TERÁN,
Néstor Taboada. Tierra
Mártir – Del socialismo de David Toro al socialismo de Evo
Morales.
La Paz: Plural Editores, 2006 (106 p.)
Tierra Mártir,
um retrato histórico da Bolívia
Clayton
Mendonça Cunha Filho
Localizada
praticamente no coração geográfico da América do Sul, a República
da Bolívia sempre foi para nós, brasileiros, uma grande
desconhecida, apesar da proximidade e da extensa fronteira
compartilhada. E se a recente eleição à presidência do indígena
e líder camponês, Evo Morales Ayma, trouxe o país ao centro das
atenções, também aumentou consideravelmente a incógnita sobre o
mesmo.
Escrito
em janeiro deste ano pelo premiado escritor boliviano Néstor
Taboada Terán, ainda no calor da vitória eleitoral, Tierra Mártir
é um pequeno ensaio histórico de fácil e agradável leitura que
ajuda a jogar luzes sobre a esfinge vizinha. Centrado basicamente na
história da exploração e marginalização social dos povos originários
e nas lutas populares e contra-revoluções que se seguiram no país,
o livro aborda diversos momentos importantes da contraditória história
boliviana. Como a vitória eleitoral do escritor indígena Franz
Tamayo ao fim da Guerra do Chaco (1932-1935), anulada pelo exército
em um golpe de Estado que levaria ao poder o general David Toro, que
declararia a Bolívia Estado socialista e seria derrubado pelo
coronel Germán Busch, que implantaria um regime de inspiração
nazi-fascista. Ou a Revolução Nacional Boliviana de 1952, que
contou com efetiva e decisiva participação popular e serviria de
inspiração aos rebeldes cubanos de 1959, mas que foi rapidamente
cooptada pelos EUA através da figura do líder que a encabeçaria,
Victor Paz Estenssoro. Passa, ainda, pela guerrilha liderada por Che
Guevara no país na década de 1960 e que resultaria em sua captura
e morte, até chegar ao surgimento do líder Evo Morales e sua
recente eleição à presidência.
A
narrativa de Terán não possui nenhuma pretensão de neutralidade.
O autor deixa claro desde o início que analisa a história de seu
país a partir de seu ponto de vista particular e não se abstém de
dar sua opinião acerca dos personagens históricos analisados, o
que, em geral, não chega a prejudicar a objetividade dos fatos
analisados no livro, exceção feita apenas, provavelmente, ao
momento em que Terán começa a abordar a história de Evo Morales e
de sua ascensão à presidência. Nesse momento, o autor cai numa
mistificação excessiva da figura de Morales, num messianismo que
enxerga nele “el Salvador, el Supermán nativo” (p.78) cuja vitória
eleitoral decreta que “ahora comienza la revolución em Bolívia”
(p.90).
Mas
se essa abordagem teleológica da figura de Evo Morales por parte do
autor constitui uma grave falha na análise sociológica da situação
boliviana atual, não torna o livro menos interessante. Talvez muito
pelo contrário. O livro constitui uma excelente e acessível
introdução à história da Bolívia em sua primeira parte e um
retrato histórico fidedigno do momento boliviano atual, em que o
presidente eleito converteu-se numa espécie de superstar e
receptáculo de todas as esperanças de redenção nacional, em um
fenômeno que nós brasileiros conhecemos muito bem com a eleição
de Lula em 2002. E encarado assim, como um retrato histórico de um
momento particular e determinado, o relato de Néstor Taboada Terán
pode certamente ser bastante útil a outros pesquisadores
interessados em se aprofundarem no estudo do país.