ONETTI,
Juan Carlos. Junta-Cadáveres.
Trad. Luis
Reyes Gil. São
Paulo, Planeta do Brasil, 2005.
A
narrativa de intenso vitalismo de Junta-Cadáveres
Juan
Carlos Onetti é um importante nome da narrativa contemporânea, se
não, a mais importante rubrica que consta na literatura uruguaia de
nosso tempo. Converter em letra os sons, os sabores, os odores, as
intenções, os gestos e os movimentos que compõe a aventura vital
é, sem dúvida, o prazer que nos oferece a literatura. No caso do
escritor uruguaio (nascido em Montevidéu em 1909 e falecido em 1994
em Madrid, onde permaneceu durante os últimos 19 anos de sua vida),
a conversão da letra em “matéria” se dá numa espécie de
condensação do texto como imagem, como se tudo estivesse dito de
uma só vez. È preciso deixar-se levar, estar aberto para o acaso,
as idéias contidas nas entrelinhas recompensam a leitura na medida
em que se descobre o escrito dentro do escrito, a cena dentro da
cena, como num auto-retrato que se dá a conhecer num infindável de
variáveis de si mesmo.
Junta-Cadáveres,
romance publicado originalmente em 1964 e recentemente lançado
pela Editora Planeta do Brasil, já foi traduzido ao português também
em 1968 pela Civilização Brasileira e em 1980 pela editora
Francisco Alves, ambas versões traduzidas por Flávio Moreira da
Costa. O leitor desse romance vai se deparar com uma ficção onde,
numa atmosfera de minúcias descritivas, passeia-se numa narrativa
de intenso vitalismo, que estimula os sentidos como se tivéssemos a
graça de poder nomeá-los, rodeado de personagens que nada mais são
do que homens e mulheres, que carregam sem ilusões o fato de serem
homens e mulheres. Pode-se observar ainda que sua literatura desde
“Avenida de Mayo-Diagonal-Avenida de Mayo” seu primeiro conto
publicado em 1933 até Cuando ya no importe, seu último
romance publicado em 1993 (ambos ainda não traduzidos ao português),
se revela numa narrativa nada diáfana, pois para Onetti escrever não
é impor uma forma para representar o mundo, e sim, estar do lado do
informe. Como diria Gilles Deleuze: Escrever é um caso de devir,
sempre inacabado. O devir é encontrar a zona de vizinhança da
indiferenciação, do indiscernível tal que não seja possível
distinguir entre uma coisa e outra. A sua narrativa se configura por
uma escrita em rede que avança além das fronteiras de cada livro.
O leitor que tiver a oportunidade de comparar os dois romances
publicados recentemente, A
vida breve e Junta-Cadáveres, pode observar a reiteração
de personagens (e inclusive de trechos curtos) que se repetem com
algumas alterações.
Junta-Cadáveres
o romance que agora temos a oportunidade de ler na tradução de
Luis Reyes Gil, conta uma história que ocorre na pacata e
provinciana cidade de Santa Maria. É importante lembrar que esta
cidade surge na narrativa de Juan Carlos Onetti em A vida breve
(romance de 1950 e publicado no Brasil pela editora Planeta do
Brasil em 2004). Nessa cidade, se ambientam alguns dos romances e
contos mais importantes da narrativa onettiana. A cidade já foi
comparada à Comala de Juan Rulfo e à Macondo de Gabriel Garcia Márquez.
Nela, Larsen (importante personagem da narrativa de Onetti) se
encarrega de montar e gerenciar um prostíbulo que só foi possível
abrir, após a aprovação pela câmara de vereadores, do projeto
que aguardou 12 anos por um parecer favorável. O projeto é de
autoria do conselheiro e boticário Barthé, que obtém a aprovação
fazendo acordos e concessões, atos comuns no mundo da política.
Assim, o prostíbulo se estabelece a partir de planos e concessões
permeadas por hipocrisia, negociações e a angústia que acompanham
toda possibilidade de fracasso iminente.
A
instalação do prostíbulo, divide as opiniões na cidade. O padre
Bergner, colérico, impõe a sua idéia desfavorável à presença
do prostíbulo a cada sermão. Assim também o faz seu sobrinho
Marcos Bergner no balcão do bar Berna. Os Bergner, cada um em seu
espaço de “pregação”, alimentam a organização da “Liga da
decência” ou “Liga dos Cavalheiros” que incentivam e
contribuem com as moças da “Ação Cooperadora” que, em cartas
anônimas, lançam denuncias das visitas de irmãos, noivos, filhos
e maridos ao prostíbulo. Entre estes fatos, se entrelaça a história
de Jorge Malabia, jovem de 16 anos que mantém encontros noturnos
com a viúva de seu irmão, Julita. Malabia, ao apoderar-se da voz
narrativa, em certos capítulos do romance, conta seus
momentos com o velho Lanza que, por sua vez, lhe conta o passado de
Marcos Bergner (irmão de Julita) e suas experiências quando vivera
um tempo num falanstério. O leitor, perceberá a presença de Díaz
Grey, o médico da cidade, e as explicitações sobre a sua teoria
do medo, certamente elaborada em seus momentos de observação no
bar Berna. Afirma Díaz Grey: “O homem é dissipação, (...), e
medo de dissipação”.
Junta-Cadáveres
pode ser considerado um clássico da literatura
hispano-americana, e sem exageros, um clássico da literatura
universal. Mas, como diz o velho Lanza ao jovem Malabia: “Neste
tipo de coisas não interessam opiniões. Quem as leva a sério está
perdido”.