As
origens políticas do marxismo de João Bernardo (Portugal/França:
1965–1974)
Proponho
neste artigo uma breve descrição da trajetória política e ideológica
de João Bernardo no período de 1965 a 1974 quando do seu
envolvimento nas lutas políticas anti-salazaristas em Portugal,
como estudante de História (1965), militante do Partido Comunista
Português (PCP) (1965-1966), e como organizador dos Comitês
Comunistas Revolucionários (CCR) (1970-1974) a partir de Paris
quando ali esteve exilado (1968-1974). Pela amplitude das questões
específicas que o tema tem como imanentes, neste artigo limito-me a
estabelecer uma descrição que procura conectar os fatos políticos
da trajetória do pensador português com o desenvolvimento e afirmação
de seu projeto teórico que em percurso já de quatro décadas
afirma-se hoje como um dos mais vigorosos projetos teóricos do
marxismo contemporâneo. Ressalve-se o caráter provisório da minha
argumentação, já que o projeto de pesquisa que desenvolvo sobre a
trajetória política e o conjunto da obra do autor encontra-se
ainda em estágio inicial de recolha de material e entrevistas que
faço com alguns dos muitos personagens que junto com João Bernardo
estiveram envolvidos nas lutas anti-salazaristas, principalmente os
que se envolveram na organização dos CCR, e os que participaram
das práticas autogestionárias em torno da experiência do coletivo
COMBATE (1974-1978), desse
modo, os aspectos que enfatizarei nesta oportunidade, para o que
propõe este dossiê temático, ressalvando-se o seu caráter
descritivo, centrar-se-ão no momento inicial de definição do
projeto teórico-político de João Bernardo, daí o recorte cronológico
circunstanciar-se ao período 1965-1974.
João
Bernardo Maia Viegas Soares nasceu em 1946 na cidade do Porto em
Portugal. Em 1965, acusado de agressão ao Professor Paulo Cunha,
Reitor da Universidade de Lisboa, foi expulso de todas as
universidades portuguesas por um período de oito anos.
Era militante do PCP, mas nesse momento (1965-1966) já estava sob
influência do programa comunista dissidente desenvolvido pelo
“Camarada Campos” (Francisco Martins Rodrigues), programa
apresentado na revista REVOLUÇÃO POPULAR (editada por Martins Rodrigues) e que teria como
corolário a organização maoísta do CMLP (Comitê Marxista
Leninista Português). João Bernardo esteve sob influência do
programa de Martins Rodrigues, mas não participava da organização
do CMLP, manteve-se vinculado ao PCP (até 1966, quando o abandona)
e diante da heterodoxia do programa de Martins Rodrigues, organizou
no período de 1967 a 1969 um programa teórico político em defesa
de um “maoísmo libertário” que teve como corolário
institucional a organização dos CCR, práticas que o levaram ao
rompimento político definitivo com o PCP e ao rompimento ideológico
com o CMLP.
Se pudesse descrever de
modo simplificado as principais matrizes teóricas e políticas do
comunismo português do período, poderia descrevê-las sob o acento
das intervenções de Álvaro Cunhal (PCP), de Martins Rodrigues (CMLP)
e de João Bernardo (CCR). Foi no exílio, em Paris, que João
Bernardo (sob o pseudônimo de “Tiago”), organizou os CCR e lhes
deu uma marca teórica emblemática para o marxismo português, essa
marca está exposta numa série de artigos – “‘À
esquerda de Cunhal’ todos os gatos são pardos” – que
escreveu no VIVA O COMUNISMO,
periódico dos CCR.
