A USP, os
negros e os pobres
Caros
leitores, é incrível a resistência de uma das maiores
universidades da América Latina, a USP, à implantação do sistema
de cotas para afrodescendentes no seu vestibular – mais conhecido
como Fuvest.
Que
essa resistência é histórica nós sabemos, mas que ela continua
firme e forte como uma rocha mesmo depois de anos de lutas do
movimento negro na área da educação, com o objetivo de
democratizar o ensino superior, isto nós ficamos sabendo
recentemente através das declarações da reitora Sueli Vilela logo
após a concentração de estudantes e professores da Educafro e do
Movimento dos Sem Universidade (MSU) na entrada da Reitoria da
renomada universidade, no dia 23/5.
Na
sua fala defendeu o princípio do mérito acadêmico e a idéia da
USP criar cursinhos preparatórios para as populações em
desvantagem étnica e social, pois o problema da defasagem
educacional desses segmentos, segundo ela, está na precariedade do
ensino básico da rede pública.
Ocorre,
porém, que essa fala diz apenas uma meia verdade, pois esconde uma
série de problemas que ela não contempla ou não quer contemplar.
O ensino público, desde educação infantil até a pós-graduação,
não pode ser visto de forma fragmentada e hierárquica como se um nível
fosse mais importante que o outro. Ainda mais no que tange a
investimentos.
Essa
visão linear e etapista que coloca a universidade como o último
estágio da formação do cidadão é passadista e só serve para
criar pré-requisitos, muitas vezes, dispensáveis. Todo pensador crítico
sabe que o conhecimento não se dá dessa forma e que se processa
dentro e fora do espaço acadêmico-escolar. Por isso acreditamos
que a academia pode, sim, se tornar, não o fim, mas o começo de
processo de transformação.
A
Usp, portanto, aceitando o sistema de cotas, poderia iniciar um
movimento de renovação pedagógica interna que certamente afetaria
o ensino como um todo. Ou melhor, daria o ponta-pé inicial para uma
reformulação do ensino superior brasileiro dentro de uma proposta
que vai além da exigência de conteúdos e conhecimentos de base
eurocêntrico e aristocrático de classe média alta para nele
ingressar.
A
entrada de pobres e negros na Usp, ainda que por meio de políticas
afirmativas, representaria não apenas um avanço no campo dos
Direitos Civis, no Brasil, mas também uma oportunidade de inserir
no campo de saber da universidade a contribuição desses novos
personagens portadores de saberes de matrizes étnicas, sociais,
culturais e políticas diversas. Bem como ajudaria a diminuir a
assimetria de poder existente em seu meio institucional ao
desaristocratizar o ensino com o ingresso de pessoas de grupos
sociais de origem popular. Mas, nem por isso, menos talentosos e
dedicados ao estudo.
A
mobilização dessa população em torno de uma universidade pública
de qualidade e plural pede uma mudança de paradigma estrutural e
epistemológico significativo. Agora basta a universidade pública
fazer a sua parte, para enfrentar um mundo não apenas sequioso de
conhecimento - enfrentamento que vem fazendo muito bem - mas também
cada vez mais repleto de pessoas com vontade de conhecer.
Pois
uma coisa é certa, o povo preto e pobre descobriu, há muito tempo,
a importância do saber para a vida em todos os níveis, e disso ele
não abrirá mão. Recuos estratégicos e temporários podem até
ocorrer nessa marcha, mas retrocessos e desistências jamais.
por
JOSÉ APÓSTOLO NETTO