Trabalho
Prescrito x Trabalho Real:
necessidade
de análise para compreensão do trabalho do professor
Através
da análise da evolução da humanidade, podemos notar as
profundas modificações em função da mudança de visão de
mundo (crise de paradigmas) e que essas transformações têm
ocorrido em todas as esferas da sociedade em diferentes setores da
vida, quer seja político, econômico ou social. Podemos perceber
também que a entrada para o século XXI foi marcada por avanços
de desenvolvimento tecnológico e científico que movimentaram
toda a humanidade ao transformar os paradigmas sócio-histórico e
cultural da sociedade, fazendo-nos participantes e testemunhas
desse processo.
A
educação, como fenômeno social, não ficou isenta dessa revolução.
Ao contrário, seu papel e suas funções passaram a ser
questionados e esta passou a ser apontada como um dos elementos
fortes dessa etapa de mudanças. Um exemplo que pode ser citado
aqui diz respeito às mudanças que ocorreram na estrutura da
sociedade, principalmente no processo de trabalho, que passaram a
exigir a formação de um outro tipo de trabalhador; um
trabalhador mais flexível e polivalente.
A
escola que sempre preparou o trabalhador para o processo de
trabalho pautado no paradigma industrial, com a rígida separação
entre a concepção do trabalho e a execução padronizada das
tarefas, deixou de atender as demandas de uma nova etapa capital.
Frente a essa nova estrutura social, a escola passou a ser
criticada e responsabilizada não só pelo insucesso dos alunos,
mas também pelo despreparo dos mesmos ao término dos estudos e
pela desvinculação dos conteúdos ensinados ao trabalho prático.
Contudo,
ao refletirmos sobre a educação há algumas décadas atrás,
veremos que naquela época tanto a escola quanto os professores
eram reconhecidos como fontes privilegiadas de informações e
gozavam do apoio incondicional da família. A escola possuía uma
valorização social enquanto instrumento privilegiado de ascensão
social, tendo o professor a valorização de mediador dessa ascensão,
com uma formação mais consistente (condizentes com o período sócio-histórico),
uma boa remuneração e a clientela que freqüentava a escola
tinha maior afinidade com o tipo de saber que ali era veiculado (Vasconcellos,
2001). Porém,
em um espaço relativamente pequeno, enormes mudanças ocorreram,
por exemplo, “a degradação progressiva e acentuada das condições
de trabalho (número excessivo de alunos em sala, falta de
instalações adequadas), aumento efetivo do número de
vagas no ensino fundamental e médio, fragmentação e
esvaziamento da formação dos professores, diminuição drástica
dos salários dos professores, queda do status
social do professor, aumentos dos problemas de disciplinas e a
tendência de ter o professor como o grande responsável pelos
males da educação” (Vasconcellos, 2001, que colaboram não
somente para desvalorização social da escola,
mas também para a desvalorização do trabalho do
professor.
Essa
desvalorização contribui para que esses profissionais apresentem
sentimentos de desilusão, desencantamento com a profissão,
desapontamento por terem que realizar tarefas para as quais não
foram preparados. Tanto professores experientes ou mesmo recém
formados alegam que o que aprenderam nas universidades/faculdades
não os prepara para a gama de desafios que terão que enfrentar
em sala de aula, como por exemplo, o desinteresse dos alunos, a
repetência, a gestão da diversidade de conhecimentos em sala de
aula, entre outros, o que corrobora para que esses profissionais,
assim como a escola, sofram críticas e sejam responsabilizados
pelo fracasso escolar de seus alunos.
Esses
sentimentos deixam claro que as atividades pedagógicas dos
professores são permeadas por circunstâncias desfavoráveis que
os forçam a uma improvisação e reorganização do trabalho
prescrito, tornando-lhes o trabalho real totalmente
descaracterizado quanto às suas expectativas, o que gera um
processo de permanente insatisfação.
Ao
buscar compreender esse descompasso entre trabalho prescrito e
realizado e o trabalho do professor através da abordagem ergonômica
da atividade, pode-se perceber que esse descompasso ao agregar
dificuldades ao trabalho “reduz a margem de manobra para
responder satisfatoriamente às exigências presentes nas situações,
gerando uma sobrecarga de trabalho
e aumento do custo humano da atividade” (Ferreira
& Barros, 2003). Ou seja, o descompasso entre o
trabalho prescrito (tarefa) e o trabalho realizado (atividade)
pode intervir positiva ou negativamente nas vivências de prazer
e/ou sofrimento do professor.
Em
sua dimensão negativa, quanto maior for o desajuste entre a
tarefa e a atividade, maior será o custo humano do trabalho. Esse
sofrimento é manifestado por meio de sintomas como ansiedade,
insatisfação, indignidade, inutilidade, desvalorização e
desgaste no trabalho, Já, em sua dimensão positiva, quanto menor
for o descompasso entre a tarefa e a atividade, menor será o
custo humano, o que certamente potencializa as vivências de
prazer, garantindo uma sensação de bem estar, motivação
e satisfação no trabalho (Ferreira e Mendes, 2001).
Saujat
(2003), afirma que enquanto o trabalho prescrito é imperfeito,
pois, provoca a perda de eficácia e o sofrimento no trabalho, o
trabalho realizado deve ser visto como o lugar da adaptação
humana do prescrito e o lugar da experiência perante o
imprevisto, uma vez que permite o reconhecimento coletivo da
contribuição de cada um e da eficácia e prazer na realização
do trabalho.
Assim,
segundo o autor, na busca por analisar a prática profissional,
quer seja do professor ou de qualquer outro profissional, é
necessário não somente olhar o que ele faz, mas também, o que o
preocupa e buscar compreender a distorção entre o que é
desejado e o que é feito. Vejo aqui o ponto fundamental a ser
levado em consideração, uma vez que, a maioria das pesquisas que
busca compreender o trabalho do professor foca-se apenas em
“olhar o que o professor faz”,
sem a preocupação de entender
que o uso de determinadas estratégias utilizadas pelos
professores, são utilizadas como estratégias de mediação a fim
de realizar as “manobras” necessárias como resposta ao
trabalho prescrito imposto por cumprimento de metas, prazos e
obediência à normas e regras.
Somente
a partir da análise crítica dos conceitos do trabalho prescrito
e do trabalho realizado que
nos permite identificar a compatibilidade ou incompatibilidade
entre a tarefa e a
atividade do professor; do entendimento e de uma nova compreensão
da prática docente será possível desenvolver ações que levem
esses profissionais a
uma reflexão consciente da prática, com possibilidade de
ressignificação.
Referências
Bibliográficas
FERREIRA,
M.C., BARROS, P.C. (In)Compatibilidade trabalho
prescrito—trabalho real e vivencias de prazer-sofrimeto dos
trabalhadores: um dialogo entre a ergonomia da atividade e a
psicodinâmica do trabalho. In Revista
Alethéia. Canoas/RS: ULBRA, 2003.
FERREIRA,
M.C., MENDES, A.M.
Só de pensar em ir trabalhar, já fico de mau humor:
atividade de atendimento ao público e prazer-sofrimento no
trabalho.
In Revista Estudos
de Psicologia. v. 6, n. 1, Natal, 2001.
SAUJAT,
F. (2003). Arrêtons de
penser que lês enseignants font de la résistance au changement.
Disponível em: http://89.snuipp.fr/article.php3?id_article=305.
Acessado em 15/11/2005.
VASCONCELLOS,
C.S. Para onde vai o
professor?: resgate do professor como sujeito de transformações.
São Paulo: Libertad, 2001.