|
por
LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Luiz
Alberto Cientista político,
professor titular (aposentado) da Universidade de Brasília e
autor de várias obras, entre as quais "Formação do Império
Americano, da Guerra contra a Espanha à Guerra no Iraque").
|
|
Discurso
pronunciado por ocasião do recebimento do Prêmio Intelectual
do Ano de 2005 (Troféu Juca Pato), em 03 de agosto de 2006
Com
saudade e tristeza pelo seu desaparecimento, quero antes de tudo
prestar homenagem à memória de nosso querido amigo Antônio Rezk.
Ele foi um grande pensador e sua
obra deve ser amplamente difundida. A ele sou imensamente
grato pois foi quem primeiro excogitou o lançamento de minha
candidatura ao Troféu Juca Pato, logo após a eleição do notável
economista, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, que já me deu a
honra de prefaciar a 3ª edição de meu livro Presença
dos Estados Unidos no Brasil.
Ganhar o tão honroso Troféu Juca Pato, eleito o Intelectual do Ano
de 2005, constitui para mim a maior homenagem que poderia receber,
ao completar 70 anos de vida e 50 anos de intensa atividade literária
e acadêmica, pois foi em 1956 que, por indicação do poeta Augusto
Frederico Schmidt, o Serviço de Documentação do então Ministério
da Educação e Cultura publicou meu primeiro livro, um livro de
poemas, intitulado Verticais.
Comecei
a escrever poemas aos 14/15 anos de idade.
E poemas, conforme o poeta alemão Rainer Maria Rilke
salientou, não são, como alguns crêem, simples sentimentos. São
experiências. As minhas experiências, no entanto, desviaram-me da
poesia, modo primevo de expressão, que se diferencia da prosa, pela
essência, não pela forma e qualidades superficiais, e passei a
dedicar-me, quase que exclusivamente, ao estudo científico e à
pesquisa acadêmica, como cientista político e historiador. E foi
fundamental para mim o contacto direto com o fenômeno político,
que passei a ter desde 15 anos de idade, quando minha prima Isa
Moniz de Aragão levou-me a trabalhar com ela no Diário da Bahia,
no período da tarde, após terminarem as aulas do curso, que ainda
fazia, no Colégio Estadual da Bahia.
No Rio de Janeiro, onde depois fui morar, com 18/19 anos de
idade, na residência de meu tio, o jornalista e professor Edmundo
Ferrão Moniz de Aragão, a quem devo grande parte de minha formação
intelectual, passei a viver dentro do meio político e a conhecer os
mais diversos personagens tanto da política interna quanto da política
exterior do Brasil.
Jean
Jacques Rousseau, na sua novela epistolar Julie ou la nouvelle Héloïse,
publicada em 1761, disse: “Entendo que é uma loucura
querer estudar a sociedade (o mundo) como simples observador. Quem
deseja apenas observar nada observará, uma vez que sendo inútil no
trabalho e um estorvo nas brincadeiras, não está em nenhum dos
dois lados. Observamos a ação dos demais na medida em que nós
mesmos atuamos. Na escola do mundo, como na do amor, temos de começar
com o exercício prático daquilo que desejamos aprender.”
Também Karl Kautsky
salientou que o que aprendemos com a simples observação das
coisas é insignificante comparado com o que aprendemos por meio da
experiência. O que milita, que atua, se dotado de suficiente
preparação científica, entenderá com mais facilidade o fenômeno
político do que o estudioso de gabinete, que nunca teve o menor
conhecimento prático das forças motrizes da história.
Porém,
os fatos só valem pelo que expressam e nada significam se não são
concatenados, com base em uma teoria, de modo que permita
estabelecer as suas mútuas relações. Aceitar pura e simplesmente
a observação e o registro de fatos brutos não é fazer ciência.
É resvalar para o empirismo estéril. Não basta observar os fenômenos.
É necessário averiguar suas causas, seu desenvolvimento e conseqüências.
A esta investigação, que visa a desvelar os fios ocultos por trás
da superfície dos acontecimentos, alguns, intentando ocultar a
realidade, chamam de teoria conspirativa da história. Mas a ciência
busca conhecer e revelar os vínculos que condicionam e interligam
os fatos, coordená-los, e não pode descartar as hipóteses, que
serão ou não desmentidas pela investigação empírica. “Sábio
não é seguramente quem observa e acumula fatos; mas quem os
harmoniza e imprime unidade a esses materiais dispersos: é quem
parte do estudo analítico dos fenômenos para chegar a uma apreciação
sintética, à determinação das leis gerais que os regem” –
escreveu meu tio Egas Carlos Moniz Sodré de Aragão, catedrático
da Faculdade de Medicina da Bahia, em sua obra A
Vida e seus Phenomenos Vitaes,
publicada em 1892, pouco antes do seu falecimento, aos 51 anos de
idade.
Ao
longo de minha vida, não me limitei a ser mero observador. Ao mesmo
tempo em que estudava ciências jurídicas, nas quais me graduei em
1960, trabalhei em importantes jornais, como o Diário da Noite,
Jornal do Commercio, Correio da Manhã e o Diário
de Notícias, do Rio de Janeiro, nos quais convivi com grandes
profissionais, como Nahum Sirotsky, que atualmente vive em Israel,
Luiz Paulistano e Antônio Callado, bem como com duas personalidades
extraordinárias, minha prima Niomar Moniz Sodré Bittencourt e o
jurista Francisco Clementino de San Tiago Dantas, depois chanceler
no governo de João Goulart. Esta experiência, que tive na
imprensa, permitiu-me o contacto direto com o fenômeno político,
fatos e personagens. Porém, em virtude de minha formação acadêmica
e teórica, não me conformei com a acidentalidade dos episódios
históricos, fossem nacionais ou internacionais, e procurei
interpretá-los em seu encadeamento mediato, em sua condicionalidade
essencial, por entender que a ciência política sem história é
mero exercício impressionista.
Um
artigo, um ensaio ou um livro, evidentemente, não refletem apenas
experiências. Teve razão
meu amigo e colega, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, ao recordar,
quando recebeu o Troféu Juca Pato, no ano passado, que
Johann Christian Friedrich Hölderlin,
outro grande poeta alemão, considerava a linguagem o mais
perigoso dos bens
(“der
Güter gefährlichstes, die Sprache dem Menschen gegeben”),
mas acentuava que ela foi entregue ao homem para que dê o
testemunho de haver herdado o que ele é, pois herança jamais é
uma doação, mas uma tarefa.
