por EDVALDO CORREA SOTANA

Doutorando em História pela UNESP/ Assis e Professor da Faculdade de Presidente Prudente (FAPEPE/ UNIESP)

 

A militância comunista do escritor Graciliano Ramos

 

Graciliano RamosGraciliano Ramos já foi considerado por muitos especialistas como um dos maiores escritores brasileiros. O romancista produziu livros diversos que, ainda hoje, são extremamente conhecidos do público leitor.  É autor, por exemplo, de livros como Infância, Insônia, Angústia, São Bernardo, Vidas Secas e Caetés. Mas é outro aspecto da sua trajetória que pretendemos tratar nesse breve texto. O texto busca abordar alguns aspectos relacionados à militância comunista de Graciliano Ramos.

Antes, porém, cabe lembrar um importante aspecto institucional da atuação política de Graciliano Ramos. O escritor atuou como prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios (1928-1930). Nesse cargo, não favoreceu amigos e produziu relatórios dirigidos ao Governador do Estado. Os relatórios impressionam os leitores pela enorme qualidade literária, característica incomum nos textos produzidos pela maioria dos políticos brasileiros. O romancista também exerceu um outro cargo importante. Durante alguns anos foi o diretor da Imprensa Oficial de Alagoas.

É possível afirmar que o escritor entrou em contato com as idéias e propostas comunistas antes mesmo de ingressar no Partido Comunista do Brasil (PCB). O escritor chegou a ser preso sob a acusação de produzir livros vinculados a doutrina comunista, ainda no ano de 1936. A falta de provas devolveu-lhe a liberdade alguns meses depois. Mas as marcas da prisão ficariam para sempre na sua vida, tal como demonstrou no seu Memórias do Cárcere, publicado postumamente em 1953. Além disso, o contato estabelecido com os comunistas na prisão pode ter aproximado Graciliano Ramos do ingresso no partido.

Não obstante a arbitrariedade da prisão, parece possível ressaltar que algumas obras do escritor realmente estavam extremamente preocupadas com a realidade social no Brasil. Uma breve leitura dos romances São Bernardo (1936) e Vidas Secas (1939) pode sustentar essa idéia. Assim, um trabalho de fôlego sobre a militância política do escritor deve recorrer as duas obras citadas. Deve, igualmente, tratar do período em que o escritor ocupou os cargos de Prefeito de Palmeira dos Índios e de Diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Deve procurar entender, por fim, a sociabilidade que o escritor construiu com alguns militantes comunistas ainda na prisão. Certamente, todos esses aspectos devem ser considerados para desvendar a militância política de Graciliano Ramos nos anos anteriores à sua adesão ao PCB.

No momento, convém lembrar alguns momentos mais próximos da sua adesão formal ao PCB. A casa do escritor serviu de palco para a realização de diversas reuniões entre intelectuais, dentre os quais estavam alguns comunistas ou simpatizantes do comunismo. Serviu também de espaço para debates sobre política e literatura. Os debatedores tratavam especialmente do fim do Estado Novo e da reorganização do PCB a partir da Conferência da Mantiqueira, que foi realizada em 1943. Por isso, as reuniões possibilitaram ao escritor alagoano um maior contato com idéias, propostas e preocupações dos comunistas antes mesmo de ingressar no partido. (MORAES, 1993, p.207).

A filiação formal de Graciliano Ramos ao PCB ocorreu apenas em 1945. Um encontro com Prestes, numa viagem para Belo Horizonte, aproximou muito a sua adesão, formalizada com a assinatura da ficha de inscrição em 18 de agosto de 1945. Uma de suas primeiras atividades como militante foi visitar a redação da Tribuna Popular, periódico comunista que o saudou, em matéria publicada no dia seguinte, como o “maior romancista brasileiro”. Também acompanhou o desfile das células do PCB e dos comitês democráticos na recepção aos pracinhas da FEB. Integrou comissões que se reuniam na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para intensificar a batalha pela Constituinte e participou de festas que visavam arrecadar fundos para os comitês e organismos do PCB.

O partido exibia sua adesão como um troféu, pois tratava-se de um escritor consagrado que reforçaria o prestígio dos comunistas no meio intelectual. O entusiasmo com as filiações de personalidades levou o Comitê Central a organizar, no auditório do Instituto Nacional de Música, uma solenidade para entregar as credenciais dos novos membros. Entre os agraciados com as carteirinhas estava Graciliano Ramos (MORAES, 1993, p.210-13). Deve-se observar que isso era possível por que o partido estava legalizado nesse período, um fato muito raro em toda a história do PCB.