Em paralelo a esse debate programático organizacional, o autor dava
os primeiros movimentos ao seu modelo teórico marxista heterodoxo,
modelo esse que haveria além de assinalar seu rompimento com as
diretrizes do stalinismo pecepista e com o maoísmo do CMLP, também
demarcaria já em fins de 1972 os indicativos de ruptura com o maoísmo
dissidente dos CCR. De um leninismo radical que defendera como
modelo de prática política ideal junto aos CCR, no período de
1973 a 1974, por causa dos resultados teóricos do esforço
investigativo que envidou sobre a política comunista portuguesa, a
política institucional do comunismo internacional (em especial o do
modelo chinês) e fundamentalmente sobre as novas composições das
classes dominantes portuguesas no momento do governo de Marcelo
Caetano, João Bernardo aponta o seu rompimento com a tradição
marxista-leninista ortodoxa, inclusive a sua e desenvolverá então
as bases teóricas de um comunismo heterodoxo de práticas
institucionais autogestionárias. A primeira versão global desse
novo modelo teórico do autor aparece em 1975, quando publica o
livro Para Uma Teoria do Modo
de Produção Comunista,
o documento maior do movimento autogestionário português
representado nas práticas do coletivo reunido em torno do jornal COMBATE .
Ao
longo da década de 1970 em trabalho que desenvolve até o presente
momento, o autor deu seqüência às suas pesquisas como
investigador autodidata realizando-as em algumas das principais
bibliotecas européias, em França, Inglaterra, Itália, Espanha e
Portugal. Esse trabalho de pesquisa teve como resultado nos últimos
anos um conjunto de obra teórica e obra historiográfica
radicalmente coerente na sua integralidade com as práticas teórico-ideológicas
desenvolvidas nas lutas políticas das décadas de 1960 e 1970, não
que isso signifique que o autor continue a defender o mesmo programa
de antes, ao contrário, o que quero afirmar é que o autor mantém
ao longo das últimas décadas a mesma atitude
intelectual, isto é, revisa e amplia as bases conceituais do modelo
teórico anticapitalista que o seu marxismo heterodoxo propõe como
interpretação das formas e práticas institucionais do capitalismo
na sua experiência contemporânea de capital transnacionalizado. É
característica fundamental desse conjunto de obra, a constante
revisão – atualização pontual de alguns aspectos programáticos
que, no entanto, não lhe altera o estatuto fundamental: manter a
atualidade do programa teórico-político do comunismo marxista
autogestionário, programa esse, centrado no conceito de exploração
e na redefinição (junto a Marx) do estatuto teórico da mais-valia, da lei do valor
nas práticas recentes do capitalismo e é nesse sentido que o autor
procura desenvolver uma agenda política sempre atual que desvele as
contradições sociais imanentes às práticas institucionais da
organização da exploração capitalista e essa agenda demarca-se
pela defesa intransigente das lutas autonomistas dos trabalhadores
oriundas dos laços de sua solidariedade germinados dessas práticas
anticapitalistas, principalmente aquelas que se antepõem ao
capitalismo dos sindicatos, uma das expressões máximas do
capitalismo de gestores. Como resultado dessa operação teórico-política
determina-se como central ao conjunto de seu pensamento e obra a
caracterização histórica das práticas políticas dos GESTORES
como classe dominante na lógica da reprodução capitalista, classe
dominante que se define historicamente no capitalismo ao lado e
depois se sobrepondo da outra classe dominante: a Burguesia, isto
porque, afirma a obra do autor, os Gestores são a expressão
institucional do controle e organização da exploração global
capitalista sobre a força de trabalho assalariada. Assim, o
capitalismo dos gestores e a conseqüente, porque obrigatória,
redefinição do estatuto marxista da Lei
do Valor, são os emblemas-síntese da originalidade programática
do marxismo de João Bernardo e some-se a esses aspectos estruturais
de sua obra a sempre permanente busca por uma reflexão epistemológica
que se defina como modelo operacional de investigação global para
as Ciências Sociais e Ciências Humanas em geral, centrada na
explicação de como se estruturam e definem as práticas ideológico-institucionais
dos indivíduos e das classes sociais na reprodução societária do
capitalismo contemporâneo.
