por GEORGIA SOBREIRA DOS SANTOS CÊA

Doutora em Educação, professora adjunta da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE

 

ANTONIO SANTOS DA LUZ

Graduado em Pedagogia, pós-graduando em História da Educação Brasileira na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE

 

Empreendedorismo e Educação: 

Reflexões sobre um Velho Sonho Liberal

 

Considerações iniciais

Este texto apresenta reflexões iniciais sobre a incorporação da idéia do empreendedorismo no campo educacional. A temática em questão integra os estudos constantes da pesquisa coletiva “O estado da arte da formação do trabalhador no Brasil”, que vem sendo desenvolvida no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Estado, Sociedade e Educação – GP-TESE. O destaque para o tema do empreendedorismo se deve, fundamentalmente, à importância que ele vem ocupando na fundamentação de várias políticas em curso, voltadas para a formação dos diferentes sujeitos sociais.

O texto tem início com uma breve identificação das origens clássicas da noção de empreendedorismo para, a seguir, apresentar, de forma crítica, alguns dos principais pressupostos do empreendedorismo aplicado à educação, a partir de uma das principais obras divulgadas no campo educacional sobre o assunto. Ao final, são indicadas algumas perspectivas históricas fundantes da noção da “Pedagogia Empreendedora”.

Origens liberais da idéia do empreendedorismo

A análise de textos e materiais sobre o empreendedorismo indica que a matriz teórica dessa idéia é o pensamento liberal clássico. Por exemplo, em Adam Smith encontramos a valorização do homem frugal e industrioso; em John Locke localizamos a aposta no interesse individual como a origem do bem comum.

Aprimorando tais elaborações, outros autores vão colaborar com a idéia do empreendedorismo. Walras propõe a compreensão do sistema econômico a partir das ações individuais. Schumpeter desenvolve a idéia de que as inovações que dão movimento ao capitalismo (processo de destruição criativa) resultam das iniciativas dos agentes econômicos (CARNEIRO, 1997). Mais recentemente, atualizando as correntes clássica e neoclássicas, autores como Hayeck e Friedmann vão reafirmar o individualismo como a mola propulsora do desenvolvimento e ratificar o pressuposto de que os interesses do capital e do trabalho se identificam e seus antagonismos inexistem.

A apropriação desses princípios liberais é condição para a elaboração dos autores que vão se dedicar detidamente ao tema do empreendedorismo. Para Drucker, os negócios constroem o futuro, dando a idéia de que a forma social capitalista é natural e, portanto, eterna. O empreendedor, para Filion, é aquele capaz de concretizar seus sonhos, como se a realidade fosse uma projeção da mente (SEBRAE, 2005). Herdeiros da tradição idealista, tais autores se tornaram as principais referências para a articulação entre o empreendedorismo e a educação.

No Brasil, o tema vem ganhando cada vez mais espaço e adesão, chegando a fundamentar projetos pedagógicos de diversas escolas, por orientação das próprias secretarias de educação. Na literatura educacional se multiplicam as publicações voltadas para a disseminação de uma suposta superioridade do empreendedorismo na educação frente a outras proposições pedagógicas. A partir da análise de uma dessas obras, serão apresentadas as principais idéias dessa “nova” forma de articulação entre economia e educação, proposta pelos ideólogos do capital, sob o nome de “pedagogia empreendedora”.

Pedagogia Empreendedora: principais idéias e fundamentos

As reflexões aqui apresentadas têm por base as idéias expostas no livro “Pedagogia Empreendedora – O Ensino do Empreendedorismo na Educação Básica voltado para o Desenvolvimento Sustentável”, escrito por Fernando  Dolabela, um dos autores mais referenciados no Brasil sobre o assunto. Com a obra, o autor pretende levar para o ensino básico uma proposta que se diz inovadora e capaz de  “semear o empreendedorismo, o espírito de aprender a empreender, de tomar o destino nas próprias mãos”, conforme sintetiza Gilberto Dimenstein no prefácio da obra (DOLABELA, 2003, p. 13).

Empreender, na proposta apresentada no livro, é o mesmo que “modificar a realidade para dela obter a auto-realização e oferecer valores positivos para a coletividade. Significa engendrar formas de gerar e distribuir riquezas materiais e imateriais por meio de idéias, conhecimentos, teorias, artes, filosofia” (DOLABELA, 2003, p. 29). Dessa forma, reedita-se a idéia liberal de que os impulsos egoístas concorrem para o bem comum.

Num primeiro momento a proposta se apresenta com um tom sedutor, de encantamento. Encantar, aliás, é a tônica da proposta da Pedagogia Empreendedora. A partir da afirmação que qualquer ser humano pode ser um empreendedor, o autor sustenta o pressuposto de que o sonho precede o real, o ideal concretiza o material. Dessa forma, a proposição articula-se à visão idealista de mundo ao reafirmar o pensamento de que basta ter um sonho e disposição para realizá-lo que ele se tornará realidade, o que sugere uma simplória e vulgar apreensão do pensamento hegeliano.

