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por
JOÃO FREIRE
João Freire é sociólogo,
Professor Catedrático Aposentado de Sociologia do ISCTE -
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e das Empresas,
Lisboa, Portugal.
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Os
capitalistas do saber
Estamos
na época em que se procuram e descobrem aqueles que, marginais e
excêntricos no passado, anteciparam intelectualmente as nossas
preocupações e fantasmas de hoje. Makhaiski é um desses.
É um franco-atirador do movimento operário que, bem cedo, criticou
vigorosamente o socialismo de que esse mesmo movimento era portador.
Makhaiski
é polaco, filho de um pequeno empregado, nascido em 1866.
Estudante, embrenha-se na atividade revolucionária, conhece o exílio,
a prisão e a deportação para a Sibéria. É aqui, por volta do
virar do século, que tem oportunidade de ler, a fundo, a literatura
socialista e que forja o essencial das suas críticas ao marxismo.
As
idéias-base do seu argumentário são essencialmente quatro. A
primeira é a de que os objetivos propostos pelo movimento operário
não mudarão radicalmente - como, na sua opinião, seria necessário
fazê-lo - a condição social do proletariado. A exploração, a
dependência e o domínio político continuarão a subsistir, embora
sob formas modificadas. “Com a supressão dos capitalistas
privados, a classe operária moderna, os escravos contemporâneos, não
deixam de estar condenados a um trabalho manual durante toda a sua
vida. Por conseqüência, a mais-valia nacional por eles criada não
desaparece, mas passa para as mãos do Estado democrático”,
escreve Makhaiski em 1898.
A
segunda idéia-chave é a de que existe uma nova classe em ascensão,
interessada na expropriação da burguesia, que, catapultando-se no
movimento do operariado, vai procurar estabelecer a sua própria
dominação de classe a viver da exploração do trabalho de
terceiros. Esta classe é composta de trabalhadores qualificados e
competentes, de origem recente (técnicos, engenheiros, cientistas,
pessoal gestor e administrativo), que vêm juntar-se aos
intelectuais tradicionais (advogados, jornalistas, professores e
outros literatos). Makhaiski escreve: “Cada geração de
assalariados privilegiados, da intelligentsia,
absorve no momento da sua educação uma parte da mais-valia
nacional É assim que ela se torna uma força de trabalho 'altamente
qualificada’, de ‘grande qualidade’ e de ‘valor superior’.
Isto significa que é justamente porque absorveram uma certa massa
de mais-valia que eles adquirem, conformemente à lógica da
pilhagem, o direito de receber posteriormente, sob a forma de um salário
atribuído pela educação recebida, o produto não pago do trabalho
de outrem, do labor do proletariado”. Como se vê, o autor aplica
uma análise econômica e social marxista para denunciar a
voracidade e o apetite de poder da “nova classe”.
Da
crítica aos escritos de Marx, nomeadamente sobre o “trabalho
complexo” (que, para o polaco, é mais que uma força de trabalho,
é um saber que se acumula, é um capital que deve ser rentável e
remunerado através de altos “salários”), passa naturalmente
Makhaiski à crítica do marxismo. O socialismo seria, na verdade, a
ideologia que mais bem representava os interesses da nova classe
dominante: os “capitalistas do saber”. Escreve Makhaiski: “A
função primeira do marxismo é a de mascarar o interesse da classe
cultivada ao longo do desenvolvimento da grande indústria, o
interesse de classe dos mercenários privilegiados, dos
trabalhadores intelectuais no estado capitalista.” Marx é o
profeta desta nova classe. O marxismo é a sua religião, que seduz
devido ao seu culto pelo desenvolvimento intensivo das forças
produtivas, devido ao seu aspecto científico, legitimando assim as
aspirações da elite do saber em tomar o lugar dos capitalistas
privados em nome do “progresso” e da “história” e
dissimulando a prosaica capacidade dos seus interesses de classe.
Finalmente,
que resta como projeto de transformação social ao autor? Resta um
basismo igualitarista de contornos bastante imprecisos, mas
compreensível para quem continuava a apostar na revolução e não
queria preparar o leito para os novos senhores… nem nele se
deitar. Makhaisky apóia a revolta, selvagem e direta,
dos “mãos calejadas”, contra tudo o que cheira a
intelectual: “Nesta nova época de luta, conduzida exclusivamente
pelas reivindicações dos operários manuais (reivindicações
puramente econômicas), os operários, ao alargarem as suas conspirações
e as suas insurreições, executarão a expropriação, não apenas
dos capitalistas, mas também de toda a sociedade cultivada, de
todos os consumidores de rendimentos superiores ao rendimento do
operário”.
Neste
obreirismo virulento, Makhaiski veicula mais um certo populismo das
baixas classes, de que um excessivo respeito pela qualidade de
produtor útil. Tende, pois, a incluir no seu conceito de
proletariado não apenas o campesinato, mas igualmente o lumpen,
desempregados e hooligans. Na revista que publica em 1918 na URSS
sugere, por exemplo, aos desempregados que constituam organizações
próprias para obtenção dos direitos que possuem os operários
empregados.
Makhaiski
aposta na dinâmica revolucionária e apenas cuida de denunciar
aqueles que a pretendem gerir ou aproveitar para os seus próprios
fins. “As massas operárias devem conduzir, elas próprias, a sua
revolução, apesar dos esforços de adormecimento dos socialistas.
A revolução vai mais longe que todos os planos e problemas
socialistas”. Por estas palavras poderia pensar-se que Makhaïski
se identifica com os anarquistas, mas tal não sucede. De uma
maneira geral, ele critica-os também, metendo-os no mesmo saco do
“velho socialismo”. Era possivelmente o quadro teórico marxista
– que, apesar de tudo, nunca abandonou - que o impedia de uma
aproximação com os libertários. Por seu lado, estes consideram-no
como seu próximo, como explicitamente o diz Archinof, em artigo
necrológico, e de maneira mais reservada, os anarquistas
kropotikinianos Vetrov, Raevsky e Orgueani.
A
sua importância política foi reduzida. Contudo, terá sido
bastante para que a historiografia oficial da URSS refira a sua
existência durante a revolução de 1905, ao lado de grupos
anarquistas, de grupos que se reclamam das suas posições.
Estas
e muitas outras preciosas informações sobre o homem, a obra e,
sobretudo, o movimento revolucionário de então, estão contidas no
excelente estudo introdutório de Alexandre Skirda. A sua mal disfarçada
simpatia para com as teses do autor nada retira ao estorço
investigador que nos põe assim ao alcance uma informação que de
outro modo se arriscaria a permanecer ignorada.
por
JOÃO
FREIRE
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