Reestruturação
produtiva e reconversão profissional
A
direção mundial da Volkswagen, maior montadora de automóveis da
Europa, com cinco fábricas instaladas no Brasil, anunciou planos de
reestruturação para reduzir custos de mão-de-obra e aumentar as
exportações. Entre as medidas preconizadas pela direção da
empresa está o fechamento de uma fábrica com a conseqüente demissão
de milhares de empregados.
Os
problemas da Volks não são exclusivos desta empresa. Toda a indústria
automotiva brasileira orientada para a exportação está sendo
prejudicada pela baixa cotação do dólar no mercado interno
causando margens de lucros negativas para as exportadoras. No ano
passado (2005) chegaram a pedir crédito ao BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social) para financiar as exportações
de veículos automotivos.
Mas,
a crise da indústria automobilística assumiu dimensões mundiais,
com exceção das montadoras japonesas. As três grandes
norte-americanas – Ford, GM e Chrysler – estão praticamente à
beira da falência e as montadoras européias também estão
fechando estabelecimentos, tais como a Peugeot na Grã-Bretanha.
Não
é de se admirar que todas apelam para a reestruturação industrial
como possível tábua de salvação.
Em
que consiste essa reestruturação industrial, além de fusões e
incorporações mal sucedidas e negativas em seus resultados
financeiros?
A
maior ênfase é dada na redução de custos da produção mediante
a terceirização, a flexibilização das relações de trabalho e a
conseqüente redução dos salários e do número de empregados.
Assim, o dilema crucial das sociedades capitalistas está
configurado: queremos mais produtividade, competição por mercado e
mais lucros, ou defendemos uma sociedade de bem-estar e qualidade de
vida para todos?
A
problemática toca no cerne das políticas públicas, econômicas e
sociais, e exige um posicionamento de todos os cidadãos.
Por
isso, propomos a releitura de um artigo elaborado há uma década e
que nada perdeu em sua atualidade.
O
tema serviu de pauta para um seminário realizado há alguns anos em
São Paulo, organizado pelo SEADE – Fundação Sistema Estadual de
Análise de Dados, e a SERT – Secretaria de Emprego e Relações
do Trabalho.
Reunindo
uma centena de estudiosos e técnicos, o seminário debateu as
transformações que ocorrem na estrutura industrial, seus impactos
no emprego, na (des)qualificação da mão-de-obra e as propostas de
reconversão profissional, a fim de atender às demandas do mercado.
Previsivelmente,
a nota dominante na abertura do seminário foi a visão apocalíptica
de Jeremy Rifkin (“O fim do trabalho”), acenando com o espectro
de desemprego generalizado em decorrência da introdução de novas
tecnologias, por volta do ano 2020. Sem dúvida, os novos processos
de produção, mais tecnologia-intensivos, requerem menos matéria-prima,
menos energia, menos espaço e, por tudo isso, menos trabalho.
O
discurso oficial, contudo, parece mais uma apologia da expansão do
capital transnacional do que uma análise ponderada, apontando tendências
e contradições desse processo. Afinal, a “racionalização” do
sistema produtivo via privatização, desregulação,
“enxugamento” das empresas, a fim de garantir sua produtividade
e competitividade, seria uma tendência fatal, inevitável e
irreversível, apesar de seus efeitos destrutivos e
desestruturadores na vida de centenas de milhares de seres humanos?
As
perspectivas sombrias são fruto da abordagem filosófica e metodológica
fragmentada que trata dos problemas isoladamente sem perceber ou
identificar as conexões sistêmicas mais complexas.
Ao
aceitarmos a premissa de que... “os homens (e as mulheres)
fazem sua História, embora em condições e contextos herdados, não
por eles criados”, a questão central configura-se
diferentemente. Em vez de ficar a reboque das loucuras e da ganância
insaciável do capital, tentando adequar o perfil e a qualificação
da mão-de-obra aos lances e investidas especulativas das empresas,
caberia aos responsáveis pelas políticas econômica, industrial e
tecnológica uma reflexão mais profunda sobre o futuro do trabalho
humano, à luz das tendências gerais da sociedade, neste começo de
século e milênio.
Até
quando assistiremos passivamente à ofensiva do capital contra o
trabalho, ofensiva que contém o germe de sua própria destruição,
via acumulação de contradições crescentes?
À
luz da polarização, concentrando riqueza e miséria em campos
opostos; o aumento contínuo dos desempregados e dos “inempregáveis”,
o recurso crescente ao trabalho infantil e a exploração
desavergonhada dos trabalhadores migrantes e refugiados,
questionam-se as novas práticas advogadas nas relações de
trabalho – a flexibilização, a precarização e a terceirização
– todas minando violentamente o poder de negociação dos
trabalhadores e, assim sua qualidade de vida e as próprias bases de
um convívio social mais equilibrado e harmônico. Diante das
contradições e conflitos gerados aparentemente sem solução
dentro do marco jurídico-legal do sistema “liberal”,
questiona-se, não o fim do trabalho, mas o esgotamento da missão
civilizatória do capital, após quatro séculos de inúmeras
conquistas materiais e, também, de sofrimentos humano incontáveis.
O
futuro do capital e da própria sociedade (“nosso futuro comum”)
não pode ser construído sem uma redefinição do trabalho e do
papel dos trabalhadores. Uma sociedade que “sucateia” e,
portanto, condena indivíduos em plena fase produtora ao
perecimento, não tem futuro. O destino dos seres humanos está
estreitamente relacionado com o futuro de seu trabalho.
Contrariamente à visão bíblica de inspiração judaico-cristã...
“no suor de teu rosto ganharás o pão”... enfatizamos a
visão hegeliana da redenção e de auto-realização por meio de
atividades criativas, gratificantes e coletivas.
É
verdade, a evolução do sistema capitalista tem resultado na separação
do trabalhador de seus meios de produção e do saber profissional,
com conseqüências alienadoras. O advento do “toyotismo”
parecia acenar com uma reversão dessa tendência, infelizmente não
confirmada. Continua a aumentar o fosso entre os que “pensam” e
aqueles que “executam” as tarefas. Os desafios estão além de
uma mera reestruturação industrial e uma eventual readequação da
mão-de-obra. Cumpre-nos redesenhar e planejar uma reconstrução
cultural, econômica, social e política para garantir empregos
produtivos para todos; eliminar o desperdício de recursos naturais,
a depredação do meio ambiente físico e social; e suprimir as
desigualdades gritantes – condições básicas para uma sociedade
coesa e solidária, enfim, uma sociedade sustentável.