Educação
Ambiental e currículo escolar
Este
texto
tem por objetivo discutir a relação entre Educação Ambiental e
os currículos escolares, a partir de contribuições dos estudos pós-estruturalistas
que, nos últimos, anos vêm problematizando a questão do currículo
e suas implicações produtivas.
Parto,
neste trabalho, da concepção de que os professores, a partir de
diferentes discursos que os interpelam, produzem um currículo específico
de EA.
Para
desenvolver minhas reflexões, organizarei o texto da seguinte
forma: inicialmente, apresentarei minhas escolhas teóricas, visto
que toda pesquisa está ancorada numa perspectiva que oferece
instrumentos e significados compreendidos como importantes para
olhar um determinado objeto de estudo. Logo após, apresento algumas
considerações baseadas num estudo realizado por mim entre 2002 e
2004. Neste estudo, tratei dos discursos sobre práticas pedagógicas
de EA mobilizadas por onze professores de cinco escolas municipais
de Pelotas/RS.
Estudos
sobre o currículo: conceitos centrais
Os
estudos sobre o currículo que seguem a corrente pós-estruturalista
trouxeram contribuições que proporcionaram compreender os currículos
escolares em suas ações produtivas. Ou seja, passaram a salientar
que os currículos produzem “coisas” e que os currículos
representam muito mais do que uma simples e desinteressada organização
de conhecimento (Silva,
1999, Corraza, 2001, Garcia
s/d). Currículo passou a ser compreendido como política cultural,
como política de representação e como prática discursiva. Esses
estudos, assim, demonstraram que os currículos são importantes
mecanismos de produção e fabricação de culturas, de
comportamentos, de identidades, e de valores que interpelam os
sujeitos a quem se dirigem.
Como
política cultural, o currículo é entendido como um artefato
disputado. Grupos, sujeitos e instituições que participam dessa
disputa desejam materializar, nos currículos, certos aspectos da
cultura considerados, por eles, mais importantes, mais corretos, e
mais normais, que outros. Como política de representação, o currículo
é luta por definir e representar certas concepções de
conhecimento e de cultura que têm como intenção produzir sujeitos
e condutas específicas. E, como prática discursiva, o currículo
define papéis, autoriza e desautoriza determinadas representações
do mundo, hierarquiza conhecimentos, valoriza certos sujeitos,
temas, grupos sociais e suas formas de vida e exclui outros tantos.
Portanto, o currículo é um espaço de lutas e de conflitos que se
acionam em torno dos diferentes significados sobre o social e o político.
Nesse espaço, grupos expressam, através dos saberes e dos
discursos, sua visão de mundo, seu projeto social e sua verdade
sobre as coisas, instituindo os objetos de que falam e os sujeitos
que interpelam (Silva,
1999).
Essas
categorias rompem com idéias conservadoras sobre o currículo,
quais sejam, concepções de currículo como grade, lista ou repertório
de conhecimentos fixos, naturais e desinteressados que devem ser
transmitidos aos alunos. Também, essas categorias nos chamam à
atenção para o fato de que não há
neutralidade nem desinteresse na seleção e materialização de
saberes e conhecimentos que são organizados na escola; tampouco o
currículo é um conjunto de conhecimentos que, simplesmente,
aparece nos textos curriculares. O currículo é, antes de tudo, uma
fabricação social caracterizada por um processo social de concorrência
entre diferentes interesses que objetivam produzir e fortalecer
aqueles conhecimentos sociais e culturais que entendem serem os mais
válidos, os mais importantes a serem oferecidos aos estudantes (Silva, 2003).
Um
currículo turístico
Atualmente
é possível observar que uma série de grupos disputa os currículos
escolares com objetivo de materializar certas concepções de EA
(empresas, ONGs, mídia, governos, etc.). São diversas propostas de
recursos para projetos, materiais pedagógicos, atividades, experiências,
prêmios, panfletos e manuais que são constantemente apresentados
como propostas às escolas e a seus professores. Alguns destes
materiais tornaram-se subsídios importantes para as práticas
educativas dos professores.
Os
professores ao entrarem em contato com esses discursos produziram um
tipo de Educação Ambiental que caracterizei como “currículo turístico”.
Um tipo de currículo que, segundo Santomé (1995), teria as
seguintes características principais: a trivialização; a
superficialidade e a banalidade dos temas; a tendência a ter um
estilo que se aproxima de algo como suvenires.
Nesse
tipo de currículo, as experiências escolares de EA acontecem
esporadicamente: são trabalhos ocasionais, restritos a dias
especiais e comemorativos nos
quais, os alunos fazem exposições e gincanas em que, geralmente,
competem e ganham prêmios por recolherem garrafas PET, embalagens,
papel, vidros, apresentam painéis com definições de flora e fauna
ou sobre poluição da água, do solo e outras. Fazem, ainda, os
mutirões de recolhimento de lixo com o objetivo de mostrar
problemas como aumento e o desleixo, em termos do destino final do
lixo e, também, realizam visitas a áreas de preservação
(geralmente munidos de uma parafernália de enlatados, chips,
refrigerantes...), atividades que se parecem muito com uma atividade
meramente recreativa, num local diferente da sala de aulas. Essas
atividades não envolvem leituras de textos, explicações e discussões;
a atividade é realizada diante da concepção da auto-reflexão, da
auto-informação, do esclarecimento pela apreciação da realidade
que ali se mostra.
Na
impossibilidade de organizarem estas atividades, algumas escolas
procuram entidades ambientalistas ou órgãos governamentais que
tratem da questão ambiental e que promovam atividades de EA nas
escolas. Os trabalhos que mais se destacam nestas ações são
trabalhos como oficinas de sucatas (onde os alunos aprendem a fazer
brinquedos, jogos, enfeites com papel e garrafas plásticas),
teatros, danças (que se orientam, geralmente, por sons e letras que
falam da natureza) e recolhimento de resíduos sólidos em alguns
locais. Passados os dias comemorativos, a escola volta às suas
tarefas cotidianas e, quando muito, continua com o processo de
separação de resíduo sólido e a sua venda por parte das escolas.
Nestas
atividades os conhecimentos ambientais são fragmentados, limitados,
e as relações históricas e políticas da construção e produção
dos problemas ambientais permanecem intocadas. Ao não se discutirem
os conceitos, os valores e os sentidos das relações sociais, econômicas
e políticas e as implicações destas com os temas ambientais, os
professores, quando muito, conseguem orientar para certos
procedimentos descontextualizados.
Um
fato significativo destas ações desenvolvidas nas escolas é a
separação e venda de lixo limpo. As escolas, diante de suas
dificuldades, vêm sendo seduzidas por ofertas de seletividade de
resíduos e se tem observado, em alguns momentos, que os recursos
provenientes das vendas desses resíduos têm-se sobreposto ao ato
educativo. Não se trata de educar sobre o lixo e sobre os problemas
sociais e ambientais, de que o tema poderia tratar, mas de recolher
muito lixo, trazer para a escola, vender e produzir recursos extras.
Além disso, as escolas acabam fortalecendo o consumismo e, consequëntemente,
mais geração de resíduos, algumas trocam os resíduos por nota ou
prêmios. Desta forma, os alunos procuram e, as vezes, pressionam os
pais para comprar certos produtos que, em outras situações, não
seriam consumidos por suas famílias.
No
entanto, isso não acontece por má vontade ou desinteresse dos
professores. Algumas questões devem ser observadas uma de ordem
interna a organização escolar e outra de ordem externa.
Internamente, a EA ocupa posição desprestigiada nos currículos,
existe uma forte tradição disciplinar e pouca oferta de
formação de professores para tratar dos temas ambientais. Fora da
escola, outros fatores também ajudam a fortalecer o currículo turístico.
Entre eles, é possível citar as atividades desenvolvidas por
secretarias de meio ambiente, ONGs e empresas que buscam, nas
escolas, meios de fortalecerem suas iniciativas e interesses. Ao
fazerem isso, colocam, para a escola, uma série de representações
e sentidos sobre as questões ambientais e sobre a EA, as quais
acabam atravessando os modos de pensar e agir dos professores e, por
conseqüência, as atividades que eles produzem.
