A
política externa nas campanhas presidenciais
Tendo
acompanhado a temática da política externa nas campanhas
presidenciais desde 1989, paralelamente ao estudo da interação que
o Congresso e os partidos políticos mantêm com os temas de relações
internacionais e de política exterior do Brasil, minha constatação
é clara: a política externa penetrou, decisivamente, no âmago das
campanhas eleitorais. De fato, se alguém ainda alimentava algum
ceticismo a respeito, os episódios envolvendo a decisão
presidencial boliviana quanto à nacionalização dos recursos energéticos
no país vizinho, bem como as turbulências em torno dos diferentes
esquemas de integração na América do Sul encarregaram-se de
eliminar quaisquer dúvidas sobre a centralidade dos temas de política
externa para a campanha eleitoral presidencial de outubro de 2006.
A
política externa já é assunto de interesse nacional e, como tal,
deve figurar em primeiro plano nos debates que ocorrerão no segundo
semestre deste ano. Trata-se de realidade nova que caberia discutir,
antes que os candidatos façam sua aparição nas telas de televisão
e nas páginas dos jornais, mediante a apresentação e a discussão
de seus respectivos programas de campanha. Nem sempre foi assim nos
quatro escrutínios presidenciais que se sucederam desde a
redemocratização de meados dos anos 1980, quando a política
externa ainda era marginal do ponto de vista da atuação dos
partidos políticos ou secundária nas preocupações das lideranças
políticas, ficando, portanto, relativamente distante dos debates de
campanha.
Meus
primeiros diagnósticos assumiam, invariavelmente, um tom
pessimista: eu simplesmente constatava que a política externa era
marginal do ponto de vista da atuação dos partidos políticos e
que as questões de relações internacionais e de relacionamento
externo do Brasil eram secundárias nas preocupações dos líderes
políticos, quando não ficavam distantes de todo e qualquer
discurso de campanha (vide referências). Quando ela entrava, era
mais do lado prosaico ou negativo. Lamentava um candidato as
“perdas internacionais” que estariam sendo supostamente impostas
ao País pelas empresas multinacionais, condenava, um outro, a dívida
externa “impagável” e a “submissão” ao FMI e exigia, um
terceiro, a defesa das indústrias nacionais que estariam sendo
entregues, de “mãos atadas”, aos interesses externos. Como
regra geral, no Brasil, ninguém se elegia tratando de temas
internacionais. Seria isso ainda verdade?
Esse
cenário parece ter mudado substancialmente ao longo dos anos, por
boas e más razões. Seja pelo crescimento da interface brasileira
com o mundo, a começar pela própria região, seja pela internalização
de problemas externos, extremamente facilitada pelas redes de
comunicações, o fato é que, pela primeira vez em nossa história
política, os temas de política exterior e de integração regional
estarão no centro do debate da próxima campanha presidencial, também
aqui por boas e más razões. Por um lado, o Brasil passou a estar
bem mais vinculado aos movimentos da economia mundial, tanto nos
aspectos propriamente econômicos como nos políticos – pela posição
de liderança em negociações internacionais –, além de que a ação
de grupos de interesse e de movimentos externos passa a influenciar
diretamente o cenário interno, como se pode constatar mediante uma
rápida consulta à agenda das principais autoridades
governamentais.
Por
outro lado, o Brasil também está “importando” parte do debate
que se dá em cenários estrangeiros, regionais ou internacionais,
com certo “contrabando” conceitual de idéias e propostas que não
correspondem a uma agenda político-econômica propriamente interna,
e sim responde a ações e posições de grupos, movimentos e
partidos estrangeiros que tendem a refletir interesses que lhes são
próprios. Apenas dois exemplos bastariam para ficar claro o que
isto pode representar em termos de defesa dos interesses nacionais
nos foros multilaterais: a velha questão do “dumping social”,
travestida de “cláusula social”, que foi incorporada às
demandas de certas centrais sindicais, bem como o apoio interno a
posturas contrárias ao interesse nacional no terreno das negociações
agrícolas internacionais, que resulta da importação acrítica de
posições como as da ATTAC francesa por movimentos sociais
brasileiros operando na órbita do Fórum Social Mundial. Não
preciso sequer mencionar dois patéticos plebiscitos organizados em
2001 e 2002 pelos mesmos movimentos sociais, um sobre a dívida
externa, o outro sobre a Alca, cujas maiorias “albanesas” contra
o pagamento da primeira e a favor da rejeição da segunda dizem
tudo sobre essa contaminação da agenda interna pela importação
acrítica de posições simplistas ao extremo mas que representam
interesses de determinados grupos sociais em outros países.
