por MARIA CÉLIA BARBOSA REIS DA SILVA

Mestre em Vernáculas pela UFRJ, Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC/RJ. Professora de Português, de Literatura e de Metodologia Científica da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica e da Universidade da Força Aérea. Pesquisadora visitante do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.

 

Branca a caminho da fogueira: 

uma história que se repete

Se o conhecimento da História pode servir para uma melhor compreensão dos fenômenos da violência e desumanidade, queremos vê-lo se desencadear todos os dias; então a verdade não pode e nem deve ser escondida.

Anita Novinsky

 

Dias Gomes na década de 90. (Arquivo Jovem Pan)Introdução

A proposta deste artigo é tecer alguns comentários sobre a peça O santo inquérito, de Dias Gomes, encenada pela primeira vez a 25 de setembro de 1966, no Teatro Jovem do Rio de Janeiro. Peça que endossa, de forma adulta, as obras de juventude e mostra a coerência temática do autor.

O drama que propicia a peça em questão — as duras rédeas dos tribunais do Santo Ofício — é baseado num fato histórico ocorrido em 1750, tempo distante, longe das perseguições de censura, no Brasil do século passado. Assim, Dias Gomes, de forma metafórica, entre frestas, afasta-se aparentemente da nossa realidade para aprofundá-la, com máscaras pretéritas que, por conseguinte, permitem a inalterabilidade de ânimo daqueles que não estão dentro dos corredores medievais no qual o Brasil esteve soterrado  nas décadas de 60 e 70 do século passado. Logo, é o artístico que propicia o político-ideológico. É a arte que protesta contra a ditadura militar instaurada em abril de 64.  É o teatro que torna presente, em cena, o passado recente. É meio de conscientização que talvez não operacionalize as transformações radicais, mas ajude a questionar e a pensar o Brasil de hoje.

Tenciona-se correlacionar todas essas considerações e mostrar a pertinência do teatro de Dias Gomes com as tragédias gregas que, de forma deliberada ou não, saltam dos palcos atenienses para os palcos brasileiros, com maestria de quem sabe fundir os tempos sem perder a sintonia com o mundo circundante.

A INQUISIÇÃO: FORÇA INIBIDORA DA LIBERDADE

Graças a uma nova mentalidade — já não tão nova — proveniente do grupo dos Annales, França, a história tradicional, política e dos eventos perde a supremacia em prol de uma história de todas as atividades humanas. Vozes abafadas, lugares periféricos, comunidades rejeitadas, seres marginalizados são eleitos como temas de pesquisa, a fim de mostrar à humanidade o outro lado da história que foi/é soterrado pelos vencedores de ontem e de sempre.

Esta viagem permite remexer velhos papéis amarelados, “esquecidos” no baú, lá no sótão da memória. Pedaços de um quebra-cabeça que montam um painel em que a história se reduplica apenas com máscaras diferentes, mostrando, por exemplo, o quanto a Inquisição revive em cada ritual de tortura praticado pelos regimes totalitários em diversos países do mundo.

Os tormentos variam. Em Lisboa se retalhavam as plantas dos pés dos réus, untavam-se de manteiga e em seguida os submetiam ao calor de um braseiro. O regimento de 1640 estabeleceu dois tipos de tortura: o potro, uma espécie de cama de ripas onde o réu era amarrado pelos pulsos e pelas pernas e, ao apertar-se um arrocho, cortavam-se-lhe as carnes; e a polé, quando o réu era suspenso no teto pelos pés, deixando-o cair em seguida sem tocar o chão. (NOVINSKY, 1982, p. 60)

Sob o lema “Segurança e Desenvolvimento”, Médice dá início, em 30 de outubro de 1969, ao governo que representará o período mais absoluto de repressão, violência e supressão das liberdades civis de nossa história republicana. Desenvolve-se um aparato de “órgãos de segurança”, com características de poder autônomo, que levará aos cárceres políticos, milhares de cidadãos, transformando a tortura e o assassinato numa rotina.

Visitador: Augusto Coutinho, sabe que está ameaçado de excomunhão?

Augusto: Sei.

