O crescimento econômico, e o futuro, ou não futuro, do Brasil
Num
dos últimos números de “Espaço
Acadêmico”, foi publicado um interessante texto, de autoria
de Paulo Roberto de Almeida,
a respeito da falta de dinamismo econômico brasileiro e como esta,
inevitavelmente, vai nos levar à estagnação ou à decadência.
Mesmo sem estar de acordo com tudo o escrito ali, é um texto muito
interessante e que instiga à reflexão. Eis porque decidi pensar um
pouco sobre o problema do crescimento econômico brasileiro hoje.
É
realmente difícil não ficar impressionado com os dados levantados
tanto no artigo acima mencionado, assim como em outros disponíveis
num sem número de jornais e boletins de organismos internacionais.
Depois de um longo período crescendo a uma média bem superior ao
resto do mundo, o Brasil está, a mais ou menos três décadas,
patinando, sem conseguir sair do lugar. Nos últimos anos, estamos
ficando para trás dos outros países emergentes, e até mesmo de vários
de economia madura, quando se trata de dinamismo econômico.
Claro
que comparações estatísticas sempre são complicadas. Um país
muito pobre pode, por exemplo, conseguir taxas excepcionais de
crescimento simplesmente porque
a base de partida é muito pequena. Já a Argentina, por
exemplo, só está em plena expansão econômica porque está
aproveitando a capacidade produtiva ociosa depois da grave crise dos
anos anteriores. Distorções cambiais também afetam os números.
Mas é seguro afirmar que a situação brasileira não é tranqüila.
Em alguns anos, crescemos bem; em outros, nem tanto, mas, em linhas
gerais, nas últimas três décadas, estamos crescendo muito menos
do que poderíamos e/ou deveríamos.
Não
é este o espaço para uma longa discussão sobre a história econômica
brasileira nas últimas décadas e sobre como chegamos a esta situação
atual. Muito mais importante, a meu ver, é uma avaliação do
presente e do que poderia ser feito para que esse triste destino da
estagnação possa ser evitado.
Acredito
que a questão deve ser analisada em curto, médio e longo prazo.
Para o período imediato, não resta dúvida que o problema central
é o binômio câmbio-juros. Boa parte dos países do mundo que
apresentam taxas significativas de crescimento econômico adota a
política de câmbio desvalorizado, compatível com o aumento contínuo
das exportações, e juros baixos. Isso vem acontecendo, por
exemplo, na Argentina e na China.
Já
o modelo brasileiro é exatamente o contrário, utilizando câmbio
valorizado e juros altos. Com esse modelo, a pressão sobre as finanças
públicas é imensa (ainda que outros fatores, claro, também possam
colaborar para a sua deterioração)
e há sempre o risco (no caso de uma queda da procura
internacional por commodities, por exemplo) de um colapso cambial,
como o de 1998. Além disso, apesar dos juros altos não serem os únicos
culpados pela nossa situação econômica atual, dificilmente pode
se dizer que ele anime consumidores e empresas a investir, consumir,
etc.
Há,
a meu ver, três trajetórias possíveis a seguir aqui: a primeira
é mantermos o modelo juros altos/câmbio valorizado e aceitarmos a
estagnação como preço da estabilidade. Na segunda, baixamos a
qualquer custo os juros, desvalorizamos brutalmente a moeda e
teremos, provavelmente, um crescimento acentuado, na casa dos dois dígitos,
por algum tempo, mas que tenderá a se esgotar e a produzir inflação
rapidamente, devido ao problema da demanda excessiva. Seria uma
aventura, no pior estilo populista, e que rapidamente se esgotaria.
Já
a terceira hipótese seria dosarmos, em níveis moderados,
juros e câmbio para estimularmos o crescimento, mas sem
gerar uma demanda excessiva que só geraria inflação e já
pensando em medidas para aumentar a produção no futuro. Claro que
a grande questão aqui seria o como faze-lo, pois, se a receita de
como dosar estes instrumentos de política monetária fosse simples,
todos os presidentes do Banco Central do Mundo a seguiriam. O que,
talvez, precisássemos, fosse um pouco mais de ousadia e fugir um
pouco do imediato.
Aqui
entra, a meu ver, a questão do médio prazo. Não é possível
imaginar que todos os problemas da economia brasileira se resumem a
câmbio e juros. Se queremos que o crescimento se sustente depois de
um avanço inicial, seria fundamental atacarmos as questões
centrais, ou seja, manter e elevar continuamente a demanda e a produção.
