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por
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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Economia
política do intelectual
Pretendo,
nestas breves considerações em torno da economia política dos
intelectuais, oferecer uma visão cética, ou pelo menos crítica,
sobre alguns dos mitos da nossa época, entre eles o do intelectual
público enquanto figura de proa dos movimentos vanguardistas, ou
progressistas, e portanto, de uma figura isenta que encarna,
supostamente, os melhores valores da racionalidade e do humanismo.
Ainda que tudo isso possa ser justificado, em bases racionais, ou
legitimado socialmente, nenhuma restrição de ordem conceitual ou
filosófica deveria nos impedir de examinar essa figura ímpar da
modernidade – mas, na verdade, eles não são tão modernos assim,
nem tão excepcionais quanto se quer fazer acreditar –, tendo como
base analítica essencial a relação de custo-benefício que eles
costumam apresentar para a sociedade e como único critério a
dissecação sem compaixão desse obscuro objeto de admiração (por
vezes indevida).
1.
Certidão de nascimento ou temporalidade difusa?
Não
é verdade que o intelectual público seja um produto da nossa época,
como pretendem alguns. Obviamente, os que defendem tal posição
adotam a visão francesa do intelectual e têm até uma data para
esse “nascimento”: a publicação do panfleto J’accuse,
na verdade uma carta aberta que o escritor francês Émile Zola
enviou ao presidente Félix Faure a propósito do processo Dreyfus.
Publicado no jornal L’Aurore,
em 13 de janeiro de 1898, o panfleto acusava o comando militar francês
de conivência com erros criminosos no processo instaurado contra o
capitão Alfred Dreyfus, injustamente condenado por traição à pátria
e espionagem a serviço do inimigo alemão. Aí teria nascido,
segundo os defensores dessa versão “moderna” do personagem, o
intelectual público contemporâneo.
Altamente
questionável essa visão e monopólio gauleses do intelectual.
Talvez devêssemos recuar um pouco esse nascimento e falar, por
exemplo, dos enciclopedistas do século XVIII, ou dos ingleses e
escoceses do período da guerra civil, John Locke ou Thomas Hobbes,
ou então do protótipo do conselheiro do príncipe, isto é,
Maquiavel em pessoa. Mais um pouco – passando pela Idade Média,
com tantos personagens brilhantes, como Avicena,
Averroes, Maimonides e Tomás de Aquino – chegaríamos à
antigüidade clássica, com Sócrates e Platão. Existem muitos
outros exemplos, é claro, mas minha intenção não é a de retraçar
as origens e desenvolvimento dos intelectuais ao longo da história,
mas tão simplesmente a de fazer uma breve análise econômica das
condições de produção, reprodução, circulação, acumulação
e eventual falsificação desse personagem, nas condições modernas
e brasileiras e também numa perspectiva crítica em relação aos
possíveis defeitos desse “produto”, que está quase virando uma
commodity, sob o império
– é o caso de se aplicar o conceito – da globalização
avassaladora.
2.
Natureza do produto e valor agregado: ativos tangíveis e intangíveis
O
intelectual pode ser definido como sendo, essencialmente, um
produtor de saber ou, pelo menos, de idéias (nem sempre originais).
Não qualquer saber, nem quaisquer idéias, que estariam disponíveis
ao comum dos universitários – que eles, sim, são uma commodity
–, mas um saber especializado e idéias supostamente únicas e
aparentemente originais, pretensamente refinadas e dotadas de
virtudes eventualmente “explicativas” do mundo real e
“propositivas” de novas vias para se abordar os problemas do
mundo real.