Visitador: Como Cristão, isso não o apavora?

Augusto: Apavora mais não ter a fibra dos primeiros cristãos.

Visitador: Para que desejava ter a fibra dos primeiros cristãos?

Augusto: Para resistir às torturas.

Visitador: Ordenei a tortura pela sua obstinação em esconder a verdade.[1]

(O santo inquérito, p. 91-92).

 

Com o gênero dramático, posto em cena no teatro, Dias Gomes imbrica o passado no presente, faz acontecer diante do público/leitor as cenas de outrora, denunciando o presente sob roupagem ficcional e métrica. Assim, num jogo de espelhos “o que foi” passa a ser “o que é”, e o criador (Dias Gomes) faz da criatura (Branca) uma personagem atemporal que ressuscita sempre para clamar pela justiça e pela liberdade.

A arte é sempre política e num período de gritos sufocados, nada melhor do que proporcionar ao público um momento de identidade com o outro e com o seu tempo. Naqueles idos de 60 e 70, contemplar com idolatria a coragem de Branca e Augusto, repudiar a delação de Simão e odiar o Tribunal do Santo Ofício, era um meio de pôr o público em sintonia com o  momento histórico, patrocinar a catarse, fazê-lo desabafar sua insatisfação.

A UTILIZAÇÃO DO DISCURSO NA CONSTRUÇÃO DA TRAGÉDIA DE BRANCA DIAS

O universo trágico é concebido na tensão gerada entre o mítico e o real, que, pela própria natureza da peça em questão, se vale da palavra poética como elo capaz de  unir tempos e espaços diferentes.

A diáfana e apaixonada figura, que visita em noites de plenilúnio, o noivo nos subterrâneos do Convento de São Francisco, alimenta a mitologia popular da Paraíba, ganha existência histórica pelas pesquisas realizadas na Torre de Tombo, em Portugal, pelo próprio autor que encontrou referências à Branca nos autos do Santo Ofício.[2]

O mítico e o real entrecruzam-se nas mãos de um tecelão que, com dedos hábeis, costura um discurso ziguezagueado de presente e de passado, em que o presente, momento do interrogatório de Branca, vai sendo esclarecido por flashes do passado que, ao mesmo tempo, lançam fagulhas para o futuro — tempo em que Branca volta à cena com nova roupagem, porém com a mesma trajetória rumo à fogueira.

A peça inicia-se com a personagem desarticulada, pois foi arrebatada do seu espaço puro junto à natureza (reino de Dioniso) e lançada para o espaço trágico da polis (reino de Apolo) onde se desenvolve o processo. Está-se em pleno julgamento. Branca, massacrada por perguntas construídas em cima do seu próprio discurso, é questionada pelo coro (todos) que ratifica a ideologia do Notório e do Visitador.

Visitador: Quanto tempo leva enfeitando-se?

Notório: Quanto tempo?

Todos: Quanto tempo? Quanto tempo?

(O santo inquérito, p. 29-30).

 

Branca não entende o motivo pelo qual a torturam, dirige-se ao público e, numa espécie de prólogo, explica quem é: “Eu sou uma boa moça, cristã, temente a Deus”. (O santo inquérito, p.30) e como é o Deus que ela sente em tudo que lhe dá prazer. Um Deus bem mais dionisíaco, transgressor próximo dos humanos do que a imagem de Deus esculpida pela Igreja — ser superior, detentor de certezas, onipresente e onisciente que necessita de nossos “pecados” para exercitar, por meio do perdão, sua bondade.

O mais importante é que eu sinto a presença de Deus em todas as coisas que me dão prazer. No vento que me fustiga os cabelos, quando ando a cavalo. Na água do rio, que me acaricia o corpo, quando vou me banhar. No corpo de Augusto, quando roça no meu, como sem querer. Ou num bom prato de carne-seca, bem apimentada, com muita farofa, desses que fazem a gente chorar de gosto. (O santo inquérito, p.30)

Na construção da personagem Branca, cujo nome histórico preenche o mítico, Dias Gomes entrevê a possibilidade de adequar seus propósitos artístico-ideológicos nesse arquétipo natural, puro, sem mácula, sem conceito prévio do certo e do errado imposto pela sociedade. Um ser que reúne em si condições de existência; que tem coerência, lógica interna e veracidade. Alguém que caminhe do real para o mítico, toque e convença o público, faça-o refletir sobre as “verdades” de outrora-agora do mundo circundante.

