por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Retorno à Cidade Maravilhosa, ou: carro pequeno, fuzil grande

 

Sempre é uma grande alegria voltar ao Brasil. Sempre. Os amigos nos recebem com Vista do Corcovado (RJ) - Foto da autorasorrisos e abraços, a família tem muitas coisas pra contar. É um tal de conhecer os novos membros da família – os que nasceram e os que entraram pela porta do casamento – e de reatar conversações com os demais. Às vezes, é tempo também de resolver algum mal-entendido, “ficar de bem”. E, infelizmente, algumas vezes a visita traz à tona lembranças tristes, saudades, recordações dos que já se foram.

Voltei ao Brasil neste junho passado. Foram grandes alegrias com amigos, parentes, e conhecidos. Os dias se fizeram curtos, as horas em minutos, e antes que eu notasse, já se acabavam os 30 dias, e era hora de voltar. Eu tenho certeza que qualquer pessoa que mora longe da terra natal, ou de algum lugar em que morou muito tempo e onde fez laços de amizade, sabe do que estou falando. Bem como diz a música do Milton Nascimento, “o trem que chega é o mesmo trem da partida”, e a hora vem, e temos que partir.

Em trinta dias muitas coisas acontecem, e chega a hora de fazer o balanço geral da visita. Para mim, nesta última vez, tenho que reconhecer que embora nem tudo tenha sido rosas, o saldo foi positivo. Voltar ao Brasil para mim é uma coisa vital, uma maneira de refazer minhas células pensantes e sentintes, lembrar dos cheiros, das cores, dos sons que só existem no Brasil. Como minha terra é o Paraná, para mim o Paraná é o Brasil.

Mas o Brasil é muito grande, e logicamente, ninguém pode lembrar de tudo ao mesmo tempo. Uma parte do Brasil que eu tinha esquecido há muitos anos é o Rio de Janeiro. Morei lá por três anos nos anos oitenta, e não tinha retornado desde 1990. Em 16 anos, como mudou a cidade? Pra poder ter uma idéia das mudanças, eu sempre tenho que ter em mente como as coisas eram, as notícias que recebi durante esta ausência de uma década e meia, e o que vi neste fim de junho.

A situação do turista

Na portaria do meu hotel em Copacabana há um pôster do Cristo do Corcovado, de costas, e as palavras, “Não dê as costas à violência contra o turista”. O que significa isto? Significa, no mínimo, que há violência contra o turista, e que muitas pessoas moradoras da cidade simplesmente ignoram esta violência. Por que ignoram? Seria porque a cidade tem violência por todo lado, e não custa ignorar aquela cometida a quem vem aqui a passeio? Seria uma violência dirigida especificamente aos visitantes, e portanto mais agravante? O Rio de Janeiro, infelizmente, adquiriu a fama de cidade violenta e perigosa para os visitantes. Muitas pessoas, especialmente estrangeiras, decidem não vir ao Rio para evitar justamente a violência, os assaltos.

Vista do Leme (RJ) - Foto da autoraOnde ficam os turistas no Rio? Creio que a grande maioria fica mesmo na Zona Sul, em hotéis, ou em apartamentos bem guardados. A Zona Sul tem um policiamento visível, e pode-se pensar que assaltos seriam muito difíceis. Tal não era a situação quando eu morava no Rio, quando se ouvia de assaltos a turistas na praia, na Floresta da Tijuca, arrastões. Eles tinham que entregar máquinas fotográficas, dinheiro, tudo, para não serem cortados a faca pelos assaltantes, em geral crianças. Na minha (curta) estadia no Rio neste fim de junho, não vi nenhuma criança com jeito de assaltante, e de fato no calçadão da Avenida Atlântica as famílias passeavam com bebês e cachorros, obviamente sem se preocuparem com sua segurança.

Mas o pôster no hotel me lembra que talvez esta violência continue existindo. Eu creio que a violência ocorre principalmente naquele espaço em que a pobreza se se encosta à riqueza. Alguns bairros do Rio estão colados a favelas onde abundam os desempregados, as crianças sem escola, e os pais que não têm como alimentar sua família. Santa Tereza me vem à mente, porque em 1986 um amigo meu foi assaltado por crianças armadas de lâminas assim que deixou o bondinho.

