A
militância comunista do escritor Graciliano Ramos
Graciliano
Ramos já foi considerado por muitos especialistas como um dos
maiores escritores brasileiros. O romancista produziu livros
diversos que, ainda hoje, são extremamente conhecidos do público
leitor. É autor, por
exemplo, de livros como
Infância, Insônia, Angústia, São Bernardo, Vidas
Secas e Caetés. Mas é outro aspecto da sua trajetória que pretendemos
tratar nesse breve texto. O texto busca abordar alguns aspectos
relacionados à militância comunista de Graciliano Ramos.
Antes,
porém, cabe lembrar um importante aspecto institucional da atuação
política de Graciliano Ramos. O escritor atuou como prefeito da
cidade alagoana de Palmeira dos Índios (1928-1930). Nesse cargo, não
favoreceu amigos e produziu relatórios dirigidos ao Governador do
Estado. Os relatórios impressionam os leitores pela enorme
qualidade literária, característica incomum nos textos produzidos
pela maioria dos políticos brasileiros. O romancista também
exerceu um outro cargo importante. Durante alguns anos foi o diretor
da Imprensa Oficial de Alagoas.
É
possível afirmar que o escritor entrou em contato com as idéias e
propostas comunistas antes mesmo de ingressar no Partido Comunista
do Brasil (PCB). O escritor chegou a ser preso sob a acusação de
produzir livros vinculados a doutrina comunista, ainda no ano de
1936. A falta de provas devolveu-lhe a liberdade alguns meses
depois. Mas as marcas da prisão ficariam para sempre na sua vida,
tal como demonstrou no seu Memórias do Cárcere, publicado
postumamente em 1953. Além disso, o contato estabelecido com os
comunistas na prisão pode ter aproximado Graciliano Ramos do
ingresso no partido.
Não
obstante a arbitrariedade da prisão, parece possível ressaltar que
algumas obras do escritor realmente estavam extremamente preocupadas
com a realidade social no Brasil. Uma breve leitura dos romances São
Bernardo (1936) e Vidas Secas (1939) pode sustentar essa idéia.
Assim, um trabalho de fôlego sobre a militância política do
escritor deve recorrer as duas obras citadas. Deve, igualmente,
tratar do período em que o escritor ocupou os cargos de Prefeito de
Palmeira dos Índios e de Diretor da Imprensa Oficial de Alagoas.
Deve procurar entender, por fim, a sociabilidade que o escritor
construiu com alguns militantes comunistas ainda na prisão.
Certamente, todos esses aspectos devem ser considerados para
desvendar a militância política de Graciliano Ramos nos anos
anteriores à sua adesão ao PCB.
No
momento, convém lembrar alguns momentos mais próximos da sua adesão
formal ao PCB. A casa do escritor serviu de palco para a realização
de diversas reuniões entre intelectuais, dentre os quais estavam
alguns comunistas ou simpatizantes do comunismo. Serviu também de
espaço para debates sobre política e literatura. Os debatedores
tratavam especialmente do fim do Estado Novo e da reorganização do
PCB a partir da Conferência da Mantiqueira, que foi realizada em
1943. Por isso, as reuniões possibilitaram ao escritor alagoano um
maior contato com idéias, propostas e preocupações dos comunistas
antes mesmo de ingressar no partido. (MORAES, 1993, p.207).
A
filiação formal de Graciliano Ramos ao PCB ocorreu apenas em 1945.
Um encontro com Prestes, numa viagem para Belo Horizonte, aproximou
muito a sua adesão, formalizada com a assinatura da ficha de inscrição
em 18 de agosto de 1945. Uma de suas primeiras atividades como
militante foi visitar a redação da Tribuna
Popular, periódico comunista que o saudou, em matéria
publicada no dia seguinte, como o “maior romancista brasileiro”.
Também acompanhou o desfile das células do PCB e dos comitês
democráticos na recepção aos pracinhas da FEB. Integrou
comissões que se reuniam na sede da Associação Brasileira de
Imprensa (ABI) para intensificar a batalha pela Constituinte e
participou de festas que visavam arrecadar fundos para os comitês e
organismos do PCB.
O
partido exibia sua adesão como um troféu, pois tratava-se de um
escritor consagrado que reforçaria o prestígio dos comunistas no
meio intelectual. O entusiasmo com as filiações de personalidades
levou o Comitê Central a
organizar, no auditório do Instituto Nacional de Música, uma
solenidade para entregar as credenciais dos novos membros. Entre os
agraciados com as carteirinhas estava Graciliano Ramos (MORAES,
1993, p.210-13). Deve-se observar que isso era possível por que o
partido estava legalizado nesse período, um fato muito raro em toda
a história do PCB.