Numa
rápida descrição do conjunto da obra é possível verificar-se a
coerência e articulação que lhe é imanente em desenvolvimento já
com mais de três décadas de publicações. O autor tem diferentes
tipos de publicações, diferentes pelos propósitos políticos e
pedagógicos do alcance proposto na conjuntura da edição. Há títulos
de resposta conjuntural
que colocam em prática analítica o modelo teórico desenvolvido
com mais detalhamento e rigor em outros títulos. Exemplos de
trabalhos de conjuntura, de resposta política do intelectual em
intervenção crítica aos problemas do capitalismo que lhe é
contemporâneo, são os livros: 1) O Inimigo Oculto. Ensaio sobre a luta de classes. Manifesto anti-ecológico
(Porto: Afrontamento, 1979); 2) Crise da Economia Soviética (Coimbra: Fora do Texto, 1990); 3) Transnacionalização
do capital e fragmentação dos trabalhadores. Ainda há lugar para
os sindicatos? (São Paulo: Boitempo, 2000); e 4) Democracia
Totalitária – teoria e prática da empresa soberana (São
Paulo: Cortez, 2004). Outros títulos marcam-se como obras de investigação historiográfica, é o caso da monumental trilogia
– Poder e Dinheiro. Do Poder
Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial. Séculos V-XV (03
volumes) (Porto: Afrontamento, 1995, 1997 e 2002). Esta trilogia
tem tradução prevista para o inglês sob a coordenação do grupo
editorial da revista britânica Historical
Materialism, editada pela London School of Economics. O outro título
historiográfico, sem similar na Historiografia de língua
portuguesa pela sua colossal pesquisa bibliográfica e envergadura
de propósitos analíticos é – Labirintos
do Fascismo. Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta (Porto:
Afrontamento, 2003). Nestes trabalhos a originalidade do modelo
marxista do autor mantém-se com todo o seu vigor. Por exemplo, na
última obra citada, o autor apresenta em centenas de páginas a
demonstração historiográfica da ação de classe dos gestores ao
longo do século XX, se em outras obras a discussão conceitual
sobre os gestores como classe dominante no capitalismo aparece como
estruturação teórica no embate conceitual interno do marxismo
contemporâneo, neste livro, ao longo de suas 959 páginas o que se
observa é a prova histórica da materialidade da ação de classe
dos gestores. O autor preparou esse livro ao longo de pelo menos
duas décadas, seu rascunho, seu desenho inicial já está apontado
num ensaio que compõe uma das partes do livro – Capital,
Sindicatos, Gestores (São Paulo: Vértice, 1987). Este livro
caracteriza um outro tipo de publicações do autor, aquelas obras
resultantes de cursos que
ministrou no Brasil ao longo dos últimos vinte anos.
A esse “tipo” de publicação soma-se o livro: Estado. A silenciosa multiplicação do poder (São Paulo:
Escrituras, 1998). A estes três “tipos” de publicações
acrescenta-se aquele conjunto de títulos que demarcam o núcleo
duro, a centralidade do projeto teórico político do marxismo de João
Bernardo, refiro-me aos trabalhos de epistemologia, em obras como: Marx
Crítico de Marx. Epistemologia, Classes Sociais e Tecnologia (03
volumes) (Porto: Afrontamento, 1977) e Dialética
da Prática e da Ideologia (São Paulo: Cortez; Porto:
Afrontamento, 1991).
Nestes trabalhos o modelo teórico do autor está configurado na sua
estrutura básica, nos fundamentos epistemológicos de um marxismo
radicado em articulada proposição heterodoxa porque asseverado por
diálogo de revisão e contestação programática direta com os
fundamentos da matriz marxiana e dos clássicos do marxismo
contemporâneo. No entanto, é no livro Economia dos Conflitos Sociais (São Paulo: Cortez, 1991) que o
modelo teórico-político do autor apresenta-se na sua totalidade,
esta é a obra máxima do marxismo de João Bernardo. Os elementos
de fundamentação epistemológica, a caracterização da economia
política capitalista nos seus fundamentos básicos – Condições
Gerais de Produção, Unidades
de Produção Particular, a lei do valor e a reprodutibilidade
das taxas da mais-valia relativa, as formas tecnológicas de exploração
dos tempos produtivos, a função do dinheiro, as classes do
capitalismo (burguesia, gestores, proletariado), as formas das lutas
anti-capitalistas nos modelos dos marxismos das forças
produtivas e no das relações
sociais de produção, os movimentos caracterizadores do Estado
no Capitalismo (nas teses do Estado Restrito e do Estado
Amplo), em suma, nessa obra o sentido macroestrutural da
totalidade conceitual do marxismo do autor aparece em toda a sua
plenitude .