Seria
isso verdade? Provavelmente não, ou então sim, mas de uma forma
muito restritiva, pois a maior parte dos pretensos intelectuais não
produz qualquer saber original – no sentido de elevar o estoque de
conhecimento humano a patamares superiores de criatividade e inovação
–, atuando mais como “porta-vozes” dos setores educados da
população, sendo, por isso mesmo, requisitados pelos meios de
comunicação para pontificar sobre esta ou aquela matéria. Estou
obviamente referindo-me a alguns dos ilustres pontífices das ciências
humanas, uma vez que os cientistas, que são os verdadeiros
inovadores em nossa civilização tecnológica, não são
habitualmente considerados como intelectuais, mas como meros
produtores de um “saber instrumental”. Fiquemos, portanto, nesse
estamento mais reduzido de “processadores de idéias humanísticas”
para traçarmos uma breve economia política do intelectual.
O
intelectual é um produto do seu meio, mas ele traz um valor
agregado, o que os marxistas chamariam de “mais valia”, no
sentido em que ele é capaz de acrescentar novos significados a
velhos saberes, travestindo conceitos antigos sob novas roupagens, o
que o transforma em um personagem próximo do prestidigitador. Atenção!:
ele não um mero enganador, um embromador com idéias alheias. Não!:
ele apenas recupera parte do conhecimento disponível em seu meio
social e ambiente cultural e o apresenta de maneira relativamente inédita,
o que em latim – sim, os intelectuais deveriam, em princípio,
saber latim, tanto quanto grego antigo e inglês, essa novilíngua
dos bárbaros da globalização – se traduz por “non nova, sed
nove”, ou seja, não inteiramente novo, mas de forma nova.
A
maior parte dos ativos do intelectual, o que seria o seu valor
agregado pessoal, é constituída de intangíveis, matéria volátil
como o calor dos sentidos e a luz das idéias, ainda que não se
possa excluir que o intelectual também ande armado de um grande
porrete, para eventualmente melhor enfiar suas idéias nas cabeças
dos adversários. Nos tempos de Niccolò Machiavelli, por exemplo, a
adaga era um instrumento fundamental de trabalho, tanto quanto os
venenos pouco perceptíveis e as bolsas com ducados e fiorinos: a
defesa pessoal, as conspirações e a compra de espiões, ou mesmo
de possíveis adversários, figuravam no arsenal “intelectual”
de qualquer condottiere ou
candidato a príncipe por um dia. As armas enferrujam, venenos
desaparecem, o dinheiro é dilapidado, mas o que fica são as idéias
intangíveis dos intelectuais, que movimentaram líderes políticos
ambiciosos, que por sua vez mobilizaram exércitos inteiros de
mercenários – ou seriam militantes? – para defender suas
causas, ou, mais exatamente, suas propriedades (que ainda não foram
conquistadas, obviamente).
3.
Volatilidade e imperfeição dos mercados intelectuais
Nosso
intelectual atua em mercados imperfeitos, como são, aliás, a maior
parte dos mercados de bens e serviços. Esse mercado é dominado por
um número menor de “vacas sagradas” e muitos outros candidatos
a um nicho nesse mercado altamente volátil, mas caracterizado por
alguns ciclos perfeitamente definíveis. Esses ciclos obviamente têm
a ver com a oferta e a demanda de “idéias úteis” para a
sociedade. Nem todas as idéias são úteis o tempo todo, nem as
supostas “utilidades” que se possa extrair de certas propostas
“intelectuais” conformam, de fato, idéias originais que
configurem uma melhor situação de “bem estar” para o conjunto
da sociedade. Determinadas “idéias” de intelectuais reputados
podem aparentar uma promessa de bem estar superior, mas na verdade
representam, no entrechoque de sua implementação prática, uma
diminuição do retorno real, aquilo que os economistas chamam de
“maximização da satisfação”.
