Globalização,
Qualidade de Vida e Educação
Globalização
e qualidade de vida são palavras relativamente novas em nossos
dicionários, porém representam fenômenos e paradigmas que
deveriam ser entendidos e amplamente discutidos não só nos meios
acadêmicos, políticos e empresariais, mas por toda a população,
pois representam processos e construtos ideológicos que, direta ou
indiretamente, afetam dramaticamente o nosso modo de vida e as
perspectivas de bem-estar, não só de nossa, mas também das
futuras gerações.
Esses
construtos ideológicos, ao se tornarem paradigmas, ditam o nosso
modo de perceber a realidade. Santos (2003), por exemplo, verificou
que entre os acadêmicos de graduação de cursos tecnológicos –
cursos que por suas características específicas, geralmente,
apresentam uma tendência ideológica mais positivista e neoliberal
– a concepção e percepção de qualidade de vida se reduz à
conquista de bens materiais e status social sem maiores reflexões
sobre as conseqüências disso para a sociedade, ou seja, uma busca
egoísta de ascensão social e poder através de conquistas
materiais sem reflexão sobre a responsabilidade social de cada um.
Estudiosos
afirmam que a globalização é um processo irreversível que trás
sérias mudanças socioeconômicas em dimensões planetárias. Ela
é definida como a integração entre os mercados produtores e
consumidores de diversos países (CARVALHO, 1999). Todavia, essa é
uma definição simplista para um fenômeno complexo e
multidimensional que apresenta diversos paradoxos nem sempre bem
compreendidos e que dificultam a sua avaliação sobre as conseqüências
para a qualidade de vida dos indivíduos e das sociedades. Não é
difícil constatar que a integração de mercados altera o modo de
vida das pessoas, suas ambições, suas perspectivas, seus desejos
de consumo e reconhecimento. Richars (1991) afirma que através da
propaganda de massa, novos produtos invadem nossas casas
diariamente... Tudo se torna efêmero, descartável e a posse desses
produtos – sempre os mais modernos – torna-se uma forma de exibição
de status social. Dessa forma, percebe-se que a globalização é um
fenômeno maior que a simples e inocente integração de mercados.
Ela um processo que denota uma competição pela conquista de novos
mercados por meio da difusão de massa de valores como o
individualismo e o materialismo para a conquista de poder que, por
sua vez, tenta impor a todas as nações, uma cultura global de
interesse ao capitalismo e que se reflete no modo como as pessoas
percebem e entendem suas perspectivas de qualidade de vida.
Entende-se aqui, qualidade de vida como uma síntese cultural de
todos os elementos que determinada sociedade considera como seu padrão
de conforto e bem-estar, ou seja, a percepção de suas necessidades
objetivas e subjetivas (MINAYO et all, 2000).
Avaliar
a qualidade de vida é sempre uma missão penosa, pois se trata de
um constructo que apresenta diversas facetas que se integram e
interagem com as necessidades e desejos de cada indivíduo dentro de
limites impostos culturalmente e que são profundamente
influenciados pelas condições socioeconômicas de cada camada da
população (ASSUMPÇÃO et all, 2000; FLECK et all, 1999). Assim,
parâmetros subjetivos (bem-estar, felicidade, amor, prazer, inserção
social, liberdade, solidariedade, espiritualidade, realização
pessoal) e objetivos (satisfação das necessidades básicas e das
necessidades criadas pelo grau de desenvolvimento econômico e
social de determinada sociedade: alimentação, acesso à água potável,
habitação, trabalho, educação, saúde e lazer) se interagem
dentro da cultura para constituir o que consideramos qualidade de
vida.
O
grande paradoxo do fenômeno da globalização é que ele ao mesmo
tempo em que abriu as janelas para o mundo e ampliou e tornou possível
o acesso a certos produtos e serviços que elevam a qualidade de
vida das pessoas, também gerou a exclusão e a impossibilidade de
desenvolvimento e sobrevivência de uma parcela considerável da
população mundial. Isso acontece em todos os países do mundo, porém
é muito mais evidente nos países periféricos seguindo uma lógica
capitalista desumana e cruel: a transferência das riquezas construídas
pelo todo da sociedade para as mãos de uma minoria de elite, ou
seja, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais
pobres (PINHEIRO, 1987).
