por HELTON RICARDO OURIQUES

Professor do Departamento de Ciências Econômicas da UFSC

 

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A invenção do turismo em Santa Catarina

 

O desenvolvimento do turismo nas periferias do capitalismo

 

O estudo da atividade turística é, na maioria das vezes, encarado apenas do ponto de vista das concepções desenvolvimentistas e, mais recentemente, a partir de variadas matizes do pensamento ecológico, que a definem como um caminho prudente para o crescimento de uma dada localidade, por conta de seus supostos limitados impactos sobre o meio ambiente.

Diante das desigualdades regionais, em muitas localidades brasileiras o turismo acaba se tornando o objeto do desejo, disseminado socialmente por poderosos mecanismos ideológicos, notadamente os meios de comunicação. Tal disseminação, inicialmente, é feita tanto pelo meio político quanto pelo meio empresarial. Posteriormente, quando a ideologia do desenvolvimento turístico está arraigada, até mesmo o mais humilde dos cidadãos passa a acreditar que o turismo é uma atividade benéfica, a verdadeira “salvação da lavoura”, a “tábua de salvação” dos naufragados pelas vicissitudes econômicas locais.

Com muita freqüência, é apresentada a maneira mais adequada de promoção do desenvolvimento do turismo, posto que a notável expansão desta atividade em escala mundial acaba atraindo lugares da periferia que lidam com problemas relativos ao crescimento. Melhor dizendo, com males relativos à carência desse crescimento! Assistimos assim, nas zonas periféricas, à competição entre regiões e lugares para que sejam receptoras dos grandes projetos e empreendimentos turísticos.

Mas essa prática não seria possível se já não fosse socialmente aceita a crença, tornada verdade, de que o turismo se configura como uma grande fonte de oportunidades de emprego para as populações locais. Ao mesmo tempo, atribui-se ao turismo a capacidade de incrementar as receitas municipais. Tendo, portanto, impacto positivo sobre a distribuição de renda, já que cidades com mais arrecadação de impostos teoricamente têm mais recursos para investir nos meios de consumo coletivo. Por fim, é difundida também a idéia de que o turismo é uma atividade econômica não poluidora, capaz de promover um desenvolvimento ecologicamente sustentável.

É esta perspectiva genérica, positiva, que parece servir de pano de fundo para a atuação teórica e prática da maior parte dos pesquisadores em turismo no Brasil. Suas variadas correntes acabam dando uma nova função à geografia: serve para fazer turismo, para parafrasearmos uma famosa expressão do geógrafo Yves Lacoste  (1997).

Os pesquisadores do turismo, nos mais variados textos, livros e eventos de discussão acadêmica (encontros nacionais, seminários, congressos...) pautam-se pela seguinte cantilena: efetuar “inventários” de patrimônios naturais, culturais e históricos; levantar potencialidades e defender possibilidades de aproveitamento dos recursos paisagísticos e naturais para o desenvolvimento da atividade turística. Os pesquisadores clamam pelo “resgate” das tradições locais; pela recriação de festas “tradicionais”; pelo aproveitamento dos “recursos ociosos” dos meios rural e urbano, mesmo das municipalidades mais singelas do ponto de vista populacional.

Os geógrafos, por exemplo, colocam seus conhecimentos à disposição da indústria do turismo, catalogando tudo o que for passível de ser utilizado para a expansão desta atividade. Incapazes de compreender o turismo criticamente, os geógrafos e outros cientistas sociais buscam efetuar “correções de rumo” nos diferentes processos de desenvolvimento turístico, apostando na “diminuição dos impactos negativos”, desde que sejam seguidos à risca seus conselhos e diretrizes pelos governantes, capitalistas do setor e, é claro, pelos demais habitantes locais.

O problema é que o horizonte último das análises que realizam não transcende a esfera econômica. Isto é, somente pensam a partir da racionalidade da economia. Por isso tratam da natureza, da paisagem, do patrimônio histórico como recursos do turismo. Aliás, inclusive as “populações nativas” são encaradas como recurso turístico, já que os pesquisadores em muitos casos são ufanistas ao elogiar o aproveitamento das “tradições culturais” pelo setor.