Apresentada
assim, em rápidas palavras, a trajetória intelectual de João
Bernardo, a seguir, passo a caracterizar os “primeiros passos”
do modelo marxista do autor, e o faço resgatando alguns aspectos
dos seus escritos políticos apresentados quando da organização
dos CCR e o debate imanente que os mesmos carregam diante das
premissas do marxismo português que lhe era contemporâneo: as
intervenções de Álvaro Cunhal (PCP) e as de Francisco Martins
Rodrigues (CMLP).
A
defesa do método marxista, a defesa do materialismo dialético,
como arma obrigatória do revolucionário comunista, a ênfase em
tal termo justifica-se contra o oportunismo e o dogmatismo que
alimentava o programa do PCP, aspecto que segundo o documento de
fundação dos CCR,
seria o principal responsável pelo “atraso ideológico” em que
permanecia o proletariado português, situação originada pela “forte presença de ideários pequeno-burgueses”, manifestados
por Álvaro Cunhal, em exemplos como o da assertiva dos burgueses
“honrados”. A grande meta dos CCR era combater esse atraso ideológico,
combater o revisionismo “frentista” republicano do PCP. Junto às
perspectivas “republicanas” pequeno-burguesas do PCP, o
documento inaugural dos CCR manifesta também a sua discordância
com as possibilidades para Portugal de práticas políticas do
modelo castrista-guevarista, porque a importação do mesmo
implicaria, entre outros problemas, no “foquismo”, que para os
CCR significava uma prática política insurrecional distante das
concretas práticas políticas revolucionárias do proletariado
português, essa seria uma experiência de ação prática
igualmente pequeno-burguesa. No mesmo documento manifesta-se, de
modo axial, a diferença política dos CCR com o CMLP, os CCR
reconhecem o importante papel teórico do CMLP, já que esta agremiação
fora a responsável pela “primeira
tentativa de análise científica da realidade portuguesa e de
interpretação comunista dessa realidade” (DPCCR, p. 03).
Essa “interpretação comunista” apareceu na série de artigos
escrita por Francisco Martins Rodrigues (“Camarada Campos”) nos
seis números da revista Revolução
Popular.
Enfim, com a ênfase na formação intelectual do militante a
principal proposta indagada pelos CCR era a de acabar com o “seguidismo”,
a falsa disciplina de caserna, a mentalidade de sargento “comum
ao partido de Cunhal e a grupos que se dizem marxistas-leninistas”
(DPCCR, p. 05). Para os CCR o militante comunista com o uso do método
marxista deveria saber a analisar a realidade histórica e a
discuti-la e assim, saber “criticar
e autocriticar-se” diante das realidades dos fatos
conjunturais a que estivesse envolvido, só assim se poderia
consolidar uma organização comunista disciplinada. Esse foi um dos
principais propósitos do jornal VIVA
O COMUNISMO!, isto é, apresentar-se como um jornal teórico de
reflexão marxista sobre os principais problemas do capitalismo,
essa prática teórica contrária aos “vícios” dos modelos
comunistas então criticados foi levada a seu termo de modo
intransigente por João Bernardo “Tiago” e a série de artigos
(não assinados) “‘À
esquerda de Cunhal’ todos ... afirma-se como um expressivo
exemplo desses propósitos, os artigos não apenas recuperam a
historicidade dos fatos políticos do comunismo português daquele
período, como afirmam ainda o sentido rigoroso da aplicação do
materialismo dialético à realidade estrutural do capitalismo
português, principalmente no que se refere às mutações de classe
acontecidas no campo da exploração em fins da década de 1960. As
premissas dos CCR radicavam-se num leninismo “puro”, os CCR
enquanto comitês deveriam nas suas zonas de influência afirmar-se
como vanguarda operária, a ampliação dos comitês e a crescente
mobilização desse trabalho prático de autonomia teórica e rigor
com a organização operária é que poderia desencadear o processo
de conversão num Partido, só assim “os
Comitês Comunistas Revolucionários se poderão converter no
Partido Comunista Revolucionário” e “só
na fase de partido” é que a organização dos CCR poderia então
“desencadear e conduzir acções
de massas”.