Ao
considerarmos os efeitos nefastos sobre a qualidade de vida, notamos
que os apelos promocionais veiculados nos meios de comunicação de
massa promovem uma doutrinação política e ideológica que visa
abrir cada vez mais as economias nacionais; reduzir o poder dos
governos democráticos; convencer as pessoas de que tudo que vem ou
é produzido por empresas dos países centrais é melhor; difundir
um estilo de vida individualista, competitivo, egoísta e
consumista; e, finalmente, criar desejos nas massas e transformá-los
em necessidades (LEBRUN, 2003; MARTINS & CARVALHO, 1999). Essa
é uma estratégia que pode ter conseqüências sociais catastróficas,
pois é a geradora do que chamo de ciclo vicioso ascendente da queda
de qualidade de vida da maioria da população. Esse ciclo é
caracterizado pelo aumento da exclusão social, da violência e do
poder paralelo e funciona assim:
1)
para elevar os lucros, as empresas utilizam a tecnologia para elevar
a produção e diminuir os custos com mão de obra (BORGES, 2005;
PEDROSO, 2004);
2)
para vender seus produtos, as empresas usam as ferramentas de
marketing e os meios de comunicação de massa para criar
necessidades e desejos na população (RICHERS, 1981; KOTABE E
HELSEN, 1999);
3)
a redução dos postos de trabalho e a menor dependência de mão de
obra humana eleva a competição pelo mercado de trabalho exigindo
cada vez mais qualificação para os postos de trabalho
remanescentes (BDI, 2004);
4)
o aumento da competição no mercado de trabalho reduz a remuneração
nos empregos e aumenta os gastos com qualificação contínua (BDI,
2004);
5)
a pressão imposta pela competição e os baixos salários elevam o
contingente de desempregados e subempregados que são bombardeados
pela propaganda comercial que cria cada vez mais desejos e
necessidades inatingíveis (PIRES, 2001; RICHERS, 1981);
6)
a falta de perspectivas eleva a taxa de consumo de drogas, de violência
social e do poder paralelo que se torna muito mais forte que as
instituições de segurança pública (FOUCAULT, 2002; IFBEM, 2002);
7)
a insegurança pública eleva o investimento das elites em segurança
particular e, devido ao aumento constante do número de
marginalizados, os trabalhadores mais humildes tornam-se as
principais vitimas de crimes contra a vida e o patrimônio(DOWBOR,
2003; BRAGA, 2002; IFBEM, 2002);
8)
o caos social gerado reduz as taxas de empregos nos setores de serviços,
principalmente no de lazer, alimentando ainda mais a crise (LEITE,
2003; DOWBOR E MARTINS, 2001);
9)
a falta de perspectivas deprime valores humanos com lealdade,
honestidade, sinceridade e honra transformando as sociedades numa
selva onde prevalece à força do mais “esperto” levando a
multiplicação de leis que oprimem cada vez mais as pessoas de bem
gerando uma universidade informal de formação de corruptos e
aproveitadores que vivem parasitando o sistema (LEITE, 2003;
FOUCAULT, 2002; SPINK E CAMAROTTI, 2000);
10)
em longo prazo, há redução do mercado consumidor e os pequenos e
médios empreendimentos sucumbem esgotando a capacidade de sustentação
do sistema e, após isso, as grandes empresas transnacionais migram
para outras regiões ou países em busca de novos mercados (CARDOSO,
2004; RATTNER, 1995).
