por HAROLDO ARAUJO FILHO

Nutricionista, Residente em Saúde da Família, Faculdade Evangélica do Paraná, Curitiba.

 

A Mercantilização da Educação e o Mercado de Trabalho

 

AngeliDesde minha vida acadêmica refletia sobre os caminhos que a Educação Superior vinha tomando no país. Na época, estava no terceiro ano da Faculdade de Nutrição em Ouro Preto, Minas Gerais, e o contato com alguns professores e colegas gerava bastante discussão, mas principalmente dúvidas, cercadas por um incômodo desconforto relacionado à expansão dos cursos de graduação pelo país.

A discussão acadêmica se limitava à preocupação com o mercado de trabalho, isto é, como faríamos num mercado tão inchado, com tantos profissionais que vinham por aí[1].

Especificamente em relação à Nutrição, minha grande esperança de articulação da classe estava atrelada a essa expansão (mesmo discordando do número de cursos autorizados a funcionar). Acreditava, naquele momento, que pessoas que passariam por instituições particulares (maioria absoluta) seriam mais críticas em relação ao seu futuro, já que muito dinheiro teria sido investido em sua formação. E vários concordaram comigo nessa reflexão. Passados quase 10 anos, não é bem isso que estou vendo!

Desarticulação de classes, competitividade na hora e da forma errada, falta de criticidade, desemprego, remuneração baixa e sem critérios... alguns dos reflexos já sentidos no nosso dia a dia.

A ênfase nos efeitos, com total falta de cooperação entre os indivíduos, vem formando profissionais cada vez mais técnicos e reprodutores desse aprendizado igualmente mecanizado, baseado em números. Profissionais que se submetem a salários mais baixos, mesmo após tanto investimento, já que a lei da oferta e da procura toma proporções até então não imaginadas.

Vejo exemplos diariamente: as pessoas não querem se expor, e isso é ruim para todos. Tirando raras exceções, está claro o quanto o profissional de hoje, formado após o boom de cursos na última década, foi influenciado por essa triste maneira de enxergar a Educação, visão que trouxe um enquadramento ideológico que deverá se refletir por muito tempo.

Para onde vai essa mão de obra? Para muitos graduandos ou recém-formados seu objetivo profissional é dar aula na instituição que o formou ou o está formando: sem dúvida, muito bem capacitados para reproduzirem o que aprenderam – mais um círculo vicioso na nossa história. Logicamente que esse pensamento é influenciado pela carência de empregos, característica de nossos tempos neoliberais.

Já ouvi representantes de instituições particulares, ao serem questionados sobre a qualidade do ensino, falarem que “...o mercado se regula, só os bons vão ficar...”: tratam a Educação como (apenas) mais um nicho do mercado capitalista.

As mesmas instituições que “se adequam” aos cursos superiores de dois anos, ao ensino à distância sem fiscalização suficiente, às inadequadas condições de funcionamento para formar um profissional de verdade, um cidadão, facilitam o ingresso e enchem suas salas de aula com cursos, no mínimo, duvidosos: círculos viciosos não faltam!

A Educação deveria tornar as pessoas mais capazes de pensar, mas como disse Paulo Freire: “A Educação reflete a estrutura do poder”, e continua argumentando que o “homem passivo” permite que a Educação o enquadre ao modelo “bancário”, de depósito de informações (FREIRE, 1975: 68-69)[2].

Quero acreditar sempre que há soluções, que ainda não nos entregamos. Para que ocorra uma mudança nesse contexto é preciso união daqueles que conseguem ver o quanto está sendo prejudicial tudo isso, e vislumbrar as terríveis conseqüências para o nosso povo.

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[1] A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, responsável por estabelecer as diretrizes e bases da educação nacional, proporcionou a abertura de inúmeras Instituições de Ensino Superior, e um outro sem número de cursos de graduação e pós-graduação.

[2] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 41 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

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