De fato, quando escrevo, estou dando testemunho de que sou o que
herdei, estou a revelar o legado que recebi, adaptado ao tempo e às
circunstâncias de minha vida, às minhas experiências na terra. E
algo que herdei e guardo é a memória paradigmática de um
antepassado meu, o filósofo Antônio Ferrão Moniz de Aragão, que
fora discípulo de Augusto Comte e quiçá o primeiro introdutor do
positivismo no Brasil. Ele libertou todos os escravos, ao regressar
da Europa para assumir os engenhos de açúcar, de seu pai, o barão
de Itapororoca, um dos próceres da luta pela independência na
Bahia, falecido em 5 de dezembro de 1834. Entendeu que
“dono de engenho, filósofo e cavalheiro são, com efeito, três
características difíceis de unir numa só pessoa”. E preferiu
ser filósofo. Dedicou sua vida ao saber. Essa herança eu
tinha de preservar e transmitir ao meu filho. É a minha tarefa.
Foi
dentro de tal tradição libertária e de amor ao conhecimento que
me criei, ao mesmo tempo em que recebia o impacto da luta contra o
nazi-fascismo, durante a Segunda Guerra Mundial que, embora travada
em cenário longínquo, repercutiu na Bahia e marcou minha infância.
Os Estados Unidos afiguravam-se então o baluarte da democracia, o
paladino da liberdade. Aos 18 anos de idade, no entanto, percebi o
outro aspecto da realidade. Acompanhei de perto, no Rio de Janeiro,
a crise político-militar durante a qual o grande presidente Getúlio
Vargas se suicidou, denunciando o domínio e a espoliação do
Brasil pelos grupos econômicos e financeiros internacionais:
“Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas
riquezas, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se
avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não
querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja
independente.” Estas palavras de Vargas despertaram-me para
problemática dos interesses econômicos, como eventuais fatores de
fenômenos políticos, e o estudo da penetração dos Estados Unidos
no Brasil, seu grau de influência nos acontecimentos e seus esforços
para impedir o vigoroso surto de industrialização que ocorreu ao
longo dos anos 50 do século XX, como decorrência da implantação
do complexo siderúrgico de Volta Redonda.
O
triunfo da revolução em Cuba, em 1959, foi outro evento que
enriqueceu minha experiência. Visitei Havana, em abril de 1960, na
condição de editor político do Diário
de Notícias, do Rio de Janeiro, integrando a comitiva de Jânio
Quadros, então candidato à presidência da República. Lá conheci
Fidel Castro, Che Guevara e outros. Assisti às suas conversações
com Jânio Quadros. Outrossim, vi aviões, que saíam de Miami,
despejarem bombas incendiárias sobre canaviais cubanos, nas imediações
de Santiago de Cuba. Eram ações de terror, no contexto da
campanha, que a CIA já perpetrava contra o governo oriundo da
revolução, cujo caráter real não era o comunismo e sim o
nacionalismo, a luta contra o predomínio imperial dos Estados
Unidos.
A
fim de entender este fenômeno, que foi a revolução cubana,
tornava-se necessário conhecer a essência do seu processus
histórico, dentro das condições de toda a América Latina, cujas
contradições com o sufocante predomínio dos Estados Unidos, não
resolvidas, ela exprimiu, e daí popularidade e o amplo respaldo,
que também recebeu entre todos os povos da região.
Conquanto pudesse ter como vetor a formação da identidade
política nacional, com a derrota dos que pretendiam a anexação de
Cuba aos Estados Unidos pelos independentistas, a revolução,
comandada por Fidel Castro, não constituiu um fenômeno isolado.
Foi um fenômeno da América Latina, onde o nacionalismo, que se
manifestara, em larga medida, sob formas nazi-fascistas,
durante os anos 30 e 40, angulou cada vez mais para a
esquerda, até ao ponto de identificar-se com o comunismo,
como no caso de Cuba, em meio da Guerra Fria, que se caracterizava
pela contradição entre os dois pólos do
poder internacional. Desde que a vis
atractiva da Alemanha nazista, como pólo de poder econômico,
político e militar, desaparecera com o término da Segunda Guerra
Mundial, a União Soviética
afigurava-se como a única força capaz de contrapor-se ao predomínio
dos Estados Unidos,
A
manifestação do nacionalismo, sob as formas do nazi-fascismo ou do
comunismo, em diversos países da América Latina, demonstra a
necessidade de reavaliar os conceitos de esquerda ou direita, uma
vez que tais tendências ideológicas, importadas da Europa,
miscigenaram-se e modificaram-se, não apenas no seu conteúdo, mas,
também, até mesmo nos objetivos a que se propuseram, ao
expressarem, concretamente, outras condições econômicas, sociais
e políticas.
As
contradições da América Latina com os Estados Unidos levaram o
nacionalismo, que na Europa constituiu expressão política da
direita, a manifestar-se, em países da América Latina, como força
de esquerda, mesmo quando usou a retórica do nazi-fascismo. Todo
conceito – nacionalismo, fascismo, comunismo, democracia - é uma
tentativa de captar e compreender determinada realidade. Porém,
enquanto a permanência das palavras tende a dar estabilidade ao
conceito, a realidade, que o conceito pretende representar e a
palavra exprimir, modifica-se a cada instante, está em movimento,
isto é, em um constante devenir,
em um contínuo fluxo em que o ser e o não-ser se integram,
conforme salientou o professor Alberto da Rocha Barros.
Heráclito já havia ensinado que “todas
as coisas fluem, nada permanece parado”. E a ele também se
atribui a frase: “Nós entramos e não entramos nos mesmos
rios. Nós somos e não somos”. O
conceito de esquerda e direita não pode, portanto, estabilizar-se,
na medida em que precisa acompanhar e refletir a realidade mutante,
dentro das condições geográficas e históricas, econômicas,
sociais e políticas das regiões onde o fenômeno político ocorre.