O pôster está pedindo, num hotel para turistas, que as pessoas não cometam violência contra o turista. É uma mensagem ao menos fora de propósito, a não ser que esteja dizendo ao turista que a cidade tomou nota, e que quer fazer o possível para parar com a violência. Mas a razão da violência, dos assaltos, está sendo investigada e sanada? Ou simplesmente este pôster quer dizer, à galinha dos ovos de ouro – o turista – que continue botando ovos de ouro?

Indo devagar e sempre

Como o tempo era curto, decidimos ser práticos, e aproveitar uma oportunidade que a localização do hotel – em Copacabana – nos proporcionou. Um dos motoristas de táxi que têm ponto diante do hotel nos ofereceu um “pacote”, que nos levaria a vários pontos da cidade. Fernando, o motorista, tem todas as características que em geral os cariocas gostam de apregoar que têm: simpático, bem falante, bem humorado, e conhecedor da cidade. Nos dias que passamos ao Rio, ele nos levou a vários lugares, conversamos sobre nossas famílias, trocamos endereços, e ficamos de voltar.

Agradecemos ao Fernando pela excelente oportunidade de voltar a lugares longe de Copacabana sem termos que nos preocupar com nada. Além de bom motorista, ele também se mostrou uma fonte de conhecimentos sobre as coisas da cidade. O carioca de bem com a vida existe. Fernando é uma prova disto, embora tenha que vir todos os dias pelas estradas perigosas, mais de 70 km, para poder trabalhar na Zona Sul. Ele nos disse, num dos nossos passeios, que ele acredita que o Rio está melhorando, e que as coisas ruins acontecem a quem tem a falta de sorte de “estar no lugar errado na hora errada”.

As crianças abandonadas

Quando me mudei do Rio, em 1987, uma das coisas que mais me perturbava era sair Anjo no interior da Candelaria (RJ) - Foto da autorade manhã para o trabalho e deparar com crianças dormindo no chão, pelas calçadas, embrulhadas em jornais. No princípio, eu levava comida, dinheiro, e parava para conversar. Voltava sempre pra casa com um sentimento de culpa, de impotência, de tristeza. Com o tempo, passei a evitar os lugares onde sabia que haviam crianças de rua dormindo no chão. Aquelas cenas, jamais esquecerei.

Anos depois houve o massacre da Candelária, que levou amigos meus de várias partes do mundo a me questionarem – de repente virei representante do Brasil inteiro e de suas injustiças sociais. Como explicar a eles o horror, o asco, de pertencer a um país em que um grupo de homens armados liquidou com um grupo de crianças abandonadas, bem diante de uma das igrejas mais históricas do país? Não tive explicação nenhuma para ninguém que me perguntou o por quê do massacre, a não ser que, vivendo dentro deste sistema tão injusto, cada grupo social deixou de encarar o outro como humano. Para os que executaram as crianças da Candelária, cada um daqueles meninos não era mais que uma barata asquerosa. Assim como – vide acima – as crianças do morro de Santa Tereza assaltaram meu amigo e disseram que o cortariam em pedaços se ele não cedesse sua câmera e dinheiro. Para eles, meu amigo era nada mais que uma barata que tinha dinheiro e um objeto que eles poderiam vender para se manter. Uma espécie de compartilhamento de bens, feita à machadada.

Neste fim de junho, fui ao centro e quis ir ver a Candelária. Nada do lado de fora nem do lado de dentro da igreja indica que houve aquela violência naquele lugar. Nada. O trânsito continua como sempre, e alguns devotos entram para rezar. Algumas pessoas conhecidas, que moram no Rio, dizem que há missas no local todo ano, pelas almas das crianças e outras pessoas mortas.

Fico pensando naquele menino que sobreviveu ao massacre e mais tarde aterrorizou a cidade ao atacar um ônibus, tomar uma passageira como refém, matá-la na confusão e falta de treinamento dos policiais para lidar com estas situações, e depois ser morto pela polícia, ali, na frente de todos, diante das câmeras de televisão. A violência gerando mais e mais violência. A causa primeira está sendo estudada, apurada, diagnosticada?

Crescer é inevitável

É verdade, a Rocinha está crescendo! Este tipo de frase, se dita sobre alguma cidadezinha ou bairro qualquer, traz orgulho aos moradores. Quando é a Rocinha que está crescendo, o que acontece é pânico por parte dos moradores da Gávea, que vêem seu bairro sendo “invadido”. A Rocinha cresceu, subiu o morro, chegou do topo, e começou a descer, pelo lado da Gávea. Daí o pânico. E daí o muro, uma espécie de “Muralha da China” que visa conter os “bárbaros”. Mas, tal como aconteceu com a muralha da China, este muro também não vai conter os invasores.