O
mercado dos intelectuais “marxistas”, por exemplo, já conheceu
tempos melhores, quando as ações cotadas no nome do criador da
seita – que digo?, uma religião, com todos os rituais a que ela
tem direito – conheciam grande demanda e um alto “valor de
troca”, valorizando-se indevidamente, portanto (pelo menos em relação
ao seu “valor de uso” real, sobretudo nas sociedades do
capitalismo avançado). Depois, elas saíram de moda, seus papéis
despencaram – as ações do socialismo de tipo soviético, por
exemplo, deixaram de ter cotação – e só tinham procura nos
mercados periféricos, onde as idéias aparentemente circulam
tardiamente ou estão sempre fora do lugar. A manutenção da
demanda agregada para esse tipo de papel, em todo caso, só ocorreu
nas universidades públicas, conhecidas pela imperfeição ainda
maior dos seus mercados de idéias.
Os
papéis liberais, em contrapartida, chegaram ao fundo do poço
durante a longa dominação do keynesianismo doutrinal e do
planejamento indicativo em quase todas as economias de mercado
desenvolvidas. Durante o longo período que vai dos anos 1940 aos 80
do século XX, eles praticamente não tiveram cotação nas bolsas
do pensamento econômico, ficando restritos – e basicamente
escondidos – em alguns poucos bastiões do academicismo
conservador, como Chicago ou a escola de Viena, limitada a alguns
saudosistas da belle époque.
Voltaram em peso no pregão das idéias na moda a partir dos anos
1980, sob o travestimento de “papéis neoliberais”, mas, de
fato, as ações mais procuradas ainda pertenciam ao liberalismo clássico,
como os títulos “Von Mises” ou os blue chips “Friedrich Hayek”.
Quanto
às regras do “consenso de Washington”, contrariamente ao que
parecem crer alguns neófitos do mercado de idéias – sempre
existem inexperientes ou aventureiros nesse tipo de negócio –,
elas não representam, na verdade, ações “neoliberais”, mas tão
simplesmente um conjunto de propostas pragmáticas, visando oferecer
prescrições macro e microeconômicas para ajudar os turbulentos
mercados latino-americanos a superar as duras tarefas dos ajustes
emergenciais e a encontrar novos patamares de estabilidade. O
mercado para elas foi ingrato, submetidas que foram a fortes ataques
especulativos dos antiglobalizadores – alguns preferindo ser
chamados de “desenvolvimentistas” –, o que fez oscilar
erraticamente os seus preços, trazendo pouca demanda a esse nicho
restrito do mercado de idéias práticas.
4.
Um tipo específico de intelectual: a “vaca sagrada”
Volto,
agora, ao problema das “vacas sagradas” e às suas idéias
eventualmente nocivas à sociedade em que vivem ou a que servem.
Contrariamente ao que alguns podem crer, eles não são naturais da
Índia, nem têm algo a ver com o planejamento estatal que foi a
característica mais marcante daquele país durante suas décadas de
baixo crescimento e de isolamento dos mercados globais. Nossa vaca
sagrada também pode ser um planejador, mas ele é, sobretudo, um
vendedor de idéias mortas. Qual é a minha noção de “vaca
sagrada”?
Vacas-sagradas
são aquelas pessoas que atingiram tal grau de excelência em suas
áreas respectivas, que elas se tornam verdadeiras referências para
o campo de estudos ou de atividades a que elas se dedicam. Viram
mitos, pessoas inatingíveis e inatacáveis e tudo o que elas dizem
– o que pode eventualmente incluir coisas anódinas ou até
besteiras completas – é acatado com todo o respeito, vem repetido
na imprensa e acaba sendo aceito com toda a reverência que essas
vacas-sagradas merecem, por vezes indevidamente, e que elas exibem
com certa arrogância na vida diária.
Eu
– anarquista e iconoclasta que sempre fui – considero
pessoalmente uma pena esse respeito indevido de que gozam as
“vacas sagradas”, uma vez que esse acatamento reverencial por
parte dos “candidatos” a intelectuais pode ser nefasto à
“circulação” de novas idéias. Sim, pela boa e simples razão
de que as verdadeiras vacas sagradas, por definição, ostentam
velhas idéias, congeladas no tempo, que elas (as vacas, não as idéias)
continuam a estender e dispensar aos discípulos como quem se esforça
por espalhar os últimos restos do pote de geléia num pedaço muito
grande de pão. Com isso, algumas dessas vacas-sagradas podem fazer
muito mal a um país.