Assisti
as transformações que se processaram no mundo ao longo da segunda
metade do século XX. Posso também dizer que vivi os acontecimentos
ocorridos no Brasil, desde o suicídio de Vargas, em 1954 e o
governo de Juscelino Kubitschek até a renúncia de Jânio Quadros
à presidência da República, em 1961, e ao golpe militar de 1964,
tanto na condição de assessor do deputado Sérgio Magalhães, do
PTB, presidente da Frente Parlamentar Nacionalista e vice-presidente
da Câmara Federal, quanto de jornalista, chefe de reportagem no Correio
da Manhã e chefe da seção política do Diário de Notícias,
dois dos mais importantes órgãos da imprensa brasileira.
O
golpe militar de 1964 não constituiu surpresa para mim. A ameaça
estava latente na política brasileira, desde que Jânio Quadros
renunciara à presidência da República, com o intento de compelir
o Congresso a outorgar-lhe o poder legislativo e entrar em recesso
permanente, como condição para que ele retornasse ao governo,
diante do impasse político e constitucional, que se criaria com o
veto previsível dos ministros militares à investidura do
vice-presidente João Goulart no cargo de presidente, como seu
sucessor. Este seu desígnio
logo divisei, porque, conquanto nunca fosse adepto de Jânio
Quadros, eu o acompanhara, a serviço do Diário de Notícias,
do Rio de Janeiro, durante a campanha eleitoral, e possuía um
conjunto de informações que me permitiram deslindar o enigma e
publicar, dois meses depois da renúncia, um pequeno livro - O 24
de Agosto de Jânio Quadros – no qual revelei que Quadros pretendera dar um golpe de Estado sui-generis, constituindo-se “como alternativa para a junta militar que ele próprio sugerira”,
quando muitos ainda criam na hipótese de que fora deposto. O próprio
Jânio Quadros, no entanto, confirmou, na obra História do Povo
Brasileiro, escrita por ele em co-autoria com Afonso Arinos de
Melo Franco, que seu propósito, ao renunciar à presidência do
Brasil, fora de fato constranger o Congresso, coagido pelos
acontecimentos, a delegar-lhe as faculdades legislativas, sem
prejudicar, aparentemente, “os aspectos fundamentais da mecânica
democrática”.
Citei
estes episódios, porque, desde o golpe militar de 1964, sofri todas
as suas conseqüências. Estive exilado em Montevidéu, onde convivi com o
ex-presidente João Goulart, Leonel Brizola e tantos outros. Voltei
clandestinamente ao Brasil e participei da resistência. Em 1969,
fui preso pelos oficiais e outros militares do CENIMAR, entre os
quais estava um americano, agente da CIA. Depois de um ano, anulada
a sentença da Auditoria de Marinha, fui libertado, mas outra vez,
no começo de 1973, a Marinha de Guerra mandou prender-me. Assim
passei mais um ano encarcerado no Regimento Marechal Caetano de
Farias, no Rio de Janeiro. Somente
às vésperas do Natal de 1973, fui solto e, regressando a S. Paulo,
pude retomar as atividades acadêmicas, após dez anos, os quais
vivi como exilado, clandestino, semiclandestino e preso, devido à
minha participação na resistência e oposição ao regime militar.
Meu querido e saudoso amigo Maurício Tragtenberg convidou-me para
substituí-lo como professor na Escola de Sociologia de São Paulo.
E eu pude fazer meu doutoramento em ciência política na
Universidade de São Paulo.
Apesar
de perseguido, durante dez anos, nunca parei de produzir. Não posso
deixar aqui de mencionar um fato que marcou minha carreira acadêmica.
Ao sair da prisão, em fins de 1970, meu querido amigo Ênio
Silveira, proprietário da Editora Civilização Brasileira,
sugeriu-me que escrevesse sobre a penetração dos Estados Unidos no
Brasil e mensalmente me antecipou os direitos autorais, de modo que
eu pudesse sustentar-me, além de fornecer-me os recursos para a
realização da pesquisa. Contei então com o respaldo de um
escritor baiano, Adonias Filho, considerado de direita e ligado aos
militares, mas amigo meu e de Enio Silveira. Ele, como diretor da
Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, aí me deu uma sala especial
e acesso a todos os livros e documentos para que eu pudesse
trabalhar. Também contei com outros amigos dentro do Itamaraty e o
apoio de Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha de Getúlio Vargas,
e de Euclides Aranha Neto, filho do ex-chanceler e embaixador
Oswaldo Aranha, que me abriram seus arquivos. Trabalhei dia e noite
e, quando fui novamente condenado pela Auditoria de Marinha sob a
acusação de incitamento de motim, escapei outra vez para São
Paulo, onde terminei o livro, na clandestinidade. E, ao ser preso
outra vez, em começo de 1973, já havia entregado os originais a Ênio
Silveira. O livro intitula-se Presença
dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de História). Foi
lançado, em setembro de 1973, enquanto eu estava encarcerado no
Regimento Marechal Caetano de Farias.
Contei
tais fatos porque eles consubstanciam a minha experiência e desde
então pautaram meus estudos e pesquisas. E foi a partir daí que
tratei de ampliar a pesquisa histórica, nos arquivos, e aprofundar
ainda mais, meus conhecimentos sobre os Estados Unidos,
considerando-o como a expressão mais avançada do sistema
capitalista mundial, cujo domínio se tornara inigualável após a
Segunda Guerra Mundial, ainda que contestado pela União Soviética
e o Bloco Socialista. O único meio de compreender um fenômeno,
conforme Karl Kautsky ensinou, é saber como ele começou. Não se
pode compreender a sociedade atual sem saber como surgiu, como seus
vários fenômenos (capitalismo, feudalismo, cristianismo, judaísmo
etc.) se desenvolveram.
Eis que o cientista político tem de ser necessariamente
historiador.
Os
Estados Unidos configuram um produto direto da grande revolução
inglesa de 1648. E o capitalismo foi o único modo de produção que
teve capacidade de expansão mundial, estendendo-se a todas as regiões
do planeta e tendendo sempre a eliminar todas as outras formações
econômicas naturais, pré-capitalistas e não-capitalistas, necessárias
à sua alimentação e desenvolvimento. A economia mundial
capitalista não constitui, portanto, um conjunto de economias
nacionais, porém, um todo, uma realidade viva, uma unidade econômica
superior. Ela integra, como um bloco assimétrico, potências
industriais e países agrícolas e atrasados ou em desenvolvimento,
denominados periféricos. E daí a impossibilidade de instituir, na
moldura nacional, um sistema harmônico e auto-suficiente, com todos
os ramos econômicos, sem considerar as condições geográficas,
históricas e culturais do país, que somente constitui um pedaço
da unidade econômica mundial.