O autor procura seduzir o educador para sua proposta jogando para o leitor o desafio da auto-realização. Mas a proposição da “Pedagogia Empreendedora” não se limita a adesões de educadores individualmente. Várias secretarias municipais de educação localizadas em diferentes estados (Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo) serviram de espaço para a experiência-piloto da proposta da Pedagogia Empreendedora. No Paraná, o laboratório da Pedagogia Empreendedora foi o município de Guarapuava, onde o ex-prefeito Vitor Hugo Burko (PSDB) decidiu implantar o projeto, alcançado 18,5 mil alunos da rede pública, distribuídos em 661 turmas e atendidos por 1 mil professores. Com este programa o então prefeito conquistou o prêmio Mário Covas, criado para homenagear prefeitos empreendedores.

A proposta de “Pedagogia Empreendedora” desenvolvida por Dolabela parte do princípio de que o empreendedor é aquele capaz de gerar novos conhecimentos por meio de “saberes” sintetizados nos pilares da educação: aprender a saber, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser (DOLABELA, 2003, p. 26). Sendo assim, tal proposta se coaduna com o movimento em curso de esvaziamento do sentido científico-tecnológico da escolarização e de individualização da condição social dos sujeitos, representado por propostas sustentadas no pragmatismo.

O individualismo é também a tônica da “Teoria Empreendedora dos Sonhos” apresentada pelo autor. Esta teoria, em síntese, sugere que basta que tenhamos um sonho, não interessa qual seja, para que possamos realizá-lo. É a premissa idealista de que as coisas acontecem primeiro no mundo das idéias e não no das necessidades materiais. O autor divide o sonho em duas partes: Sonho Estruturante e Sonho Periférico.

O sonho estruturante é apresentado como aquele capaz de conduzir o sujeito à auto-realização, independentemente da sua condição social. Aqui o sonho é entendido como “um atributo da natureza humana”, que passa a assumir um “caráter estruturante quando contém energia para impulsionar o indivíduo a realizá-lo” (DOLABELA, 2003, p. 39).

Já o sonho periférico, segundo a proposta da Pedagogia Empreendedora, é visto como aquele que não é capaz de fundamentar um projeto de vida ou de gerar a auto-realização.  O autor entende como periféricos todos os sonhos que incluem “desejos, fantasias, vontades, caprichos, aspirações de outra dimensão que compõem o mundo humano do para-real (não-ação)” e que, embora cumpram um papel essencial nas relações do sujeito consigo mesmo e com o outro, se limitam ao campo da psique, não desempenhando grande papel no campo da vida material.

O que se destaca nas reflexões do autor acerca do sonho é a compreensão de que a idéia cria a realidade, de forma que o sonho deve ser o elemento estruturador da vida material, e esta será mera reprodução do que foi inicialmente projetado.

A mesma abstração invade também o universo do conhecimento. Isto porque, segundo o autor, as atividades do empreendedor não se restringem à interação técnica do sujeito com seu objeto de trabalho, por meio de conteúdos científicos ou técnicos. Em tal interação deve prevalecer o “saber útil”, identificado como aquele que diz respeito “à capacidade de representar a realidade de forma diferenciada e ao grau de congruência entre seu próprio eu e a realidade individualmente construída” (DOLABELA, 2003, p. 28).

Uma vez diminuída a importância do saber cientificamente fundamentado, o “auto-aprendizado” ganha ênfase como instrumento da Pedagogia Empreendedora. Dessa forma, altera-se também a importância do papel do professor, o qual deve, por meio de sua ação, “ampliar as referências e fontes de aprendizado e redefinir o próprio conceito de saber” (DOLABELA, 2003, p. 103).

Entretanto, essa importância conferida ao professor é relativa, visto que supõe-se a desqualificação do trabalho dos profissionais da educação, uma vez que o autor argumenta que, para a implantação da metodologia própria da Pedagogia Empreendedora, não é necessária a contratação de especialistas para sua aplicação no sistema regular de ensino. “Pelo contrário: [a pedagogia empreendedora] é disseminada por meio da preparação de docentes que já participam da rede formal implantada”.

Dolabela não diz de onde vem esse saber e nem que saber é esse. A impressão que fica é que basta um cursinho “walitta” e pronto: qualquer professor estará capacitado para aplicar a metodologia da Pedagogia Empreendedora, de forte viés empirista, uma vez que sugere que a fonte do conhecimento é a própria relação que o indivíduo estabelece com o mundo, com os outros, com os fatos e com as coisas. Imaginemos que relação de aprendizagem terá este “educador” com seus alunos e que grau de aprendizado se pode chegar quando se concebe o conhecimento como um resultado dos sonhos e ações dos indivíduos. O fundamento desse conceito a-histórico de conhecimento é o questionamento da razão como orientadora das práticas e relações sociais, questionamento este típico do movimento pós-moderno[1].