Desta forma, Branca tem de ser uma jovem pura, rústica, livre, feliz, diferente das outras de sua época, alguém cujo ethos (caráter e vontade individual) pode ser abalada pelo epos (valores sociais), mas jamais vencida, já que se situa no limiar do clássico e do moderno. Sujeita a colisões interiores e indecisões surgidas a partir do confronto com Padre Bernardo, Branca filtra suas posições espontâneas no discurso consciente e ideológico de Augusto e ressurge cheia de forças para encarar as adversidades da própria destruição.

Branca: Não me pergunte, eu não saberia responder. Só sei que o mundo, que me parecia tão simples, começa a ficar muito complicado para mim. Eu mesma já não me entendo... nos seus braços eu me sinto segura. (O santo inquérito, p.56).

Após a morte de Augusto:

Visitador: Branca, você não se disse disposta a abjurar?

Branca: Disse, num momento de fraqueza. Mas não posso reconhecer uma culpa que sinceramente não julgo ter. Se sou inocente, se nada podem provar contra mim, o que devo suplicar a este tribunal é que reconheçam a minha inocência. (O santo inquérito, p.119).

É o aparecimento de Padre Bernardo que gera a ação, pois esta deflui do conflito e este é instaurado pelas posições antagônicas de Padre Bernardo e o par Branca-Augusto. Essas posições são expostas ao longo da peça, defendidas pelas palavras, sentimentos e ações das personagens que, assumindo posições definitivas, acabam por produzir a ação dramática.

O acontecimento, que desincompatibiliza Padre Bernardo com o espaço religioso, é o encontro com Branca quando ela o salva do afogamento. Este acontecimento faz nascer no jovem padre um fulgor até então adormecido: é a paixão “demoníaca” que surge desconectada com o seu real imediato, ou seja, com a sua condição eclesiástica.

Tal acontecimento aproxima Branca e o padre e, deste relacionamento, Bernardo suga as confidências mais recônditas da jovem. Toma conhecimento do seu amor pelo noivo, Augusto Coutinho, o que acirra no padre ciúmes em relação à moça e um desejo louco de vê-la distante de todas as possíveis “tentações”, principalmente as advindas do noivo. Em nome da fé e pela fé que tanto prega, usa a palavra de Deus como método de convencimento duplo: a salvação de Branca e a salvação de si próprio.

Padre; Não sei, Branca, não sei... Às vezes temo que você não esteja apenas confusa, não esteja apenas inconsciente aos perigos que corre. Que não seja por pura inocência que se deixa tentar...

Branca: Como? Não entendo!

Padre: Temo, sinceramente, que o Diabo tenha já avançado demais...

Branca: Padre!

Padre: Temo por você, como temo por mim, Branca.

Acredite.

Ela sente que ele arrancou essas palavras da própria carne, rompendo barreiras que até então haviam resistido. (O santo inquérito, p.61-62).

 

Aí está a confissão do amor proibido. Na verdade, ao apropriar-se do discurso de Branca, invertendo-o a seu bel-prazer, padre Bernardo não deseja punir apenas Branca, mas também se autoflagelar pela paixão que irrompe dentro dele, avassala-o e distancia-o da Igreja.

Branca: Nunca mais fui procurá-lo porque, como já lhe disse, tenho andado muito atarefada. Com o meu casamento.

Padre: Não é em setembro?

Branca: Não, resolvemos apressá-lo.

Padre: Não sabia de nada.

Branca: É verdade, devíamos ter falado com o senhor, que é quem vai oficiar a cerimônia.

Padre: (Há uma pausa um tanto longa, que traduz a atual dificuldade de comunicação entre eles) Há alguma razão especial que justifique a pressa?