Vivendo detrás das grades

Quando fomos, uma manhã, dar uma volta ao Leblon e tomar um suco de frutas em uma lanchonete ao lado de um edifício onde moramos, meu marido e eu não conseguimos reconhecer o edifício. Tivemos que passar duas vezes diante dele para reconhecê-lo: agora tem uma fachada de grades de ferro tão imponente que a portaria do prédio está escondida, acabrunhada na escuridão.

Daí começamos a prestar atenção: todos os prédios onde moravam amigos nossos estão com um extensivo trabalho de grades de ferro, trancas e mais trancas que sobem até o segundo andar. E quem pode criticar os moradores? Se alguém já foi assaltado dentro de sua própria casa, ou conhece alguém que foi assaltado, ou morto, sabe muito bem o sentimento de terror que governa a colocação de tais grades.

É quase surpreendente ver que as pessoas ainda andam nas ruas sem armaduras.

Coisas turísticas

Mas o Rio continua lindo, como diz a canção. Não torço pelo Flamengo, nem pelo Vasco, nem pra qualquer time carioca, mas o Rio continua lindo. A vista de cima do Corcovado, de cima da Urca, ou da Floresta da Tijuca, continua lindíssima. Não tem cidade mais bonita no mundo. E nestes locais turísticos fechados como o Corcovado e o Pão de Açúcar, a segurança é total. O negócio é chegar até lá. Fernando nos contou que crianças dos morros perto do Corcovado colocaram pedras nos trilhos do trenzinho, e quando este parou, eles assaltaram todos os passageiros. Estas histórias correm mundo, logicamente.

Carro pequeno...

Uma outra manhã, fomos com Fernando a São Conrado, outro lugar de muitas recordações boas dos anos oitenta. Na ida, Fernando quis nos levar pelo caminho que ladeia a praia. Realmente, é um caminho muito bonito. Mas na pista que vinha de São Conrado havia um engarrafamento total, e se viam vários carros de polícia. Na opinião do motorista, a polícia estava dando uma batida geral, porque “os bandidos do morro” haviam ameaçado fazer com o Rio de Janeiro o que o PCC havia feito em São Paulo umas semanas antes.

Resultado: inconveniência total para todos os que moram em São Conrado e Barra e estavam tentando ir trabalhar naquela manhã. Não pude deixar de lembrar que meus filhos iam para a escola e passavam por aquela estrada todos os dias. E de pensar nas crianças que, naquele dia, estavam naquele engarrafamento, vendo estas imagens. De grão em grão, a galinha enche o papo. De imagem a imagem, a criança constrói sua visão do que é a cidade.

Na volta do passeio, Fernando decidiu tomar o túnel, para evitar o engarrafamento. Nem bem havíamos entrado no túnel, começamos a ouvir as sirenes. Seria um assalto? Um fechamento do túnel com todas pessoas dentro para mais um assalto? Uma luta entre polícia e bandidos? Nos movemos para a pista direita, para dar lugar ao carro da polícia, que passou, luzes piscando, sirene gritando à toda.

Da janela do veículo, pudemos ver o cano de uma arma de fogo. Talvez uma metralhadora? Um fuzil? Não sei, porque faço questão de não saber destas coisas. O fato é que um policial levava esta arma, e pelo jeito, ao colocá-la de fora da janela, indicava estar disposto a usá-la.

Comentário de Fernando, “Carro pequeno, fuzil grande”.

Noite alta, céu risonho...

Na penúltima noite no Rio de Janeiro, depois do jantar eu e meu marido fomos tomar um cafezinho no bar da esquina, algo que sempre gostamos de fazer. Eram talvez 20:30. Quando já íamos sair, escutamos a gritaria na rua, “Pega ladrão! Pega ladrão!” Impossível não ir olhar. E, de fato, lá vinha o ladrão, um homem de uns 30 anos, franzino, descalço, usando só um shorts. E corria como o vento, segurando uma bolsa de mulher.

Um grupo de homens corria atrás. Em dois minutos, escutamos gritos. Eu quis ir ver o que se passava, porque sei muito bem o que uma turba pode fazer. Já vinham arrastando o ladrão, que estava sangrando na testa e no nariz.