Considerem,
por exemplo, este depoimento de uma das maiores vacas sagradas de
todos os tempos, o finado economista Celso Furtado, no qual ele diz
que o Brasil está dominado pelo neoliberalismo e que a “coisa
microeconômica é um disparate completo”. Em depoimento prestado
em agosto de 2004, poucos meses antes de morrer, ele disse
exatamente o seguinte: “A hegemonia do pensamento neoclássico-neoliberal
acabou com a possibilidade de pensarmos um projeto nacional; em
planejamento governamental, então, nem se fala... O Brasil precisa
se pensar de novo, partir para uma verdadeira reconstrução. Para
mim, o que preza é a política. Essa coisa microeconômica é um
disparate completo.” (Maria Inês Nassif, “O CDES e o consenso
que não é neoliberal”, jornal Valor
Econômico, 13/07/2006).
É
realmente uma pena que a nossa maior vaca sagrada pensasse assim,
pois o dinheiro da sua aposentadoria, o de todas as outras
aposentadorias, aliás, todo o dinheiro que movimenta e sustenta o
governo, assim como a qualquer outra pessoa no Brasil e no mundo,
toda a riqueza que movimenta as relações, em quaisquer instâncias
que se possa conceber, tudo isso deriva dessa “coisa microeconômica”
tão desprezada e vilipendiada por Celso Furtado. Sem ela, não
haveria empregos, renda e riqueza, pois é evidente que é a
microeconomia que produz todo e qualquer valor na sociedade – o
que Marx sabia muito bem – uma vez que a famosa macroeconomia –
tão apreciada pelos keynesianos e por toda a torcida de economistas
desenvolvimentistas – apenas se dedica, pura e simplesmente, à
singela organização das melhores condições possíveis para o
exercício de uma boa microeconomia pelos agentes econômicos. Não
acredito que os economistas keynesianos pensem que governos sejam
capazes de criar valor, ou que eles retiram dinheiro a partir do
nada, como se fosse de uma lâmpada mágica. Até os economistas
desenvolvimentistas sabem perfeitamente que são os produtores
diretos, os agentes microeconômicos, tão desprezados por Celso
Furtado, os ÚNICOS que criam valor numa sociedade.
Mas
deixemos as vacas sagradas em paz para voltarmos aos nossos
intelectuais de mercado. Nossa economia política ainda não
acabou...
5.
Intelectuais de marca ou genéricos?
Existem
muitos modelos de intelectuais, alguns ostentando marcas de prestígio,
outros sendo simples genéricos, como ocorre, aliás, com a maior
parte dos universitários. Os primeiros custam mais caro, ou melhor,
cobram mais caro do que a média do mercado para trabalhadores não-manuais,
mas, como no caso das ações “marxistas”, seu valor de troca
encontra-se indevidamente valorizado em relação ao seu efetivo
“valor de uso”. Et pour
cause: poucas de suas “idéias” são implementáveis de
fato, consistindo, no mais das vezes, de prescrições quiméricas
– só imagináveis por quem vive na torre de marfim, sem qualquer
contato com as linhas de montagem ou as seções de contabilidade
das firmas –, além de considerações genéricas do tipo “o que
falta ao país é um projeto estratégico nacional” (proposição
tão ingênua quanto inexeqüível, em condições democráticas).