Mesmo
requisitado para diversas tarefas partidárias, Graciliano Ramos
ficou, de agosto até dezembro de 1945, sem base no partido. Assim,
teve que freqüentar o comitê
distrital da Tijuca nesse período de espera por orientação.
Com o fim das eleições o partido agrupou intelectuais como
Graciliano Ramos, Alina Paim e Ignácio Rangel na célula Theodore
Dreisser, homenagem a um escritor norte-americano. Subordinada
ao Comitê Central, a célula
foi instalada numa das salas da editora comunista Horizonte, no
centro do Rio de Janeiro. Nos encontros, os participantes
organizavam a divulgação das teses partidárias por meio da produção
de artigos, elaboração de conferências, em conversas ou reuniões
(Ibid., p.207-218).
A
filiação formal de Graciliano Ramos ao comunismo não abriu uma
ampla possibilidade de produção de idéias sobre a transformação
social do Brasil. Sua militância partidária foi marcada por um
complexo paradoxo. O intelectual mantinha uma relação de conflito
com a direção partidária, mas, mesmo assim, emprestava todo o
prestígio de seu capital cultural ao partido.
Assim,
o autor de Vidas Secas é
relembrado nas memórias de sua filha como um militante discreto que
afirmava suas convicções na livraria, na rua, com certa impertinência
e sem muito senso de oportunidade. De acordo com as lembranças de
sua filha, Graciliano Ramos limitava-se a freqüentar a célula Theodore
Dreiser, que congregava escritores comunistas e a pronunciar
discursos em comícios. O escritor chegou aceitar a candidatura ao
cargo de Deputado Federal pelo Estado de Alagoas. Como candidato,
porém, demonstrou não desejar a própria eleição, pois em vez de
partir para a campanha eleitoral, deu-se por satisfeito em
encaminhar um manifesto aos seus amigos, o que não foi suficiente
para elege-lo (RAMOS, 1979, p.167-69).
Graciliano
Ramos também compareceu aos comícios em favor da candidatura de
Astrogildo Pereira para o cargo de vereador no Rio de Janeiro, nas
eleições de 1947 (Moraes, 1993, p.235). Na visão dos dirigentes,
sua presença nos comícios carrearia votos do eleitorado mais
politizado. O militante compareceu a vários comícios, mesmo com
muita dificuldade para falar em público.
Dentre
as suas propostas, figurava o plano de utilizar a organização
partidária, sobretudo a célula Theodore
Dreiser, para descobrir talentosos escritores no interior do país,
pois considerava que a literatura não deveria permanecer
circunscrita a uma classe social. Propunha que o partido, por meio
do sistema de células partidárias ramificadas por todos os
estados, recolhesse páginas escritas por estudantes, operários,
comerciantes, marinheiros, enfim por aqueles que tivessem talento. O
material coletado deveria ser encaminhado para célula Theodore Dreisser que, ao localizar um possível talento, se
encarregaria de prepara-lo com cursos para lança-lo à carreira
literária (RAMOS, 1979, p.169-70). Aprovada sua idéia, o periódico
Tribuna Popular publicou uma nota estimulando o envio dos textos e
afirmando que aqueles que tivessem valor literário seriam
publicados pelas editoras do PC. Entretanto, Diógenes Arruda, ao
tomar conhecimento da iniciativa, concluiu que a célula havia
decidido à revelia da direção partidária. O ato de quebra da
hierarquia foi coibido com a dissolução da célula, o que levou
Graciliano Ramos a retornar ao comitê
distrital da Tijuca (MORAES, p.1993, p.218).
Esse
acontecimento demonstra que a vinculação ao PCB não era meramente
simbólica. A adesão ao partido implicava em aceitar ou conviver
com a ideologia e as normas partidárias, que incluíam a disciplina
e o cumprimento das mais variadas tarefas partidárias, habitus
que deveriam ser incorporados pelos intelectuais que aderiam ao
partido.