Nesta
relação o que acaba acontecendo é que nas escolas, a EA acaba
existindo graças à boa vontade e disposição de alguns
professores e como objeto de áreas de conhecimento ou disciplinas
que são consideradas mais próximas da natureza. Neste caso, e
levando-se em consideração as escolas estudadas, os professores
falam em EA com dois sentidos diferentes. De um lado, é relacionada
com as disciplinas de Ciências, Geografia e áreas a fins, embora,
em termos de conhecimentos científicos, os professores dessas
escolas entendem que existe uma relação mais estreita da EA com os
conteúdos definidos, principalmente, para a área de Ciências. De
outro lado, a EA se resume especificamente a procedimentos e ações
(projetos de seletividade de lixo, plantios de árvores...) pouco
vinculadas a essas disciplinas ou áreas.
Essa
afinidade entre EA e ciências é também característica das políticas
públicas educacionais, os próprios Temas Transversais reafirmam
essa concepção quando admitem que as disciplinas que mais se
“identificam como o tema ambiental seriam as ciências naturais,
geografia e história; às demais disciplinas, cabe a condição de
contribuintes eventuais ao desenvolvimento da EA na escola”. (Dutra, 2005). Em
vários momentos, nos textos deste guia curricular, a disciplina de
Ciências é colocada como um campo fértil de entendimento dos
temas ambientais.
Como
as definições acerca dos saberes específicos de EA ainda não vêm
sendo muito discutidas e problematizadas nos espaços escolares,
prevalece à força da tradição curricular que se caracteriza por
uma concepção biologicista e cientificista da natureza que vem se
pautando, por exemplo, na classificação, hierarquização e
observação das espécies da flora e da fauna e do corpo humano.
Esses
fatores conjugados fortalecem cada vez mais o desenvolvimento do
currículo turístico, um tipo de currículo que é mobilizado no
espaço escolar de diferentes maneiras. Os discursos e as práticas
que produz são ofertados aos alunos, pais e comunidade escolar em
geral. Portanto, são processo de fabricação de significados e
representações que apresentam um único caminho a seguir; ao fazer
isso, impede outros.
Creio
que a luta para dar conta da transformação deste tipo de currículo
(tanto na escola como na universidade) envolve entendê-lo como um
arranjo, como uma produção humana que se configurou a partir de
certos pensamentos, de certas necessidades sociais. Assim, se o currículo
é uma produção, precisamos entender que ele pode ser novamente
produzido e transformado. No entanto, essa transformação exige, no
mínimo, a transformação dos modos como se compreendem os currículos.
Envolve tratar o currículo como envolto em relações de
poder (Foucault,
2004), como um artefato de produção de significados e representações
culturais, como um artefato discursivo de produção de identidades,
e como instituidor de condutas e comportamentos específicos.
Transformar um currículo escolar seja ele na universidade ou nas
escolas, exige, entre outras coisas, questionar qual política
cultural queremos implantar, quais vozes que queremos privilegiar,
sempre admitindo que o currículo é lugar de produção e de
fabricação de discursos representações e significados (Garcia,
mimeo, s/d). Isto porque o currículo cria e produz identidades,
significados e modos de agir que interpelam uma série de sujeitos.
Portanto, discutir, repensar, questionar, desestabilizar o currículo
turístico e a EA que desenvolve é politicamente e culturalmente
questão urgente e necessária.
Concluindo,
gostaria de reiterar, neste texto, o que venho afirmando
constantemente:
Meu
desejo é que este texto possa ser considerado como um bom motivo
para reflexão sobre o poder docente, sobre os currículos e,
principalmente, sobre a EA, que mesmo estando nas escolas em condição
menos nobre do que outros temas considerados mais importantes, vem
produzindo significados e representações, as quais marcam e
atravessam os modos de pensar e agir de alunos e da comunidade
escolar. Espero que essa problematização seja produtiva no sentido
de que possa, no mínimo, ser um bom pretexto para desencadear boas
perguntas e outros olhares sobre o que acontece nas escolas (DUTRA,
2005:130).
Não
existem receitas, mas a discussão é necessária. Se quisermos
realmente uma EA com condições efetivas de transformação de uma
realidade atual há que se fazer escolhas e as escolhas, acredito,
exigem reflexões, discussões e trocas.