Para
tanto, a questão do Estado me parece fundamental. O Estado
brasileiro, hoje, é um mastodonte que suga quase 37% do PIB em
impostos. Uma taxa alta, especialmente se comparamos com outros países
de mesmo nível de desenvolvimento. O pior, contudo, é que o
retorno para a sociedade é praticamente zero. Com um Estado deste
tamanho para sustentar (incluindo-se aqui as despesas sociais, as
transferências diretas, os juros da dívida publica, etc), não há
câmbio favorável e redução de juros que nos levem a níveis
chineses de expansão do PIB.
Na
verdade, o Estado brasileiro, hoje, é uma grande máquina de pagar
juros, pensões e benefícios sociais, além de garantir a sua
automanutenção. É possível aceitar o argumento que o Estado deve
se auto-sustentar adequadamente, honrar seus compromissos e
contratos, pagar as pensões dos aposentados e aliviar a fome das
multidões carentes. O problema é que estes gastos não induzem ao
crescimento econômico que, em longo prazo, permitiria, inclusive,
que o Estado não precisasse fazer caridade para com os pobres. O
que gera crescimento econômico é investimento, que é justamente o
que o Estado brasileiro
menos faz, até para ter os recursos para as políticas de assistência
social.
Basta
verificar o que resulta destas que são as principais despesas do
Estado. O pagamento dos juros beneficia a todos os que têm fundos
ou aplicações financeiras, claro,
mas, em geral, só os que dispõem de elevadas somas
aplicadas podem realmente usufruir dessa renda. Assim,
quem realmente enriquece com os
juros altos são algumas pessoas e instituições bancárias.
Já o pagamento dos benefícios sociais e das pensões, apesar de
socialmente defensável, não fornece condições para que as
pessoas carentes saíam realmente do ciclo vicioso da pobreza. Por
fim, o Estado gasta em excesso para a sua manutenção e de forma
completamente aleatória, o
que gera a situação absurda de contínuos do Judiciário ganhando
mais do que cientistas da Embrapa ou de termos toda uma estrutura pública
que apenas se mantém, sem cumprir as funções para as quais foi
criada.
Assim,
vivemos num país onde as instituições públicas, premidas pela
falta de recursos e pela ausência de gerenciamento, políticas de
estímulos e cobranças, etc, em geral e já descontadas as exceções
de praxe (como a Receita Federal), não funcionam. Dessa forma, e
aqui é uma avaliação subjetiva minha, as Universidades não
pesquisam, as escolas não ensinam, os hospitais não curam, a polícia
não garante a segurança, etc. Ás vezes, parecemos viver num país
“fake”, como os cenários dos filmes, no qual tudo o necessário
à vida e à economia moderna está presente, mas onde, ao mesmo
tempo, nada realmente existe.
Enfim,
o que fica claro é que o nosso gasto público é de má qualidade,
com transferências sociais, pensões, juros e despesas correntes
absorvendo toda a renda pública. Com isso, não apenas a sociedade
é penalizada com altos impostos, como não sobram recursos para
investimentos Ou seja, não apenas o Estado inibe o investimento
privado sugando parte substancial da renda nacional para si, como não
investe ele próprio no futuro.
Assim,
sem equacionar o problema do Estado, nada pode ser feito. É
fundamental aliviar a carga tributária, mas, acima de tudo,
garantir que tanto a cobrança dos impostos como os gastos sejam de
melhor qualidade. Sem uma reforma tributária que redistribua um
pouco a carga fiscal entre os que realmente podem pagar (e
privilegiando os que produzem e trabalham), a redução dos juros a
níveis civilizados, uma reengenharia total da máquina do Estado
(incluindo a suavização da sua imensa ineficiência e
corporativismo, melhora do sistema judiciário e da infraestrutura pública,
etc.) e uma reavaliação do sistema previdenciário, não há
maneira de manter um crescimento econômico contínuo em médio
prazo. Afinal, não há crescimento sem demanda (= crescimento real
de renda e/ou da capacidade de endividamento em todos os setores
sociais) e produção (= maiores investimentos públicos e privados)
e, com esse Estado gigante e ineficiente, não há como isso
ocorrer.
Mas,
imaginemos que se resolveu o problema câmbio-juros e que a
voracidade do Estado tenha sido ao menos contida. Tudo estaria
resolvido? Não creio. Teríamos criado condições para um
crescimento econômico mais sólido e consistente e, provavelmente,
mais duradouro. Qualquer esforço, contudo, para fazer que ele fosse
ainda de melhor qualidade e, mais especialmente, se revertesse em
benefício real para a sociedade, implicaria em investimentos maciços,
públicos e privados, em educação e desenvolvimento científico e
tecnológico. Eles só dariam retorno em médio e longo prazo,
claro, mas são as chaves para que o crescimento fosse sustentado.
O
crescimento, no século XXI, demanda, efetivamente, a entrada na era
da tecnologia, da terceira (ou quarta) revolução industrial. Sem
isto, não conseguiremos ir muito longe. A educação e a ciência são
as chaves para o progressivo aumento da produtividade e para a
construção de uma consciência cidadã de que esse país tanto
precisa para que a própria reforma do Estado continue.
Além
disso, um dos principais problemas para a construção de uma
moderna sociedade de consumo de massas no Brasil sempre foi a
distribuição de renda. Esta é tão concentrada que fica difícil
haver um aumento de demanda consistente, mesmo num momento de bonança
econômica. A educação, num contexto de estagnação econômica,
produz apenas o que vemos atualmente, ou seja, milhões de graduados
desempregados ou sub-empregados. Mas, num contexto de crescimento, é o grande canal para a distribuição de renda, geração
de demanda e garantia da própria continuidade do crescimento.
Ou
seja, o que fica cada vez mais claro é que, com uma mudança, ainda
que leve, na política monetária em curto prazo, uma reforma do
Estado no médio e a ênfase na educação e na ciência no longo,
poderíamos, talvez, sair do dilema da estagnação e do
empobrecimento contínuos. Se nos dedicarmos apenas ao primeiro e
segundo níveis, poderemos ter até algum crescimento, mas limitado.
Importante
ressaltar, claro, como essa divisão que fiz em questões de curto,
médio e longo prazo é meramente didática e não sugiro que
devemos resolver um deles para só depois seguir para o próximo.
Tudo tem que ser trabalhado ao mesmo tempo, ainda que haja nós mais
imediatos a desatar e outros que, inevitavelmente, demandarão mais
tempo.
Mas
a realidade atual não indica que algo vá ser feito. A complexidade
das reformas que este país precisa é tamanha (como, por exemplo,
articular aumentos de despesas na educação com necessidade de
diminuir os custos do Estado e sem cortar outras despesas necessárias
ou obrigatórias?) e demandaria um custo político tal (ao abalar
privilégios, tradições e idéias arraigadas) que não espanta que
nenhuma força política pense nisto. Depois, a própria sociedade
parece completamente conformada com o fato de estarmos parados no
tempo, sem perceber que os problemas do dia-a-dia (violência, falta
de dinheiro, más condições de vida, etc) estão claramente
relacionados com esta estagnação.
Realmente,
para as elites, especialmente as financeiras, tudo está muito bem e
a concentração de riqueza e poder em suas mãos é tamanha que
tanto faz se a economia cresça ou não. Elas gostariam,
provavelmente, de ver a economia deslanchar, mas não se o preço
disto for a diminuição dos seus privilégios e prerrogativas e/ou
a ponto de fazer, dessa questão, algo realmente prioritário. Elas têm tudo o que precisam e o futuro da sociedade como um
todo, para elas, é irrelevante.
As
classes médias, por sua vez, submetidas à brutal queda de renda e
as mais afetadas pela falta de dinamismo na economia, não conseguem
se organizar para defender seus interesses e se limitam a tentar
salvar o possível, no mais completo individualismo e “salve-se
quem puder”. Já a grande massa popular parece satisfeita com as
transferências de renda e a discreta melhora das suas vidas nos últimos
anos. Assim, a questão não se coloca.
Realmente,
foi criado, nos últimos anos, um arranjo político-social que
permite que o tecido social não se rompa. Os realmente ricos têm
renda garantida via mercado financeiro; os pobres, suas pensões e
bolsas e a classe média tenta salvar o que pode. O problema é que
não apenas esse arranjo é inviável em longo prazo, como não leva
realmente ao progresso e a melhora da vida do conjunto das pessoas.
Assim,
sou obrigado a compartilhar o pessimismo manifestado pelo
Paulo Roberto no seu texto. Estamos, provavelmente, condenados à
estagnação. E isso não por imposição do imperialismo global
(pois os exemplos da China, da Índia e vários outros indicam que
é perfeitamente possível prosperar no mundo globalizado), mas por
falta de vontade de realmente enfrentar o problema. Claro, ninguém
diz que resolver o “nó” da estagnação econômica é fácil,
pois, se o fosse, ninguém
optaria por isto. Mas o que choca é que a questão nem sequer se
coloca na nossa agenda, num conformismo que é ainda mais lamentável.
por
JOÃO
FÁBIO BERTONHA