por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI Doutorando em Ciências Sociais na Universidade de
Osnabrück |
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Cultura e
estilo intelectual
Um
dos aspectos mais interessantes de viver em um outro país,
certamente, é o permanente confronto com a cultura de um outro
povo, com outra história e outras formas de comportamento humano. A
experiência de estudar em outro país, no entanto, requer um
processo de adaptação, um período em que as constantes comparações
permitem um olhar mais crítico com relação à sua própria
identidade cultural, na medida em que esta, muitas vezes
inconscientemente, também vai sendo modificada. Entre essas adaptações,
uma das maiores dificuldades iniciais para a atividade acadêmica em
outro país está relacionada ao estilo intelectual, que, embora
apresente características internacionais comuns, está impregnado
de valores culturais locais, importantes para o convívio social em
cada sociedade. A tarefa de analisar estilos intelectuais, no
entanto, já pressupõe a existência de um estilo próprio no
momento de abordá-los, o que, em boa parte, define a forma, a
estrutura e o conteúdo priorizado e expresso nessa abordagem. Além
disso, o estilo próprio de cada autor passa a ser influenciado
pelas experiências de confronto com outros estilos possíveis e,
pela própria análise dos estilos diferenciados, possivelmente,
damos um passo a mais rumo à identificação do próprio estilo.
São
poucas as tentativas existentes de análise de estilos intelectuais.
Uma das mais marcantes, certamente, foi realizada pelo cientista
social norueguês Johan Galtung, apresentada em forma de conferência
por ocasião dos Dias Acadêmicos da Universidade Livre de Berlim em
1982[1].
O estudo apresentado por Galtung está baseado em sua experiência
internacional, suas impressões e pontos de vista, motivados pela
constatação de que muitos intelectuais não se dão conta das
particularidades de sua própria comunidade e de seus círculos acadêmicos,
sendo capazes de caracterizar todos os demais menos a si mesmos.
Considerando a originalidade dessa tematização realizada por
Galtung, ao classificar os estilos intelectuais dominantes no mundo
em 4 grupos (teutônico, saxônico, gaulês e nipônico)[2],
nos propomos a apresentar neste breve texto uma síntese que,
evidentemente, não deixará de transparecer nosso próprio estilo e
as experiências realizadas com os tipos identificados.
Antes
de tentar classificar os intelectuais, Galtung procura definir o que
compreende por estilo acadêmico. Segundo Galtung, os intelectuais,
em todo o mundo, podem ser caracterizados pela sua constante tarefa
de transformar impressões em expressões, atribuindo às impressões
uma forma lingüística, seja na forma oral ou escrita. O objetivo
comum é descrever a realidade, para compreendê-la. Para que esse
trabalho tenha êxito, tanto a liberdade de expressão como a
liberdade em “coletar” impressões é decisiva. Para a validação
do trabalho intelectual realizado, entretanto, há a necessidade de
apresentar as intenções de cada pesquisa, seu desenvolvimento e
resultados a círculos acadêmicos e à publicidade crítica. Esse
espaço, em que a produção intelectual adquire validade, porém,
está limitado por determinadas convenções, métodos e
formalidades que definem, em boa parte, o estilo intelectual adotado
em cada cultura.
Um
estilo intelectual, portanto, pode ser compreendido como parte
integrante de uma cultura e passa a ser condicionado por impressões,
resultantes do processo de validação do conhecimento científico
em determinados círculos acadêmicos. Estes estilos, por sua vez, são
fortemente influenciados pela cultura dominante, pois a própria
atribuição de ciência está intimamente imbricada com aquilo que
é intersubjetivamente aceitável nos círculos intelectuais.
Parafraseando Marx, poderia se dizer que o estilo intelectual
dominante em uma sociedade é o estilo da classe hegemonicamente
dominante. Por outro lado, do ponto de vista individual, os
elementos subjetivos e pessoais do sujeito pesquisador é que
definem o processo de pesquisa. Com o objetivo de identificar as
diferenças de estilo entre a dimensão individual e a universal é
que Galtung sugere sua classificação em sub-civilizações acadêmicas
dominantes, integradas na divisão dicotômica do mundo entre centro
e periferia. Em termos
gerais, os estilos intelectuais pertencentes ao centro podem ser
subdivido em dois grupos: por um lado, os estilos gaulês e teutônico,
caracterizados pela centralidade na teoria e na análise de
paradigmas (os dados empíricos servem para ilustrar as premissas da
base teórica, sem caráter de comprovação); por outro lado, os
estilos saxônicos e nipônicos, centrados na produção de teses,
na documentação empírica, com menor valorização da teoria.