Eu fui andando depressa, quase correndo, seguindo o grupo. Acho que estas coisas uma pessoa não pode explicar racionalmente, mas naquele momento eu queria poder fazer alguma coisa por aquele pobre homem rodeado por outros melhor vestidos, melhor calçados, melhor alimentados. Eu sei que esta era uma idéia inútil. Mas naquele momento eu não estava pensando nisto.

O grupo chegou à Avenida Atlântica, onde uma mulher – obviamente a assaltada – chorava histericamente. Cheguei perto. O homem franzino lhe entregou a bolsa, cabisbaixo. Então a violência, que até aquele momento parecia que estava contida, tomou conta de todos os homens da “equipe de busca,” que gritava “Mata este desgraçado! Mata! Mata!” Um policial gordo acompanhava a turba, mas evidentemente não estava querendo fazer nada para interferir.

O ladrão estava de costas para um muro, e um homem de camisa branca chegou até ele, e começou a insultá-lo, e disse que ia quebrar a cara dele. O ladrão colocava os braços diante da cabeça, como proteção. O homem de camisa branca começou a dar safanões no ladrão, que foi se agachando, sempre de costas contra o muro, protegendo a cabeça com os braços.

Naquele momento, comecei a ouvir gritos de “Pára! Pára! Não bate no homem! Chega disto! Pára! Pára!” O homem que estava batendo no ladrão e os demais que estavam já se preparando para distribuir justiça ali mesmo se voltaram, e me encararam. Eu havia gritado, e continuava gritando que parassem.

Talvez eu estivesse mais surpresa que os homens. Para eles, talvez ouvir pedidos que não batessem num ladrão pego no ato era incrível. Todos sabem que no Rio de Janeiro, na Zona Sul, todos querem que os ladrões sejam punidos. Ouvir uma mulher de meia idade gritando que parassem deve ter sido a primeira vez que seu alto sentimento de justiça foi sustado.

Para mim, a surpresa foi que eu não sabia que podia gritar tão alto, e entrar no meio de uma situação tão obviamente perigosa. Os ânimos exaltados como estavam, e aqueles homens poderiam se voltar contra qualquer um que se opusesse aos seus ímpetos justiceiros.

Mas eu sou uma mulher de meia idade, e tenho cabelos brancos, e obviamente pertenço à mesma classe social da que foi assaltada, e dos que estavam tentando distribuir justiça. Não me atacaram. Um deles inclusive tentou dialogar comigo e dizer que aquele homem merecia o que estava recebendo, porque era um ladrão. Eu quis dialogar também, e dizer que este homem era um irmão de cada um deles. O homem disse que não, que não tinha irmão ladrão, e que este “cara” ia parar na cadeia, e que a polícia ia cuidar de tudo. Nem sei se ele me ouvir dizer que isto não resolvia nada, porque, enquanto isto, a turba de homens brancos, ricos e bem malhados distribuía justiça ao ladrão, que estava caído. Eu continuei a gritar e o policial levantou o ladrão do chão e o levou ao camburão. Não antes, porém, do homem que falava comigo me chamar de “burra e ignorante”.

Fiquei na calçada por uns minutos, tentando compreender o que havia acontecido. A turba se dispersou.

Voltamos ao hotel, e telefonei para meus filhos. Talvez para me certificar de alguma coisa intrinsecamente boa neste mundo. Talvez para ter certeza que eles não estavam no Rio.

Arte e vida

Elizabeth Bishop é uma das maiores poetas americanas dos últimos cem anos. Entre muitos detalhes fascinantes da sua vida está o fato que ela viveu no Brasil por muitos anos, e aqui produziu poemas que são considerados obras primas. Bishop viu, com os olhos de quem acaba de chegar, e de quem tem um investimento humano no que vê, e produziu poemas cheios de compaixão, perplexidade, e amor pelas coisas e pessoas que conheceu no Brasil. Mas, acima de tudo, produziu poemas de qualidade. Aqui coloco um de seus poemas escritos quando morou no Rio de Janeiro, “The Burglar of Babylon” (“O ladrão da Babilônia”), que aparece no livro “Questions of Travels,” publicado em 1965.[1]

On the fair green hills of Rio             There grows a fearful stain:           

The poor who come to Rio

And can't go home again.  