Em
linhas gerais, então, qual poderia ser a marca da prática política
de João Bernardo no contexto 1965-1969 e 1970-1974? Antes de se
firmar historicamente um autêntico partido marxista-leninista de
massas, a necessidade dos comitês – os CCR, e com esses, a reflexão
teórica sobre a realidade histórica para assim se conseguirem os
instrumentos teórico-práticos da verdadeira luta de classes. Os
CCR teriam a função de preparar a vanguarda que organizará o
futuro Partido Comunista. Contudo, nesse processo, um fato: dessa análise
histórica das práticas gestoriais do comunismo internacional
(principalmente o modelo de Capitalismo de Estado Chinês), do
capitalismo e da experiência capitalista portuguesa em particular
(destacando-se as mutações originadas com o “marcellismo” –
hegemonia do capital financeiro e a ascensão da tecnocracia
industrial e financeira [aqui se definem para o autor os fundamentos
teórico-históricos para a caracterização dos Gestores como
classe dominante capitalista] como classe), dessa análise global, o
modelo teórico derivado, paradoxalmente, impossibilitava a
continuidade do projeto político de bases marxistas-leninistas,
porque, constatava o autor, que as mutações, as práticas de
organização da exploração capitalista ao asseverarem a
tecnocracia como classe dominante, o princípio organizatório da
luta operária centrado no partido acabaria por reproduzir na
verticalidade de suas hierarquias os mesmos procedimentos gestoriais
tecnocráticos, assim, a busca por um leninismo radical, levou o
autor e facções dos CCR a romper com o próprio leninismo de
origem e afirmar o princípio autogestionário das lutas sociais
anticapitalistas.
Das posições contrárias à política de Cunhal e do PCP – a política da unidade de todos os portugueses honrados, do levantamento
nacional antifascista sob hegemonia da burguesia nacional de
onde sairiam os “homens honrados”, da posição contrária aos
limites organizacionais do CMLP, ainda que de acordo com o programa
do “Camarada Campos”, das premissas de um método
marxista-leninista autêntico, na busca do militante revolucionário
ideal, João Bernardo descobre na realidade dos fatos por ele
analisada, a impossibilidade de uma prática política partidária
centralizada num partido comunista, impossibilidade essa afirmada
pela percepção da nova realidade de classe que Portugal
apresentava com Marcello Caetano, pela configuração das novas
formas de organização da exploração da força de trabalho. Com a
marca inicial da dissidência maoísta dos CCR no campo da ortodoxia
marxista-leninista portuguesa, as práticas institucionais de João
Bernardo levam-no à “superação”, à ultrapassagem dos limites
históricos do programa inicial dos CCR. O marxismo de João
Bernardo sempre teve a marca da atitude heterodoxa, a partir do método
marxista enfrentar os cânones da tradição ortodoxa, inclusive as
bases matriciais da obra de Marx, e na conjuntura da luta
antifascista em Portugal, mesmo quando defendia uma ortodoxia
radical sempre esteve com as suas práticas a afirmar a marca da
ruptura heterodoxa, com as suas práticas teórico-políticas
ultrapassava e “superava” os limites estruturais do
“seguidismo” institucional ortodoxo e afirmava – como ainda
afirma – a única possibilidade revolucionária concreta para a
classe operária: é das práticas solidárias da luta autonomista e
do controle cotidiano das bases produtivas globais de sua
sociabilidade que se institucionalizarão de modo efetivo as
possibilidades do comunismo como modo de produção.
por
JOÃO
ALBERTO DA COSTA PINTO