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por
SIMON SCHWARTZMAN
Diretor-Presidente do IETS – Instituto de Estudos
Sociedade e Trabalho e Professor da FGV (Fundação Getúlio
Vargas/RJ)
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Por um marco analítico para o estudo dos intelectuais
Estudos
sobre intelectuais, independentemente da definição que se dê a
este termo, tendem a trabalhar mais ou menos simultaneamente sobre
dois planos, o do condicionamento social e o do conteúdo específico
do produto do trabalho intelectual. A melhor tradição da
sociologia do conhecimento consiste, efetivamente, em tratar de
entender o condicionamento social em que a produção intelectual se
dá, para, em um segundo momento, examinar em que medida este
condicionamento explica/condiciona/ determina/influencia o
conhecimento ou produto que emerge. Um marco analítico para o
estudo dos intelectuais requer, assim, uma conceituação mínima a
respeito destas três coisas: quem são os intelectuais, quais seus
condicionamentos sociais, e que coisas produzem. Ainda que este
exercício classificatório já tenha sido feito incontáveis vezes,
vale a pena tentá-lo novamente, no contexto de uma perspectiva
comparada para o estudo de intelectuais na América Latina.
1.
Quem são
No
contexto de um projeto como este, talvez valha e pena reservar o
termo "intelectual" para pessoas que se dedicam à elaboração
de produtos que transcendem o âmbito de trabalho em que estes
produtos são elaborados. é um conceito mais restrito do que a noção
de que intelectuais são todos os que trabalham com o intelecto;
mas, como os exemplos abaixo sugerem, pode ainda não ser
suficiente.
Existem
algumas ocupações, como por exemplo a de escritor, artista ou
jornalista, que quase por definição supõem que o que é produzido
não se restringe ao ambiente de trabalho do produtor, mas se
orienta a um público mais amplo. Existem, no entanto, variações.
Um jornalista esportivo ou de crime dificilmente atua e é percebido
como um intelectual, enquanto que o comentarista político de um
jornal freqüentemente o é. Chico Buarque de Holanda é considerado
mais intelectual que Elza Soares. Alguns escritores tratam de
produzir e vender suas obras como quem vende cachorro quente (ou
mesmo filé mignon), e não entram na definição corrente de
"intelectual".
A
diferença parece estar no conteúdo ideológico (geralmente político,
mas eventualmente mais amplo) que possa vir ou não associado ao
trabalho relacionado com o grande público. Um cantor basta escrever
canções de protesto, ou simplesmente aproveitar sua imagem pública
para dar suas opiniões sobre questões de política cultural, ou
política em geral, para que já entre na categoria de intelectual.
Para um engenheiro é mais difícil, mas em algumas circunstâncias
existe a idéia de que a competência específica que deriva de seu
trabalho lhe permite ir mais além e falar, por exemplo, dos
problemas econômicos ou morais da sociedade em que vive.
Creio que isto nos dá elementos para uma definição mais
apropriada, para nossos propósitos, do que sejam intelectuais: são
pessoas dotadas de uma competência intelectual reconhecida, e que
procuram transmitir um conteúdo transcendente (político, ideológico,
ético, religioso), cuja validade tende a ser legitimada por seu
conhecimento especializado. Este conhecimento especializado pode ou
não corresponder à temática intelectual. O escritor pode propor
uma "visão de mundo" alternativa a partir de sua obra, e
um cantor/compositor pode recuperar, ou iniciar, uma tradição nova
do uso do som e do ritmo; mas o escritor pode também dar palpite em
economia, o cantor pode falar de política, a artista de teatro de
autonomia tecnológica, etc. São todas atividades intelectuais de
eventual repercussão em toda a sociedade.