A
divisão internacional do trabalho e das forças produtivas, e a
criação do mercado mundial, bem como a subordinação da indústria
na União Soviética à tecnologia estrangeira e à importação de
matérias primas tornavam, por conseguinte, inviável a sustentação
de uma sociedade socialista, planificada, a médio ou a longo prazo.
Ela não podia ser assimilada pelo sistema capitalista
mundial. E eis porque Lenin recuou do comunismo militar, implantado
durante os anos da guerra civil, e restabeleceu o funcionamento da
economia de mercado, com a adoção da NEP (Novaia
Ekonomitcheskaia Politika), a partir de 1922, não como tática,
a fim de enfrentar dificuldades momentâneas,
e sim como estratégia de desenvolvimento das forças produtivas,
necessário ao socialismo. Ele concebia o capitalismo de Estado como
o capitalismo privado, permitido e controlado pelo Estado, e não
como a propriedade e a operação das empresas pelo Estado.
Stalin, entretanto, liquidou a NEP em 1927 e, com a
perspectiva de instituir o socialismo dentro das fronteiras
nacionais da União Soviética, tratou de implementar o Plano Qüinqüenal
(1928‑1933), promovendo radical coletivização das terras e
acelerando, brutalmente, o processo de industrialização.
Karl
Kautsky, àquele tempo, criticou o regime soviético por haver transportado
os métodos do “absolutismo monárquico” da política para as
indústrias, aumentado mais e mais os poderes dos
diretores de fábricas sobre os operários, porém, submetendo os
mesmos diretores a tal subserviência ao aparelho político que lhes
tirava toda a capacidade de agir com independência e tomar por
conta própria qualquer iniciativa no processo de produção e
distribuição.
E, através da restrição do consumo a um mínimo absolutamente
intolerável, o Estado apropriou‑se do excedente econômico,
com o qual se
dispôs a criar e organizar
usinas, centrais
de energia elétrica, indústrias de máquinas e equipamentos, assim como de outros bens de
capital.Esta acumulação primitiva de capital, em que a socialização se
convertera não mais em conseqüência e sim em via de
desenvolvimento, só se tornou viável mediante também a socialização
do terror, Por volta de 1931, Stalin já mandara executar, no mínimo,
um milhão de cidadãos soviéticos ou, segundo o historiador Roy
Medvedev, cerca de 12 milhões, além de outros 38 milhões, que
sofreram as mais variadas medidas de repressão (prisão, campos de
trabalho etc.),
e determinou, nos 10 anos subseqüentes, isto é, até 1941, o
fuzilamento de mais de 100 000 dirigentes bolcheviques, entre os
quais todos ou praticamente todos os companheiros de Lenin.
Não
sem razão Leon Trotsky, em 1935, previu que, sem a restauração da
liberdade política e sindical, o prolongado isolamento da União
Soviética, dentro de uma economia mundial de mercado, acarretaria,
finalmente, a restauração do capitalismo e o surgimento de uma
nova classe possuidora.
De fato, o colapso da União Soviética e do Bloco Socialista não
negou, antes confirmou a conclusão às quais Karl Marx havia
chegado, expostas no prefácio de Zur
Kritik der Politschen Ökonomie, segundo as quais uma formação
social nunca desmorona sem que as forças produtivas dentro dela
estejam suficientemente desenvolvidas, e que as novas relações de
produção superiores jamais aparecem, no lugar, antes que as condições
materiais de sua existência sejam incubadas nas entranhas da própria
sociedade antiga.
Nem Marx nem Engels jamais conceberam o socialismo como via de
desenvolvimento ou modelo alternativo para o capitalismo, senão
como conseqüência do capitalismo altamente desenvolvido e maduro.
Sem o rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e o
constante progresso dos meios de transporte e de comunicação, com
que a burguesia arrastava até as nações mais bárbaras à
civilização, não seria possível o advento do socialismo. Assim,
o que viabilizava, cientificamente, o socialismo, de acordo com a
teoria de Marx e Engels, era o alto nível de desenvolvimento das
forças produtivas, que o capitalismo impulsionava, mas, ao mesmo
tempo em que socializava cada vez mais o trabalho, tornava o
progresso discriminatório e excludente, em virtude do caráter
privado da apropriação do excedente econômico. Só em tais condições,
o aumento da oferta de bens e serviços, em quantidade e em
qualidade, poderia atingir um nível em que a liquidação das
diferenças de classe constituísse verdadeiro progresso e tivesse
consistência, sem acarretar consigo o estancamento ou, inclusive, a
decadência do modo de produção da sociedade, conforme Engels
advertira.
A
desintegração da União Soviética e de todo o Bloco Socialista
demonstrou que o capitalismo, como sistema econômico mundial, não
esgotara sua capacidade de desenvolvimento. E deu-lhe novo fôlego,
abriu-lhe novo campo de expansão. O surgimento de nova área, o
Leste Europeu, com grandes zonas de economia não-capitalista,
ampliou o círculo de consumo para o capital, como mercado para
investimento do seu excedente econômico e como reservatório de força
de trabalho, possibilitando-lhe o incremento da reprodução, i. e.,
a acumulação. Assim, os Estados Unidos, que já se haviam tornado
a potência dominante no Ocidente, liderando o cartel das grandes
potências capitalistas, puderam avançar seu projeto de instituir
um império global. E dispunham para tanto de todas as condições.
Assim, atualmente, os Estados Unidos respondem por cerca de 25% do
PIB mundial, estão à frente do desenvolvimento científico e
tecnológico, com cerca de 50% das patentes requeridas em todo o
mundo, seu poderio militar, com 7.000 ogivas nucleares, é superior
ao de todas as demais potências e se expande por todos os países
do mundo, onde têm bases instaladas e mais de 300.000 soldados
aquartelados. Controlam a economia mundial por meio do FMI, Banco
Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento e outras instituições
e tratados.
Também
os Estados Unidos estendem sua preeminência, ao nível cultural,
através do controle da informação e de aparelhos ideológicos,
como a CNN, a Internet, as agências de notícias, o cinema de
Hollywood, as seitas evangélicas fundamentalistas, fundações acadêmicas.