Os
intelectuais “genéricos”, em contrapartida, não costumam
propor um “projeto nacional” pronto e acabado, contentando-se
com comentários pretensamente profundos sobre temas do momento, a
partir de frases de colegas de “marca” ou de algumas figuras do
passado (as “vacas sagradas”, justamente, que se tornam ainda
mais míticas do que já eram). Com os progressos da globalização,
e a disseminação fácil das idéias geniais – a maior parte
agora disponível num simples clicar de “cut-and-paste” – os
intelectuais de marca se tornam cada vez mais genéricos – pois
que amplamente disseminados nas engrenagens da tecnologia da informação
– e os genéricos, por sua vez, podem aspirar a ter seus quinze
minutos de fama, como se fossem uma marca legítima.
Atenção:
se você pretende ser um legítimo intelectual de marca, não
generalize as suas idéias, em todo caso, não antes de registrá-las
em algum suporte comercial, devidamente protegido pela legislação
de propriedade intelectual, o que lhe poderá assegurar não apenas
o monopólio de continuar explorando aquelas idéias – ou pelo
menos a forma em que foram expressas – durante bastante tempo,
recolhendo no caminho alguns bons royalties pela circulação dessas
idéias porventura geniais (não precisam ser, basta que tenham um
ar de sê-lo).
6.
A substituição de importações intelectuais no caso brasileiro
O
intelectual, no Brasil, sempre foi um produto importado, não vindo
no porão dos navios, como o bacalhau, o azeite e vinho, mas na
coberta das caravelas, veleiros e outros transportes que faziam o
trajeto da metrópole, que era onde se dispensavam os saberes
d’antanho. Muito antigamente eles vinham de Coimbra, depois essas
importações foram amplamente diversificadas, com muitos saberes em
várias línguas, mas com a predileção especial por Paris e seus
modismos intelectuais. Apesar da decadência francesa em todas as
coisas mais vis que possa haver no mundo, commodities,
mercadorias ordinárias e outras bugigangas, é da França, e mais
especificamente de Paris, que ainda provêm, junto com perfume e as
roupas da moda burguesa, as idéias que constituem le
dernier cri dos nossos intelectuais.
Aparentemente,
toda a filosofia uspiana é uma demoiselle
que aqui aportou depois de um long
séjour parisien, como se estivesse num département
d’outre mer. N’importe,
o fato é que nós já fizemos nossa substituição de importações
no terreno das ciências sociais, aliás com idéias, conceitos e
metodologias que falavam inglês – vindas com os famosos brazilianists
dos anos 1960 e 1970 – e não precisaríamos mais importar essas
idéias francesas que só servem mesmo para a França, pois são tão
específicas daquela cultura como o foie-gras,
o camembert, o reblochon.
Aliás, desde que aqui começou a se fazer o legítimo conhaque –
sim, com “que”, sem “c” – de alcatrão de São João da
Barra, no distante século XIX, que não precisaríamos mais
importar idéias francesas, superadas que elas deveriam estar por
nossa genialidade adaptativa e imensa capacidade de digerir e
reproduzir o que há de mais avançado no mundo das idéias.
Mas,
qual o quê! Nossos intelectuais são preguiçosos: eles não se
dedicam a criar idéias próprias e continuam a consumir idéias
francesas que na atualidade vêm mais em modelos prêt-à-porter
do que sob a forma elegante do fait-à-la-main.
É por isso que nossos alunos universitários continuam a ser
torturados pelos Derridas de aluguel, pelos Lacan de contrabando,
pelos Foucault de um imaginário que não tem muita imaginação.
Vejam vocês que eu já encontrei estudos sociológicos sobre os
nossos garimpeiros – sim, aqueles seres brutos que despejam mercúrio
na natureza e usam as pepitas para comprar o amor das donzelas
disponíveis – elaborados com a mais refinada técnica
foucaultiana, como se não fosse possível analisar o imaginário
rude desses seres singulares das nossas fronteiras da civilização,
a não ser com tecnologia importada de Paris. Épatant, n’est-ce-pas?