Por esse caráter atomizado e individual, o espírito empreendedor é apresentado como um potencial de qualquer ser humano. Entretanto, são apresentadas algumas condições do ambiente social, consideradas indispensáveis para esse potencial (capital social) se materializar e produzir efeitos. Sem a “rede” formada pela democracia, cooperação e estrutura de poder (considerados os “aminoácidos” que podem permitir a ebulição do potencial do indivíduo), restaria “pouco espaço para o afloramento do espírito empreendedor, que é um dos componentes do capital humano” (DOLABELA, 2003, p. 24-25). Ser empreendedor, nestes termos, passa a ser um componente da própria natureza humana.

Considerações finais:

As reflexões aqui apresentadas são uma introdução ao tema da Pedagogia Empreendedora. Estudos mais aprofundados seguem sendo realizados pelo GP-TESE. Entretanto, pode-se destacar duas idéias facilmente identificáveis nessa nova forma de relacionar economia e educação.

Em primeiro lugar, é possível afirmar que a proposta de Pedagogia Empreendedora apresentada e defendida na obra aqui citada não questiona e nem propõe o rompimento com o modelo perverso de produção capitalista. Pelo contrário, propõe uma relação positiva com esta realidade da forma como está estabelecida, sem operar conflitos. No conceito de sociedade subjacente à proposta de Pedagogia Empreendedora, a compreensão do homem é separada do resultado de sua produção, ao mesmo tempo em que se defende que o sonho é individual, mas que o resultado dele deve trazer benefício para a coletividade. Numa compreensão deste tipo, o fato de uns se apropriarem do resultado do trabalho dos outros é naturalizado; isso evidencia uma identificação da proposta com os pressupostos da Economia Política Clássica, mais explicitamente com as teses de Adam Smith fundadas na idéia da distribuição natural da riqueza material produzida coletivamente, em função dos hábitos, costumes e educação de cada homem tomado individualmente (Smith, 1981).

Em segundo lugar, pode-se afirmar que a “teoria” que serve de base para a Pedagogia Empreendedora aposta numa iniciativa individual e joga para o sujeito toda a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso do seu sonho (projeto). A proposta não leva em conta os conflitos de classe, os quais são travestidos numa espécie de destemor do empreendedor frente aos desafios da vida. Para a Pedagogia Empreendedora, o fracasso é desistir do sonho. Enquanto isso não acontecer, não há fracasso.

 

Referências bibliográficas:

ANDERSON, Perry. As Origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

CARNEIRO, Ricardo. Os clássicos da economia. V. 1 e 2. São Paulo : Ática, 1997.

CHAUÍ, M. Vocação política e vocação científica da Universidade. Educação Brasileira, Brasília: MEC/CRUB, 15(31), 1993.

DOLABELA, Fernando. Pedagogia Empreendedora - O Ensino do Empreendedorismo na Educação Básica, voltado para o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo : Editora de Cultura, 2003.

HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo : Loyola, 1999.

JAMESON, Frederic. Pós-modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997.

SEBRAE. Educação – Sebrae – Introdução. 2005. Disponível em http://educacao.sebrae.com.br/pportal.asp?nPortalID=1&nHierarquiaID=200 . Acessado em 12 abr. 2005.

SMITH, Adam. Uma investigação sobre a natureza e causa da riqueza das nações. Livro 1. São Paulo : Hemus, 1981.

 

por GEORGIA SOBREIRA DOS SANTOS CÊA & ANTONIO SANTOS DA LUZ

   

 

 

 

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[1] Referimo-nos aqui especialmente à explicitação da crítica à razão moderna, tese básica evocada por tendências teóricas pós-modernas. Segundo Chauí (1993), a crítica à razão moderna pode ser sintetizada a partir de quatro principais argumentos: a) negação de que haja uma esfera da objetividade. Esta é considerada um mito da razão, e em seu lugar surge a figura da subjetividade narcísica desejante; b) negação de que a razão possa propor uma continuidade temporal e captar o sentido da história. O tempo é visto como descontínuo, a história é local e descontínua, desprovida de sentido e necessidade, tecida pela contingência; c) negação de que a razão possa captar núcleos de universalidade no real. A realidade é constituída por diferenças e alteridades, e a universalidade é um mito totalitário da razão; d) negação de que o poder se realize a distância do social, através de instituições que lhe são próprias e fundadas tanto na lógica da dominação quanto na busca da liberdade. Em seu lugar existem micropoderes invisíveis e capilares que disciplinam o social.

Tanto a pertinência de teses pós-modernas como a crítica a vários questionamentos formulados por correntes e autores representantes do pós-modernismo são objetos de análise de diferentes estudos (JAMESON, 1997; ANDERSON, 1999; HARVEY, 1999). Não obstante a importância e a necessidade de se considerar algumas elaborações próprias do pós-modernismo, evitando que se caia num preconceito teórico pouco afeto ao campo da ciência, destacamos aqui a observação formulada por Harvey (1999, p. 111-112) de que certas correntes pós-modernas sustentam a possibilidade de uma “acomodação pacífica com o mercado”, estimulando uma “cultura empreendimentista que é o marco do neoconservadorismo reacionário”.

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