E, igualmente, diversas instituições como National Endowment for
Democracy, International Republican Institute, National Democratic
Institute for International Affairs e o American Centre for
International Labour, braço da política exterior da AFL-CIO,
promovem os interesses dos Estados Unidos, em todos os países,
onde seus serviços de inteligência igualmente conduzem ações
encobertas, manipulando e subvencionando a oposição interna aos
governos que eventualmente contrariem os interesses políticos e
estratégicos de Washington.
Ao
escrever Formação do Império
Americano não pretendi produzir
um livro sobre a história dos Estados Unidos, nem da sociedade
americana. Muitas obras há, narrando a história dos Estados
Unidos, uma história em larga medida pasteurizada pelos autores.
Meu objetivo foi fazer uma análise estrutural, em sua dimensão
histórica, do processo que possibilitou aos Estados Unidos se
tornarem, em menos de um século, uma superpotência, um
super-Estado internacional, entendido como o dominium que exerce imperium (poder) sobre os homens (no caso
sobre outros Estados), conforme o conceito amplo de Niccolò
Machiavelli (1469-1527).
Pesquisei e colhi as informações que estão nas mais diversas
fontes, fontes primárias, jornais, memórias de presidentes dos
Estados Unidos, secretários de Estado, assessores de Segurança
Nacional, agentes da CIA e de outros serviços de inteligência, gangsters, que mantiveram relacionamentos com presidentes americanos
etc. Cotejei-as, e cruzei todos os dados, que existem, mas estão
dispersos, fragmentados e, por isto, não permitem ao público, de
modo geral, conhecer a causa e a essência do fenômeno político,
dos diversos episódios históricos, episódios domésticos ou
internacionais, ou que ocorreram em outros países, com a participação
direta ou indireta dos Estados Unidos.
Destarte tratei de reconstituir o mosaico que a formação
Império Americano configurou. A história é um emerging
design.
O
cientista político português Antônio de Sousa Lara muito bem
salientou que os Estados Unidos “configuraram um modelo vitorioso,
ou melhor, configuram o núcleo duro de um modelo que alcançou
sucesso, a supremacia sobre todos os outros modelos político-econômicos
e sociais e que se tornou hegemônico”.
Porém, “como não há bela, sem senão”, conforme Sousa Lara
ponderou, os Estados
Unidos, embora configurem o “único Estado que tem poder político
sem igual na ordem interna, superior na ordem externa (...), o único
Estado verdadeiramente soberano à face da Terra”, constituem também
uma sociedade materialista, egoísta, hedonista, de desperdício, de
degradação da natureza, progressivo desrespeito pelos mais fracos,
dentro da “teoria dos
descartáveis”, que anima a sociedade de consumo em que tudo se
pode atirar ao lixo, desde os animais domésticos incômodos e os
nascituros indesejáveis aos doentes terminais, ascendentes e
parentes velhos e muito velhos “que teimam em não morrer”.
O modelo capitalista vitorioso, nos Estados Unidos, pois, não é
isento de paradoxos, como ainda ressaltou Sousa Lara, e para o
compreendê-lo é fundamental perceber como surgiu, como formou-se,
como desenvolveu-se, sua realidade histórica, tanto econômica e
social quanto política e cultural.
Naturalmente,
tinha de partir de uma teoria e nenhum outro conceito, senão o de
império, pode, portanto, exprimir melhor, e de modo mais
aproximado, tanto quanto possível, a realidade que os Estados
Unidos passaram a configurar, sobretudo após a Segunda Guerra
Mundial, e o caráter imperialista de sua política internacional.
Evidentemente, nenhuma formação econômica, social e política se
repete ou se reproduz, com as mesmas características, ao longo da
história. O imperialismo, aliás, não constitui apenas um fenômeno
do capitalismo, resultante da fusão do capital bancário com o
capital industrial, gerando o capital financeiro, que passa a
controlar todo o processo produtivo.
Conforme Lenin reconheceu, política colonial e o imperialismo já
existiam antes da fase atual do capitalismo e, mesmo assim, antes do
capitalismo”,
a exemplo de Roma, cujo
sistema produtivo se baseava na escravatura. Não foi Lenin, no
entanto, que desenvolveu a teoria do imperialismo. Os
conceitos básicos foram
formulados pelos
economistas Rudolf Hilferding (1877 - 1941), John Atkinson Hobson
(1858-1940) e Rosa Luxemburg (1870-1919). Foi nos dois primeiros que
Lenin se apoiou e muito pouco ou nada acrescentou, exceto a esperança
de que o capitalismo, em sua fase imperialista, conduzisse
plenamente à socialização da produção, em seus mais variados
aspectos, e arrastasse os capitalistas, apesar de sua vontade e
consciência, a um certo novo regime social, de transição entre a plena
liberdade de concorrência e a socialização completa.
Ele não considerou que o imperialismo constituía a expressão política
do processo de acumulação do capital, em luta para conquistar as
regiões não-capitalistas, que ainda não se encontravam dominadas
e que estas regiões, àquele tempo, ainda abrangiam grande parte da
Terra.
Ignorou o aporte de Rosa Luxemburg e atacou violentamente a hipótese
de Kautsky. Mas o fato
foi que a revolução social não se espraiou na Europa e, após a
Segunda Guerra Mundial, em que os Estados Unidos e a Inglaterra
disputaram com a Alemanha o domínio mundial, o cartel das potências
industriais do Ocidente consolidou-se, no confronto com a União
Soviética e o Bloco Socialista. A realidade já não mais era a
existente nos fins do século XIX e primeiras décadas do século
XX, em que as potências industriais – Inglaterra, França e
outras – repartiam o mundo e acoplavam às suas economias, como
colônias, as regiões agrícolas, as regiões mais atrasadas, em
que a guerra era a competição comercial por outros meios, por meio
das armas. O imperialismo não era “o capitalismo de transição
ou, mais propriamente, agonizante”, como Lenin imaginava, julgando
que a revolução social deflagrada na Rússia estender-se-ia ao
resto da Europa.
A política imperialista daquele tempo, da Belle
Époque, fora
desalojada por outra nova, ultra-imperialista, em que a exploração
comum pelo capital financeiro unido internacionalmente substituíra
o conflito bélico entre as grandes potências industriais, conforme
a previsão de Kautsky. As guerras, para o consumo do material bélico,
deslocaram-se para a periferia do sistema capitalista.