Quero
crer que a substituição de importações já se completou no caso
das nossas ciências sociais e que não precisaríamos mais estar
pagando royalties e serviços técnicos por essas contribuições
dispensáveis ao nosso universo mental, e que só não o fazemos por
absoluta preguiça conceitual e vagabundagem metodológica dos
nossos intelectuais. Ao trabalho, rapazes e moças: libertem-se do
que é importado, do que é supérfluo, para diminuir esse
“passivo externo”, essa terrível dependência intelectual do
estrangeiro, que só agrava a nossa “vulnerabilidade externa”,
pesando indevidamente em nosso balanço de pagamentos do setor
universitário.
7.
Regulação e concorrência do mercado de intelectuais
Todos
os intelectuais dizem amar a liberdade, as pugnas intelectuais, o
combate de idéias, a liberdade de expressão e a livre circulação
das opiniões. Na verdade, como várias outras categorias sociais,
sempre temerosas da livre concorrência, eles adoram uma boa reserva
de mercado, um nicho garantido por um título de exclusividade, uma
licença régia qualquer que lhe garanta a exploração monopólica
de um serviço qualquer.
Existiria
outra razão para o jornalismo ser exercido por “intelectuais”
portadores de certificado? Ou eles não são intelectuais os
jornalistas? Pela nossa definição, eles se encaixam: lidam com
conceitos, opiniões, argumentos, produzem idéias, informações,
dicas úteis à sociedade, ao corpo e ao espírito, quem vai dizer
que eles não são o que pretendem ser? Eles vivem, em última instância,
da palavra escrita e, portanto, se encaixam na definição.
Ainda
que não fossem: os que se pretendem verdadeiros intelectuais são
uma espécie de jornalistas universitários: vivem processando
informações, elaborando dados em novas apresentações externas,
remodelando o conteúdo daquelas idéias que possam ter fabricado no
passado, aplicando um Lavoisier em outras que são recicladas de
colegas porventura falecidos, enfim, fazem aquilo que se faz nas
redações, apenas que eles têm um público cativo, e o mais das
vezes passivo, ao passo que os outros, os intelectuais da imprensa
precisam, pelo menos, fazer com que a clientela compre a sua produção
como condição de sobrevivência física.
O
intelectual universitário não: ele dispõe de uma reserva de
mercado, que pode explorar à vontade – stricto
et lato sensi – e não precisa nem mesmo se preocupar com a
satisfação do consumidor: as condições estão dadas pela
estabilidade, uma tenure
que em outros países – que exibem intelectuais mais competitivos
– só se alcança ao cabo de longos e longos anos de produtividade
desenfreada, segundo o velho princípio do publish
or perish, e que é aferida regularmente para fins de patrocínio
ou financiamento quanto a seus resultados efetivos, não os
proclamados pela própria casta. Na verdade, nosso intelectual não
quer concorrência, ele não gosta de concorrência, ele aprecia
mesmo um bom monopólio, de preferência público, que explora
privadamente.
Querem
um exemplo?: O projeto de lei que cria o
escritor de carteirinha. Trata-se do projeto
de lei nº 4641, apresentado em setembro de 1998 pelo deputado Antônio
Carlos Pannunzio (PSDB-SP) e que “dispõe sobre o exercício da
profissão de escritor”. Será que esse escritor profissional terá
de trabalhar 8 horas por dia, vai descontar imposto sindical, terá
férias remuneradas, direito a FGTS, essas coisas?
8.
As finanças dos intelectuais: transparência e recursos não-contabilizados
Assunto
nebuloso este, aliás como tudo o que diz respeito a renda e
pagamento de impostos em nosso país. O intelectual detesta ser um
mero assalariado, o que ele acaba freqüentemente sendo, geralmente
do Estado. O intelectual assalariado não consegue ter liberdade
para dispor de seus recursos. Se for para ser um assalariado, melhor
ser como aqueles antigos artistas e intelectuais sustentados por
mecenas endinheirados – o que é uma tautologia, obviamente – ou
príncipes ainda não decadentes de cortes européias, com castelos
funcionais (com quadras de tênis, banheiros modernos e ar
condicionado). Ser um Da Vinci, um Voltaire, e levar uma vida de palácio,
de doces tertúlias na verdura suave de uma tarde de verão, isso é
que é vida. Stop o sonho
e voltemos à realidade.
