por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

 

A USP, os negros e os pobres

Caros leitores, é incrível a resistência de uma das maiores universidades da América Latina, a USP, à implantação do sistema de cotas para afrodescendentes no seu vestibular – mais conhecido como Fuvest.

Que essa resistência é histórica nós sabemos, mas que ela continua firme e forte como uma rocha mesmo depois de anos de lutas do movimento negro na área da educação, com o objetivo de democratizar o ensino superior, isto nós ficamos sabendo recentemente através das declarações da reitora Sueli Vilela logo após a concentração de estudantes e professores da Educafro e do Movimento dos Sem Universidade (MSU) na entrada da Reitoria da renomada universidade, no dia 23/5.

Na sua fala defendeu o princípio do mérito acadêmico e a idéia da USP criar cursinhos preparatórios para as populações em desvantagem étnica e social, pois o problema da defasagem educacional desses segmentos, segundo ela, está na precariedade do ensino básico da rede pública.

Ocorre, porém, que essa fala diz apenas uma meia verdade, pois esconde uma série de problemas que ela não contempla ou não quer contemplar. O ensino público, desde educação infantil até a pós-graduação, não pode ser visto de forma fragmentada e hierárquica como se um nível fosse mais importante que o outro. Ainda mais no que tange a investimentos.

Essa visão linear e etapista que coloca a universidade como o último estágio da formação do cidadão é passadista e só serve para criar pré-requisitos, muitas vezes, dispensáveis. Todo pensador crítico sabe que o conhecimento não se dá dessa forma e que se processa dentro e fora do espaço acadêmico-escolar. Por isso acreditamos que a academia pode, sim, se tornar, não o fim, mas o começo de processo de transformação.

A Usp, portanto, aceitando o sistema de cotas, poderia iniciar um movimento de renovação pedagógica interna que certamente afetaria o ensino como um todo. Ou melhor, daria o ponta-pé inicial para uma reformulação do ensino superior brasileiro dentro de uma proposta que vai além da exigência de conteúdos e conhecimentos de base eurocêntrico e aristocrático de classe média alta para nele ingressar.

A entrada de pobres e negros na Usp, ainda que por meio de políticas afirmativas, representaria não apenas um avanço no campo dos Direitos Civis, no Brasil, mas também uma oportunidade de inserir no campo de saber da universidade a contribuição desses novos personagens portadores de saberes de matrizes étnicas, sociais, culturais e políticas diversas. Bem como ajudaria a diminuir a assimetria de poder existente em seu meio institucional ao desaristocratizar o ensino com o ingresso de pessoas de grupos sociais de origem popular. Mas, nem por isso, menos talentosos e dedicados ao estudo.

A mobilização dessa população em torno de uma universidade pública de qualidade e plural pede uma mudança de paradigma estrutural e epistemológico significativo. Agora basta a universidade pública fazer a sua parte, para enfrentar um mundo não apenas sequioso de conhecimento - enfrentamento que vem fazendo muito bem - mas também cada vez mais repleto de pessoas com vontade de conhecer.

Pois uma coisa é certa, o povo preto e pobre descobriu, há muito tempo, a importância do saber para a vida em todos os níveis, e disso ele não abrirá mão. Recuos estratégicos e temporários podem até ocorrer nessa marcha, mas retrocessos e desistências jamais.

 

por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

   

 

 

 

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