Independentemente
desses exemplos canhestros de debate “enviesado”, o fato é que
a política externa adentrou o terreno político e deve figurar em
posição preeminente nas eleições de outubro de 2006. Ocorreu,
nos últimos anos, uma notável “popularização” da política
externa, que deixou de ser uma espécie de agenda “bizarra”,
restrita a poucos especialistas, para converter-se em tema do
cotidiano. Pela primeira vez em muitos anos, quiçá de forma inédita
em nossa história, quase todos os temas da agenda diplomática
brasileira foram transferidos para o dia-a-dia dos leitores de
jornais e dos auditores de rádio e TV. A política externa do
Brasil permeia os temas da agenda interna como nunca ocorreu no
Brasil, e isso deverá refletir-se na campanha presidencial.
Antes
que as plataformas eleitorais nessa área adentrem novamente as páginas
dos jornais, cabe balizar o debate entre os candidatos, cujo perfil
está sendo conhecido mediante as convenções partidárias. Pode-se
antecipar, com pouca margem a dúvidas, que a maior parte dos
debates eleitorais a partir de agosto de 2006, nos temas de relações
internacionais e de política externa, será travada em torno das
posições diplomáticas assumidas pelo governo Lula, o que nada
mais é senão uma decorrência lógica da centralidade que ela veio
a ter no conjunto das políticas públicas.
Com
efeito, sem entrar no mérito das avaliações qualitativas ou de
argumentos opinativos, a atual política externa reflete, com
bastante coerência, as posições de política internacional
exibidas pelo atual partido majoritário no Congresso e seu único
candidato presidencial ao longo de uma longa trajetória em direção
ao poder. Não deveria haver disputa em torno disso, pois trata-se
apenas de uma constatação de fato. Em nenhuma outra área das políticas
de governo a identidade entre o partido e o governo é tão ampla e
a interface tão colada ao modelo original quanto na política
externa: opções, discursos, ações, tudo reflete, com razoável
identidade, o que escreviam e argumentavam os líderes do PT quando
se encontravam na oposição. Era natural que, uma vez no poder, se
dispusessem a colocar em prática suas idéias. É o que está sendo
feito, com adaptações de estilo e de forma feitas em cada dossiê
pelos profissionais da diplomacia.
O
que poderá ser abordado, portanto, na campanha eleitoral, é se as
posições do PT e do governo Lula, em matéria de política
externa, terão ou não correspondido às percepções e
necessidades do país, tal como percebido ou refletido pelos demais
líderes políticos, pelos especialistas da área e pelos agentes
que normalmente constituem grupos com interesse direto na
“economia” da política externa, com destaque para os setores
produtivos e exportadores. À diferença de tempos passados, as
plataformas de governo dos candidatos, que devem ser divulgadas a
partir de julho e agosto, tenderão a reservar espaço maior do que
o usual aos principais itens da agenda internacional do Brasil.
Nesses documentos, e nos debates que se seguirão, algumas
simplificações serão inevitáveis, dado o caráter do debate
eleitoral, mas é de se supor que os especialistas mais conhecidos
nesta área saberão
aprofundar as principais questões de interesse público, relevantes
para um debate bem informado sobre essa problemática, agora central
na definição das políticas públicas do Brasil.
Referências:
Almeida,
Paulo Roberto de: “A política externa nas campanhas
presidenciais, de 1989 a 2002, e a diplomacia do governo Lula”, in
Relações internacionais e
Política externa do Brasil. 2ª ed.; Porto Alegre: Editora da
UFRGS, 2004, p. 255-308.
__________.
“A política externa nas campanhas eleitorais brasileiras: a
experiência dos escrutínios presidenciais de 1989, de 1994 e de
1998”, Revista Internacional de Estudos Políticos, Rio de Janeiro: UERJ, v. 1, n. 2, agosto 1999, p. 253-286.
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“A Política da Política
Externa: os partidos políticos nas relações internacionais do
Brasil, 1930-1990”, in José Augusto Guilhon de Albuquerque (org.),
Sessenta Anos de Política Externa Brasileira (1930-1990), IV vol.: Prioridades,
Atores e Políticas. São Paulo: Annablume-Nupri/USP, 2000, p.
381-447.
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“Uma política externa engajada: a
diplomacia do governo Lula”, Revista
Brasileira de Política Internacional. Brasília: IBRI, ano 47,
nº 1, 2004, p. 162-184; disponível no link:
www.pralmeida.org/05DocsPRA/1260PExtLula.pdf.
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“Diplomacia presidencial: cronologia de
viagens e visitas, 2002-2006”, disponível em formato html
no link: http://textospra.blogspot.com/2006/04/68-diplomacia-presidencia-viagens-e.html#links
e, em formato pdf, no link: www.pralmeida.org/05DocsPRA/1584ViagVisitLula02a06.pdf.
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“Uma bibliografia preliminar
sobre a diplomacia do Governo Lula: uma classificação tentativa
com base na literatura disponível”,
disponível no link: http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1587BiblioDiploGovLula.pdf.
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Uma nova ‘arquitetura’
diplomática? – Interpretações divergentes sobre a política
externa do Governo Lula (2003-2006),
Revista Brasileira de
Política Internacional. Brasília: IBRI, ano 49, nº 1, 2006;
disponível no link: www.pralmeida.org/05DocsPRA/1603arquitetdiplom.pdf.
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA