A
Mercantilização da Educação e o Mercado de Trabalho
Desde
minha vida acadêmica refletia sobre os caminhos que a Educação
Superior vinha tomando no país. Na época, estava no terceiro ano
da Faculdade de Nutrição em Ouro Preto, Minas Gerais, e o contato
com alguns professores e colegas gerava bastante discussão, mas
principalmente dúvidas, cercadas por um incômodo desconforto
relacionado à expansão dos cursos de graduação pelo país.
A
discussão acadêmica se limitava à preocupação com o mercado de
trabalho, isto é, como faríamos num mercado tão inchado, com
tantos profissionais que vinham por aí.
Especificamente
em relação à Nutrição, minha grande esperança de articulação
da classe estava atrelada a essa expansão (mesmo discordando do número
de cursos autorizados a funcionar). Acreditava, naquele momento, que
pessoas que passariam por instituições particulares (maioria
absoluta) seriam mais críticas em relação ao seu futuro, já que
muito dinheiro teria sido investido em sua formação. E vários
concordaram comigo nessa reflexão. Passados quase 10 anos, não é
bem isso que estou vendo!
Desarticulação
de classes, competitividade na hora e da forma errada, falta de
criticidade, desemprego, remuneração baixa e sem critérios...
alguns dos reflexos já sentidos no nosso dia a dia.
A
ênfase nos efeitos, com total falta de cooperação entre os indivíduos,
vem formando profissionais cada vez mais técnicos e reprodutores
desse aprendizado igualmente mecanizado, baseado em números.
Profissionais que se submetem a salários mais baixos, mesmo após
tanto investimento, já que a lei da oferta e da procura toma proporções
até então não imaginadas.
Vejo
exemplos diariamente: as pessoas não querem se expor, e isso é
ruim para todos. Tirando raras exceções, está claro o quanto o
profissional de hoje, formado após o boom de cursos na última
década, foi influenciado por essa triste maneira de enxergar a
Educação, visão que trouxe um enquadramento ideológico que deverá
se refletir por muito tempo.
Para
onde vai essa mão de obra? Para muitos graduandos ou recém-formados
seu objetivo profissional é dar aula na instituição que o formou
ou o está formando: sem dúvida, muito bem capacitados para
reproduzirem o que aprenderam – mais um círculo vicioso na nossa
história. Logicamente que esse pensamento é influenciado pela carência
de empregos, característica de nossos tempos neoliberais.
Já
ouvi representantes de instituições particulares, ao serem
questionados sobre a qualidade do ensino, falarem que “...o
mercado se regula, só os bons vão ficar...”: tratam a Educação
como (apenas) mais um nicho do mercado capitalista.
As
mesmas instituições que “se adequam” aos cursos superiores de
dois anos, ao ensino à distância sem fiscalização suficiente, às
inadequadas condições de funcionamento para formar um profissional
de verdade, um cidadão, facilitam o ingresso e enchem suas salas de
aula com cursos, no mínimo, duvidosos: círculos viciosos não
faltam!
A
Educação deveria tornar as pessoas mais capazes de pensar, mas
como disse Paulo Freire: “A Educação reflete a estrutura do
poder”, e continua argumentando que o “homem passivo” permite
que a Educação o enquadre ao modelo “bancário”, de depósito
de informações (FREIRE, 1975: 68-69).
Quero
acreditar sempre que há soluções, que ainda não nos entregamos.
Para que ocorra uma mudança nesse contexto é preciso união
daqueles que conseguem ver o quanto está sendo prejudicial tudo
isso, e vislumbrar as terríveis conseqüências para o nosso povo.