de grife – carregam o fetiche de ser a
única salvação da escola pública. Uma escola apostilada adquire
certo prestígio perante a “clientela” da classe média
empobrecida evadida do ensino particular.
Parece
vir somente de “fora” da escola a crítica contra o ensino
apostilado, direcionada principalmente contra a ideologia do ”kits
de ensino”, a supressão da liberdade de ação do professor, a
anulação das diferenças de estilo, a tendência neoliberal da
nossa educação, etc. Para além destas críticas, é preciso
questionar: será que existe autonomia didática do professor que
trabalha sem apostila? Será que o professor da escola pública
ainda não apostilada tem liberdade de ação para experimentar
novos métodos de ensino, mas de acordo com o seu estilo pessoal de
trabalho?
O
uso eventual de apostilas e o “ensino apostilado”
As
apostilas foram usadas como meio fundamental de ensino pelos
cursinhos pré-vestibulares, na década de 1970. Mas elas eram
conhecidas, desde 1950, como um instrumento de ensino mais prático
e moderno para a nova realidade da educação brasileira. No final
da década de 1990, as escolas privadas adotaram as apostilas,
preocupadas em atender pais e alunos ansiosos com a concorrência do
vestibular.
“Apostilas
são marmitas da cultura”, ironizava o professor Antonio Carlos
Brugmaro, do cursinho Objetivo-SP, no início da década de 1970.
Elas podem facilitar mais
ou menos
o processo de aprendizagem: pode funcionar “bem” quando o
professor não fica restrito aos textos fragmentados e resumos, mas
é uma ilusão pedagógica quando leva o aluno a imaginar que todo o
conhecimento humano está impresso nos tais cadernos descartáveis.
Faz parte da função do professor alertar ao aluno que nem
“tudo” está ali para ser aprendido e discutido. Até porque as
apostilas tanto podem ser usadas para ensinar conhecimentos de modo
crítico e reflexivo como podem ser um instrumento de doutrinação
dos alunos. Se não estimulam a atitude crítica elas funcionam mais
como instrumento ideológico, ou seja, induz ao silêncio em vez de
provocar a reflexão, a pesquisa e o debate democrático. Portanto,
o bom ou mau uso das apostilas depende de alguns fatores: a seleção
dos conteúdos, o modo como o professor conduz a aula, se ele
estimula os alunos à aprender a selecionar as leituras necessárias
para a complementação de sua formação intelectual, etc.
A
escola cujo ensino é totalmente
apostilado sabe que comete uma fraude pedagógica. Os resumões da literatura, por exemplo, em vez de estimular o aluno a
ler o livro todo e ensiná-lo a fazer resenhas, engana ser
conhecimento genuíno. Há escolas que até usam apostilas, mas seu
ensino não se sustenta em apenas seguir as apostilas. “O que lá
– na Escola de Aplicação da USP – não se tolera é o ensino
apostilado...”, afirma Vanderlei Bispo (Jornal da USP, 20004).
O
sistema público educacional do Brasil, tradicionalmente, fez opção
pelos manuais, os livros didáticos e apostilas artesanais; mas, o
“apostilamento” do ensino faz parte da logística e da estratégia
da indústria e do comércio interessados em ampliar seus negócios
usando as brechas da legislação para cooptar a rede pública de
ensino. Portanto, a crítica não deve ser dirigida ao uso eventual
de apostilas artesanalmente elaboradas pelo professor ou por sua
escola, mas sim, à pressão da ideologia do mercado que faz da
apostila um método único de saber e de poder; de ensinar tudo a todos como
se estivéssemos no séc. 17, mas envoltos numa aura de ensino
“moderno” ou “pós-moderno”. Isto é mais do ter uma intenção
de enganar, é quase uma barbárie.
Ensino
“neoconservador”
Especialistas
em educação alegam que o “apostilamento” não passa de “um
dos símbolos magnos dos tempos neoconservadores que rondam as práticas
pedagógicas atuais” (AQUINO, 2006, p. 54). O uso de apostilas
guiando o todo do ensino não dá espaço para o aluno produzir seu
próprio conhecimento; também pode levá-lo a distorcer o
aprendizado da ciência e boicota a formação do hábito de freqüentar
a biblioteca, já que as apostilas industrializadas proporcionam um
ensino falsamente enciclopédico, compartimentalizado, esquemático,
resumido e sintético. Os resumões
da literatura, sem dúvida, jamais podem substituir a leitura direta
do livro. O aluno termina tendo que memorizar tais conteúdos de
modo “bancário” (FREIRE,1975). No fundo, trata-se de uma visão
da escola como se ela fosse uma empresa, que deve ser eficiente e
obter resultados.
Há
que ser superado o ‘abstracionismo pedagógico’ (AZANHA, 1992)
dos nossos cursos de pedagogia, mestrado e doutorado, reorientando
os alunos no caminho da ousadia de fazer pesquisas sobre os efeitos
concretos do ensino apostilado. O crescente número de municípios
que adotam o modelo de ensino apostilado não prova ser este o
melhor caminho para melhorar o ensino público ou privado. Enfim,
faltam argumentos científicos consistentes pró ou contra o “apostilamento”.
Também,
precisamos ser prudentes e coerentes em nossa crítica direcionada
para esse tema, sobretudo, se temos telhado de vidro. Isto é, que
moral temos para fazer uma crítica automática a este tipo de
ensino se nossos filhos estudam numa escola “apostilada”?
Afinal, devemos seguir o rebanho que optou por um ensino cujo
resultado maior é entrar na faculdade ou devemos reinventar outro
modelo pautado na valorização do ser humano ‘integral’?
Referências
AQUINO,
Julio Groppa. Os desmandos do “apostilamento”. In: rev.
Educação, Ano 10, n. 111, 2006.
AZANHA,
José Mário Pires. Uma
idéia em pesquisa educacional.
São Paulo: Edusp, 1992.
CADERNO
Cedes. Ano XXI, n. 54, ago. 2001.
ESCOLA é inaugurada no Sonho Nosso. Disponível em:
http://comerciodojahu.uol.com.br/noticiacompleta.php?codgrupo=27&codigo=85166>
Acesso em: 31 jul. 2006.
FOLHA
DE S. PAULO. 30 jan. 2006.
FREIRE,
Paulo. Ação cultural para a
liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
JORNAL
DA USP. Como estudar para a vida. Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2004/jusp681/pag0607.htm>
Acesso em: 31 jul.2006.
por
RAYMUNDO DE LIMA