Por ALEXANDER MARTINS VIANNA

Doutorando em História Social do PPGHIS-UFRJ.

 

 

A “Micro”-história Barthiana como uma nova modalidade de História Social

 

1. “Jogo de Escalas”: Uma solução para um problema inexistente?

Como uma nova modalidade de História Social, a micro-história – em sua versão metodológica barthiana – criou um novo campo de experiência de análise social para o historiador. Embora os exemplos de micro-história tenham projetos, objetos, áreas ou referências teóricas diferentes entre si, tal diversidade não nos impede de perceber uma característica comum: situadas na “tournant critique” das ciências sociais na virada para a década de 1980, as suas várias experiências de trabalho esforçaram-se em dar ao “cotidiano” ou ao “vivido” dos atores sociais uma significação que não os diluísse em a prioris estruturais-funcionalistas – que entendiam os processos sociais a partir do jogo de entidades sociais anônimas, acabadas, auto-evidentes e maciças, tais como: comunidades de residência, grupos profissionais, ordem, classe etc.

Aliás, em um caminho distinto de “tournant critique”, Jacques Revel e Roger Chartier, ao defenderem a sua “História Cultural” – em contraponto à “História das Mentalidades”, reabilitando a leitura de Norbert Elias na França fora do “eixo mentalidade”–, também lembraram aos praticantes da velha História Social algo fundamental que compunha o debate crítico fundador dos Annales: que o método de abordagem ou o problema da pesquisa cria ou configura o objeto a ser observado. Assim, por exemplo, se a identidade de uma coletividade, de uma profissão ou de uma classe são analiticamente definidas com base em descrições estatísticas de suas propriedades comuns, o que está implícito nesta forma de abordagem é o pressuposto de que há uma relação linear entre identidade social e perfis de propriedade. Ora, tal visão se altera completamente quando se considera como ponto de partida para a análise as trajetórias pessoais, as escolhas estratégicas e a experiência social dos membros de uma organização social.

Os micro-historiadores barthianos (penso particularmente em Giovanni Levi e Simona Cerutti) voltaram-se contra a percepção dos processos sociais como algo movido por forças estruturais coletivas e inconscientes, que faziam das escolhas dos atores sociais meras funções destas, em vez de se perceber que suas escolhas são estratégicas (frente a normas e valores existentes numa determinada forma social) e geradoras (a partir de seus efeitos agregados – e imprevisíveis do ponto de vista da ação de cada ator social) do processo social. Nesta perspectiva, as formas sociais e os processos que as geram não deveriam ser entendidos como configurações a priori dadas ou ‘causas externas’ a um ator social. Portanto, por este viés, a ação social não seria mais tratada como mera função de “estruturas” ou “entidades sociais”. Tais categorias analíticas – reificadas como ‘realidade social’ pela prática de pesquisa da História Social a partir da década de 1940 – foram postas em questão pelas várias experiências de pesquisa dos micro-historiadores a partir da década de 1980.

Nesse sentido, o principal mérito metodológico da micro-história barthiana foi justamente relativizar categorias analíticas da velha História Social. Por isso, temas como a identidade sócio-profissional, a industrialização, a urbanização ou a mobilidade geográfica ou social não poderiam mais ser encarados como ‘fenômenos englobantes’ que imporiam sua ‘lógica própria’ aos comportamentos de indivíduos e grupos. No entanto, na avaliação de Jacques Revel, permaneceria em aberto o problema de saber como articular de maneira rigorosa a relação entre a experiência singular e a ação coletiva. (REVEL, 1998: 10-11) Ora, como poderemos notar, trata-se de um problema apenas aparente, pois a micro-história barthiana resolve-a no próprio modo como se apropria das noções de forma e processo social de F. Barth.

Diferentemente do que sugere Revel, a diferença da micro-história barthiana em relação à perspectiva ‘macro’ de História Social não é uma simples questão de ‘mudança de objetiva’, pois esta metáfora, no final das contas, pressupõe um nível ‘micro’ e outro ‘macro’ como entidades fundamentais a serem confrotadas, o que é incongruente com o método analítico e a noção de escala em F.Barth. No corpus conceptual de Barth, o conceito de escala é entendido como uma extensão quantitativa e qualitativa, tanto em diversidade social quanto espacial, da interconexão ou interação de pessoas sociais. (BARTH, 1972: 253-272) Nesse sentido, a escala é entendida por ele como um aspecto da organização social.