Branca: O senhor disse: ninguém pode aceitar o Demônio como companheiro de mesa. Casada, terei o meu marido à cabeceira, e o Demônio não ousará sentar-se ao nosso lado.

Padre: Seu marido talvez o convide...

Branca: Não creio. Conheço Augusto e confio nele como confio em Deus.

O padre se choca com a frase. Ela percebe.

Branca: Disse alguma coisa errada?

 

Padre: Lamentavelmente...

Branca: Perdoe-me...

Padre: Não é a mim que você deve pedir perdão, é a Ele, de quem você se afasta cada vez mais.  (O santo inquérito, p.58-59).

 

Padre Bernardo desconstrói um dito popular, prosaico, comum em diálogos doméstico “confio nele como confio em Deus” com o intuito de colocar Augusto como “obstáculo” para Branca atingir a Deus e, por tabela, a ele próprio, representante de Deus na Terra.

A palavra, no teatro, é o meio pelo qual se pode pensar o teatro dentro dos quadrantes da Teoria Literária. Tal razão leva a “estatizar” a cena na palavra. Palavra capaz de denotar ou conotar o discurso de acordo com quem o profere e com quem o decodifica. As palavras podem ser usadas como fantoches na mão do poder. O poder de manipulação pela palavra, como se sabe, tem um trajeto longo: desde a retórica clássica até as políticas atuais, passando pela força da mídia.

As palavras dançam nas frases ou nas falas de Branca, tementes que alguém, representando o poder vigente, use-as às avessas para incriminar  emissor e endossar e o que já está estabelecido. A palavra dobra sobre si própria, num jogo ambíguo, que propicia a leitores e/ou a espectadores a visão do oprimido e do opressor.

O clero, por meio de padre Bernardo, põe em xeque a espontaneidade de Branca, de sua conduta revertendo o seu discurso ao sabor das “verdades”:

Não me esqueci de sua frase, na beira do rio, quando nos conhecemos: “É no amor que a gente se encontra com Deus”. Sim, mas não nesse tipo de amor que você tem por Augusto. Isto é que eu quero que você entenda, Branca. Seu espírito está cheio de confusões. (O santo inquérito, p. 59).

Com o desenvolver da ação, Branca perde, em parte, a pureza do seu discurso, pois se conscientiza que tudo pode ter dupla interpretação e questiona temerosa: “Se um texto da Sagrada Escritura pode ter duas interpretações opostas, então o que não estará nesse mundo sujeito a interpretações diferentes?”

A partir desta constatação, Branca começa a inibir o seu lado natural e começa a vislumbrar um mundo selvagem, para lá do Engenho Velho. Conta ao noivo que fizera respiração boca-a-boca com o padre Bernardo e redimensiona seu ato quando percebe a reação de Augusto.

Padre Bernardo também tem plena consciência de que está pervertendo o discurso de Branca em prol de sua purificação.

Branca: Que assunto padre? Eu lhe fiz algum mal?

É preciso que me diga, pois assim talvez eu compreenda alguma coisa.

Padre: Veja... (mostra os lábios descarnados)

Branca: Que foi isso? Seus lábios descarnados...

Padre: Queimei-os com água fervendo. Os lábios, a língua, o céu da boca, para destruir o sentido do gosto.

Branca: E por que fez isso?

Padre: Para eliminar o gosto impuro dos seus lábios.

Mas o gosto persiste. Persiste. (Caiu de joelhos, com o rosto entre as mãos).

(O santo inquérito, p108-109).

 

E o jogo continua... A “impureza” não estava em Branca, tampouco no sentimento de padre Bernardo. Ela está presente em todos os dogmas que consideram a expressão subjetiva do homem (ethos) um perigo ameaçador da expressão objetiva do mundo que impõe seus valores à revelia de quem os pratica.

BRANCA: UMA HEROÍNA CLÁSSICA

Branca é uma heroína aos moldes da tragédia grega clássica, comete involuntariamente a hamartía (erro), caminha para a desmedida, vai cumprindo, por meio de seu discurso, decodificado deliberadamente às avessas pelos outros, todas as etapas que a conduzem à fogueira.

