Príncipe
da Jordânia:
É
evidente para todos nós que a força militar não pode curar os
males de nossa região...
Uma
paz verdadeira precisa ser construída; não basta apenas a ausência
de guerras.
_______________________________________
Fazer
a Guerra ou Ganhar a Paz?
Príncipe
EL HASSAN BIN TALAL
Common
Ground News Service - Amã 01/08/2006
-
traduzido pelo PAZ AGORA/BR – www.pazagora.org
-
Mais uma vez, a região ressoa com os gritos
demasiadamente familiares de raiva, ódio, violência e sangue.
Parece que nos tornamos incapazes de desarmar a violência – sejam
seus perpetradores países ou entidades não-estatais. Onde está a
voz da razão ou o olho que enxerga além do imediato? Onde está o
ouvido preparado para ouvir?
Há pouco, na última cúpula mundial da ONU em setembro,
líderes mundiais acordaram, numa declaração histórica, que os
Estados têm a responsabilidade primordial de agir para proteger
suas próprias populações e que a comunidade internacional tem a
responsabilidade de agir quando esses governos deixam de proteger os
mais vulneráveis dentre nós.
Mas o que estamos assistindo hoje no Líbano, Palestina,
Iraque e no Afeganistão é nada menos que a punição daqueles que
não têm poder, gerando crises humanitárias de níveis
gigantescos, como é o caso do Líbano, com a destruição de sua própria
infra-estrutura básica para uma existência civilizada.
Nós somos desonestos no Oriente Médio. Enlouquecidos
por reivindicações procedentes ou não, cada um de nós clama por
paz enquanto todos, por trauma ou intransigência, nos tornamos
hipnotizados pela guerra.
Podemos influenciar nossos aliados na mídia desde aqui de longe, ou preencher
os requisitos dos fabricantes de slogans que não partilham de nosso
ar e da nossa terra, mas bem sabemos, você e eu, que a paz
duradoura apenas chegará quando olharmos um no olho do outro e
traduzirmos o ódio em palavras para darmos início a uma difícil
conversa.
O povo de Israel tomou uma decisão fácil, de não falar
com extremistas. Talvez a atitude mais corajosa seja se juntar aos
moderados e reconhecer que nossa tumultuada vizinhança necessita da
bravura da compaixão e a sabedoria do interesse próprio a longo
prazo para desfazer o estrago do militarismo cego. O tiroteio que
nos cerca torna ainda mais difícil ouvir as vozes de nossas
comunidades marginalizadas.
Honestamente, esta é a única maneira de salvarmos
nossos netos do medo e da asfixia da esperança, que conhecemos por
tanto tempo. Nossas cidades de Amã e Tel Aviv, Beirute e Damasco, são
próximas demais uma da outra para evitar um futuro entrelaçado. Nós,
os filhos de Abraão, podemos afirmar que temos diferentes culturas
e costumes, mas este pequeno maltratado pedaço de terra não pode
ser dividido por cercas e falsas fronteiras mentais.
Se o jogo político não nos permite admitir isso, se o
mapa de nossa região é distorcido pela obstinação de estratégias
equivocadas, então pelo menos tenhamos o bom senso para admiti-lo
um ao outro. A consciência de nossos reais interesses deve nos
compelir a promover a dignidade e a integridade humanas, fomentando
todo o espectro dos direitos humanos básicos, abrangendo desde os
direitos das crianças até o respeito completo às leis em níveis
nacional, regional e internacional.
Os eventos das últimas três semanas nos trouxeram para
a beira do abismo. Não são o resultado de um conflito interminável
e inevitável, mas da intransigência, do medo e da chocante falta
de criatividade dos líderes da nossa região e do resto do mundo.
A perda indiscriminada de vidas em todos os lados
polarizou nossas populações e mostrou o desprezo pela diplomacia.
O foco sobre as diferenças e a escalada da violência deixou de
lado as verdadeiras e perigosas questões que geram o declínio em
espiral de nossa região.
A ideologia da agressão é nutrida por uma crescente
falta de igualdade econômica, pouca mobilidade social, da negação
da segurança humana a muitos e exclusão da maioria silenciada. É
evidente para todos nós que a força militar não pode curar os
males da nossa região. Violência traz violência e o bombardeio em
massa de civis só pode resultar no crescimento ainda maior do uso
de táticas terroristas.
Tornou-se bastante claro que a atual crise requer a
aplicação de uma solução de duas camadas, caso desejemos ter
qualquer esperança de uma paz segura e estável para todos os
nossos cidadãos.
Os conflitos que dominam o dia-a-dia das nossas vidas
devem ser abordados em nível político, mas não podemos ignorar os
efeitos das ações militares sobre as questões humanitárias básicas.
Os direitos humanos são as primeiras baixas da Guerra, e a degradação
da dignidade humana na nossa região desfez avanços de gerações
em direitos de civis à proteção e bem-estar. O ódio e o trauma
criado por centenas de mortes e feridos e o deslocamento de centenas
de milhares de civis, somente podem ter repercussões violentas para
uma realidade democrática, pluralista e multi-cultural no Líbano.
As ondas de choque são sentidas por toda nossa região.
A contínua recorrência à violência para enfrentar
problemas criados por uma grosseira ignorância ao direito das
populações civis à existência e à segurança econômica, só
pode resultar em transferir para os extremistas de todos os lados o
poder de representar nossas queixas.
Uma Conferência para a Segurança e Cooperação
Regional deve ser a prioridade dos nossos líderes, para que a
segurança humana se torne realidade algum dia. Devem ser abertas e
exploradas avenidas diplomáticas e este árduo processo deve
incluir Síria e Irã. A guerra e suas trágicas repercussões
incluem a todos, e certamente um modelo para a paz deve considerar
tal inclusão.
Em memória do meu falecido irmão, o Rei Hussein e do
premier Yitzhak Rabin, devemos lutar por não fazer guerras, mas sim
por ganhar a paz.
A verdadeira paz deve ser construída, ela não é apenas
a ausência de guerra. Precisamos convocar imediatamente uma Conferência
pela Segurança e Cooperação, para conversar sobre o final dos
conflitos, desenvolver o entendimento regional, abordar a questão
da energia que está no coração de tanta instabilidade e acordar
uma abordagem multilateral para questões críticas como a proliferação
de armas de destruição em massa, junto a um conceito regional para
direitos humanos, prosperidade e segurança.
Idealmente, isto poderia levar a um Código de Conduta e
a um Fundo de Coesão regionais, que estabeleceriam princípios de
interesse comum, responsabilidade, transparência e a uma entidade
coletiva de defesa que reflita o fato de que a realidade hoje é de
interdependência. Políticas androcêntricas, onde o que importa são
as pessoas, são o jeito de fechar a brecha da dignidade humana.
Através de uma boa governança, deveremos dar força aos pobres e
despossuídos que encontram a expressão para suas frustrações em
ideologias extremistas.
A comunidade internacional deve comprometer-se com
firmeza a substituir políticas unilateralistas por estratégias
regionais com o objetivo final de redigir um Pacto de Estabilização
Regional abrangente. O quanto antes seja alcançada a cessação de
hostilidades e sejam instaladas forças de manutenção de paz em
ambos os lados da fronteira, mais cedo poderá começar uma luta
coletiva em direção a uma estabilidade regional
institucionalizada.
Não consigo enfatizar o suficiente a necessidade de usar
de diplomacia para suplantar a violência. Este apelo ecoa o de
Eisenhower: ‘a mesa, embora arranhada por frustrações passadas,
não pode ser abandonada pela agonia certa do campo de batalha’.