É por discordarmos dessa postura que consideramos necessário, preliminarmente, para a construção de uma análise crítica do turismo na periferia, deixar bem nítidas nossas diferenças em relação a essa concepção genérica, que hoje é dominante no meio acadêmico. Ora, que questões merecem ser destacadas em uma análise crítica sobre o desenvolvimento turístico e que não são tratadas de forma adequada pelo pensamento dominante?

Em primeiro lugar, é necessário destacar que em regiões periféricas, a introdução da atividade turística tem, inicialmente, um efeito instabilizador, de desestruturação da economia pré-existente. São inúmeros os relatos de processos de decadência e mesmo de desaparecimento das atividades econômicas tradicionais a partir do advento do turismo. Por exemplo, de comunidades litorâneas, que sempre viveram da pesca, que acabam abandonando seu sustento tradicional. Mas não por escolha! De um lado, pela concorrência promovida pela pesca industrial (algo que já aconteceu em várias partes do litoral brasileiro, aliás). De outro lado, pelo processo de aquisição dos terrenos e expulsão dos pescadores e suas famílias da orla marítima, promovido pelas atividades imobiliárias especulativas, ligadas direta ou indiretamente ao turismo, como destacado no artigo de Bursztyn (2003) sobre o litoral cearense. Situações similares ocorrem com comunidades que vivem próximas a rios e lagos, inclusive. Temos assim uma desestruturação inicial da economia local, aliada a um processo de mudança no uso e ocupação dos melhores espaços à beira dos mares, lagoas e rios[1].

Em segundo lugar, uma nova estruturação da economia local aflora, com o surgimento de uma rede hoteleira, de restaurantes etc. Parte dos excluídos pelo processo anterior até encontra ocupação nessas novas atividades econômicas, mas parece que o essencial, isto é, o padrão de vida dessa população, não se altera significativamente. No litoral do Nordeste brasileiro, que há duas décadas vem crescendo de forma espantosa do ponto de vista turístico, por exemplo, os homens e mulheres que agora trabalham na indústria do turismo continuam residindo nos mesmos bairros precários, com as mesmas condições precárias em suas residências. E, principalmente, com níveis salariais muito baixos. Aliás, essa é a tônica geral em toda a periferia do capitalismo: - as atividades do turismo remuneram muito mal. A própria Organização Mundial do Turismo (2001) reconheceu as características básicas da ocupação no turismo: sazonalidade, precariedade, baixos salários. Some-se a isso a informalidade, característica marcante dos mercados de trabalho nas economias periféricas, e teremos um quadro nada agradável a caracterizar o turismo, sob essa ótica. É por essa razão que o sociólogo Manuel Castells (1999), ao redigir sua trilogia sobre a sociedade em rede, sentenciou o seguinte em relação ao turismo internacional:

...a globalização das atividades econômicas oferece a oportunidade de ganhos substanciais ao se empregarem crianças, obtidos a partir das diferenças entre o custo da mão de obra infantil nos países em desenvolvimento e o preço dos bens e serviços cobrados nos mercados mais abastados. Esse é, claramente, o caso do setor de turismo internacional. Os serviços de luxo dos quais os turistas de uma renda média podem usufruir em muitos “paraísos tropicais” dependem, em grande medida, da superexploração da mão de obra local, inclusive de um número significativo de crianças. (p. 182)

Em terceiro lugar, o turismo se inscreve no contexto maior da transformação mercantil de todos os aspectos da vida social. O turismo aparece assim como um veículo da mercantilização de tudo, desde um lugar ao sol até a transformação do folclore em espetáculo programado para os turistas. Afinal de contas, já existem muitos lugares à beira-mar privatizados, nas quais o acesso é exclusivo. Em algumas praias nas periferias do mundo, inclusive, não é sequer permitido o acesso dos “nativos”. Ao mesmo tempo, esses “nativos” são objetos de fotografias quando dançam suas danças típicas, quando praticam seus “rituais bárbaros” ou se vestem de “forma primitiva”, como descrito por Canclini (1983), Krippendorf (1989) e Turner e Ash (1991).

