por ANTÔNIO MENDES DA SILVA FILHO

Doutor em Ciência da Computação

 

 

Inovação orientada para o Desenvolvimento Humano: 

o ‘negócio’ das empresas no Brasil

 

“... o centro de gravidade da força de trabalho está mudando do trabalho especializado para o trabalho do conhecimento. E o trabalho do conhecimento exige flexibilidade e a capacidade de continuar aprendendo.”

“A melhor forma de prever o futuro é criá-lo.”

“Information is data endowed with relevance and purpose. Converting data into information thus require knowledge.” 

Peter Drucker

 

Qual deveria ser a prioridade No. 1 das empresas brasileiras? Ou, qual o negócio das empresas no Brasil?

Quando falo empresas, isto engloba empresas públicas, privadas e do terceiro setor. Essa é uma pergunta que tenho feito há um longo tempo e continuo a questionar à medida que novas evidências surgem. Questões paralelas que podem ajudar a responder tal pergunta são: Quem é o cliente de sua empresa? Por quais produtos sua empresa é paga? O que é valor para o cliente? Para responder essas questões, é preciso olhar ao redor e ‘ver’ em que contexto a empresa encontra-se inserida. O negócio da empresas brasileiras é inovação orientada ao desenvolvimento humano.

Panorâmica – O Século da Educação

O século 21 é centrado na educação e esta determinará o destino de nossa sociedade. O poder não será mais unicamente determinado pelos governos e instituições multinacionais. A dependência futura não recai mais sobre os recursos físicos. O futuro e respectivo domínio dependerão, primariamente, do conhecimento e a inovação será o principal propulsor de crescimento econômico.

Importante observar que a mudança e evolução contínua estarão presentes no cerne da sociedade e, assim, tanto a educação quanto a capacitação serão exigidos durante toda a vida do indivíduo. Isso põe por terra o antigo paradigma baseado apenas na educação até idade adulta. O novo paradigma exigirá educação e capacitação ao longo de toda existência das pessoas. Vale ressaltar que os governos permanecerão envolvidos em prover educação, e há até um interesse crescente na educação continuada por causa do valor econômico agregado. Entretanto, embora haja interesse e demanda por qualificação profissional de modo continuado, o Brasil continua ‘patinando’ e longe conseguir acompanhar o ‘bonde’. Isto significa perda de competitividade. Segundo estudo de mercado do Prof. José Pastore, o país:

possui 12% de analfabetos absolutos;

tem 60% de analfabetos funcionais (que têm dificuldades para entender o que lêem e fazer cálculos);

conta 9% de estudantes cursando ensino superior;

investe 5.5% de seu PIB em educação;

requer, de maneira estimada, 12 anos para alcançar um cenário adequado de capacitação.

Adicionalmente, segundo estudo da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), depois do futebol, da música e da arte, é a pós-graduação brasileira a área mais reconhecida internacionalmente, graças à experiência de 40 anos do setor, que cresce a uma taxa de 14% ao ano. Atualmente, existem 130 mil pós-graduandos no país, compostos de 2/3 mestrandos e 1/3 doutorandos. Entretanto, desse total, apenas 1/3 recebe bolsa, sendo o governo federal, por meio da Capes e do CNPq, é responsável por 85% das bolsas. O investimento oriundo da iniciativa privada é muito pouco nessa área. Um outro dado importante é que nas universidades brasileiras, que possuem 32 mil docentes orientando 130 mil pós-graduandos, há apenas 20% do quadro docente com doutorado.

Embora, ainda haja quase mais 20 mil docentes atuando no ensino superior, estes se encontram fora de programas de pós-graduação. Embora a CAPES tenha iniciado a formação de doutores há quase 40 anos, segundo Sergio Rezende, o Brasil deve formar cerca de 10 mil doutores no ano de 2006. Todavia, somado os esforços a nível de graduação e pós-graduação para qualificação de profissionais nas áreas de tecnologia e, especificamente, TI (Tecnologia da Informação), tudo esse esforço é muito pouco. A Índia, um de nossos principais concorrentes na área de TI, formará esse ano aproximadamente 250 mil engenheiros. Isto constitui um tremendo diferencial. O país tem hoje um déficit estimado de 17 mil profissionais na área de TI. Observa-se aqui uma sinergia entre problema e solução. O problema: o Brasil precisa investir e demanda por profissionais qualificados. Uma solução: as empresas que dispõem de know-how para atender essa lacuna e, mais importante, desenvolvimento humano precisam investir nesse ‘negócio’.