Uma
vez que a realidade se modifica a cada instante, está em movimento
e contínua mutação, o conceito de imperialismo, na medida em que
deve e precisa acompanhar e refletir esta realidade, não mais pode,
portanto, estratificar-se, com base no modelo econômico e político
de Roma, como também no modelo da Inglaterra, Alemanha ou França,
nos fins do século XIX e princípios do século XX, não obstante
possam existir elementos e traços comuns de identificação.
O conceito de imperialismo deve acompanhar,
evoluir e espelhar a transformação nas relações econômicas e
políticas internacionais, ocorridas, principalmente, a partir da
Segunda Guerra Mundial, como, e. g., o desaparecimento formal das
colônias, na década de 1960, e o aparecimento dos NICs (New
Industrializing Countries). O fato de que, atualmente, um país
exporta capitais e faz investimentos no exterior não significa que
seja imperialista, que pratique uma política imperialista. Se assim
fosse, Portugal, Espanha, China, África do Sul, Brasil e diversos
outros países seriam imperialistas. As forças produtivas do
capitalismo, nos mais variados países, estão a desbordar os lindes
estreitos do Estado nacional, ao mesmo tempo em que se acentua o
processo de internacionalização/globalização, de concentração
do poder econômico e político, em escala mundial, da economia. Não
mais se pode tomar a pura e simples exportação de capitais como
parâmetro do imperialismo. O imperialismo, na atualidade, assumiu
novas características, as características do ultra-imperialismo.
Implica uma política de poder, e
os Estados Unidos configuram a única potência capaz executá-la, com o objetivo estratégico de assegurar fontes de energia e
de matérias primas, bem como os investimentos e mercados de suas
grandes corporações, mediante a manutenção de bases militares,
nas mais diversas regiões do mundo, nas quais avança seus
interesses, através da mídia, ações encobertas dos serviços de
inteligência, lobbies,
corrupção, pressões econômicas diretas ou indiretas, por meio de
organizações internacionais, como Banco Mundial, FMI, onde detém
posição majoritária. A
economia dos Estados Unidos, cujo dólar representa a principal
moeda internacional de reserva, está estreitamente entrelaçada com
o mercado mundial, através de fluxos de importação e de exportação,
com déficit crônico comercial que alcançou o recorde com US$
725.8 bilhões, em 2005, cerca 17.5% a mais do que em 2004, bem como
através de fluxos financeiros, remessas lucros, juros, amortizações,
royalties e dividendos, oriundos de seus investimentos diretos e
indiretos, e de captação de capitais com a venda de bônus do
Tesouro americano. Este entrançamento é tão profundo, a dependência
é de tal monta que a política monetária ditada pelo Federal
Reserve Bank (FED), elevando ou diminuindo as taxas de juros, ou as
decisões do governo americano e do Congresso, ao impor ou abolir
impostos, e subsídios repercutem sobre a economia dos mais diversos
países e podem abalar todo o sistema capitalista mundial.
A
fim de manter sua hegemonia, o Estado americano financia os
programas de pesquisa científica e tecnológica, sobretudo através
do orçamento de Defesa, que atingiu níveis recordes durante a
administração do presidente George W. Bush. Também o Estado
americano subsidia indiretamente as indústrias bélicas,
siderurgia, metalurgia, fibras óticas etc., mediante a compra de
armamentos e outros petrechos de uso militar ou dual. E de modo a
manter o complexo industrial-militar, o conluio entre as grandes
corporações, empreiteiras (contractors),
e o Pentágono, o governo dos Estados Unidos tem sempre de criar
“novas ameaças” à sua segurança e ao way
of life dos americanos, bem como aos interesses nacionais dos
Estados Unidos, interesses estes consubstanciados, no exterior,
tanto pela proteção das fontes de energia, o petróleo, e do
acesso aos mercados externos, como pelo respaldo e defesa dos países
clientes, a exemplo da Arábia Saudita, Israel e Egito. A produção
em larga escala de armamentos, de petrechos militares de tecnologia
de ponta e alto custo e, implica, no entanto, não apenas a
necessidade de testá-los, mas também de consumi-los em condições
de guerra real, a fim de que o Pentágono possa fazer novas
encomendas, que mantém o processo de reprodução, e descartar os
armamentos antigos, de gerações anteriores, vendendo-os aos países
clientes, às sentinelas do Império, segundo a expressão da politóloga
americana Jan K. Black.
Os
Estados Unidos, onde, sobretudo na segunda metade século XX,
a polarização política e a desigualdade econômica cada vez mais
se entrelaçaram e, em 2002, cerca de 34,6 milhões, quase o total
da população da Argentina, viviam abaixo do nível de pobreza, apresentam,
porém, elevado nível de vulnerabilidade. De acordo com a Heritage
Foundation, ligada ao Partido Republicano, espera-se que o déficit
fiscal dos Estados Unidos se eleve a US$ 1 trilhão por ano, até
2017. Este déficit se conjuga com o déficit comercial, que,
segundo anunciou o Departamento de Comércio dos Estados Unidos,
fevereiro de 2006, bateu novo recorde, em 2005, alcançando
o montante US$ 725,8 bilhões. Esta tendência,
que se acelera, levou o Fundo Monetário Internacional, em começo
de 2004, a advertir que o déficit fiscal e o crescente desequilíbrio
comercial, twin deficits,
estavam a elevar a dívida externa dos Estados Unidos em tais proporções
que quebrava todos os recordes e ameaçava a estabilidade da
economia global, gerando “significant
risks” para todo o mundo.
Efetivamente,
a partir do primeiro mandato do presidente George W. Bush, os
Estados Unidos tomaram empréstimos dos governos e bancos
estrangeiros mais do que todas as administrações de 1776 a 2000.
Sua dívida externa alcançara, em 30 de junho de 2003, o
montante de US$ 6 trilhões, dos quais US$ 1,270 trilhão do
principal, de acordo com o informe do Departamento do Tesouro.
Cabiam
aos Estados Unidos, em 2004, cerca de 22% da dívida externa
combinada de 206 países, listados pelo
Factbook da CIA, no valor total de US$ 38,54 trilhões.
