por MÁRCIA SUELI PEREIRA DA SILVA SCHNEIDER

Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Mestre e aluna de  Doutorado do  Curso de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Desenvolve pesquisa na  área de Formação Contínua de Professores, na linha de pesquisa Linguagem e Educação

 

Trabalho Prescrito x Trabalho Real:

necessidade de análise para compreensão do trabalho do professor

 

Através da análise da evolução da humanidade, podemos notar as profundas modificações em função da mudança de visão de mundo (crise de paradigmas) e que essas transformações têm ocorrido em todas as esferas da sociedade em diferentes setores da vida, quer seja político, econômico ou social. Podemos perceber também que a entrada para o século XXI foi marcada por avanços de desenvolvimento tecnológico e científico que movimentaram toda a humanidade ao transformar os paradigmas sócio-histórico e cultural da sociedade, fazendo-nos participantes e testemunhas desse processo.

A educação, como fenômeno social, não ficou isenta dessa revolução. Ao contrário, seu papel e suas funções passaram a ser questionados e esta passou a ser apontada como um dos elementos fortes dessa etapa de mudanças. Um exemplo que pode ser citado aqui diz respeito às mudanças que ocorreram na estrutura da sociedade, principalmente no processo de trabalho, que passaram a exigir a formação de um outro tipo de trabalhador; um trabalhador mais flexível e polivalente.

A escola que sempre preparou o trabalhador para o processo de trabalho pautado no paradigma industrial, com a rígida separação entre a concepção do trabalho e a execução padronizada das tarefas, deixou de atender as demandas de uma nova etapa capital. Frente a essa nova estrutura social, a escola passou a ser criticada e responsabilizada não só pelo insucesso dos alunos, mas também pelo despreparo dos mesmos ao término dos estudos e pela desvinculação dos conteúdos ensinados ao trabalho prático.

Contudo, ao refletirmos sobre a educação há algumas décadas atrás, veremos que naquela época tanto a escola quanto os professores eram reconhecidos como fontes privilegiadas de informações e gozavam do apoio incondicional da família. A escola possuía uma valorização social enquanto instrumento privilegiado de ascensão social, tendo o professor a valorização de mediador dessa ascensão, com uma formação mais consistente (condizentes com o período sócio-histórico), uma boa remuneração e a clientela que freqüentava a escola tinha maior afinidade com o tipo de saber que ali era veiculado (Vasconcellos, 2001).  Porém, em um espaço relativamente pequeno, enormes mudanças ocorreram, por exemplo, “a degradação progressiva e acentuada das condições de trabalho (número excessivo de alunos em sala, falta de instalações adequadas), aumento efetivo do número de vagas no ensino fundamental e médio, fragmentação e esvaziamento da formação dos professores, diminuição drástica dos salários dos professores, queda do status social do professor, aumentos dos problemas de disciplinas e a tendência de ter o professor como o grande responsável pelos males da educação” (Vasconcellos, 2001, que colaboram não somente para desvalorização social da escola,  mas também para a desvalorização do trabalho do professor.

Essa desvalorização contribui para que esses profissionais apresentem sentimentos de desilusão, desencantamento com a profissão, desapontamento por terem que realizar tarefas para as quais não foram preparados. Tanto professores experientes ou mesmo recém formados alegam que o que aprenderam nas universidades/faculdades não os prepara para a gama de desafios que terão que enfrentar em sala de aula, como por exemplo, o desinteresse dos alunos, a repetência, a gestão da diversidade de conhecimentos em sala de aula, entre outros, o que corrobora para que esses profissionais, assim como a escola, sofram críticas e sejam responsabilizados pelo fracasso escolar de seus alunos.

Esses sentimentos deixam claro que as atividades pedagógicas dos professores são permeadas por circunstâncias desfavoráveis que os forçam a uma improvisação e reorganização do trabalho prescrito, tornando-lhes o trabalho real totalmente descaracterizado quanto às suas expectativas, o que gera um processo de permanente insatisfação.

Ao buscar compreender esse descompasso entre trabalho prescrito e realizado e o trabalho do professor através da abordagem ergonômica da atividade, pode-se perceber que esse descompasso ao agregar dificuldades ao trabalho “reduz a margem de manobra para responder satisfatoriamente às exigências presentes nas situações, gerando uma sobrecarga de trabalho  e aumento do custo humano da atividade” (Ferreira  & Barros, 2003). Ou seja, o descompasso entre o trabalho prescrito (tarefa) e o trabalho realizado (atividade) pode intervir positiva ou negativamente nas vivências de prazer e/ou sofrimento do professor.

Em sua dimensão negativa, quanto maior for o desajuste entre a tarefa e a atividade, maior será o custo humano do trabalho. Esse sofrimento é manifestado por meio de sintomas como ansiedade, insatisfação, indignidade, inutilidade, desvalorização e desgaste no trabalho, Já, em sua dimensão positiva, quanto menor for o descompasso entre a tarefa e a atividade, menor será o custo humano, o que certamente potencializa as vivências de prazer, garantindo uma sensação de bem estar, motivação  e satisfação no trabalho (Ferreira e Mendes, 2001).

Saujat (2003), afirma que enquanto o trabalho prescrito é imperfeito, pois, provoca a perda de eficácia e o sofrimento no trabalho, o trabalho realizado deve ser visto como o lugar da adaptação humana do prescrito e o lugar da experiência perante o imprevisto, uma vez que permite o reconhecimento coletivo da contribuição de cada um e da eficácia e prazer na realização do trabalho.

Assim, segundo o autor, na busca por analisar a prática profissional, quer seja do professor ou de qualquer outro profissional, é necessário não somente olhar o que ele faz, mas também, o que o preocupa e buscar compreender a distorção entre o que é desejado e o que é feito. Vejo aqui o ponto fundamental a ser levado em consideração, uma vez que, a maioria das pesquisas que busca compreender o trabalho do professor foca-se apenas em “olhar o que o professor faz”,  sem a preocupação de entender  que o uso de determinadas estratégias utilizadas pelos professores, são utilizadas como estratégias de mediação a fim de realizar as “manobras” necessárias como resposta ao trabalho prescrito imposto por cumprimento de metas, prazos e obediência à normas e regras.

Somente a partir da análise crítica dos conceitos do trabalho prescrito e do trabalho realizado  que nos permite identificar a compatibilidade ou incompatibilidade entre  a tarefa e a atividade do professor; do entendimento e de uma nova compreensão da prática docente será possível desenvolver ações que levem esses profissionais  a uma reflexão consciente da prática, com possibilidade de ressignificação.

 

Referências Bibliográficas

FERREIRA, M.C., BARROS, P.C. (In)Compatibilidade trabalho prescrito—trabalho real e vivencias de prazer-sofrimeto dos trabalhadores: um dialogo entre a ergonomia da atividade e a psicodinâmica do trabalho. In Revista Alethéia. Canoas/RS: ULBRA, 2003.

FERREIRA, M.C., MENDES, A.M.  Só de pensar em ir trabalhar, já fico de mau humor: atividade de atendimento ao público e prazer-sofrimento no trabalho.  In Revista Estudos de Psicologia. v. 6, n. 1, Natal, 2001.

SAUJAT, F. (2003). Arrêtons de penser que lês enseignants font de la résistance au changement. Disponível em: http://89.snuipp.fr/article.php3?id_article=305. Acessado em 15/11/2005.

VASCONCELLOS, C.S. Para onde vai o professor?: resgate do professor como sujeito de transformações. São Paulo: Libertad, 2001.

 

por MÁRCIA SUELI PEREIRA DA SILVA SCHNEIDER

   

 

 

 

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