O herói patético esforça-se por uma decisão, decide-se e vai, então, à ação. Decisão e ação são, porém, condenadas, ao menos, pelo fato de que a ação penitencia-se com desfecho. Até a passagem de monólogo e diálogo e vice-versa lembra um tribunal. O monólogo comunica a intenção e as razões ocultas do agir. Esclarece-nos sobre como uma ação deve ser apreciada, quais as suas circunstâncias agravantes ou atenuantes. No diálogo, discutem-se prós e contras, em interlocuções longas ou em rápidos dísticos. Um questiona, o outro discorre. Um acusa o outro defende. Assim, nem no drama nem no tribunal, representamos a vida, e sim a julgamos. (STAIGER, 1974, p. 142-143).

A tragédia de Branca aproxima-se da clássica, pois envolve o coletivo, o familiar; enquanto a tragédia ou drama moderno se centraliza no individual. Branca expia a culpa de seus antepassados — judeus, convertidos à força ao Cristianismo. Sua moira (destino cego, punição) já havia sido traçada, antes mesmo do seu nascimento, assim como Édipo que não consegue fugir dos sinais disfarçados, postos em seu caminho.

A referência à família de Branca, ao avô e aos costumes judaicos mostra que a marca original não tinha sido apagada pela vida recolhida no campo ou pelo comportamento cristão de Simão, pai de Branca. Branca é a escolhida, pois Simão era covarde (vide comportamento diante da morte de Augusto), não possuía a dignidade necessária para a expiação, caracterizando-se, portanto, como não-herói.

Todo herói trágico à grega constrói um arcabouço externo, a fim de suportar o pathos que lhe é imposto e do qual não pode e nem pretende fugir.

Segundo o olhar da Igreja, Branca comete a hybris (descomedimento) quando “beija” padre Bernardo e salva-o de afogamento. Desta forma, ela ultrapassa a condição de simples mortal (ánthropos), sai de si e, em estado de êxtase e entusiasmo, comunga com a imortalidade, pois realiza o que só os deuses podem: a salvação, torna-se um anér, um herói, pois ultrapassa o metrón, medida de todos os mortais. Logo, Branca comete uma infração e, portanto, deve ser punida.

Branca, responsável pela salvação, declara: “Se eu não chego a tempo, o senhor bebia todo o rio Paraíba...” (O santo inquérito, p.31).

Padre Bernardo tenta minimizar o feito heróico de Branca e mostra-a como simples mortal, usada por Deus.

Padre: Porque é o cristo...Não é coisa que se compre.

Tivesse eu escolhido o cofre e certamente a esta hora estaria no fundo do rio com ele.

Foi Jesus quem me salvou.

Branca: (Timidamente) Eu ajudei um pouco...

Padre: Eu sei.Você foi o instrumento. Não estou sendo ingrato. Sei que arriscou a vida para me salvar.  

(O santo inquérito, p. 32-33).

 

Branca tomada de êxtase e entusiasmo retruca:

Me cansei um pouco, mas estou contente comigo mesma. Hoje vai ser um dia muito feliz pra mim.

Padre: Deus lhe conserve essa alegria e lhe faça todos os dias praticar uma boa ação, como a de hoje.

Branca: Não é fácil. Acho que as boas ações só valem quando não são calculadas. E Deus não deve levar em conta aqueles que praticam o bem só com a intenção de agradecer-lhe. (O santo inquérito, p.33).

 

Branca não tem consciência da hamartía (erro, grave falta) cometida nem nos desdobramentos que este ato acarretará. Seu impulso é puro e espontâneo; os outros é que não o vêem como tal. Principalmente, Padre Bernardo, que, atingido por Eros, ergue o crucifixo para exorcizar seus próprios sentimentos. Distorce ações e palavras de Branca, afirma que precisa salvá-la e aproximá-la de Deus; inversamente, a cada encontro, talvez de forma involuntária, delineia um Deus impiedoso e distante que condena Branca e, por conseguinte, concede-lhe o perdão.

