A
promoção da saúde como componente estratégico para os
empreendimentos econômicos solidários
Nos
últimos anos, o país vem passando por mudanças sociais radicais
referentes às novas tendências de mercado e relações de
trabalho, ambas direcionadas pelo aporte da reestruturação
produtiva (ANTUNES, 2000) articulada à baixa efetividade na regulação
do Estado às questões de pobreza e desigualdade social da população
brasileira (Minayo-Gomez;
Thedim-Costa, 1999).
Neste
cenário, sob o contexto da flexibilização e precarização dos
meios produtivos (MINAYO-GOMEZ & THEDIM-COSTA, 1997),
percebem-se que vias alternativas de trabalho e renda estão
ressurgindo no país, traçando consigo novas racionalidades de
produção (SINGER, 2000, 2002) e disposições sociais em torno da
revalorização das atividades de trabalho voltadas para a
auto-suficiência de vida de diferenciados grupos humanos (França-Filho,
2002). A emergência dos denominados empreendimentos econômicos
solidários, aos moldes dos princípios cooperativistas e
autogestionários, configura-se, dessa forma, como uma saída ao
desemprego e à geração imediata de renda, articulando ações de
proteção social no cotidiano de vida dos trabalhadores. (RECH,
2000; SINGER, 2000)
Atualmente,
tal panorama vem provocando novas discussões no campo da Saúde do
Trabalhador. Nesta abordagem, a análise do processo de trabalho -
entendido como a interseção entre as relações sociais e técnicas
que configuram os diferentes contextos de trabalho - constitui o
referencial fundamental na avaliação e compreensão das
particularidades da situação de adoecimento, acidentes e qualidade
de vida no trabalho. A saúde é compreendida como o resultado do
conjunto de condições com que a pessoas vivem, podendo envolver os
agentes patológicos, as condições de alimentação, higiene,
moradia, renda, lazer, trabalho, assistência médica e tudo o mais
que possa interferir no cotidiano do indivíduo provocando-lhe
questionamentos e desmotivações. (LAURELL, 1983; MINAYO-GOMEZ
& THEDIM-COSTA, 1997)
Em
nossos estudos, é comum indicarmos a necessidade de ampliarmos as
discussões sobre a saúde dos trabalhadores, articulando-a às noções
levantadas pelos trabalhadores e questões específicas do trabalho
autogestionário. Neste texto, daremos ênfase à discussão dos
pressupostos da atenção em saúde do que se vem denominando Promoção
da Saúde em relação aos empreendimentos econômicos solidários
emergentes.
A
Promoção da Saúde e as questões dos empreendimentos econômicos
solidários
Em
termos gerais, a promoção
da saúde se apresenta como um corpo de conhecimento propositivo
orientado para a construção de ações inter e transdisciplinares,
de forma a reconhecer e interferir na complexidade dos problemas da
saúde e reconhecer o sujeito como ator dessas ações.
A
partir das formulações de Buss (2000:165) observamos que:
“A
promoção da saúde como vem sendo entendida nos últimos 20-25
anos, representa uma estratégia promissora para enfrentar os múltiplos
problemas de saúde que afetam as populações humanas e seus
contornos nesse final de século. Partindo de uma concepção
ampla do processo saúde-doença e de seus determinantes, propõe
a articulação de saberes técnicos e populares, e a mobilização
de recursos institucionais e comunitários, públicos e privados,
para seu enfrentamento e resolução”.
Tal
perspectiva se destaca por duas tendências de reflexão e proposição
de ações em saúde. Segundo Carvalho (apud FREITAS, 2003), a
primeira tem sido orientada a tratar a saúde como um componente das
propostas de desenvolvimento e a atribuir um valor de mercado, de
forma a articular às políticas de ajustes estrutural, de caráter
inter-setorial. A segunda ocorre em paralelo aos fatores de riscos
de adoecimentos e acidentes e a condutas de comportamento sociais as
questões sociais em saúde. Esta última tendência possui como
motivação central o desenvolvimento de habilidades individuais e
comunitárias orientadas a suprimir as questões levantadas pela
população, bem como à reorientação dos serviços de saúde - de
forma a superar os modelos biomédicos de atenção da doença/assistência
individual (Caponi, 2003;
Czeresnia, 2003), para a responsabilidade pela redução das
doenças e prolongamento da vida dos indivíduos (PAIM, 2003). Deste
modo, a promoção da saúde busca articular políticas públicas e
as ações profissionais em conjunto com os sujeitos, tendo
como foco os condicionantes do processo de adoecimento e saúde das
populações (WHO, 1986). Segundo a Carta de Bogotá, tais
condicionantes se relacionam a(o) 1) superação das desigualdades
econômicas, sociais, ambientais, políticas e culturais através do
acesso e cobertura dos serviços de saúde; 2) criação de
alternativas em saúde orientadas a combater as enfermidades
causadas pela pobreza e daquelas decorrentes da urbanização e
industrialização; 3) reafirmação da democracia nas relações
sociais; 4) desenvolvimento integral e recíproco dos seres humanos
(FREITAS, 2003).