Graciliano RamosMesmo requisitado para diversas tarefas partidárias, Graciliano Ramos ficou, de agosto até dezembro de 1945, sem base no partido. Assim, teve que freqüentar o comitê distrital da Tijuca nesse período de espera por orientação. Com o fim das eleições o partido agrupou intelectuais como Graciliano Ramos, Alina Paim e Ignácio Rangel na célula Theodore Dreisser, homenagem a um escritor norte-americano. Subordinada ao Comitê Central, a célula foi instalada numa das salas da editora comunista Horizonte, no centro do Rio de Janeiro. Nos encontros, os participantes organizavam a divulgação das teses partidárias por meio da produção de artigos, elaboração de conferências, em conversas ou reuniões (Ibid., p.207-218).

A filiação formal de Graciliano Ramos ao comunismo não abriu uma ampla possibilidade de produção de idéias sobre a transformação social do Brasil. Sua militância partidária foi marcada por um complexo paradoxo. O intelectual mantinha uma relação de conflito com a direção partidária, mas, mesmo assim, emprestava todo o prestígio de seu capital cultural ao partido.

Assim, o autor de Vidas Secas é relembrado nas memórias de sua filha como um militante discreto que afirmava suas convicções na livraria, na rua, com certa impertinência e sem muito senso de oportunidade. De acordo com as lembranças de sua filha, Graciliano Ramos limitava-se a freqüentar a célula Theodore Dreiser, que congregava escritores comunistas e a pronunciar discursos em comícios. O escritor chegou aceitar a candidatura ao cargo de Deputado Federal pelo Estado de Alagoas. Como candidato, porém, demonstrou não desejar a própria eleição, pois em vez de partir para a campanha eleitoral, deu-se por satisfeito em encaminhar um manifesto aos seus amigos, o que não foi suficiente para elege-lo (RAMOS, 1979, p.167-69).

Graciliano Ramos também compareceu aos comícios em favor da candidatura de Astrogildo Pereira para o cargo de vereador no Rio de Janeiro, nas eleições de 1947 (Moraes, 1993, p.235). Na visão dos dirigentes, sua presença nos comícios carrearia votos do eleitorado mais politizado. O militante compareceu a vários comícios, mesmo com muita dificuldade para falar em público.

Dentre as suas propostas, figurava o plano de utilizar a organização partidária, sobretudo a célula Theodore Dreiser, para descobrir talentosos escritores no interior do país, pois considerava que a literatura não deveria permanecer circunscrita a uma classe social. Propunha que o partido, por meio do sistema de células partidárias ramificadas por todos os estados, recolhesse páginas escritas por estudantes, operários, comerciantes, marinheiros, enfim por aqueles que tivessem talento. O material coletado deveria ser encaminhado para célula Theodore Dreisser que, ao localizar um possível talento, se encarregaria de prepara-lo com cursos para lança-lo à carreira literária (RAMOS, 1979, p.169-70). Aprovada sua idéia, o periódico Tribuna Popular publicou uma nota estimulando o envio dos textos e afirmando que aqueles que tivessem valor literário seriam publicados pelas editoras do PC. Entretanto, Diógenes Arruda, ao tomar conhecimento da iniciativa, concluiu que a célula havia decidido à revelia da direção partidária. O ato de quebra da hierarquia foi coibido com a dissolução da célula, o que levou Graciliano Ramos a retornar ao comitê distrital da Tijuca (MORAES, p.1993, p.218).

Esse acontecimento demonstra que a vinculação ao PCB não era meramente simbólica. A adesão ao partido implicava em aceitar ou conviver com a ideologia e as normas partidárias, que incluíam a disciplina e o cumprimento das mais variadas tarefas partidárias, habitus que deveriam ser incorporados pelos intelectuais que aderiam ao partido.

Por habitus pode-se entender disposições no sentido de esquemas de percepção, apreciação e ação adquiridos socialmente ou incorporados pelos agentes devido sua posição no espaço social por um prolongado tempo (BOURDIEU, 2000,p.61). Eles são diferenciados, mas também operam distinção, pois colocam em prática princípios de diferenciação diferentes ou utilizam diferencialmente os princípios de diferenciação comuns. São princípios geradores de práticas distintas e distintivas, esquemas classificatórios, princípios de classificação, princípios de visão e de divisão social do mundo. As diferenças nas práticas, nos bens possuídos e nas opiniões expressas, ao serem percebidos por meio dessas categorias sociais de percepção, desses princípios de visão e de divisão do mundo, tornam-se diferenças simbólicas (BOURDIEU, 1996, p.22).