Esse
processo todo é uma clara ameaça a liberdade e a autonomia político-democrática
de cada povo, pois concentra o poder nas mãos de grandes corporações
de alguns países centrais (HAGE, 2006; OLIVEIRA, 2005; MARTINS
& CARVALHO, 1999). Hoje existem cerca de 200 corporações
empresariais gigantescas, segundo dados da organização mundial do
comércio de 2000, que representam um poder que controla 25% do PIB
mundial. Para se ter uma idéia das dimensões desse poder econômico,
das 100 maiores “economias” do mundo, 51 são corporações
empresariais e 49 são países. O Wal-Mart, por exemplo, é a 12 ª
maior corporação do mundo, sendo seu faturamento maior do que o
PIB de 161 países, incluindo Israel, Polônia e Grécia. A receita
da Ford é maior do que o PIB da África do Sul e a da General
Motors é bem maior do que a Dinamarca. Alem disso, existe uma
grande tendência de redução desse número de corporações
gigantescas devido aos processos de fusão cada vez mais comuns.
Para
Lebrun (2003), um dos principais fundamentos da democracia é a
liberdade de manifestação do pensamento e a efetiva possibilidade
de respeito á diversidade. Esse fundamento é ferido quando o poder
se concentra nas mãos de poucos que controlam as novas tecnologias
de comunicação – condição necessária para a globalização
– para veicular um monólogo neoliberal, ou seja, implantar na
mente das populações que é inevitável o modelo de sociedade no
qual a interferência do governo na econômica é mínima ou
inexistente. O resultado do modelo neoliberal é a destituição do
poder do governo de impor regras às grandes corporações. Sem
defesa, os interesses dos cidadãos são ignorados e ocorre o
agravamento das injustiças sociais beneficiando sempre os mais
ricos á custas dos mais pobres.
Outra
forma, mais sutil, de promover os resultados almejados pelas grandes
corporações é a infiltração de representantes seus nos governos
democráticos. Isso acontece facilmente quando não existem
mecanismos de proteção contra o abuso do poder econômico nas
campanhas políticas durante as eleições. Grande parte do poder
das campanhas políticas é resultado do marketing direcionado a
“fazer a cabeça” do eleitor e isso custa muito dinheiro e
quanto mais dinheiro, mais eficiente se torna á máquina de
propaganda política. As grandes corporações patrocinam, direta ou
indiretamente, certos candidatos tornando-os populares através
dessa máquina de propaganda. Dessa
forma, o povo ao invés de eleger os representantes de seus
interesses, na verdade elege os representantes dos interesses dos
mais ricos – as grandes corporações ou latifundiários.
Uma
das conseqüências mais visíveis ultimamente dessa dominação política
e ideológica é a pressão por reformas trabalhistas que pretendem
remover todas as formas de proteção social dos trabalhadores, dos
aposentados, dos pobres, dos idosos e dos doentes em nome da ascensão
e sustentabilidade de um sistema de organização social patológico
(HAGE, 2006; OLIVEIRA, 2005). Isso é uma possibilidade muito plausível,
uma vez que nunca, em toda a história da humanidade, o poder de
influenciar as massas foi tão grande quanto é nos dias atuais.
As
elites que dominam os meios de comunicação global difundem
imagens, informações e opiniões, até mesmo nas manifestações
artísticas, que criam uma realidade virtual que retro-alimenta o
sistema de dominação de acordo com os seus interesses incutindo
nas massas que seus valores são os corretos. Estamos caminhando em
direção a uma ditadura, uma prisão, que não vemos e nem podemos
tocar e que, portanto, exigem outros meios de luta e resistência. A
conscientização por meio da educação parece ser uma forma
socialmente aceitável e adequada, pois oferece a oportunidade de opção
a cada cidadão em aceitar ou resistir aos interesses das elites.
A
desumanização dos valores sociais imposta pelo modelo neoliberal,
criou um problema estrutural no modelo de desenvolvimento econômico
e tecnológico no que se refere à diminuição dos abismos sociais.
Esse modelo, sem dúvida, pode trazer efeitos negativos para a vida
das pessoas e para a saúde do planeta, se a sociedade não adotar
mecanismos eficazes de controle (MARTINS & CARVALHO, 1999). Um
desses mecanismos pode ser a educação!