Parece claro que o turismo está mudando a geografia do mundo, inserindo nos circuitos econômicos globais localidades, regiões e países da periferia capitalista. A questão que se coloca, nesse sentido, relaciona-se com as potencialidades do turismo em transformar a história de subdesenvolvimentos em uma inserção ativa, dinâmica, que modifique essas economias no sentido de promover um desenvolvimento endógeno, capaz de diminuir os males oriundos do atraso econômico.

Ora, o turismo não é, por si só, mais indutor do desenvolvimento do que as atividades agrícolas ou industriais. E tem se mostrado incapaz de reduzir a enorme distância que separa o centro da periferia. Passados mais de cinqüenta anos de distintos projetos de desenvolvimento turístico nos países e regiões periféricos, alguém poderia afirmar que o Egito, a região do Caribe ou as Ilhas Maldivas, para ficar somente nesses exemplos, saíram da condição periférica?

Também é evidente que o turismo é um veículo da modernização capitalista. Talvez seja essa sua principal função na globalização contemporânea: introduzir as relações sociais especificamente capitalistas, subordinando e mesmo extinguindo, muitas vezes, as formas sociais arcaicas, tradicionais[2]. A jornalista Naomi Klein (2005), ao discutir a relação entre o Tsunami e o capitalismo, diretamente tocou no assunto, quando comentou:

Ahora el Banco Mundial esta usando el tsunami del 26 de diciembre para empujar sus políticas cortantes. Los paises mas devastados que casi no há visto alivio de su deuda y la mayor parte de la ayuda de emergência del Banco Mundial há ido em forma de prestamos, no a fondo perdido. Mas que enfatizar la necesidad de ayudar a las pequeñas comunidades pesqueras – mas de 80% de las víctimas de las olas – el banco esta empujando la expansión del setor turístico y granjas piscícolas industriales. Para las infraestruturas públicas dañadas, como carreteras y colégios, los documentos del banco reconocen que reconstruirlos “podría pensionar las finanzas públicas” y sugiere que los gobiernos consideren las privaticiones (si, solo tienen uma idea). “Para ciertas inversiones”, según se dicen en el plan de respuesta al tsunami del banco, “podría ser apropriado utilizar financiación privada” (p. 3-4).

De acordo com a jornalista citada, a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, provocou uma pequena controvérsia quando descreveu o Tsunami como “uma maravillosa oportunidad que ha pagado grandes dividendos para nosotros” (idem). Qual o sentido dessa declaração? É que o desastre natural literalmente varreu das zonas costeiras populações inteiras, facilitando a acumulação de capital turístico. Por isso, diz a autora, citando uma entidade ligada à reconstrução local da Tailândia (Thailand Tsunami Survivors and Supporters), “para los políticos negociantes, el tsunami era la respuesta a sus oraciones, ya que literalmente barrió estas áreas costeras de las comunidades que habían previamente paralizado sus planes turísticos, hoteles, casinos y sus granjas de gambas. Para ellos, todo esta área costera era ahora tierra abierta!” (idem).  Assim, enquanto os povos pescadores estão sendo forçados a viver no interior, nas barracas de estilo militar, “los gobiernos, las corporaciones y los donantes extranjeros se están agrupando para reconstruirla como a ellos les gustaria que fuera: playas como campos de juegos para turistas, los oceanos como minas de água para flotas pesqueras corporativas, servidos por aeropuertos privatizados y carreteras construídas com el dinero prestado” (idem). Trata-se, nesse caso, do aproveitamento de uma oportunidade oriunda por um desastre natural para instituir rapidamente a lógica das relações capitalistas, alterando a forma de propriedade e levando a parte da população que voltará à costa litorânea modificada a inserir-se nas relações assalariadas de trabalho. Essa se constitui uma forma acelerada da modernização turística, em suma.

