por
CLEBER AFFONSO ANGELUCI
Advogado, Mestre em
Direito e professor de Direito Civil na AEMS - Faculdades
Integradas de Três Lagoas, da cidade de Três Lagoas - Mato
Grosso do Sul
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Participação
política e futebol:
paixão
e compromisso
Embriagados
pelas cores chamativas do verde e do amarelo, nós fomos levados a
torcer, gritar, sonhar e até mesmo chorar por um sonho, uma
conquista que não tardaria a chegar. Envolvidos neste sonho mágico,
na alegria iminente, como remédio e superação de todos os
problemas, fossem eles pessoais, profissionais, e porque não,
sociais, um patriotismo tomou conta, contagiou desde os mais jovens,
até os mais velhos, envolvidos no que a mídia designou “paixão
nacional”.
Os
céticos, chegamos a chamá-los de antipatriotas. Isso porque estávamos
muito confiante, determinados e conscientes de que a realização
daquele ideal era questão de tempo, apenas transpor os degraus que
nos foram colocados, como mero detalhe de um caminho já traçado e
que o destino certamente nos traria. Comportamento este, plenamente
justificável, pois desde o leigo até o mais entendido no assunto,
concluía sempre da mesma forma: é questão de tempo para
concretizarmos mais este anseio. Também, estávamos muito bem
representados. Não havia e não há, em lugar algum, um grupo de
especialistas com tanta notoriedade na sua área de atuação, daí
advinha a confiança e a certeza de que a conquista não tardaria a
chegar. Pois bem, o resultado esperado não veio e a frustração, o
sentimento de prostração, tomou conta daquela emoção de otimismo
e confiança, fomos lançados num mar de desilusão: parece que já
não nos é permitido sonhar, ter confiança, esperar e menos ainda
apaixonar-se, pois os melhores entre os melhores dos brasileiros, não
foram suficientes para nos conceder aquela esperança.
Isso
tudo tem relação direta com o jogo da Copa do Mundo, disputado
entre Brasil e a França,
porém, é perfeitamente aplicável na nossa vida social, na vida pública
brasileira, claro que com algumas ressalvas que passo a considerá-las.
Em campo, fomos representados pelos melhores profissionais da
atualidade, e com certa pretensão, de todos os tempos. Tanto que se
ouvia dizer, sem falsa modéstia, que se faria uma grande seleção
de craques com os jogadores reservas, de dar inveja a qualquer outro
país.
Não
é pra menos, tínhamos em campo os melhores do mundo, os pentacampeões.
Por outro lado, na vida pública, na direção de nosso país, não
podemos dizer o mesmo, temos uma seleção, que não pode ser
considerada, “de craques” e que está, na verdade, muito aquém
desta consideração, pois não representam um modelo de
comportamento, de retidão, de compromisso, entretanto, como os
jogadores, representam de certa maneira, nossos anseios, nossos
ideais, nossos sonhos. Dentro disso, um traço de semelhança é
possível ser esboçado. A mesma apatia e ausência de compromisso,
respeito e garra, que se pôde observar no jogo de futebol, parece
ser o mesmo na vida política brasileira. Falta garra, falta luta,
falta respeito, falta comprometimento.
Mas
a pior semelhança é ainda mais interessante, se não fosse trágica,
o comportamento da torcida, que tanto no jogo da Copa do Mundo, como
na política é o mesmo, com a diferença de que naquele nos é dado
apenas o direito de assistir, torcer, enquanto nesta, temos o
direito de atuar, indicando os representantes, mudando a direção e
o rumo dos jogadores que nos representam e nos representarão, muito
embora, não exista este pensamento e não haja esta forma de atuação
na sociedade atual, que permanece apática ao debate político, seja
em âmbito regional ou nacional.
Com
a desclassificação da seleção brasileira, parece ter acabado
também o patriotismo, não nos orgulha mais empunhar a bandeira
verde e amarela, não há mais motivação para comemorar, não faz
mais qualquer sentido comemorar. Nosso civismo parece ter se
restringido aos jogos de futebol. Comemorar o quê? Lutar para quê?
Mudar o quê? Transformar o quê? Se a próxima Copa do Mundo
ocorrerá apenas daqui a quatro anos?
Desalentadora
coincidência a nossa, seja a derrota no futebol, seja na vida política,
onde somente de quatro em quatro anos podemos torcer, sonhar,
participar, mudar e transformar, porém, nos contentamos unicamente
com o primeiro verbo (torcer), renovando as esperanças de um futuro
melhor, torcendo para que a seleção vença, para que o país
melhore, para que a nossa vida se transforme. Deixamos, no entanto,
de nos preocupar com o que há de mais importante, inebriados pela
“paixão nacional” nos esquecemos do dever de casa, da cobrança
necessária para a concretização dos direitos elementares, que nos
conduzem à verdadeira cidadania, não nos preocupamos com nossos
representantes. Simplesmente por uma obrigação, cumprimos um dever
democrático, quando na verdade seria imperativo travar o debate político
e social, para só depois de traçadas as linhas gestoras de uma boa
política pública, aí sim, pudéssemos nos entregar àquela paixão.
Assim agindo, estaríamos fazendo a lição de casa, para depois
seguir à diversão. Já é chegado o momento de despertar para
nossa responsabilidade, afinal, já não somos mais isentos de desta
responsabilidade, já não nos é dado o direito de errar e aprender
com os erros, já erramos muito no passado e o tempo não perdoa a
desídia, não tolera estes deslizes. É tempo de cultivar a nossa
democracia, de debater os rumos que devemos seguir. É tempo de
transformar o mau gosto que a ressaca da derrota no futebol nos
deixou em alento para novos rumos na vida política nacional. É
preciso resgatar o orgulho de ser brasileiro, cultivando antes, o
amor à pátria, através de uma atuação consciente na vida política
e democrática (com voto e com efetiva participação) e não
somente a “paixão” pelo futebol.
por
CLEBER
AFFONSO ANGELUCI
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