Aspectos-chave
para a inovação na sala de aula
Inovação
é um tema complexo e multifacetado. Perspectivas diversas cercam
o tópico, apresentando-o, por exemplo, como uma necessidade e
desafio (ALENCAR, 1995) ou como a introdução de novidades
materializadas em produtos, processos e serviços (BARBIERI,
1997). Todas as abordagens existentes compõem, na realidade, um
conjunto heterogêneo, que possibilita somente concluir o quão vária
pode ser a leitura do conceito inovação. Quando se pensa em sala
de aula, entretanto, o que se entende pelo termo e como se dá a
sua realização? O contexto corresponde ao de uma prestação de
serviços, porém, tratam-se de produtos com características próprias
que exigem um panorama específico. É um ambiente de formação,
de troca de experiências, de aprendizado mútuo e que, a princípio,
não busca a maximização dos resultados financeiros, mas, sim, o
desempenho maximizado dos alunos envolvidos.
Na
sala de aula, então, quem inova: o professor ou a instituição
de ensino? Não tenho dúvidas de que é a escola ou a
universidade que apresenta possibilidades mais amplas de
desenvolver inovações. Tomando-se o conceito de inovação de deep
capability, de Hamel (2003), apenas a instituição de ensino
poderia promover inovações maiores, capazes de resultar em um
crescimento significativo ou, até mesmo, na criação de novos
mercados. Se a inovação não se limita ao produto e deve servir
como uma orientação para todo o negócio, é a universidade que
pode construir sua imagem de forma inovadora, que pode conduzir
pesquisas sob processos inovadores ou, ainda, que pode gerenciar
seu caixa sob um paradigma inovador. O âmbito de atuação do
docente, nesse contexto, é muito mais restrito, estando
vinculado, mormente, à inovação de produtos.
Não
basta, porém, ser uma pessoa criativa para inovar na sala de
aula. Para que um professor pratique a inovação no ambiente
educacional, é preciso que haja uma situação que provoque essa
prática. Não se pode desvincular o conceito de e a prática da
inovação do contexto que a estimula. Se os resultados são
iguais ou superiores àqueles esperados, não há razão para
realizar mudanças nas estratégias empregadas na sala de aula.
Por outro lado, se as respostas aos esforços empreendidos
situam-se aquém de um desempenho satisfatório, tem-se uma situação-problema
cuja solução criativa e bem-sucedida consiste, afinal, na inovação
na sala de aula.
O
docente, entretanto, antes de inovar, deve analisar alguns
aspectos-chave, cuja ponderação é necessária para uma inovação
bem-sucedida. Toda atividade implica planejamento e execução, e
o professor, na sala de aula, precisa pensar estrategicamente,
deve analisar fatores diversos, a fim de traçar os melhores
trajetos para atingir os objetivos de aprendizagem propostos.
Aspectos que devem ser considerados pelo docente, a priori,
para inovar, são: necessidades e possibilidades dos alunos;
recursos do professor; infra-estrutura da instituição de ensino;
conteúdo a ser desenvolvido e objetivos de aprendizagem; cultura
educacional.
A
inovação na sala de aula é, pois, uma resposta criativa e
bem-sucedida a uma situação-problema. O seu ponto de partida
deve ser, portanto, o corpo discente, suas necessidades e
possibilidades. Um bom começo é perguntar para os alunos qual
atividade profissional exercem, quais são os seus objetivos de
carreira e quais as suas expectativas com relação ao curso que
freqüentarão. Eles sabem todas as respostas? Não, mas é esse o
ponto de partida. O retorno que dão contribui para a construção
de um retrato da turma, com esboços de suas necessidades e
possibilidades. Antes de tentar qualquer coisa diferente na sala
de aula, o docente precisa saber primeiro se essa ação e se seus
possíveis resultados podem, de fato, proporcionar aos alunos algo
que lhes seja útil em seus cotidianos de trabalho, que satisfaça
parte das necessidades que possuem.
Além
disso, para inovar, é fundamental conhecer as possibilidades dos
alunos, consistindo estas em aspecto balizador do trabalho do
professor. A aceitação de e a adesão a uma nova proposta de
curso dependerão daquilo que os discentes têm condições de
realizar. Caso a proposta exija, por exemplo, esforços adicionais
extra-classe, ignorar esse fator pode ter como conseqüência
desempenhos insatisfatórios dos alunos. Isso é bastante verdade,
por exemplo, nos cursos técnicos noturnos – nos quais já
lecionei. Com aulas de segunda a sexta, os alunos matriculados vêm,
em sua maioria, direto do trabalho para a escola, sendo que a
leitura de capítulos de livros está fora de suas possibilidades.
Isso decorre, primeiro, do tempo que dispõem os discentes;
segundo da impossibilidade de adquirir tais livros, geralmente
caros, analisando-se o poder de compra convencional do brasileiro.