 

On the hills a million people,

A million sparrows, nest,

Like a confused migration

That's had to light and rest,

 

Building its nests, or houses,

Out of nothing at all, or air.

You'd think a breath would end them,

They perch so lightly there.

 

But they cling and spread like lichen,

And people come and come.

There's one hill called the Chicken,

And one called Catacomb;

 

There's the hill of Kerosene,

And the hill of Skeleton,

The hill of Astonishment,

And the hill of Babylon.

 

Micuçú was a burglar and killer,

An enemy of society.

He had escaped three times

From the worst penitentiary.

 

They don't know how many he murdered

(Though they say he never raped),

And he wounded two policemen

This last time he escaped.

 

They said, "He'll go to his auntie,

Who raised him like a son.

She has a little drink shop 

On the hill of Babylon."

 

He did go straight to his auntie,

And he drank a final beer.

He told her, "The soldiers are coming,

And I've got to disappear."

 

"Ninety years they gave me.

Who wants to live that long?

I'll settle for ninety hours,

On the hill of Babylon.

 

"Don't tell anyone you saw me.

I'll run as long as I can.

You were good to me, and I love you,

But I'm a doomed man."

 

Going out, he met a mulata

Carrying water on her head.

"If you say you saw me, daughter,

You're as good as dead."

 

There are caves up there, and hideouts,

And an old fort, falling down.

They used to watch for Frenchmen

From the hill of Babylon.

 

Below him was the ocean.

It reached far up the sky,

Flat as a wall, and on it

Were freighters passing by,

 

Or climbing the wall, and climbing

Till each looked like a fly,

And then fell over and vanished;

And he knew he was going to die.

 

He could hear the goats baa-baa-ing.

He could hear the babies cry;

Fluttering kites strained upward;

And he knew he was going to die.

 

A buzzard flapped so near him

He could see its naked neck.

He waved his arms and shouted,

"Not yet, my son, not yet!"

 

An Army helicopter

Came nosing around and in.

He could see two men inside it,

but they never spotted him.

 

The soldiers were all over,

On all sides of the hill,

And right against the skyline

A row of them, small and still.

 

Children peeked out of windows,

And men in the drink shop swore,

And spat a little cachaça

At the light cracks in the floor.

 

But the soldiers were nervous, even

with tommy guns in hand,

And one of them, in a panic,

Shot the officer in command.

 

He hit him in three places;

The other shots went wild.

The soldier had hysterics

And sobbed like a little child.

 

The dying man said, "Finish

The job we came here for."

he committed his soul to God

And his sons to the Governor.

 

They ran and got a priest,

And he died in hope of Heaven

- A man from Pernambuco,

The youngest of eleven.

 

They wanted to stop the search,

but the Army said, "No, go on,"

So the soldiers swarmed again

Up the hill of Babylon.

 

Rich people in apartments

Watched through binoculars

As long as the daylight lasted.

And all night, under the stars,

 

Micuçú hid in the grasses

Or sat in a little tree,

Listening for sounds, and staring

At the lighthouse out at sea.

 

And the lighthouse stared back at him,

till finally it was dawn.

He was soaked with dew, and hungry,

On the hill of Babylon.

 

The yellow sun was ugly,

Like a raw egg on a plate

- Slick from the sea. He cursed it,

For he knew it sealed his fate.

 

He saw the long white beaches

And people going to swim,

With towels and beach umbrellas,

But the soldiers were after him.

 

Far, far below, the people

Were little colored spots,

And the heads of those in swimming

Were floating coconuts.

 

He heard the peanut vendor

Go peep-peep on his whistle,

And the man that sells umbrellas

Swinging his watchman's rattle.

 

Women with market baskets

Stood on the corners and talked,

Then went on their way to market,

Gazing up as they walked.

 

The rich with their binoculars

Were back again, and many

Were standing on the rooftops,

Among TV antennae.

 

It was early, eight or eight-thirty.

He saw a soldier climb,

Looking right at him. He fired,

And missed for the last time.

 

He could hear the soldier panting,

Though he never got very near.   

Micuçú dashed for shelter.

But he got it, behind the ear.

 

He heard the babies crying

Far, far away in his head,

And the mongrels barking and barking.

Then Micuçú was dead.

 

He had a Taurus revolver,

And just the clothes he had on,

With two contos in the pockets,

On the hill of Babylon.