No entanto, como parece não perceber toda a sutileza dos referenciais teóricos barthianos de análise social, Revel pensa estar resolvendo o “problema” de “articular de maneira rigorosa a relação entre a experiência singular e a ação coletiva” ao sugerir que o historiador, em vez de limitar a sua escolha a uma ou outra ‘objetiva’, deveria operar na ‘variação da escala’. Deste modo, sem operar efetivamente com a noção de escala de Barth, Revel tenta trazer o potencial crítico da experiência de trabalho dos micro-historiadores italianos (de viés barthiano) para o cenário da historiografia francesa, mas o domestica de modo a não abalar o edifício historiográfico dos Annales da primeira geração – marco fundador sempre reverenciado pelas novas gerações da historiografia francesa.

Como podemos notar, ao pensar que a análise social deveria basear-se em ‘jogos de escala’ ou ‘variação de escala’, Revel ratifica justamente aquilo que a noção de escala de Barth tornara obsoleto: a pressuposição de níveis ‘macro’ e ‘micro’. Seguindo os critérios de Barth, não haveria sentido em falar em tais níveis porque ele entende as formas sociais como agregados sociais conseqüentes de performances individuais e/ou grupais, e não como macro-estruturas fixas, integradas e externas à vontade do ator social. (VIANNA, 2006) Assim, sem se dar conta disso, Revel recai justamente naquilo que pretendia criticar. Além disso, é digno de nota lembrar que a própria noção de configuração social de Elias – que, não esqueçamos, é também a base teórica de Revel em sua empreitada, com Chartier, contra a “História das Mentalidades” – tornaria obsoletas as noções de ‘macro’ e ‘micro’ na análise social, ao mesmo tempo que é teoricamente compatível com a noção de escala de Barth. (VIANNA, 2005)

Portanto, deve-se estabelecer uma distinção clara entre a metodologia de pesquisa barthiana dos micro-historiadores italianos e como estes foram apropriados ou entendidos no cenário historiográfico francês. Os trabalhos de Giovanni Levi e Simona Cerutti são exemplos eloqüentes de aplicação da perspectiva barthiana de análise social que claramente não demandam ser “aperfeiçoados” pela ‘variação de escala’ de Revel.

2. Levi, Cerutti e a Análise Social Barthiana: Uma nova idéia de contexto social

Centrada em processos anônimos e massivos, a modalidade de História Social criticada pelos micro-historiadores tornou habitual métodos de pesquisa que pretendiam estatisticamente apreender (na verdade, criavam) grandes conjuntos, de modo a caracterizar comportamentos globais médios a partir de séries regulares. Assim, por tal perspectiva, tudo que fosse não-linear (ou seja, que escapasse da série ou ‘desviasse’) seria considerado inessencial (exceções que confirmariam a ‘regra’). Ora, inverter tal tendência, como demonstra Giovanni Levi, não significaria cair na vertigem do individual ou do excepcional, mas sim restaurar uma visão analítica mais dinâmica, complexa e não-óbvia de realidade social. Não se trata, portanto, de opor o ‘alto’ e o ‘baixo’, o ‘micro’ e o ‘macro’, mas tão somente reconhecer que a apreensão da ‘realidade social’ muda se as perguntas e métodos que motivam a análise social não são os mesmos.

Em “Herança Imaterial”, Giovanni Levi atenta para a articulação em redes sociais das vicissitudes biográficas de Santena, de modo que a trajetória dos Chiesa (pai e filho, 1672-1709) torna-se uma sinédoque-pretexto para se medir as transformações das relações sociais na localidade, num momento em que a própria Santena se vê cada vez mais implicada na escala da autoridade estatal de Piemonte. Deste modo, Levi pôde demonstrar que os habitantes de Santena não são meras vítimas passivas das transformações extra-locais que se implicam com a vida local, mas partes deste processo de mudança e capazes de interferir nele estrategicamente.

O caso de Santena serviu para Levi provar que os comportamentos dos seus habitantes – principalmente no que tangia ao mercado de terras – só poderiam ser entendidos se fossem observadas mais de perto as suas redes sociais e modalidades de relações interpessoais, ou seja, se a análise social fosse feita em outros termos que não aqueles de uma totalização implícita, imóvel e normativa. (LEVI, 2000: 44-47) Não podemos esquecer que Levi tem formação de economista e, na prática, os seus temas e interesses de pesquisa atualizam uma das teses levantadas por K. Polanyi em meados da década de 1940, qual seja: o comportamento econômico não ocorre num vazio de relações sociais. (POLANYI, 2000)

O caráter intensivo do método indutivo de análise social dos micro-historiadores permite perceber que uma organização social é feita de embaralhamento de lógicas sociais. Nesse sentido, dever-se-ia vencer dois hábitos recorrentes da velha História Social: (1) aquele de privilegiar a identificação de ‘sistemas simbólicos gerais’, tal como fizera a vertente Mentalidades na França, que, como já foi assinalado, foi objeto de revisão de Revel e Chartier em meados da década de 1980; (2) aquele de reificar as ações e relações, assim como as categorias que permitem pensá-las, o que mergulhara a História Social numa espécie de inércia classificatória de entidades sociais.