De
maneira mais detalhada, os estilos se diferenciam claramente. O
estilo saxônico privilegia o debate e o discurso, para o qual
acordos e trocas de gentilezas são bastante comuns. Tendo em vista
que o estímulo aos atores do debate é prioritário, há uma tendência
dos debatedores se concentrarem nos aspectos positivos apresentados.
A busca da unidade e mesmo a postura de mudança de posição diante
dos argumentos apresentados é louvada por parte dos participantes
do debate. Nos estilos teutônico e gaulês, ao contrário, a crítica
se concentra sob o ponto fraco identificado no debate, as gentilezas
deixam de ter espaço e o apresentador de uma tese, ciente de sua
posição de “réu”, procura agir com o máximo de cautela possível.
Para os teutônicos e gauleses o fato de ser escutado e criticado já
constitui uma honra em si, diante da qual as gentilezas cedem espaço
à rigorosidade. No estilo nipônico, por sua vez, rege um respeito
quase absoluto à hierarquia acadêmica, há um sentimento de
coletividade que não deve ser afrontado e o debate constitui um ato
mais social do que propriamente acadêmico. O ordenamento dos
debatedores em escolas teóricas assume um papel central e o convívio
na diversidade e a preservação das contradições são objetivos
pré-estabelecidos e importantes em qualquer discussão. Assim, também
a valorização da humildade, de procedimentos dialéticos e holísticos,
com pouca teoria, expressões não ocidentais, sem afirmações
categóricas ou absolutizadoras, uma constante luta contra o
atomismo, preservando a indivisibilidade e a unidade na diversidade,
constituem características centrais do estilo nipônico.
A
maior diferença na forma de se relacionar com as diferenças de
opinião, no entanto, certamente está mais acentuada entre os
estilos saxônico e teutônico: enquanto os saxônicos procuram,
conscientemente, uma aproximação, os teutônicos se afirmam na
diferença, na oposição, na radicalização de posições teóricas.
Os teutônicos também costumam levar o debate mais a sério, como
se esse constituísse a própria vida. Agindo, majoritariamente, de
forma dedutiva, no estilo teutônico a fundamentação teórica
ocupa o centro do debate, pressupondo que estando aceitas as
premissas, logo as conclusões também precisam ser válidas.
Exatamente por essa postura, o problema maior do estilo intelectual
teutônico parece ser sua tendência de inserir a realidade numa espécie
de “camisa-de-força”.
No
que se refere às reações diante de problemas, as diferenças
entre os estilos intelectuais dominantes também são claras. Para
os gauleses a construção de teorias não necessariamente obedece a
uma lógica dedutiva; é a força das palavras e da arte do
convencimento que ocupa um lugar decisivo no debate teórico, mais
centrado na elegância do que na estrutura lógica. Por outro lado,
os gauleses se aproximam do estilo teutônico ao valorizarem a
concorrência, ao se basearem nos melhores estudantes e na conseqüente
tendência de elitização intelectual. Outra característica comum
entre os gauleses e teutônicos é a busca constante por um novo
território, por superar espaços já conquistados, por evoluir
constantemente. Mas, na forma a divergência é frontal: enquanto o
estilo gaulês preserva a elegância e, em sua acentuada prosa eloqüente
e elitista, por vezes deixa de observar a rigorosidade, esta última
é a base do estilo teutônico que, para alcançá-la, muitas vezes,
despreza a elegância. O estilo teutônico mantém acentuada a
hierarquia “mestre-discípulo” e tende a expressar uma arrogância
intelectual, por vezes aparentando não ter mais nada a aprender.
Nesse sentido, o discurso é sério, seco e sem humor, objetivando,
constantemente, a identificação de problemas na seqüência do
raciocínio dos debatedores. Também no estilo gaulês a
rigorosidade é acentuada, mas baseada na concepção de que os
debatedores precisam provar que sabem se defender de forma autônoma
e competente. Nesse sentido, pode-se afirmar que no estilo gaulês o
tensionamento dialético e o domínio da linguagem (de forma correta
e elegante) são fundamentais; no teutônico o fundamental é a
ampla abordagem teórica e o aprender a pensar de forma estruturada;
no saxônico a importância maior está na forte vinculação com
fatos da realidade, na presença de uma sólida base empírica; e,
no nipônico, o importante é relacionar os fatos entre si, buscando
a contextualização. Resumidamente, a comunidade científica teutônica
pode ser caracterizada como vertical, individualista e polarizada; a
gaulesa como horizontal, individualista e polarizada; a saxônica
como horizontal, individualista e pouco polarizada; e a nipônica
como vertical, coletivista e despolarizada.
Quais
seriam as conseqüências da presença maior de um estilo
intelectual para determinada sociedade? Até que ponto os estilos
intelectuais apresentam um caráter de classe? De que forma os próprios
conceitos de verdade e realidade estão culturalmente definidos? Será
que os estilos intelectuais dominantes estão relacionados a posições
históricas de poder assumidas pelos povos que os constituem? Estas
questões Galtung tematiza em seu texto e conclui afirmando que a
concepção de verdade em cada cultura se modifica de acordo com a
posição que uma determinada sociedade ocupa no mundo. Assim,
concepções estáticas da realidade tendem a interessar os
dominadores e compreensões mais dialéticas e flexíveis da
realidade tendem a interessar os dominados. A separação entre
estilos mais teóricos e mais empíricos, todavia, também interessa
à cultura dominante, uma vez que a compreensão da realidade com
vistas a transformá-la não pode prescindir de uma destas duas
dimensões.
Seguindo
esse raciocínio, enquanto a periferia tende a continuar
reproduzindo os estilos intelectuais hegemônicos e suas concepções
de verdade, objetividade e método científico, a periferia da
periferia poderia ser mais criativa, ousando a descoberta de novos
caminhos, exatamente por não estar tão ocupada com a pressão da
constante imitação para ser valorizada. E essa é a esperança
anunciada por Galtung ao final do seu texto, que ele conclui com a
afirmação da necessidade de inovar, de ir para além dos estilos
intelectuais hegemônicos no mundo. Como toda tentativa de
classificação em categorias principais, também Galtung pode ser
criticado pela ausência de particularidades que deixou de analisar
e, inclusive, pela falta de abordagem de vários estilos
intelectuais presentes no mundo, mas que não exercem uma função
dominante. Além disso, certamente, muitos dos intelectuais que
atuaram e atuam nas culturas acadêmicas caracterizadas não
compartilhariam da classificação operada por Galtung. A combinação
de estilos seguramente é mais provável, mas a tentativa realizada
é louvável e permite uma relativa visualização e comparação
entre os estilos intelectuais que continuam dominando a forma e o
conteúdo do conhecimento científico construído
internacionalmente.
Estilos
intelectuais, assim como a própria realidade, entretanto, estão em
constante movimento. Estilos estão diretamente imbricados com
cultura, com formas de pensar e de agir, as quais se modificam
historicamente. Mais importante do que compreender os estilos hegemônicos
na produção intelectual é a possibilidade de desenvolver um
estilo intelectual próprio, que permita um olhar distinto e
original sobre a realidade, com vistas a transformá-la.
Compreender-se como autor de um texto e/ou de uma pesquisa implica
no reconhecimento de idéias de estilo próprio, as quais se
apresentam ao próprio autor com autonomia própria tal, que passam
a influenciar o autor quando este as relê e reflete. Mesmo que os
sujeitos utilizem uma linguagem comum para se compreender entre si,
cada indivíduo possui uma maneira, um estilo, um significado único
a expressar, que merece ser analisado. A possibilidade de atribuir
um estilo particular e único ao articular e expressar uma linguagem
é que permite a originalidade do sujeito, que, a partir de si mesmo
e de suas relações com outros sujeitos e o meio ambiente em que
vive, desenvolve significados aos seus pensamentos.
Ao
mesmo tempo, a identificação do paradigma, no qual um texto se
insere, constitui uma das condições para sua interpretação. O
paradigma teórico representa o espaço em que as categorias teóricas
escolhidas se encontram, se articulam e se orientam mutuamente.
Contudo, é o processo autônomo de construção da singularidade de
um texto, através do qual sua nova dinâmica passa a ser
desenvolvida, sem se deixar limitar pelo paradigma ou referencial teórico
fundante, que conduz à originalidade, ao particularmente novo, que
ainda não fôra escrito, também por ainda não ter sido assim
pensado. Diante da necessidade de validar conhecimentos através de
uma publicidade crítica intersubjetiva, a clareza na identificação
de um objeto a ser problematizado constitui um pressuposto de suma
importância. Entretanto, entre o esquema teórico articulado pelo
sujeito de uma pesquisa e a unidade objetiva da realidade há um
espaço em aberto. E é precisamente nesse espaço que a construção
de saberes acontece, os quais são explicitados por uma determinada
linguagem e estão integrados a um estilo intelectual em
desenvolvimento e por eles definidos.
por
ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
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