RESENHA
LOPES,
Marcos Antonio e MARTINS, Marcos Lobato. A Peste das Almas.
História de fanatismo. Rio de Janeiro: FGV, 2006
Fanatismo
na História
Marcos
Lopes e Marcos Lobato retomam o tema do fanatismo e numa
perspectiva histórica constroem de maneira ensaística e até
literária uma narrativa sobre as práticas de fanatismo, de
movimentos e seitas religiosas ao longo dos séculos XVI, XVII,
XVIII, XIX, XX e início do XXI, em várias partes do mundo.
É
preciso dizer que o fenômeno do fanatismo, em todas as épocas
esteve imbricado em processos políticos, econômicos e sociais,
buscando um espaço estratégico para sedimentar o fervor
religioso.
Nesse
enfoque, as tradições e as práticas religiosas são componentes
do chamado fundamentalismo que caracteriza o fenômeno do
fanatismo nos dias atuais. Não é por outra razão que os autores
afirmam que o fanatismo religioso (do passado e do presente) é
denominado de “choque de civilizaçao” ou “choque
de religiões”. O fanatismo caracteriza-se pelo “excesso
de zelo na defesa de certos ideais religiosos dando margem para
alguns assombrosos banhos de sangue ao longo da História”,
afirmam Lopes e Lobato (p. 10).
O
trabalho está dividido em três eixos temáticos, partindo do
tema fanatismo. Na primeira parte o fanatismo religioso é tratado
enquanto manifestações históricas ocorridas no Ocidente e
Oriente, em diferentes contextos ao longo da Idade Média no tempo
das Cruzadas Cristãs, na época da Inquisição e da Caça às
Bruxas nos séculos XVI e XVII.
Na
segunda parte são analisadas as práticas de fanatismo mais
recentes no século XX, como é o caso da seita chamada Nova Era e
dos grupos terroristas com ações no plano internacional,
praticadas por grupos religiosos armados, identificados como sendo
movimentos fundamentalistas islâmicos.
Os
autores desenvolvem uma narrativa muito bem articulada a partir de
diferentes fontes, como as obras literárias de Swift, Yates,
Dumas, Cervantes e Calvino, além dos discursos filosóficos de
Voltaire, Roterdã, Montesquieu e Diderot. Dessa interconexão
discursiva da filosofia com a literatura surge uma perspectiva de
analise que envolve a ironia, a sátira e principalmente a
alegoria enquanto categorias para uma compreensão crítica do fenômeno
do fanatismo na Idade Média, na Época Moderna até os dias
atuais. Esse é o fio condutor que os autores competentemente
adotaram para uma abordagem histórica inovadora. Nota-se que a opção
de fontes centradas nos clássicos foi bem acertada, pois são
obras cujas interpretações em torno da história do fanatismo
permitem uma multiplicidade de sentidos. Aliás, não é outra
coisa que dizem os autores: “[...] um clássico é um livro
que nunca terminou de dizer aquilo que tenha para dizer” (p.
32).
A
parte historiográfica e teórica do tema fanatismo apresenta como
suporte para a analise e reflexão, pesquisadores especializados
no assunto, como Le Goff, Ginzburg, Febvre, Le Roy Ladurie,
Delemeau, Mandrou, Gellmer, Michelet e Massoulié. Lopes e Lobato
analisam as diferentes formas de fanatismo praticados por seitas
religiosas e movimentos derivados das heresias e cismas no
ocidente. Essas práticas e idéias foram combatidas também de
modo violento e fanático pelas Cruzadas Cristãs da Baixa Idade Média
e pela Inquisição. As perseguições se estenderam ainda ao
longo da Época Moderna nos séculos XVI e XVII. É nesse período
da História que apareceram os primeiros críticos do fanatismo
religioso, como os filósofos Montaigne, Montesquieu, Voltaire,
Hume e Diderot, além de escritores como Jonathan Swift e
Cervantes (p. 15). Montesquieu, por exemplo, criticava os padres
fanáticos de diferentes ordens religiosas por acreditarem na
superioridade de suas seitas e no monopólio das “verdades
divinas”. Enfim, finalizam os autores, os filósofos iluministas
combateram toda forma de fanatismo e as guerras de religiões,
como aquelas ocorridas na França entre católicos e protestantes.
Voltaire criticou, ostensivamente, os perseguidores de bruxas e
das práticas de bruxaria, pois acreditavam ainda na sua existência
real.
Os
autores incursionam também na perspectiva da história cultural,
valorizando abordagens e métodos de investigação da história
do comportamento de homens comuns, começando pelas variações
das diferentes culturas marcadas por manifestações folclóricas
e pagãs do século XVI, como é o caso da análise feita pelo
historiador Carlo Ginzburg.