O trabalho de Simona Cerutti permite-nos aprofundar este ponto, pois diz que – em vez de considerar auto-evidente o pertencimento de indivíduos a grupos sócio-profissionais e, a partir daí, deduzir suas relações sociais e comportamentos – o historiador deveria inverter a sua perspectiva de análise e, deste modo, interrogar-se sobre o modo como as relações sociais criam solidariedades, alianças e grupos sociais. Logicamente, isso não significa negar as categorias sócio-profissionais como ferramentas de análise social, mas sim de vencer o hábito de pensá-las como algo exógeno, imóvel ou prévio às relações sociais. (CERUTTI, 1998: 173-201)

Fazendo eco à “tournant critique” das ciências sociais na década de 1980, Simona Cerutti percebeu que era preciso renunciar a qualquer pretensão de encontrar em Turim dos séculos XVII e XVIII uma coincidência total e imediata entre a esfera técnico-produtiva e a aquela dos comportamentos e das relações sociais. Por isso, ao tratar do tema da identidade social e suas formas de encenação cívica em Turim, ela não considerava suficiente que fosse retomado o vocabulário dos atores sociais como garantia de se conseguir maior aproximação à sua ‘realidade’ ou ‘lógica social’, como faria supor o relativismo culturalista de tipo ‘geertzista’ de Robert Darnton. Como alternativa, ela propunha que a linguagem classificativa dos atores sociais fosse “impregnada de relações sociais”, de modo que pudesse servir como indício para um trabalho de mapeamento de identidades sociais plurais e plásticas, assim como identificar as prováveis motivações que levam às suas transformações ou resignificações sociais ao longo dos séculos XVII e XVIII. (CERUTTI, 1998: 178-183)

Simona Cerutti critica a análise de viés ‘geertizista’ das ‘representações sociais’, a exemplo de Robert Darnton, porque considera que tende a fechá-las sobre si mesmas, reificando os ‘discursos’. Vale lembrar que esta não é a perspectiva de Roger Chartier:

“...toda história deve levar em conta a irredutibilidade da experiência ao discurso, prevenindo-se contra o emprego descontrolado da categoria ‘texto’, com muita freqüência indevidamente aplicada a práticas (ordinárias e ritualizadas) cujas táticas e procedimentos não são em nada semelhantes às estratégias discursivas. Manter a distinção entre umas e outras é o único meio de evitar ‘dar ao princípio da prática dos agentes a teoria que se deve construir para explicar sua razão’, segundo a fórmula de Pierre Bourdieu. Por outro lado, deve-se constatar que toda construção de interesse pelos discursos é ela própria socialmente determinada, [pois é] limitada pelos recursos desiguais (de linguagem, conceitos, materiais etc) de que dispõem aqueles que a produzem. Essa construção discursiva remete, portanto, necessariamente às posições e às propriedades sociais objetivas (exteriores ao discurso) que caracterizam os diferentes grupos, comunidades ou classes que constituem o mundo social...”. (CHARTIER, 1994: 105-106)

Portanto, Roger Chartier não poderia ser objeto das mesmas críticas de Simona Cerutti a Robert Darnton: além de afirmar a irredutibilidade da experiência social ao discurso, o seu conceito de representação – que também subentende a construção social e cultural de cada realidade – requer, tal como pretendem os micro-historiadores barthianos, análises minuciosas e multidimensionais que evitem a passividade perante a fonte ou a atenuação do papel dos conflitos de interesses, diferenças de recursos (materiais e imateriais) e das alianças nos estudos das manifestações culturais do mundo social.