Não
adianta, no entanto, pensar apenas nas possibilidades e
necessidades dos alunos. O professor deve ponderar, também, os
recursos que ele próprio dispõe, entre os quais, destacam-se os
recursos financeiros, temporais e materiais. Há alternativas
metodológicas disponíveis nas literaturas nacional e
estrangeira? Provavelmente. Contudo, tem o docente condições de
adquirir essas obras? Caso adquira, terá ele tempo para analisar
as propostas apresentadas pelos autores? Em 2004, foi elaborado um
projeto para a ong Grupo Humanista Educação Além da Escola
voltado para a inovação na sala de aula, o Laboratório de
Inovação Pedagógica. A idéia básica era abrir um espaço
para experimentar e analisar estratégias de ensino diferentes
daquelas empregadas nas atividades do cursinho pré-vestibulinho
dessa ong. O projeto foi bem aceito pela coordenação,
entretanto, o corpo docente – inclusive eu – não dispôs de
tempo para executá-lo. Muitas vezes, é melhor centrar-se em
pequenas inovações factíveis, do que em inovações maiores que
estão além das possibilidades do professor. Ainda, também são
importantes os recursos materiais, ou seja, tudo aquilo que o
docente possui para preparar suas aulas, como os livros que dispõe,
computadores, vídeos, DVDs e CDs. Uma aula que tenha como eixo
uma apresentação em Power Point pode ser inovadora, mas, para
prepará-la, o professor precisa tanto do hardware, quanto do
software e de um mínimo de conhecimento para operar ambos. O
docente deve conhecer e estudar também as suas possibilidades
para inovar.
Outro
aspecto-chave para a inovação na sala de aula é a
infra-estrutura da instituição de ensino. Quais os recursos
disponíveis na sala de aula? Giz e lousa, apenas? Retro-projetor,
projetor de slides, vídeo? Data Show e aparelho de som? Quantas
carteiras existem na sala de aula e qual a sua disposição?
Parece-me claro que a melhor disposição das carteiras é aquela
que se assemelha a um U. Se são feitas fileiras, o ruído na
comunicação professor-aluno é muito grande e as chances de
dispersão são muito maiores do que na outra forma de disposição.
Em U, os alunos visualizam melhor o docente e a lousa (ou lona),
estando mais aptos a manter o foco. Em uma escola tradicional, a
disposição em U é uma inovação, porque contribui para
melhores resultados de aprendizado. Contudo, em escolas onde
lecionei, havia muitas carteiras dentro da sala, carteiras
pesadas, de difícil locomoção, o que impossibilitava a formação
em U, sendo esse um exemplo de quando a infra-estrutura da escola
limita as possibilidades de inovação.
A
fim de inovar, devem ser ponderados também o conteúdo a ser
desenvolvido e os objetivos de aprendizagem da disciplina.
Objetivos diferentes exigem estratégias diversas; conteúdos
distintos também. O uso de técnicas de contar histórias pode
ser bastante produtivo e inovador para o desenvolvimento de
disciplinas como História, por exemplo, no entanto, sua
aplicabilidade seria interessante para Matemática? Provavelmente
não. O professor precisa estar também atento a este ponto para
inovar. Onde os meus alunos devem chegar? O recurso que estou
propondo é adequado aos objetivos de aprendizagem estabelecidos e
à matéria que será trabalhada? Essa análise é fundamental
para a formulação e implementação de respostas não apenas
criativas, mas, sobretudo, bem-sucedidas para as questões que
surgem no cotidiano da sala de aula.
Por
último, cabe ao docente analisar a cultura educacional pré-existente,
entendendo-se aqui por cultura educacional o conjunto de hábitos
e comportamentos já sedimentados em determinada instituição de
ensino, região ou país. No Brasil, por exemplo, parece-me que
ainda é hegemônico nas escolas um papel de aprendizado passivo.
O aluno assume um comportamento apático e não pró-ativo, espera
receber o conteúdo do professor e não questiona, não critica.
Para implementar estratégias de ensino inovadoras, nesse
contexto, o professor deve contagiar os alunos com suas idéias, a
fim de provocar uma ruptura no comportamento habitual dos
discentes. Quando comecei a lecionar marketing na ETE Albert
Einstein, por exemplo, os alunos não aceitaram a proposta de que
eles deveriam construir o conteúdo, e não eu entregá-lo. As
suas experiências anteriores de aprendizado situavam-se sob a
cultura educacional brasileira tradicional, na qual a aula
expositiva pura é o método mais empregado. O professor,
portanto, tem que pensar nestas questões: quais são os hábitos
já sedimentados dos alunos na sala de aula e quais mudanças serão
necessárias para que seja bem-sucedida a inovação proposta? Não
se deve poupar tempo para explicar como funcionará a dinâmica
das aulas e qual o comportamento esperado dos alunos. É preciso
levar em consideração os padrões de ensino do país e da
escola, a fim de obter sucesso nas inovações pretendidas.