Uma ação militar contra o Hezbollah tornou-se inevitável.
Mas será que esta guerra, que é justificada,
continua a se justificar sem considerar o tamanho da força usada?
________________________________________
Sem cheques em branco
TZALY RESHEF (*)
–
Yediot Aharonot 18/07/06
-
traduzido pelo
PAZ
AGORA/BR
–
Guerra
é morte. É luto. É mulheres lamentando seus filhos. É devastação.
É destruição. É um fenômeno humano horrível. A guerra traz
sentimentos de ódio, vingança, nacionalismo. Põe para fora o que
o ser humano tem de pior. Guerra é o oposto do desejo de viver, de
amar, de criar filhos, de criar.
Desde
que Israel foi fundado temos vivido isto. Já é difícil contar
todas as guerras, intervenções militares e operações militares
de vários tipos. Por quase 60 anos temos vivido pela espada. Ainda
assim, a população israelense acredita que a nossa nação busca a
paz, que a nossa mão está sempre estendida para a paz e que apenas
nossos inimigos sedentos de sangue nos forçam à guerra.
Teoricamente, é verdade: não existe um único israelense que não
jure que quer a paz. Na prática, o nosso auto-exame revela sangue.
Vezes
demais entramos em guerra por causa da falta de desejo de falar com
o outro lado, pela falta total de disposição em conversar, por
causa de nossa fé em que poderíamos obter soluções pela força.
Muitos
estrategistas já planejaram guerras envolvendo um plano político
especulativo. Foi assim que tentamos criar uma nova ordem no Líbano.
E é assim que estamos tentando derrubar o governo do Hamas na
Autoridade Palestina. Políticos israelenses aperfeiçoaram os
ensinamentos de Von Clausewitz de que a guerra é a continuação da
política por outros meios. Vezes demais nos voltamos para a guerra
porque tivemos medo de conversar e de fazer concessões. Fomos para
a guerra em função de fraquezas políticas, por não confiar
no relacionamento com o outro lado.
O
governo Olmert também é culpado de cometer este antigo pecado.
Olmert assumiu o cargo de primeiro-ministro e anunciou programas políticos
de longo alcance baseados no desejo de acabar com a ocupação.
Antes que pudesse esquentar seu assento, encontrou o Hamas eleito
para governar a Autoridade Palestina.
Em
vez de enxergar uma oportunidade para testar a possibilidade de
negociações com os palestinos de linha-dura, Olmert optou por
primeiro boicotar a AP. Depois, Olmert reuniu uma coalizão
internacional para colocar a AP em corner, a partir do que
o caminho para o uso da força ficou curto: força pelos
palestinos, disparo de Qassams, forte resposta nossa, morte de
muitas dezenas de civis e, a partir daí, o ataque do Hamas, a morte
de nossos soldados e o rapto de Gilad Shalit. Novamente nossa visão
foi curta. De novo acreditamos que poderíamos pressionar por soluções
usando a força. A operação militar em Gaza trará mais morte,
mais destruição, mais luto, mas não fará cessar as ações de ódio,
e não nos trará Gilad de volta.
No
Líbano, após incontáveis erros e a morte de mais de mil soldados,
tomamos há seis anos a decisão correta. Acabamos a ocupação do
sul, retiramo-nos até o último centímetro e recebemos a legitimação
internacional. Apesar disto, um grupo terrorista fundamentalista,
motivado por forças iranianas de destruição, morte e devastação,
e com o apoio da Síria, continuou preparando-se para a guerra
contra nós, continuaram a nos atacar, a desafiar a nossa própria
existência como Estado. Uma ação militar contra o Hezbollah
tornou-se inevitável. A questão é quando e como.
Não
sou um pacifista por dogma. Às vezes, em certas condições, e na
falta de outras opções, com o objetivo de proteger sua vida, sua
segurança, seu futuro, seu direito de viver em paz, não há
alternativa a não ser lutar. No Líbano, chegou-se a essa situação.
Mas será que esta guerra, que eu disse que é justificada, continua
a se justificar sem considerar o tamanho da força usada?
Será
que a destruição de todo um bairro de Beirute se justifica? Sem
haver claros alvos militares, é justificado bombardear
indiscriminadamente? A resposta é não. Mesmo quando a guerra se
faz necessária, ela apenas justifica a violência requerida. É
preciso cuidado com as vidas de civis e evitar destruição. As
cenas que são transmitidas todas as noites de Beirute levantam dúvidas: A
proporcionalidade está sendo mantida? Estamos tomando apenas os
passos necessários e justificáveis que com o mínimo impacto
possam eliminar a ameaça do Hezbollah? Ou estamos usando a
oportunidade para tentar provar nosso poder de dissuasão, agindo
como um vizinho louco que precisa ser temido?
À
medida que o tempo passa e escalamos nossas atividades o Líbano,
mais e mais pessoas em Israel e no mundo expressarão reservas, e a
justificativa original para a força perderá sua validade.
É
nosso direito lutar para eliminar a ameaça a nossos civis. É nosso
direito expulsar o Hezbollah e eliminar a ameaça aos nossos civis,
demandar responsabilidade internacional e dos libaneses pela calma
em nossa fronteira setentrional. Mas este direito não é um cheque
em branco para ações militares ilimitadas.