Branca provoca a nemesis, ciúme ou ira dos deuses, — não os olimpianos, mas aqueles que proferem a palavra de Deus a sua mercê — quando salva padre Bernardo e quando ela profere, na confissão, o nome de Augusto mais vezes do que o de Deus. Padre Bernardo, indignado, sentencia: “Durante a sua confissão, você pronunciou sete vezes o nome desse homem”. (O santo inquérito, p. 43).

A Igreja, por intermédio de padre Bernardo, lança a punição imediata: contra o anér (heroína) e lançada áte (cegueira da razão), ou seja, tudo que ela fala vai de encontro a ela mesma: as lembranças do dia da morte do avô, o cheiro de azeitona, a pataca que demonstram a fidelidade do avô de Branca à crença judaica, o banho no rio para amenizar o calor; o prazer que sentia quando o corpo de Augusto roçava no seu; os livros que lia, na “época” de Índex, quando às mulheres era negado o direito de leitura. Afinal, padre Bernardo vê a Instituição a que pertence duplamente ameaçada: pelas ações da jovem e pelos sentimentos que a presença de Branca desperta nele.

A tragédia de Dias Gomes não é moralista, como as tragédias clássicas em que o herói deve ser punido para que a ordem seja restabelecida e para que ninguém mais ouse igualar-se a um deus. Dias Gomes preenche o relato de ontem com dados do presente, mostra que o poder vence pela força, porém não extermina os ideais do vencedor:

Branca: Os senhores foram derrotados... E eu?

Padre: Você, Branca,vai amargar a sua vitória.

Branca: Eu sei. E sei também que não sou a primeira. E nem serei a última.

(O santo inquérito, p. 118).

 

A saga de Branca é a própria saga da tragédia na sua origem. A tragédia, assim como a comédia, vem dos ditirambos, cantos de louvor consagrados a Dioniso, deus da colheita, do vinho, do campo. Deus marginalizado pela pólis, pois segundo uma das versões míticas, ele era filho bastardo de Zeus e, por isso, foi perseguido por Hera (esposa oficial de Zeus) que ordena que os Titãs o devorem. Apesar das várias metamorfoses tentadas por Dioniso, os Titãs surpreenderam-no sob a forma de bode e o devoraram. Assim, por ocasião da vindima, celebrava-se a festa do vinho novo, evocando, pelo sacrifício de um bode, a ressurreição de Dioniso.[3]

Branca vivia no campo, território de Dioniso e, como ele, não consegue fugir da fúria dos Titãs, metamorfoseados em homens gigantes escondidos sob batas que a devoram nas labaredas de uma fogueira. Branca é o pharmakós — alguém que é imolado para a purificação da pólis, no caso, padre Bernardo, representante da Igreja e dos valores cultuados pelo poder.

O sacrifício de Branca não foi em vão, pois ela ressuscita em todos aqueles que não negociam a sua dignidade, que lutam sempre, por isso são imprescindíveis. Branca devolve à mulher o lugar que lhe foi roubado no paraíso. Deixando-se morrer, Branca coloca-se contra a Igreja, que, um dia, expulsou a mulher do paraíso. Indignada pelas torturas do seu Adão (Augusto) resolve cumprir com ele a sua moira, destino cego, do qual ninguém pode fugir, destino traçado para o clã judaico ao qual Branca pertencia.

Branca é uma heroína atemporal. Ela tanto pode ter surgido na época da Contra-Reforma e ter sofrido as torturas da Inquisição, como pode ser uma jovem estudante de jeans e camiseta, em pleno século XX, nas décadas de 60 e 70, lutando contra a ditadura militar e sendo torturada pelos seus agentes.

Branca locomove-se num espaço geográfico sem fronteiras que vai da Paraíba à Grécia, revelando que O processo, de Kafka — trama forjada pelo sistema e em prol do sistema — é o bem/mal da humanidade que sobrevive em todos os locais e tempos, destarte os nossos desejos.

CONCLUSÃO

Em Dias Gomes, constata-se a convivência harmônica entre tradição e modernidade, num rito intertextual que não necessita de rótulos pós-modernos para sobreviver. Recupera-se a forma clássica; despojando-a do elitismo que a distancia do público, Dias Gomes mostra que a arte está acima de qualquer trincheira, no sentido de que é a partir dela que o homem toma conhecimento de sua realidade.