No
Brasil, a promoção da saúde é um segmento em debate que pretende
cada vez mais achar caminhos que possibilitem criar uma nova
perspectiva e agenda política em saúde, em especial, preocupada em
compreender e interagir com os condicionantes sociais do processo saúde
e doença em conjunto com as populações em seus territórios de
convivência, de forma a construir condições para a autonomia no
cuidar-lidar com sua saúde.
Atualmente
os empreendimentos econômicos solidários envolvem um conjunto de
organizações humanas sob as formas de empresas; associações ou
cooperativas de trabalhadores; e projetos comunitários que
apresentam iniciativas socioeconômicas diversas, cujos traços se
destacam pela solidariedade, mutualismo, cooperação e autogestão
das atividades produtivas. A autogestão prevê a organização e o
controle democrático do trabalho pelos trabalhadores que dele
participam. Seus atos presumem a existência de mecanismos de
participação os quais se constituem como espaços reflexivos e
decisórios sobre os aspectos normativos do trabalho. Dessa forma,
autogestão valoriza a autonomia dos sujeitos no trabalho,
contemplando suas idéias e saberes sobre as ações que realizam.
Segundo
França-Filho (2002), dessa igualdade de direitos entre os
trabalhadores, esses grupos apresentam novos modelos econômicos,
ordenamentos pela valorização
da autonomia e independência do trabalhador na aplicação de seus
ideários produtivos e sociais. Em
termos gerais, essas experiências apontam para novas formas de
organização, produção e distribuição pela participação
coletiva sobre a construção dos suprimentos de vida dos
trabalhadores (Minayo-Gmez
& Thedim, Costa, 2005; Franca-Filho, 2002; SINGER,
2002, 2000; RECH, 2000).
Considerações
finais
Observa-se
que muitos empreendimentos econômicos solidários, ao se
encontrarem em meio ao trabalho informal, acabam sendo desprovidos
ou afastados dos aparatos técnico-jurídicos viáveis a suas
atividades, em especial, da organização e gestão do trabalho.
Interagir
com o estado de saúde desses trabalhadores envolve, nesse sentido,
compreender interagir com as características do processo de
trabalho articulando-o aos valores solidariedade, autonomia, cooperação
e autogestão das atividades e das estratégias desenvolvidas frente
às leituras, necessidades e problemáticas cotidianas em saúde.
Ponderar
sobre a relação da promoção da saúde nesses espaços significa,
antes de tudo, questionar sua habilidade de se envolver no processo
de trabalho autogestionário e promover uma mudança de atitude por
parte dos vários setores da sociedade (organizações não
governamentais, governos, profissionais de saúde e comunidade)
quanto à implementação política, econômica e social para a
viabilidade autogestionária desses empreendimentos, atualmente
fragilizada pelos processos de precarização do trabalho e da proteção
social dos trabalhadores associado-cooperados. Dentro destas
perspectivas, as disposições da promoção da saúde se configuram
também pela possibilidade de organização e acompanhamento, em
conjunto com os trabalhadores, dos processos de trabalho autogestionários
e seus impactos às questões levantadas em saúde; no reforço da ação
dos trabalhadores nos espaços comunitários e de convivência, e em
perceber e buscar meios de lidar com a saúde; e na reorientação
do sistema de saúde, envolvendo-o na ampliação das ações de
assistência e vigilância em saúde do trabalhador.
Em
meio ao contexto diversificado e heterogêneo de atividades de produção,
distribuição e convivência, esses empreendimentos constituem
novos contextos de reflexão e práticas em saúde. Tais
agrupamentos possibilitam o desenvolvimento de ações que
envolvam as problemáticas resultantes das condições de vida do
grupo, em parceria com profissional de saúde, ampliando assim a lógica
de assistência da doença para a as intervenções nas questões
que qualificam e promovam o estado de saúde dos sujeitos,
capacitando-os no que se refere à autonomia e participação para a
percepção dos agravos, acidentes e estratégias de resolução de
seus problemas cotidianos no trabalho.
Pela
aproximação da promoção da saúde no contexto do trabalho
autogestionário, observamos que os próprios trabalhadores possam
construir estratégias necessárias para a emancipação, autonomia
e participação no trabalho, programando mudanças no seu estilo de
vida, no ambiente produtivo e de convivência social,
configurando-se como ações diversificadas em promoção da saúde.
por
BRUNO
SOUZA BECHARA-MAXTA