Qualificação Profissional – Diferencial para Competitividade

Hoje temos um crescimento vertiginoso da demanda por pessoas qualificadas e isto exige um crescimento similar de indivíduos em unidades educacionais que podem ser as universidades tradicionais de tijolo e cimento, bem como universidades virtuais (‘sem paredes’) e unidades de ensino a distância a fim de atender tal demanda. Isto requer soluções criativas. Minha previsão é que no futuro não muito distante (i.e. num horizonte de 10 a 20 anos), as universidades não terão mais paredes.

É importante observar que uma única instituição ou universidade não poderá prover todos os cursos demandados pela sociedade. A quantidade e tipos de cursos ofertados e demandados também determinarão mudanças na educação, tornando-a distribuída. Isso terá como conseqüência a formação de ‘consórcios’ gerando a necessidade adicional de mudanças na forma de gestão da educação. A educação tende a cruzar fronteiras não apenas físicas, mas também culturais, fazendo o educador ter um papel mais de ‘facilitador’. O educador concentrar-se-á mais no processo de aprendizagem, uma vez que nesse processo as pessoas terão ações mais independentes e autônomas. Note que tais mudanças são vislumbradas para o ensino superior com foco na capacitação profissional e educação continuada. Haverá modificações nos ensinos primário e secundário. Todavia, essas serão de menor porte e, especificamente, devido a introdução de novas tecnologias e recursos multimídia no ensino.

Adicionalmente, observa-se uma quantidade crescente de instituições buscando novas formas de capacitar e/ou fomentar a capacitação de seus profissionais e da sociedade como um todo. Nunca em todo o período da história houve demanda tão elevada por profissionais qualificados. E, note que isso é apenas uma das perspectivas consideradas. Uma outra questão que deve ser feita é: por que as organizações têm interesse em clientes ou usuários com maior grau de educação?

A resposta é $$$, isto é, novos produtos e novos mercados.

Foco na inovação e educação aliado ao desenvolvimento humano é uma tendência na sociedade. Se considerarmos especificamente a educação a nível superior, esta se encontra mais concentrada na capacitação orientada a vocação. Isto leva em conta ainda tanto estilo de aprendizagem bem como os métodos de ensino empregados. E, os métodos de ensino dependem diretamente das tecnologias disponíveis.

Demanda pela Formação de Capital Humano

Quase metade dos indicadores de desenvolvimento de um país, utilizado pelo Banco Mundial, está relacionado à educação ou formação de capital humano (que é parte do desenvolvimento humano). Dentre eles, tem-se o percentual de homens e mulheres alfabetizados, percentual de pessoal no ensino de 1º. Grau, percentual de pessoas no ensino de 2º. Grau, percentual de pessoas no 3º. Grau, percentual do PIB investido na educação, percentual de pessoas (cientistas/engenheiros) envolvidas em atividades de P&D, etc, etc. Aliado a esse fato, tem-se que os principais propulsores do crescimento econômico englobam:

Nível educacional com crescimento rápido

Taxas de inovação tecnológica aceleradas

Meios de comunicação mais rápidos e baratos, permitindo a quebra de barreiras físicas e sociais, tanto a nível nacional quanto internacional.

Informação, atualmente disponível, em quantidade e qualidade maior do que jamais vista antes.

Abertura de novos mercados com a globalização.

Também, vale ressaltar a mudança dos determinantes do desenvolvimento que tem sido testemunhado pela sociedade e ilustrado na Figura 1.

Figura 1 – Mudança dos determinantes do desenvolvimento

Adicionalmente, é importante destacar que:

conforme estimativas recentes, cerca de 50 a 60% de toda produção industrial é baseada na informação;

atualmente, indústrias modernas dependem bastante da gestão da informação relacionada a qualidade, custo e tempo, a fim de assegurar sucesso, similarmente a necessidade que tinham para fazer a gestão de materiais e de produção;

o setor de serviços, o qual tem mostrado grande potencial para criar novas oportunidades de empregos e crescimento econômico na economia mundial, é essencialmente baseada no conhecimento;

o crescimento vertiginoso do potencial de empregos no século atual tem sido, principalmente, guiado pela rápida expansão de setores e serviços que fazem uso intensivo da tecnologia.