Porque
se trata de muita gente, e de gente freqüentemente muito distinta,
pode ser importante tratar, analisar e comparar intelectuais dentro
de determinadas categorias. Por exemplo, aqueles que trabalham
diretamente com os "mídia"; ou os que se organizam em
"movimentos" literários ou culturais, freqüentemente ao
redor de uma revista; os que pertencem a um tipo determinado de
instituição, como as universidades; ou os que pertencem a um
determinado "campo" intelectual ou disciplinar:
escritores, ou sociólogos, ou médicos, ou físicos, ou músicos.
2.
Que pensam, ou dizem, os intelectuais.
Eu
sugeriria que existem duas posturas opostas e equivocadas no
tratamento das questões de conteúdo, e uma terceira postura
intermediária que me parece, naturalmente, a mais adequada.
O
primeiro - e mais tradicional - equívoco consiste em tratar de
discutir a produção intelectual em seus próprios méritos, e
tomar partido. Se os brasileiros discutem a "realidade
brasileira". ou se alguém sugere que a "verdadeira"
cultura nacional vem do Nordeste, o erro consiste em tratar de
entrar no debate, e tratar de demonstrar que determinada posição
ou proposta é certa ou errada. é muito difícil não fazer isto, já
que somos todos intelectuais e temos freqüentemente opiniões
formadas sobre estas coisas. Mas é importante dar um passo atrás,
e tratar de evitar que um estudo sobre intelectuais se
transforme em mais uma querela entre intelectuais. O que não
significa, evidentemente, que tal estudo não possa vir a ter conseqüências
político/ideológicas definidas.
O
segundo equívoco consiste em deixar de lado completamente as questões
de conteúdo, e tratá-las como meros subprodutos de outras
realidades e motivações mais profundas - interesses de classe,
luta pelo poder, etc. O resultado desta postura é a visão do
"intelectual sem idéias", que reflete muito freqüentemente,
acima de tudo, a escassez de idéias de quem os estuda.
Eu
defenderia como mais adequada uma postura de corte weberiano. Idéias
são para serem tomadas a sério, porque permitem compreender o que
move as pessoas e para onde podem ir as sociedades; e isto requer
tanto sua explicitação quando o estudo de seus condicionamentos e
conseqüências.
O
trabalho de explicitação equivale, para não sair de Weber, à
elaboração de tipos ideais, entendidos como "modelos" ou
arquétipos. Mais especificamente, caberia ver o que pensam e propõem
os intelectuais sobre coisas tais como:
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o Estado nacional, e sua relação com a sociedade;
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a idéia de Nação, e suas características;
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relevância, delimitação, fundamentos, etc.;
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a cultura em que vivem, em relação com seu passado histórico, com
outras culturas dentro ou fora de suas fronteiras nacionais;
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a sociedade em que vivem, suas virtudes e dificuldades, suas tensões
e mecanismos de integração, suas classes e segmentos;
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alguns valores e normas mais significativos;
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atitudes em relação à violência, à pobreza, à ciência
moderna, ao casamento, ao lugar das mulheres e dos homens, ao sexo,
à educação;
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como se vêm a si mesmos, que papel social crêem que desempenham ou
deveriam desempenhar.
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Para
cada um destes tópicos - e provavelmente para vários outros -
devem existir visões e modelos alternativos, que necessitam ser
elaborados e explicitados. Depois - ou ao mesmo tempo - haveria que
ver se não é possível colocar estas idéias ou visões de mundo
dentro de um marco interpretativo mais amplo. Um exemplo seria a
dicotomia sociológica tradicional entre "solidariedade orgânica"
vs. "mecânica", ou comunidade vs. sociedade. é possível
que polaridades menos genéricas sejam mais nítidas -
individualismo vs. coletivismo, estabilidade vs, mudança, autonomia
(individual, societal, grupal) vs. dependência ou interdependência,
etc. (Eu evitaria os termos esquerda vs. direita, conservador vs.
liberal, etc., porque estes são freqüentemente os termos do debate
intelectual, e se trata de ver o que há por detrás deles).