E, de acordo com o World
Factbook, da CIA, a
dívida nacional dos Estados Unidos, em 2005, representava 64.7% do
PIB, estimado em US$ 12.49 trilhões, enquanto a dívida externa da
China, com um PIB calculado em US$ 2,225 trilhões, era da ordem de
US$$ 242 bilhões. E, no primeiro semestre de 2006, a dívida
externa dos Estados Unidos estava a crescer, em média, US$
628 milhões todos os dias. A dívida
do governo federal, em junho de 2006, já estava em torno de
US$ 8,3 trilhões.
A
alta do preço do petróleo, do qual a guerra no Iraque tem tirado
1,5 milhão de barris/dia do mercado, e do ouro, bem como a valorização
do euro são sintomas da profunda crise que solapa a economia
americana. Os Estados Unidos emitem dólares, sem lastro, para pagar
a energia, commodities e
manufaturas que importam, e os países que lhes vendem, tais como a
Arábia Saudita, China e outros, com os mesmos dólares sem lastro
compram bônus do Tesouro Americano. Em outras palavras, são os
bancos centrais de outros países que continuam a financiar o déficit
na conta corrente do balanço de pagamentos dos Estados, que em 2005
alcançou o recorde de US$ 805 bilhões, 25% a mais do que em 2004 e
o equivalente a 6,4% do PIB.
As estatísticas do Departamento do Tesouro indicavam, no fim
de 2004, que os estrangeiros detinham 44% do débito federal possuído
pelo público. Cerca de 64% dos 44% estavam na posse dos bancos
centrais de outros países, a maior parte nos bancos centrais do Japão
e da China. Só a China detém
cerca de US$ 854 bilhões, valor mais alto que o déficit da
conta-corrente do balanço de pagamentos dos Estados Unidos.
Esta situação gera certamente enorme potencial de risco
para os Estados Unidos, se os bancos pararem de comprar os bônus do
Tesouro ou começarem a vendê-los, maciçamente, no mercado. O
que afasta, por enquanto, a perspectiva do colapso é o fato de que
o dólar é a moeda internacional de reserva. Afasta,
mas não elimina a ameaça. “The
most world’s richest, most powerful country, depends on the
savings of the world’s poorest” – exclamaram Bill Bonner e
Addison Wiggin, em sua obra Empire of Debt.
Mas
até quando? A bolha
financeira dos Estados Unidos, assim inflada, vai estourar, mais dia
menos dia. Em 28 de março de 2006, o Asian Development Bank
advertiu aos seus membros no sentido de que se preparassem para um
possível colapso do dólar, que, embora fosse incerto, teria graves
conseqüências para a economia mundial.
O financista George Soros considera que o estouro da bolha é inevitável
e previu que ocorreria em 2007.
Sinais
muito parecidos aos que marcaram o declínio e a queda do Império
Romano, descritos tão magistralmente por Edward Gibbon, já se
manifestam e se acentuam nos Estados Unidos.
Sem um estado de guerra permanente a
economia dos Estados Unidos deixa de funcionar. A paz é contrária
aos seus interesses. O mesmo aconteceu com o Império Romano, cuja
economia, na forma que finalmente alcançou, baseava-se na guerra.
O Império Americano, militarista, necessita também de
guerras para manter sua economia em funcionamento, reduzir o número
de desempregados etc. Já se defronta, no entanto, com sérias
dificuldades para travá-las em mais de um teatro de operações. Os
gastos com as guerras no Iraque, onde os Estados Unidos já sofreram
mais de 2.510 baixas, e no Afeganistão, onde as forças da OTAN
perdem mais e mais soldados a cada ano, sem conseguir dominar a
situação, concorrem para agravar a perspectiva de uma grave e
profunda crise na sua economia. A guerra no Iraque e nos Afeganistão
está perdida para os Estados Unidos.
Dentro de três ou quatro anos, talvez menos, os Estados
Unidos, qualquer que seja o presidente, terão de retirar as tropas
do Iraque. A crise no
Oriente Médio, no entanto, só tende a agravar-se. Embora não seja
o único fator, a política do presidente George W. Bush, com a
chamada guerra contra o terrorismo, é em larga medida responsável
pelo recrudescimento do conflito na Palestina e que agora se estende
ao Líbano. O Estado de Israel, decerto,
tem o direito de existir. É uma realidade irreversível e não
se pode pretender destruí-lo como tentam os radicais,
fundamentalistas islâmicos. Nada, porém, justifica o massacre de civis
e a devastação da infraestrutura do Líbano e da Banda de
Gaza que as forças armadas de Israel estão a perpetrar, como
gendarme do Império Americano, a fim de extirpar o Hizbolah, a milícia
xiita apoiada pelo Irã. Israel perde o que lhe resta de autoridade
política e moral, bem como compromete sua economia e o futuro de
sua própria segurança. Os Estados Unidos não poderão sustentá-lo,
indefinidamente, em meio dos povos muçulmanos, que passarão a
hostilizá-lo e ameaçá-lo cada vez mais, como conseqüência do ódio
e do sentimento de vindita gerados por tamanha truculência. Se
o declínio do Império Romano durou muitos séculos, o declínio do
Império Americano provavelmente levará apenas algumas décadas. O
desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte imprimiu
maior velocidade à civilização moderna. O desenvolvimento das
ferramentas eletrônicas, a tecnologia digital, imprimiu velocidade
ao tempo. E a queda do Império Americano será tão vertiginosa,
dramática e violenta quanto sua ascensão.
St.
Leon, 27 de junho de 2006
“Je trouve aussi que c’est une folie de vouloir étudier le
monde en simple spectateur. Celui qui ne prétend qu’observer
n’observe rien, parce qu’étant inutile dans les affaires et
importun dans les plaisirs, il n’est admis nulle part. On ne
voit agir les autres qu’autant qu’on agit soi-même; dans
l’école du monde comme dans celle de l’amour, il faut
commencer par pratiquer ce qu’on veut apprendre.”
Moniz Sodré de Aragão, Egas Carlos. A Vida e seus Phenômenos
Vitaes. Bahia: Typ. E Encadernação do Diário da Bahia, 1892,
p. XII.
“Und darum ist
die Willkür ihm und höhere Macht zu fehlen und zu vollbringen
dem Götterähnlichen, der Güter gefährlichstes, die Sprache
dem Menschen gegeben, damit er schaffend, zerstörend, und
untergehend, und wiederkehrend zur ewiglebenden, zur Meisterin
und Mutter, damit er zeuge, was er sei geerbet zu haben, gelernt
von ihr, ihr Göttlichstes, die allerhaltende Liebe. ” De
um fragmento com o título "Im Walde" („na
floresta“), na Große Stuttgarter Ausgabe, Bd.2.1, S.325.