Segundo
Corbucci (2005), inegavelmente, a história tem mostrado que apenas
os países que avançaram nos campos educacional, científico e
tecnológico conseguem alcançar a consolidação de sua democracia
e soberania. Em uma sociedade como a brasileira, que foi
historicamente constituída através do cultivo de imensas
desigualdades sociais, a educação é amplamente vista como um
poder que pode conferir a redenção dessas mazelas, uma vez que a
escolarização em massa levaria formação de uma sociedade mais
justa e desenvolvida. Mesmo que não haja um consenso pleno sobre
esse poder de modificação social da educação, deve-se reconhecer
que ele tem sido subutilizado principalmente por falta de
investimentos materiais e humanos.
Percebe-se
que a educação formal está cada vez mais acessível nos dias
atuais, no entanto a qualidade dessa educação é questionável.
Entende-se por qualidade, nesse contexto, a adoção de conteúdos e
métodos pedagógicos mais interacionistas, atuais, reflexivos e
significativos para a realidade atual dos alunos e dos
acontecimentos sociais contextualizados em uma linha de tempo que
integra o passado e o presente na perspectiva de prever o futuro.
Precisamos
ensinar as pessoas à não apenas olhar os acontecimentos, mas também
enxergar claramente o que acontece. Para que isso possa acontecer é
preciso investir na qualidade do ensino formal, pois educação
formal tem grande importância em termos sociais e econômicos, por
ser fundamental na formação de pessoas para todas as demais
atividades que são responsáveis pelo desenvolvimento do conjunto
da sociedade (GADOTTI, 1991). No entanto, parece existir uma tendência
ao tecnicismo que forma pessoas com capacidades para engrenar-se no
sistema sem questionar o seu funcionamento e propósito.
Considerando
que o professor é um mediador do processo educativo, ele tem um
importante papel para a valorização e adoção de uma concepção
mais crítica e humana de qualidade de vida, não só pelo seu
discurso, mas também por seus comportamentos, pois, segundo Libâneo
(1991), a educação é um processo complexo de influências e
inter-relações que colaboram para a formação do caráter humano,
e conseqüentemente, para a concepção de valores, atitudes e
comportamentos que, se orientados para o bem maior da sociedade,
podem conduzi-la a um estágio de desenvolvimento sustentável cujas
desigualdades sociais sejam amenas (MONTIBELLER FILHO, 2004).
Nesse
contexto, o primeiro passo é dado quando os professores resolvem
assumir o seu compromisso político de lutar por uma sociedade
melhor para todos e isso se dá pela conscientização. A
conscientização só ocorre quando a pessoa se encontra em um
contexto favorável de comunicação transformadora, seja ela intrínseca
ou extrínseca, e quando ela consegue perceber o que vai aprender,
como vai aprender e o para quê disso. Nesse sentido, a educação
formal une a teoria e a prática para a condução do ato educativo
numa direção libertadora (FREIRE, 1976; GADOTTI, 1991).
A
conscientização da população por um modelo critico e contextual
de educação formal pode representar a superação da alienação
produzida culturalmente em relação aos valores relacionados à
qualidade de vida, mas enfatizo: é preciso, alem de ampliar o
acesso á educação em todos os níveis, melhorar a qualidade dessa
no sentido de evitar a perpetuação de valores que alimentam a
manutenção e o crescimento das desigualdades históricas em nossa
sociedade. Uma vez superada a alienação da população, esta poderá
lutar com mais eficácia pelos seus interesses, ou seja, os
interesses da maioria.
Um
povo educado para ter consciência crítica de seu potencial
transformador para a construção de uma sociedade que ofereça
qualidade de vida sustentável – aquela que é coletivamente viável
na interação harmoniosa de desenvolvimento humano, social, econômico,
tecnológico e ambiental – é capaz de atuar e fazer escolhas políticas
que se aproximem desse ideal.
O
mais importante papel da educação de qualidade nesse contexto é o
de formar cidadãos capazes de visualizar o bem estar coletivo como
critério indispensável para o bem estar individual, ou seja,
incutir valores e crenças que tenham maior potencial levar a
sociedade a um desenvolvimento equilibrado. E que alem disso, tenham
conhecimento, mesmo que seja básico, para identificar e analisar
suas opções, bem como predizer as conseqüências de suas escolhas
para o seu futuro e o da sociedade.
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