Last
but not least,
existe a dimensão histórica. Quais
são os grandes temas de uma época? Em um país, no mundo? Como
estes temas chegam/afetam aos grupos que nos interessam? Como
variam, com a História de cada um, categorias como a de Nação,
classe social, pátria, Deus, família, povo?
3.
Quem são? O contexto.
Seria
importante também evitar que a análise dos condicionantes sociais
da produção intelectual ficasse restrita às já veneráveis
discussões sobre classes, infraestrutura, intelectuais orgânicos e
inorgânicos, etc. Todos sabemos que classes sociais, seja como as
definamos, são importantíssimas; e sabemos também que idéias
podem (e freqüentemente estão) a serviço de alguém ou algo, ou
pelo menos contribuem para determinados fins, imaginados ou não.
Mas os conceitos de classe social são demasiado genéricos para o
que nos interessa; e seria importante que a análise dos
condicionantes/determinantes fosse analiticamente separada da avaliação
das conseqüências.
Uma lista incompleta de condicionantes sociais é a seguinte:
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localização institucional dos intelectuais e as características
desta instituição (universidades? clubes? Igrejas? São
permanentes? "Totais", no sentido de Goffman?);
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base profissional-cognitiva. Qual a área de conhecimento ou atuação?
Especializada ou múltipla? Dentro de que tradição intelectual e
cultural? Quem foram os fundadores? Quais as influências, modelos,
paradigmas?;
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estrutura interna: indivíduos, grupos, grandes grupos? Qual é a
dinâmica interna? Padrões democráticos, participativos, ou
"gurus" e lideranças carismáticas? Como se entra, e como
se sai? Como se sobe?;
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Com quem se compete? Com a velha geração? Com correntes similares
na mesma faixa? Com o "estrangeiro", ou o gringo? Com o
Sul (ou o norte?) Com o atraso?
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Papéis sociais e suas transformações: intelligentsia,
tecnocracia, profissões liberais e técnicas especializadas,
sindicalização e massificação; sua relação com ascensão e
queda de prestígio social;
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base de sustentação financeira: o Estado, o sistema educacional, a
indústria do livro, os mass-mídia.
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a quem se dirige: ao "povo"? à classe? à elite? à Nação?
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4.
Conseqüências.
É
aqui que a coisa se torna mais difícil, e também mais
interessante. A dificuldade é que, normalmente, ideologias e
valores tratam de conduzir a sociedade a alguma parte - mas, por
definição, ainda não se chegou lá, e por isto avaliações
objetivas são impossíveis.
Mas
é também pela análise das conseqüências (muito mais do que das
intenções, já que presume-se que todos são honestos e trabalham
pelo bem comum) que podemos nos aproximar de uma efetiva avaliação
dos conteúdos, coisa a respeito da qual advertimos no ítem 2
acima. Creio que é aqui que cabe ao intelectual que estuda
intelectuais retomar sua condição de parte do objeto estudado, e
apresentar-sua própria utopia ou contra-utopia, e criticar as dos
demais. A vantagem de fazer isto agora, e não no começo do
processo, é que já existirá, presumivelmente, uma análise que
permita, primeiro, entender melhor o ponto de vista do outro; e
depois, ver como cada qual se insere em uma época e um contexto
social; e, finalmente, poder colocar as propostas/sugestões/ideologias
em um marco mais amplo, comparativo e analítico, a partir do qual o
que à primeira vista aparece como único e irrepetível termina
incorporado a uma experiência histórica mais ampla, de qual alguns
ensinamentos é sempre possível extrair.
A
análise das conseqüências é, em resumo, a etapa mais
especificamente normativa da análise. Ao proporem suas visões de
mundo, ao convencerem governos e populações inteiras de que a
realidade é como dizem e que os caminhos que apontam são os mais
corretos, os intelectuais assumem uma enorme responsabilidade ante a
sociedade a que pertencem. Uma sociologia dos intelectuais que se
furtasse a avaliar este papel não passaria de um exercício fútil,
que não vale a pena ser feito.
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por
SIMON
SCHWARTZMAN
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