 

The police and the populace

Heaved a sigh of relief,

But behind the counter his auntie

Wiped her eyes in grief.

 

"We have always been respected.

My shop is honest and clean.

I loved him, but from a baby

Micuçú was mean.

 

"We have always been respected.

His sister has a job.

Both of us gave him money.

Why did he have to rob?

 

"I raised him to be honest,

Even here, in Babylon slum."

The customers had another,

Looking serious and glum.

 

But one of them said to another,

When he got outside the door,   

"He wasn't much of a burglar,

He got caught six times - or more."

 

This morning the little soldiers

are on Babylon hill again;

Their gun barrels and helmets

Shine in a gentle rain.

 

Micuçú is buried already.

They're after another two,

But they say they aren't as dangerous

As the poor Micuçú.

 

On the green hills of Rio

There grows a fearful stain:

The poor who come to Rio

And can't go home again.

 

There's the hill of Kerosene,

And the hill of the Skeleton,

The hill of Astonishment,

And the hill of Babylon.

Nos lindos morros verdes do Rio

Cresce uma mancha assustadora:

Os pobres que vêm ao Rio

E não podem mais voltar pra casa.

 

Nos morros um milhão de pessoas,

Um milhão de pardais, fazem seu ninho,

Como uma confusa migração

Que não tem luz nem descanso,

 

Construindo seus ninhos, ou casas,

Feitos de nada, nada, ou de ar,

Você pensaria que um sopro os destruiria,

Eles pousam tão precários no morro.

 

Mas eles se agarram e se espalham como musgo,

E as pessoas continuam vindo, e vindo.

Tem um morro chamado Galinha,

E um chamado Catacumba;

 

Tem o morro da Querosene,

E o morro do Esqueleto,

E o morro do Espanto

E o morro da Babilônia.

 

Micuçú era ladrão e assassino,

Um inimigo da sociedade,

Ele tinha escapado três vezes

Da pior penitenciária.

 

Eles não sabiam quantos ele tinha morto

(embora digam que nunca violentou),

Ele feriu dois policiais

Esta última vez que escapou.

 

Eles disseram, “Ele vai ver sua tia,

Que o criou como um filho,

Ela tem uma lojinha

No morro da Babilônia.”

 

Ele foi, sim, direto, procurar a tia,

E ele tomou sua última cerveja.

Ele lhe disse, “Os soltados estão chegando,

Eu tenho que desaparecer.”

 

“Eles me deram noventa anos.

Quem quer tanto tempo viver?

Eu prefiro noventa horas

No morro da Babilônia.

 

 “Não diga a ninguém que você me viu.

Eu vou correr enquanto puder.

Você foi boa para mim, eu amo você,

Mas eu sou um condenado a morrer.”

 

Ao sair, ele encontrou uma mulata,

Levando água na cabeça,

“Se você disser que me viu,

Você está morta, minha filha.”

 

Existem cavernas lá no alto, esconderijos,

E um velho forte, caindo aos pedaços.

Antes, se vigiavam os franceses

Lá do morro da Babilônia.

 

Abaixo dele estava o oceano

Que chegava até o céu,

Plano como uma parede, e nele,

Se viam os navios cargueiros, passando,

 

Ou subindo a parede, subindo

Até que cada um parecia uma mosca,

E depois caíam e desapareciam;

E ele sabia que ia morrer.

 

Ele podia ouvir os bodes, Bée! Bée!

E escutava o choro dos bebês;

Pipas trêmulas subiam, lutando contra o vento;

E ele sabia que ia morrer.

 

Um urubu bateu as asas perto dele

Ele podia ver seu pescoço pelado.

Ele abanou as mãos e gritou,

“Ainda não, meu filho, ainda não!”

 

Um helicóptero do exército

Veio voando, voando, chegando perto.

Ele podia ver os dois homens dentro,

Mas eles nunca o viram.

 

Os soldados estavam por todo lado,

Em todas as encostas do morro,

E encostados na linha do céu

Uma fila deles, pequenos e parados.

 

As crianças olhavam pelas janelas,

E os homens no boteco juravam,

E cuspiam um pouco de cachaça,

Nas frestas do assoalho.

 

Mas os soldados estavam nervosos,

Mesmo com armas na mão,

E um deles, em pânico,

Atirou num oficial comandante.

 

Ele o feriu em três lugares;

Os outros tiros foram desgovernados.

O soldado ficou histérico

E chorava como uma criancinha.