O fato é que se trata de um poderoso agente de transformações sociais e espaciais. Menciona-se isso porque as atividades ligadas ao turismo são “consumidoras” de espaço, através da criação das infra-estruturas hoteleiras, de alimentação, de comércio e de especulação imobiliária (refiro-me aos grandes prédios que surgem na paisagem das orlas marítimas) e mesmo das infra-estruturas públicas, como rodovias pavimentadas. É por isso que, para retomar as afirmações feitas no início desse texto, o turismo desponta nas regiões periféricas como a mais recente promessa de desenvolvimento, e em alguns discursos (inclusive acadêmicos), aliás, como a única chance de se alcançar o tão almejado desenvolvimento.

Ora, pensar que uma nação possa realmente galgar melhorias econômicas e sociais com a preponderância de atividades servis – que caracterizam a economia turística – é desejar muito pouco para o futuro. Mesmo porque os principais centros turísticos do mundo, que não por acaso são os países centrais, só alcançaram esse estágio por conta da diversidade de atividades econômicas, notadamente as industriais. Limitar-se à venda das paisagens ou da beleza plástica do povo é condenar esse povo a existir como “museu vivo” do turismo internacional. É continuar reproduzindo o colonialismo através da existência dos habitantes locais exclusivamente como servidores do turismo, como fontes de deleite sexual (o turismo sexual) ou como seres exóticos que existem como temas de fotografias e filmagens.

 

Referências Bibliográficas

BURSZTYN, Ivan. Especulação imobiliária no litoral cearense. Instituto Virtual de Turismo, Rio de Janeiro, Caderno Virtual de Turismo, n. 7, junho de 2003, 12 folhas. Disponível em www.ivt-rj.net. Acesso em 10.06.2003.

CANCLINI, Nestor G. As culturas populares no capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1983, 149 p.

CASTELLS, Manuel. Fim de milênio. São Paulo, Paz e Terra, 1999. (Terceiro Volume da trilogia “A era da informação: economia, sociedade e cultura”).

CHÁVEZ, Raymond. Globalización y turismo: mezcla mortla para los pueblos indígenas. Revista del Sur, Mondevidéu, n. 91, maio de 1999, 5 f. Disponível em www.revistadelsur.org.uy. Acesso em 24.03.2003.

LACOSTE, Yves. A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas, Papirus, 1997, 263 p.

KLEIN, Naomi. El auge del capitalismo del desastre. In: www.rebelion.org, 05.05.2005, acesso em 21.05.2005.

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989, 235 p.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TURISMO. Introdução ao turismo. São Paulo, Rocca, 2001, 385 p.

PERA, Lee e McLAREN, Deborah. Globalización, turismo y pueblos indígenas: lo que debemos saber acerca de la “industria” más grande del mundo. Turismovisión. Informativo de Tourism Watch, n. 6, outubro de 2001, 6 f. Disponível em www.tourism-watch.org/esp. Acesso em 11.09.2003.

PLEUMARON. Anita. Turismo, globalización y desarrollo sustentable. Revista del Sur. Mondevidéu, n. 91, maio de 1999, 9 f. Disponível em www.revistadelsur.org.uy. Acesso em 24.03.2003.

TURNER, Louis e ASH, Gordon. La horda dorada. Madrid, Ediciones Endymion, 1991, 453 p. (Original em inglês de 1975).

VARGAS, Rosa. En el outro Cancun, suicídios y pobreza para descendientes mayas. La Jornada, México, 10.09.2003. Disponível em www.lajornada.mex. Acesso em 12.09.2003.

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[1] Há inúmeros relatos na literatura internacional sobre esse tipo de situações. Para uma compreensão inicial sobre os efeitos (de um ponto de vista crítico) da globalização turística sobre os povos indígenas, ver PERA, Lee e McLAREN, Deborah (2001), CHÁVEZ (1999),  PLEUMARON (1999) e VARGAS (1999).

[2] O livro de TURNER e ASH (1991), escrito em meados da década de 1970, talvez seja o grande libelo de crítica à atividade turística, associando-a a uma nova forma de imperialismo, mostrando seus efeitos destrutivos na periferia.

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