Por
habitus pode-se entender
disposições no sentido de esquemas de percepção, apreciação e
ação adquiridos socialmente ou incorporados pelos agentes devido
sua posição no espaço social por um prolongado tempo (BOURDIEU,
2000,p.61). Eles são diferenciados, mas também operam distinção,
pois colocam em prática princípios de diferenciação diferentes
ou utilizam diferencialmente os princípios de diferenciação
comuns. São princípios geradores de práticas distintas e
distintivas, esquemas classificatórios, princípios de classificação,
princípios de visão e de divisão social do mundo. As diferenças
nas práticas, nos bens possuídos e nas opiniões expressas, ao
serem percebidos por meio dessas categorias sociais de percepção,
desses princípios de visão e de divisão do mundo, tornam-se
diferenças simbólicas (BOURDIEU, 1996, p.22).
Pode-se
salientar que Graciliano Ramos não era o único que precisa
incorporar uma série de disposições para permanecer no PCB. Para
compreender as disposições que os militantes comunistas precisavam
incorporar é possível recorrer a Osvaldo Peralva. No seu Pequena
História do Mundo Comunista, o militante Osvaldo Peralva
(p.170) ressalta que o partido traçava uma orientação que, certa
ou errada, era qualificada, para todos os efeitos, de “justa”.
Peralva informa também que o militante que se desviasse dessa
orientação, tanto para esquerda quanto para direita, logo recebia
os mais diversos rótulos dos dirigentes partidários, uma espécie
de “etiqueta na testa”, em que constava afirmações como “está
querendo passar contrabando ideológico, acha-se sob a influência
da burguesia, é um aventureiro, um sectário!” .
Leôncio
Basbaum é um outro militante que colabora com essa visão. Para
Basbaum (1962, p.149) o partido tinha sido transformado em uma
organização com “autômatos inconscientes que apenas sabiam
cumprir ordens, porque alguém pensava por eles”
Dessa
forma, aqueles intelectuais que manifestavam certa autonomia com
relação às posições partidárias não mantinham uma relação
harmônica com os membros da direção do PCB ou, até mesmo, com
boa parte dos militantes comunistas brasileiros.
Esse parece ser o caso de Graciliano Ramos e de outros
intelectuais que limitaram no PCB. Assim, parece necessário pensar
sobre a relação dos intelectuais comunistas brasileiros com o PCB.
Por
enquanto, pode-se ressaltar que Graciliano Ramos demonstrou uma
certa autonomia com relação às diretrizes partidárias por
diversas vezes. A própria Clara Ramos relembra que seu pai sempre
questionou a orientação que determinava igualdade de tarefas para
operários e intelectuais, alegou incompetência para pichar paredes
e fazer flores de papel para venda em quermesses (RAMOS, 1979, p.
170). O escritor também criticou o realismo socialista e alguns
aspectos da vida soviética após ter realizado uma viagem à União
Soviética.
As criticas ao país dos soviéticos não foram aceitas pela direção
partidária que trabalhou intensamente para que dois dos seus
romances não fossem publicados, Memórias do Cárcere (1953) e
Viagem (1954).
Durante
muito tempo o escritor foi combatido pela direção partidária em
função desses diversos rompantes de autonomia frente às
diretrizes partidárias. Mesmo assim, o partido procurava emprestar
toda o capital cultural que o escritor possuía no meio intelectual.
Seu prestígio era fundamental para o partido. Por isso, Graciliano
Ramos não pode ser considerado um rebelde no partido, mas apenas um
militante que se opunha às diretrizes tomadas pela direção partidária
a revelia dos militantes. Enfim, parece que o partido perdeu a
chance de aproveitar um pouco da visão de mundo daquele que como
poucos sabia enxergar a realidade brasileira, tal como bem
demonstrou na sua contundente e realista criação literária.
Bibliografia
BOURDIEU,
Pierre. Razões práticas: sobre
a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.
______.
O Poder Simbólico. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
BASBAUM,
Leôncio. História Sincera da Republica: de 1930 a 1960. São
Paulo: Edições LB, 1962.
MORAES,
Dênis de. O Velho Graça: Uma
Biografia de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: José Olympio,
1993.
PERALVA,
Osvaldo. Pequena História do Mundo Comunista. s/d.
RAMOS,
Graciliano. Memórias do Cárcere. 31. ed. São Paulo: Martins Editora, 1986. 2.
vols.
RAMOS,
Clara. Mestre Graciliano: confirmação
humana de uma obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1979.
SOTANA,
E.C. Relatos de viagens à
URSS em tempos de Guerra Fria: uma
prática de militantes comunistas brasileiros. Assis, 2003,
253p. Dissertação (Mestrado em História) Faculdade de Ciências e
Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista, 2003.