Pode-se salientar que Graciliano Ramos não era o único que precisa incorporar uma série de disposições para permanecer no PCB. Para compreender as disposições que os militantes comunistas precisavam incorporar é possível recorrer a Osvaldo Peralva. No seu Pequena História do Mundo Comunista, o militante Osvaldo Peralva (p.170) ressalta que o partido traçava uma orientação que, certa ou errada, era qualificada, para todos os efeitos, de “justa”. Peralva informa também que o militante que se desviasse dessa orientação, tanto para esquerda quanto para direita, logo recebia os mais diversos rótulos dos dirigentes partidários, uma espécie de “etiqueta na testa”, em que constava afirmações como “está querendo passar contrabando ideológico, acha-se sob a influência da burguesia, é um aventureiro, um sectário!” .

Leôncio Basbaum é um outro militante que colabora com essa visão. Para Basbaum (1962, p.149) o partido tinha sido transformado em uma organização com “autômatos inconscientes que apenas sabiam cumprir ordens, porque alguém pensava por eles”

Dessa forma, aqueles intelectuais que manifestavam certa autonomia com relação às posições partidárias não mantinham uma relação harmônica com os membros da direção do PCB ou, até mesmo, com boa parte dos militantes comunistas brasileiros. Esse parece ser o caso de Graciliano Ramos e de outros intelectuais que limitaram no PCB. Assim, parece necessário pensar sobre a relação dos intelectuais comunistas brasileiros com o PCB[1].

Por enquanto, pode-se ressaltar que Graciliano Ramos demonstrou uma certa autonomia com relação às diretrizes partidárias por diversas vezes. A própria Clara Ramos relembra que seu pai sempre questionou a orientação que determinava igualdade de tarefas para operários e intelectuais, alegou incompetência para pichar paredes e fazer flores de papel para venda em quermesses (RAMOS, 1979, p. 170). O escritor também criticou o realismo socialista e alguns aspectos da vida soviética após ter realizado uma viagem à União Soviética[2]. As criticas ao país dos soviéticos não foram aceitas pela direção partidária que trabalhou intensamente para que dois dos seus romances não fossem publicados, Memórias do Cárcere (1953) e Viagem (1954).

Durante muito tempo o escritor foi combatido pela direção partidária em função desses diversos rompantes de autonomia frente às diretrizes partidárias. Mesmo assim, o partido procurava emprestar toda o capital cultural que o escritor possuía no meio intelectual. Seu prestígio era fundamental para o partido. Por isso, Graciliano Ramos não pode ser considerado um rebelde no partido, mas apenas um militante que se opunha às diretrizes tomadas pela direção partidária a revelia dos militantes. Enfim, parece que o partido perdeu a chance de aproveitar um pouco da visão de mundo daquele que como poucos sabia enxergar a realidade brasileira, tal como bem demonstrou na sua contundente e realista criação literária.

 

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.

______. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

BASBAUM, Leôncio. História Sincera da Republica: de 1930 a 1960. São Paulo: Edições LB, 1962.

MORAES, Dênis de. O Velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

PERALVA, Osvaldo. Pequena História do Mundo Comunista. s/d.

RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. 31. ed. São Paulo: Martins Editora, 1986. 2. vols.

RAMOS, Clara. Mestre Graciliano: confirmação humana de uma obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

SOTANA, E.C. Relatos de viagens à URSS em tempos de Guerra Fria: uma prática de militantes comunistas brasileiros. Assis, 2003, 253p. Dissertação (Mestrado em História) Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista, 2003.

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[1] Essa problemática está sendo estudada pelo autor do presente artigo.

[2] Sobre a viagem que Graciliano Ramos realizou à União Soviética e sobre as impressões que registrou sobre o país dos soviéticos consultar a Dissertação de mestrado que procurou analisar as viagens dos comunistas brasileiros à União Soviética : SOTANA, E.C. Relatos de viagens à URSS em tempos de Guerra Fria: uma prática de militantes comunistas brasileiros. Assis, 2003, 253p. Dissertação (Mestrado em História) Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista, 2003.

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