 

O moribundo disse, “Terminem

O trabalho que nos trouxe aqui.”

Ele entregou sua alma a Deus,

E seus filhos ao governador,

 

Eles correram e trouxeram um padre,

E ele morreu na esperança do céu

- Um homem de Pernambuco,

O caçula de onze irmãos.

 

Eles queriam parar a busca,

Mas o exército disse, “Não, vão em frente,”

Então os soldados subiram de novo

O morro da Babilônia.

 

Os ricos em apartamentos

Assistiam com seus binóculos

Enquanto havia luz do sol,

E a noite inteira, debaixo das estrelas,

 

Micuçú se escondia no capim

Ou se sentava em uma arvorezinha,

Escutando os sons, e olhando

O farol no mar ao longe.

 

E o farol olhava para ele, também

Até que chegou a manhã.

Ele estava molhado de orvalho, e com fome,

No morro da Babilônia.

 

O sol amarelo era feio,

Como um ovo cru num prato – 

Molhado pelo mar. Ele o amaldiçoou,

Porque ele sabia que ele selava sua sorte.

 

Ele viu as longas praias brancas

E as pessoas indo nadar,

Com toalhas e sombrinhas de praia,

Mas os soldados o perseguiam.

 

Longe, lá longe, as pessoas

Eram pontinhos coloridos,

E a cabeça dos que nadavam

Eram cocos flutuantes.

 

Ele ouviu o vendedor de amendoim

Fazer peep-peep com seu assovio,

E o homem que vende sombrinhas

Sacudindo seu chacoalho de guarda.

 

As mulheres com cestas de compra

Paravam nas esquinas a conversar,

Depois elas iam para o mercado,

Olhando pra cima ao caminhar.

 

Os ricos com seus binóculos

Estavam de volta, e muitos

Tinham subido nos telhados,

Entre as antenas de TV.

 

Era cedo, oito ou oito e meia.

Ele viu um soldado subir,

E olhar direto para ele. Ele atirou,

E errou pela última vez.

 

Ele podia escutar o soldado resfolegando,

Mas ele nunca chegou perto,

Micuçú procurou abrigo,

Mas acabou levando um tiro, atrás da orelha.

 

Ele escutou bebês chorando

Longe, longe, dentro de sua cabeça,

E os vira-latas latindo, latindo

E então Micuçú estava morto.

 

Ele tinha um revólver Taurus

E as roupas do corpo,

Com dois contos nos bolsos,

No morro da Babilônia.

 

A polícia e a população,

Deram um suspiro de alívio,

Mas detrás do balcão sua tia

Enxugava os olhos com tristeza.

 

“Nós sempre fomos respeitados.

Minha loja é honesta e limpa.

Eu amava o menino, mas desde bebê

Micuçú era mau.

 

“Nós sempre fomos respeitados.

Sua irmã tem um emprego.

Nós duas lhe dávamos dinheiro.

Por que ele tinha que roubar?

 

“Eu o criei pra ser honesto,

Mesmo aqui, na favela da Babilônia.”

Os fregueses tomaram outra,

Todos com cara séria e triste.

 

Mas um disse ao outro,

Do lado de fora da porta,

“Ele não era lá um grande ladrão,

Foi pego seis vezes – ou mais.”

 

Esta manhã os soldadinhos

Estão no morro da Babilônia de novo;

Suas cartucheiras e capacetes

Brilham no chuvisqueiro.

 

Micuçú está enterrado.

Eles estão atrás de outros dois,

Mas eles dizem que não são tão perigosos

Como o pobre Micuçú.

 

Nos morros verdes do Rio 

Cresce uma mancha assustadora:

Os pobres que vêm ao Rio

E não podem mais voltar pra casa.

 

Tem o morro da Querosene,

E o morro do Esqueleto,

E o morro do Espanto,

E o morro da Babilônia

[1] BISHOP, Elizabeth. The Complete Poems; 1927-1979. New York: The Noonday Press, 1979, 112-20. O texto em português é tradução minha.  Para um estudo aprofundado deste poema, recomendo o texto de Axel Nesme, “The Ballad Revisited: Elizabeth Bishop’s ‘The Burglar of Babylon,” Cercles 12 (2005): 94-107. Também disponível na rede em http://www.cercles.com/n12/nesme.pdf

 

por EVA PAULINO BUENO

   

 

 

 

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