Perceba que dispomos de vários recursos de conhecimento (i.e., tecnologia, informação, educação e competências) em abundância os quais podem ser utilizados para alcançar resultados melhores. Dentro desse contexto, a disseminação da informação útil é de suma importância. A educação é o processo pelo qual a sociedade passa o conhecimento e experiências acumuladas das gerações passadas às novas gerações de maneira sistemática e mais abreviada, de modo que a próxima geração possa iniciar do ponto onde as gerações anteriores pararam.

Hoje em dia, a educação nos permite ter acesso ao conhecimento das gerações anteriores, bem como as experiências e conhecimento de todas as pessoas no mundo. O desenvolvimento tecnológico e mídias atuais levam às instituições e residências conteúdos de diversas naturezas, incluindo texto, som e vídeo, e juntamente com o advento da Internet que possibilita acesso a uma variedade de fontes em escala global. Nesse sentido, dispomos de uma quantidade excepcional e rica de conteúdo aliada a capacidade de entrega. Se ousarmos nos libertar dos currículos obsoletos e mecanismos inadequados de entrega e disponibilidade de informação, podemos aproveitar a oportunidade para superar o ‘gap’ educacional que nos separa das nações mais prósperas. Para complementar, torna-se necessário ter em mente que o desenvolvimento humano compreende: as pessoas, treinamento vocacional, a garantia de recursos naturais e de alimentação, existência de postos de trabalho, assistência médica, educação. Aqui, cabe salientar que o conhecimento e habilidades da força de trabalho de um país é o principal determinante na taxa de crescimento econômico, bem como nos tipos e quantidade de postos de trabalho criados. Quanto maior é o nível de qualificação profissional, maior é a produtividade, melhor é a qualidade, e menor é o custo dos produtos e serviços gerados. Atualmente, as nações mais industrializadas têm de 60 a 80% de sua força de trabalho com qualificação profissional elevada, enquanto que o México detém aproximadamente 25%, e a Índia cerca de 5%.  Estima-se que no Brasil, esse percentual é de pouco mais de 1%.

O Negócio das Empresas no Brasil

O negócio das empresas brasileiras é inovação orientada para o desenvolvimento humano. Diversas empresas têm ao longo de suas existências sido compostas por um quadro de competências em diversas áreas. Parte dessa expertise veio tem vindo dos próprios funcionários como resultado de sua formação educacional e profissional. Todavia, parte do conhecimento construído pelas empresas é fruto da experiência na execução de vários atividades intrínsecas a seu ramo de atuação. Quando uma empresa desenvolve um novo produto e o entrega como uma solução (inovadora) a um cliente, não apenas gera a solução que agrega algum valor ao cliente, mas também tem agregado mais experiência e perícia no seu quadro de funcionários.  Além disso, toda solução (inovadora) traz sempre com ela (algo para o cliente) que impacta no desenvolvimento humano em termos de produtividade, satisfação, simplicidade, redução de tempo, facilidade de uso e outros aspectos que significam agregar, adicionar e apoiar o desenvolvimento humano.

Agora, vem a questão: se o negócio das empresas brasileiras é desenvolver novos produtos (de diversas naturezas), como isto poderia ser articulado interna e externamente? Minha visão é enxergar uma empresa como uma ‘vila’ (composta de células) que visa promover o desenvolvimento humano.  Por exemplo, significativa parte das empresas brasileiras realizam atividades que envolve:

Fornecer soluções em TIC's (Tecnologia da Informação e Comunicação);

Atuar em diversos segmentos do mercado (i.e., renova modelo de negócios); e

Realizar capacitação, treinamentos, cursos, seminários, etc.

O que há de comum nessas atividades? A resposta é, novamente, o desenvolvimento Humano. Nosso negócio principal deveria ser o desenvolvimento Humano. Ou melhor, inovação orientada para o desenvolvimento Humano. Assim, toda experiência de inovação poderia ser não apenas executada na célula de inovação, mas também disseminado na célula de capacitação. A Figura 2 ilustra como a disseminação na célula de capacitação pode ocorrer.

Figura 2 – Disseminação na célula de capacitação

Minha visão e uma proposta é ‘enxergar’ uma empresas brasileira como uma ‘vila’ como retratado na Figura 3. Esta vila é composta de um conjunto de células, algumas delas já existentes. Entretanto, torna-se necessário sistematizá-las de modo a poder ter essas células não apenas no solo regional, mas principalmente considerar a óptica do negócio de inovação orientada para o desenvolvimento humano.

Figura 3 – Exemplo de uma ‘Vila’ para empresa brasileira

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