„E
por isso é dada ao homem (...) dos bens o mais perigoso, a
linguagem, para que ele, formando, destruindo e perecendo, e
regressando à imortal, à mestre e mãe, para que ele dê o
testemunho do que ele é, de ter herdado, aprendido dela, de seu
mais divino, o tudo conservado amor.”
Rocha Barros, Alberto. O Poder Econômico do Estado
Contemporâneo e seus Reflexos no Direito. São
Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1953, p. 21.
(“ποταμο
σι το
σιν α
το σιν
μβα νουσιν
τερα
κα τερα
δατα
πιρρε”)
Fragmento
B 12, A 49 e 91.
Moniz Bandeira, L. A. – O 24 de agosto de Jânio Quadros,
Rio de Janeiro, Editora Melso, 1961, p. 11.
Quadros, Jânio e Melo Franco, Afonso Arinos – História
do Povo Brasileiro, São Paulo. J. Quadros Editores
Culturais S.A., 1967, vol. VI. pp. 236 a 246. Ver também Moniz
Bandeira, L. A. – O 24 de Agosto de Jânio Quadros, Rio de Janeiro, Editora Melso,
1961.
Kautsky, Karl. Der
Ursprung dês Christentums.
Stuttgart: J.H.W. Dieter Nachfolger, 1908, p. 14.
Gorbachev também concluiu que a NEP não constituiu um recuo tático,
como os stalinistas alegaram. Gorbachev, Mikhail
S. On my Country and the
World. New York: Columbia University Press, 2000, p. 17.
Kautsky, Karl. Le Bolchevisme dans l'impasse, Paris, Librairie Félix Alcan, 1931,
1931,
p, 67.
White, Stephen et
alt. Developments
in Soviet Politics,
Londres, MacMillan, 1990., p. 22. Segundo
Wladimir Krjutschkow, diretor do KGB, revelou, cerca de 4,2 milhões
de pessoas, até 1950, morreram nos expurgos ordenados por
Stalin. Correio
Brazillense, 16.6.1991.
White, Stephen et alt. Developments in Soviet Politics,
Londres, MacMillan, 1990, p. 22.
Trotsky, Leon. La Révolution
Trahie, Paris, Bernard Grasset, 1936, pp. 283-287, 306, 308.
“Eine Gesellschaftsformation geht nie unter, bevor alle
Produktivkräfte entwickelt sind, Für die sie, weit genug ist,
und neue höhere Produktionsverhältnisse treten an die Stelle,
bevor die materiellen Existenzbedingungen derselben im Schoß
der alten Gesellschaft selbst ausgebrütet worden sind.”
Marx, Karl, Zur Kritik der Politischen Ökonomie Vorwort, in Marx, K. e Engels, F. .”
Marx, Karl, Zur
Kritik der Politischen Ökonomie Vorwort,
in Marx & Engels, Werke:
Berlin: Dietz Verlag, 1980, Band 13, pp. 8-9.
“Erst auf einem gewissen, Für unsere Zeitverhältnisse sogar
sehr hohen möglich, die Produktion so hoch zu steigern. daß
die Abschaffung der Klassenunterschiede ein wirklicher
Fortschritt, daß sie von Dauer sein kann, ohne einen Stillstand
oder gar Rückgang in dar gesellschaftlichen Produktionsweise
herbeizuführen”. Engels, F. “Soziales aus Russ1and” in
Engels, F. "Soziales aus Rußland", in Marx. &
Engels, 1976, pp.
556-559. Esse mesmo artigo consta também in Marx, K. e Engels,
F. Ausgewählte Schriften,
Band II, Berlin, Dietz Verlag, 1976, p. 39.
“Tutti gli stati, tutti i’ dominii che hanno avuto e hanno imperio sopra gli uomini sono
stati e sono o repubbliche o principati”. Machiavelli,
Niccolò. Il
Príncipe (Der Fürst),
Stuttgart: Philipp Reclam Jun., 1986, p. 9.
Prefácio ao livro
de Costa Deus, Ruth – A Política Externa
Americana e a Europa (Dos primórdios ao final do século
XX). Lisboa:
Autonomia 27 Ltda., 2004, p. 7.
Lenin, V. I., El
Imperialismo -- Fase Superior del Capitalismo, in Obras
Escogidas, Ediciones en Lenguas Extranjeras, Moscú, 1948,
p. 1024.
Luxemburg, Rosa. Dia
Akkumulation des Kapitals, in Gesammelte Werke, Band 5, Ökonomische Schriften. Berlin:
Dietz Verlag, 1990, p. 391.
Lenin, V. I., El
Imperialismo -- Fase Superior del Capitalismo, in Obras
Escogidas, Ediciones en Lenguas Extranjeras, Moscú, 1948,
p. 1066.
Becker,
Elizabeth & Andrews, Edmund L.
“I.M.F.
Says Rise in U.S. Debts is Threat to World's Economy”. New
York Times, 08/01/2004.
Trevisan, Cláudia. “Déficit americano divide analistas e
dita rumo global”, in Folha de São Paulo, 02/04/2006, B11.
Bonner, Bill & Wiggin, Addison. Empire
of Debt. The Rise of an Epic Financial Crisis. New Jersey:
John Wiley & Sons, Inc, 2006, p. 276.
“Any
shock hitting the US economy or the global market may change
investors' perceptions given the existing global current account
imbalance," said Masahiro Kawai, the ADB's head of regional
economic integration. “Our suggestion to Asian countries is:
Don't take this continuous
financing of the US current account deficit as given. If
something happens then East Asian economies have to be prepared,"
he told reporters on a trip to Japan.”ADB
Official Warns: East.Asian
economies must gird for possible dollar collapse. Posted:
2:37 PM | Mar. 28, 2006 - Agence
France-Presse - http://money.inq7.net/breakingnews/view_breakingnews.php?yyyy=2006&mon=03&dd=28&file=21
„In der form, die sie schließlich im römischen Weltreich
erlang hatte, beruhte sie auf dem Kriege.“ Kautsky, Karl. Der
Ursprung des Christentums. Eine historische Untersuchung.
Stuttgart: J. H. W. Dietz, 1908, p. 87.
por
LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
|
|

|