O
intelectual precisa, como qualquer mortal, se preocupar com o
supermercado, o salário da empregada – sim, eles ainda não
aboliram totalmente a escravidão – e o avanço do fisco sobre
seus rendimentos não declarados. Claro que eles têm esse tipo de
renda extra: quantas palestras, quantos artigos ou resenhas, quantas
crônicas para essas revistas corporativas não surgem assim do nada
e não é que “pinga”, em contrapartida, algum dinheiro
ocasional para o choppinho da sexta-feira? Mais importante: quantos
projetos e seminários, e visitas e convites, e livros coletivos e
tantas outras oportunidades mais não surgem na vida do intelectual,
sobretudo quando o seu preço de mercado já subiu por força de
alguma idéia poderosa que encontrou muitos tomadores no mercado?
Como
todo e qualquer brasileiro, intelectual também é gente, assim que,
ao lado dos rendimentos declarados, e mesmo dos investimentos de
portfólio, sempre existe uma parte de recursos não contabilizados
e de “seguro de risco”. De preferência bem discreto, pois como
todo mundo sabe, transparência demais é burrice. Mas aqui não vai
nenhuma distinção especial, nenhuma exclusividade do intelectual.
Ele é simplesmente como qualquer um de nós...
9.
Uma lei de responsabilidade social para os intelectuais?
Seria
bem vinda, sobretudo para aplicar naqueles que pretendem revender idéias
alheias, métodos não testados, sugestões que não funcionam,
problemas que estão longe de problematizar adequadamente, anomalias
conceituais, paralaxes cognitivas, enfim, num conceito popularizado
por Alain Sokal et Jean Bricmont,
“imposturas intelectuais”.
Existem
muitas imposturas intelectuais em nossas universidades, algumas até
não percebidas como tais e que passam pelo mais puro produto do espírito
que anda. (Ou alguém já conseguiu matar a praga do Foucault, que
continua a torturar nossos aluninhos mesmo muitos anos depois de
morto?) Difícil terminar com todas elas, sobretudo porque as idéias
e seus criadores não se submetem a um simples teste da verdade, já
não digo a falsificabilidade popperiana, mas um simples teste de
sua adequação à realidade, de verificação empírica, de
comprovação de laboratório, de validação socrática pela lógica
das aproximações sucessivas. Elas são pragas renitentes.
Uma
lei de responsabilidade social para os intelectuais os obrigaria a
trazer a prova de suas afirmações, a fazer um simples cálculo de
custo-benefício para verificar o retorno social de suas propostas
de reforma da natureza e de transformação da sociedade. Os
intelectuais parecem ser como a Emília, naquela história homônima
de Monteiro Lobato: eles saem por aí com uma varinha mágica sociológica,
um pó de pirlimpimpim filosófico, e se dispõem a oferecer a políticos
incautos – sobretudo em épocas eleitorais – grandes projetos
nacionais, a custo quase zero (no papel, mas as comissões são à
parte), e uma indefinição absoluta quanto aos resultados. São tão
traficantes quanto políticos que oferecem empregos na máquina pública,
com a diferença que depois eles não precisam mourejar para
produzir algum resultado tangível a partir de suas idéias malucas.
Uma
lei dessas viria a calhar, mas não é provável que ela venha a
existir any time soon:
intelectuais são como cartomantes, eles oferecem um futuro
qualquer, mas não garantem exatamente quando ele vai se realizar, e
não admitem cobranças a respeito. Se calhar, eles até vendem suas
idéias em seis vezes “sem juros”. Querem apostar?
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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