A coerência temático-ideológica perpassa a obra de Dias Gomes, com pequenas nuanças que o tempo injeta no homem para lhe dar o amadurecimento necessário, sem, no entanto, quebrar a unidade temática.

Num tempo em que tudo era proibido, Dias entra pela fresta com O santo inquérito debaixo do braço. Melhor dizendo, utiliza uma linguagem metafórica para comunicar o estado de coisas — reprimidas e recalcadas — que pode situar-se em qualquer tempo e lugar.

Perambula do universal para o nacional voltando ao primeiro, quando classifica a luta entre o livre-arbítrio e o poder que inverte, converte e deturpa o discurso alheio.

Branca personifica em si a ingenuidade de todos aqueles que pelas esquinas da vida são acusados sem saber o porquê, mas mesmo assim não abrem mão dos princípios nos quais acreditam. Tanto Branca como Augusto não abjuram, pois “há um mínimo de dignidade que o homem não pode negociar, nem mesmo em troca da liberdade. Nem mesmo em troca do sol”.

 

REFERÊNCIAS

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: nunca mais. Prefácio de D. Paulo Evaristo Arns. 11. ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 1985. 312p.

BENTLEY, Eric. O teatro engajado.Trad. de Yan Michaeski. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.180p.

BORNHEIM, Gerd. “Sobre o teatro popular”. ENCONTROS COM A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, nº 10, abr. 1979, p.135-163.

BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro grego: tragédia e comédia. 5. ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 1990. 144p.

_________. Teatro grego: origem e evolução. São Paulo: Ars Poética, 1952. 133p.

CHIARINI, Paolo.  Bertold Brecht. Trad. de Fátima de Souza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 254p.

COSTA, Lígia Militz e REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. Tragédia: estrutura e história. São Paulo: Ática, 1988. 80p.

DÓRIA, Gustavo Alberto Accioli. Moderno Teatro brasileiro. Crônica e suas raízes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1975. 198p.

FÉLIX, Moacyr e GULLAR, Ferreira. “Entrevista com Dias Gomes”. ENCONTROS COM A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA. Rio de janeiro, Civilização Brasileira, nº 6, dez. 1978, p.121-140.

GOMES, Dias. O santo inquérito. 6.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. 121p.

MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. São Paulo: Ática, 1986. 126p. (Série fundamentos, 6).

NOVINSKI, Anita. A inquisição. São Paulo: Brasiliense, 1982. 85p. (Coleção tudo é história, p.49).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm.  A origem da tragédia. Preparação e tradução de Joaquim José de Faria. São Paulo: Moraes, s/d. 152p.

PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia: a construção do personagem. São Paulo: Ática, 1985. 156p. (Série fundamentos, 46).

PEIXOTO, Fernando. O que é teatro. São Paulo, Nova cultural—Brasiliense, 1986, 126p. (Coleção primeiros passos, 75).

REVISTA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA. Rio de Janeiro, Civilização brasileira, Caderno especial nº2, jul.1968, ano IV, 282p. Número especial: Teatro e realidade brasileira.

STAIGER, E . Conceitos fundamentais de poética.  Trad. de Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1974, pp. 119-155.

TEMPO BRASILEIRO, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, nº 72, jan-mar, 1983, 166p. número especial: Teatro sempre.

VERNANT, Jean Pierre. Mito e sociedade na Grécia Antiga. Trad. De Myriam Campello, Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, 221p.

 

 

[1] Para realização do nosso trabalho, utilizamos a sexta edição de O santo inquérito, publicado em 1982, pela Civilização Brasileira, Rio de Janeiro. Assim todas as citações pertinentes à obra foram extraídas da referida edição.

[2] Depoimento de Dias Gomes durante aulas por ele ministradas no curso de Doutorado da PUC/RJ no 1º semestre de 1993.

[3] Para maiores esclarecimentos, confrontar “A origem do Mito”, capítulo inserido em Teatro grego: origem e evolução  de Junito Brandão.

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