Lopes
e Lobato aprofundaram suas reflexões em torno do embate do
catolicismo com o protestantismo após as Reformas de Lutero,
marcando os grandes conflitos entre os reformistas franceses e os
Estado com sua Justiça unilateral e violenta na condenação dos
acusados tendo à frente uma maioria de juizes ligados ao rei católico
francês. Milhares de pessoas foram condenadas por Tribunais católicos
sob a alegação de que defendiam a França e a monarquia. Era uma
maneira muito estranha de se fazer justiça pela simples e única
liberdade que de fato não existia.
Os
autores também enfocam a ausência de tolerância por parte dos
movimentos religiosos – aliás uma característica efetiva de
uma época de muita violência e fanatismo religioso. Para tratar
dessa questão, os autores investigam as obras de Erasmo de Roterdã
e Montaigne onde há uma filosofia e crítica à intolerância
religiosa.
Uma
interessante perspectiva de análise que os autores desenvolvem
sobre o fanatismo religioso, neste livro, diz respeito ao uso do
filme como fonte histórica sobre esse tema. Para isso, analisaram
o filme A Rainha Margot, que foi inspirado no romance de
Alexandre Dumas. Nesse filme, o problema da intolerância é
tratado com rigor histórico, exemplificado pelo conflito entre os
hunguenotes e os católicos franceses nos anos de 1572 e 1574.
Outro filme analisado, Giordano Bruno, mostra todo o
processo de emergência do fanatismo religioso contra os homens de
ciências e os saberes humanos.
A
violência não é apenas uma prática de julgamento, mas a própria
negação da idéia de Justiça. Como muito bem assinalam os
autores: “A banalização da violência é um traço muito
evidente. O indivíduo se deixa arrastar pelo impulso de paixões
que revelam aspectos contrastantes de sua personalidade: ele
oscila entre a cortesia e a brutalidade, a constrição” (p.
45).
Os
autores ressaltam a importância da contribuição de Voltaire
quanto a análise e compreensão das práticas nos suplícios públicos
e nos movimentos coletivos que marcaram as varias formas de
fanatismo.
Um
tema instigante que Lopes e Lobato tratam neste livro diz respeito
ao fenômeno da bruxaria que durou do século XV até a primeira
metade do século XVIII. Ao analisarem a bruxaria os autores
arrolaram uma série de práticas das autoridades eclesiásticas e
leigas de repressão e controle das bruxas. Por exemplo, o crime
da lesa majestade, curandeirismo e outras práticas de bruxarias
geralmente eram motivos de condenação à fogueira. Os sabás, as
magias e outros rituais coletivos, praticados na calada da noite,
eram execrados pela Igreja e pelos Tribunais. Os autores lembram,
porem, que a caça às bruxas deve ser compreendida no contexto do
Antigo Regime, uma época de violenta repressão política e
social.
O
curioso é que geralmente as mulheres é que estavam à frente das
práticas de magias, misticismos e bruxarias. Mas o Estado
Absolutista não descuidou de tais práticas e logo inventou uma série
de leis repressivas para combater toda forma de bruxaria. Enfim,
cabia ao Estado e à Igreja a manutenção da ordem e do controle
social através de seus aparelhos repressivos.
Na
última parte do livro, Lopes e Lobato estudam as seitas e os
fanatismos religiosos do século XIX e XX. São grupos radicais
com regras e códigos de tipo militar voltados para a prática da
violência, caracterizados por intolerância e racismo. Tais
grupos surgiram após as reformas protestantes na Inglaterra,
Irlanda do Norte, França e também nos EUA. No século XX muitos
desses movimentos tornaram-se fundamentalistas, notadamente os de
origem protestante. O fundamentalismo como corrente religiosa
surgiu também na África, em países como Nigéria, Argélia e
Egito. No Oriente Médio, grupos fundamentalistas foram
organizados com base na religião muçulmana e em países como o Líbano,
Palestina, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Paquistão e Afeganistão.
Alguns
grupos radicais religiosos fundamentalistas vão assumindo cada
vez mais uma postura fanática e terroristas como são os grupos
Al Qaeda, Jilhad islâmica, Hezbollah e os Sikhis na Índia.
Finalmente,
os autores interrogam sobre o futuro do fanatismo. Haveria algum
futuro? Será o fim do fanatismo religioso nos próximos vinte
anos? Na visão de Lopes e Lobato nada indica alteração nas práticas
dos grupos e dos movimentos fanáticos no mundo hoje globalizado.
Os conflitos étnicos, raciais e migratórios estão
potencializados pela globalização – concluem os autores – e,
por certo, continuarão produzindo atos de violência e de intolerância.
Triste conjuntura emergente neste início de século.