A aposta metodológica de Simona Cerutti é a mesma de Giovanni Levi: ela parte do jogo das estratégias individuais e familiares, assim como de suas interações, de modo que as vicissitudes biográficas de Turim fizessem emergir as transformações de recursos e relações de poder que, somente no século XVIII, tornaram a prática de um ofício (ou a associação ao privilégio corporativo de um ofício, mesmo que se não o praticasse) um critério identitário de estratificação social, a ponto de ser encenado – diferentemente do que ocorria no século XVII – nos rituais cívicos de Turim. Assim, Cerutti segue um caminho analítico semelhante a Barth, por exemplo, quando este estuda as fronteiras étnicas entre os pastanes do Afeganistão.(BARTH, 2000: 69-93)

Em um estudo de campo, Barth percebeu que não existia uma ‘identidade pastane’ fora de relações e redes sociais específicas de interesse. Nesse sentido, estudar a questão do pertencimento em situações de fronteiras étnicas foi uma oportunidade para descobrir que, na prática, não havia uma ‘identidade pastane’ toda abrangente que servisse como a priori analítico de práticas sociais, comportamentos e valores. Do mesmo modo, para Cerutti, no caso dos ofícios e suas corporações em Turim dos séculos XVII e XVIII, também não havia sentido falar em identidades sócio-profissionais como um a priori estrutural que configuraria as relações sociais; pelo contrário, o desafio analítico maior foi justamente perceber como as relações sociais se processavam e, deste modo, como reconstituíam periodicamente as categorias classificativas utilizadas pelos atores sociais para si mesmos e seu entorno.

Nesse sentido, longe da imagem consensual e, em linhas gerais, estável que as descrições tradicionais ofereciam do mundo dos ofícios no Antigo Regime, o trabalho de Simona Cerutti demonstrou que não havia uma forma única e definitiva de interação entre identidade profissional e sua tradução institucional; pelo contrário, tudo era objeto de conflitos, negociações e transações provisórias. No entanto, constatar isso não significa cair num individualismo metodológico de análise social, pois Simona Cerutti não perde de vista que as estratégias pessoais ou familiares de sobrevivência social não são puramente instrumentais: tal como na metáfora do “jogo social” em Barth e Elias, Cerutti sabe que há limites sociais para as escolhas, que são inseparáveis de representações do espaço relacional urbano de Turim nos séculos XVII e XVIII, dos recursos que ele oferece e das restrições que impõe, a partir das quais os atores sociais se orientam e fazem suas escolhas, cujo efeito agregado é imprevisível e pode alterar as próprias condições originais de escolha.

Assim, não é sem sentido que, em sua análise social do mundo dos ofícios em Turim dos séculos XVII e XVIII, Simona Cerutti insistisse nas modalidades relacionais que tornavam possíveis as agregações (ou desagregações) sociais, ao mesmo tempo que tentava recuperar as várias mediações existentes entre racionalidade individual e identidade coletiva, demonstrando que não há uma relação linear entre comportamentos individuais (ou intenções particulares) e seus efeitos coletivos de agregação social. (CERUTTI, 1998: 199-201) Com isso, a própria idéia de contexto é redefinida, pois não deve ser entendido como algo estático ou completamente integrado dentro do qual ou em função do qual os atores sociais fariam suas escolhas, já que o próprio mundo social seria um agregado conseqüente de uma multiplicidade de experiências, escolhas e representações contraditórias e ambíguas.

Por isso mesmo, Simona Cerutti insistia que os atores sociais, mais do que meras funções de entidades estruturais “macrossociais” (velha História Social) ou “conceptuais-discursivas” (História Cultural ‘geertzista’), deveriam ser encarados pelo historiador como unidades posicionais flexíveis, simultaneamente configuradas por e configuradoras de valores, instituições e redes da organização social.

 

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Referências Bibliográficas:

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CHARTIER, Roger. “História: Dúvidas, Desafios, Propostas”. In Estudos Históricos, vol.7, n.13. Rio de Janeiro: FGV-CPDOC, 1994. pp. pp.97-113

DAHER, Andrea. “Entrevista com Jacques Revel”. In Topoi, n.2. Rio de Janeiro: PPGHIS-UFRJ/Sete Letras, 2001. pp.197-215

GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. “Micro-história: Reconstruindo o Campo de Possibilidades”. In Topoi, n.1. Rio de Janeiro: PPGHIS-UFRJ/Sete Letras, 2000. pp.217-223

LEVI, Giovanni. Herança Imaterial: Trajetória de um exorcista no Piemonte do Século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

POLANYI, Karl. A Grande Transformação. Rio de Janeiro: Campus, 2000.(8ª ed.)

REVEL, Jacques (org.). Jogos de Escala. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

VIANNA, Alexander Martins. “A Atualidade de Norbert Elias para as Ciências Sociais”. In Revista Espaço Acadêmico, n. 49. Maringá: junho de 2005.

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