Assistencialismo
ou inclusão social?
Recentemente
(fevereiro, 2006), o presidente Lula surpreendeu ao afirmar
publicamente que “o Brasil não tem pressa de crescer com altas
taxas”; o que deixou perplexos muitos cidadãos que se lembram
de outra bravata presidencial em 2004 sobre o crescimento econômico
espetacular do Brasil.
Em
ambos os casos fica patente que o presidente e seu governo
consideram o crescimento econômico como um fim em si, enquanto não
passa de um meio para assegurar melhor qualidade de vida e
bem-estar para toda a população; sobretudo o imenso
contingente de excluídos e desamparados. Para estes, o governo
oferece, com ampla divulgação nacional e internacional, o
programa de “bolsa-família”, que incorporou o “fome
zero”, o “bolsa-escola” e outros projetos assistenciais,
inclusive aqueles implantados no governo anterior. O argumento
preponderante é que salva da fome e garante a sobrevivência física
de quase 9 milhões de famílias – um quarto da população
brasileira – que vive abaixo da linha da pobreza, com menos de 1
dólar por dia.
Mas,
quais os efeitos para a cidadania desses milhões de seres,
clientes dependentes da benevolência e dos interesses dos políticos?
Seria
demais esperar do poder público uma estratégia de políticas
sociais que enxergasse o futuro mais distante, em vez de objetivos
eleitoreiros imediatos?
Para
isto, seria necessário redefinir as prioridades da nação
mediante um amplo processo participativo, de consultas e audiências
públicas abertas a todos e em todas as regiões, o que
corresponderia à implantação da verdadeira democracia: o
governo pelo povo e para o povo.
Essas
prioridades, contrariamente às políticas econômico-financeiras
atuais que beneficiam uma minoria ínfima de banqueiros, rentistas,
empresas multinacionais e agro-exportadores, seriam orientadas
para programas de construção popular, provimento de saneamento e
água potável, melhoria de serviços de educação e saúde e, não
menos importante, para a criação de centros de cultura, esporte
e lazer, particularmente nas áreas urbanas degradadas.
Esses
objetivos não podem ser equacionados como mera decorrência do
crescimento econômico que, dentro do marco do regime de mercado
competitivo, leva inevitavelmente à concentração de renda, ao
aumento da desigualdade e à deterioração das relações sociais
– que está na origem da marginalidade, delinqüência e dos
conflitos sociais.
Outra
prioridade é o aperfeiçoamento institucional mediante reformas
do judiciário, do código eleitoral, do legislativo, da política
para menores – crianças e adolescentes – e tantos outros.
A
ignorância e o alheamento dos principais problemas e de suas
verdadeiras causas por parte das elites e dos governantes estão
na raiz de nosso crônico atraso e “subdesenvolvimento”.
Destacam-se
entre outros, a distribuição desigual do produto social; a
desigualdade de acesso a empregos, terra e aos serviços de educação
e saúde, oportunidades de participação social e cultural; além
dos preconceitos e da discriminação contra negros, índios,
mulheres e pobres em geral.
Quando
pressionadas, as elites e seus intelectuais orgânicos oferecem as
respostas convencionais: pobreza é da responsabilidade individual
(os pobres são indolentes e incultos); a educação resolverá
seus problemas e abrirá as vias de ascensão social e, para os
delinqüentes, a sociedade precisa de mais repressão, polícia,
prisões e uma postura mais dura e implacável...
O
desconhecimento e a ignorância das verdadeiras causas da anomia
social são gritantes: as altas taxas de desemprego, sobretudo
entre os jovens de 18-25 anos de idade que crescem sem qualquer
perspectiva de se inserir no mercado de trabalho e a desestruturação
das famílias pobres – quase metade das quais, na ausência de
homens, é mantida por mulheres. Os filhos que crescem sem a
presença do pai, são mais desajustados e tendem para a
marginalidade e freqüentemente, são recrutados por
narcotraficantes ou gangues de criminosos.
As
meninas são presas fáceis para as redes de prostituição
infantil de turismo sexual enquanto ambos, meninas e meninos são
explorados pelo trabalho infantil que prevalece em várias regiões
do Brasil, sobretudo as mais pobres.
Os
desempregados, jovens e adultos sem instrução escolar em
quantidade e qualidade suficientes percebem que não têm
perspectivas de um futuro melhor e perdem a auto-estima. A exclusão
do mercado de trabalho leva ao retraimento do convívio social, da
própria família e da comunidade. Essa perda de identidade num
mundo de incertezas e de violência transforma os indivíduos em
inimigos de si mesmo e da sociedade, levando à desagregação
social. Os ricos se protegem com carros blindados, grades de ferro
e guardas particulares em suas residências enquanto os pobres e
os sem-teto são encurralados para a periferia das grandes
cidades.
Com
essa perda de capital social e humano, a sociedade se torna
incapaz de superar os desafios do desenvolvimento. O capital
social, conceito introduzido recentemente nas análises sociológicas,
pode ser aferido pelo grau de cooperação, de ajuda mútua, de
confiança no próximo e na comunidade; e da confiança nas
instituições, no governo e suas políticas. Sua influência é
decisiva para o cumprimento das normas e leis, no comportamento cívico,
no respeito aos outros, da propriedade particular e pública e no
engajamento em iniciativas comunitárias, como conselhos de escola
e de centros de saúde.
Uma
das tarefas mais urgentes para criar e expandir o capital social
seria a formação de jovens instrutores com vocação e competência
para desenvolver atividades culturais e esportivas – corais,
orquestras, dança, teatro, ginástica, capoeira, competições
atléticas – com a juventude da periferia urbana.
Essas
atividades coletivas, além da satisfação pessoal de seus
praticantes, fomentarão o sentimento e o orgulho de
“pertencer”; fortalecerão a solidariedade e o espírito de
“nós”, em vez de valores egoístas e materialistas
preconizados pelo sistema econômico-educacional e político
atual.
Contudo,
devemos estar conscientes da contradição fundamental e maior
obstáculo ao desenvolvimento das sociedades contemporâneas,
particularmente na América Latina e no Brasil. Enquanto o
discurso do poder público exalta a competição e o crescimento
econômico que trarão a distribuição da renda e a justiça
social, a realidade crua é que a política econômico-financeira
praticada leva à concentração de renda, ao aumento das
desigualdades sociais e regionais e à exclusão social da qual
nenhuma demagogia ou “milagre” poderão nos redimir.