Implicações
do pós-estruturalismo na historiografia política: notas introdutórias
1
- Introdução
O
ambiente teórico da década de 1960 foi marcado por intensos
debates entre correntes teóricas diversas e combinadas, como
marxismo, funcionalismo, estruturalismo, existencialismo e a
fenomenologia. As mudanças daí resultantes foram sentidas em várias
disciplinas e mesmo no próprio paradigma teórico, gerando a pós-modernidade
e também o pós-estruturalismo.
Um
dos principais objetos de estudo problematizados foram as relações
de poder. Diante da persistência do capitalismo, se reinventando
nas crises, e da face autoritária do socialismo real, os
pressupostos sobre tomada e conservação do poder foram
questionados à luz da renovação que estava em curso. Tanto as
concepções marxistas, dogmatizadas pelo eurocomunismo, quanto as
categorias liberal-burguesas, foram reavaliadas.
Aqui
cabe relevo à obra de Michel Foucault, filósofo francês com
presença ativa nas discussões de seu período e famoso pelas opções
de vida, os temas polêmicos que selecionava para abordar e o modo
anti-convencional como o fazia.
Em
virtude da dimensão do trabalho, não há possibilidade de imersão
maior nas categorias trabalhadas por Foucault (dispositivo,
diagrama, visível, enunciável), dada a extensão e diversidade
de sua obra e a complexidade dos conceitos formulados. Cabe apenas
uma breve revisão teórica para situar melhor o leitor e traçar
um fio condutor para os objetivos desejados.
Este
artigo pretende, portanto, somente apontar algumas contribuições
da obra de Michel Foucault para a renovação da historiografia,
com ênfase nos estudos que põem a política em primeiro plano.
Quer dizer, quais os cuidados que o historiador deve tomar ao
desenvolver pesquisas com domínios desta natureza, conforme os
critérios de cientificidade da disciplina.
2
- Analítica do poder em Foucault
Ao
longo de sua carreira, Foucault tocou em diversas ocasiões no
tema do poder, em contextos e com objetivos diferentes, embora
nunca tenha dedicado uma obra exclusiva a este assunto.
Reconstituir suas trilhas metodológicas é ainda mais difícil,
pois ele não se preocupou muito em fazer as discussões desta
natureza nas suas obras.
Daí
a importância daqueles autores que procuram compreender o
instrumental analítico usado por Foucault, das entrevistas e
fragmentos agrupados em coletâneas, em que o autor procura
responde a estas questões. Portanto, convém fazer aqui uma breve
digressão teórica para auxiliar na elaboração deste importante
conceito.
Conforme
JACARANDÁ (2005), Paul-Michel Foucault nasceu em Poitiers no sul
da França em 1926, numa família de cirurgiões. Licenciou-se em
Filosofia em 1948 e Psicologia em 1949 na Sourbonne, sob orientação
de Jean Hyppolite. Despontou na filosofia com a publicação de
sua tese de doutoramento, “História da Loucura na Idade Clássica”
(1961), e dos trabalhos posteriores como “As Palavras e as
Coisas” (1965) e a “Arqueologia do Saber” (1969).
Estas
primeiras obras constituem uma espécie de primeiro ciclo da produção
foucaultiana. Como lembra FONSECA (2005), aqui as preocupações
do autor estavam mais voltadas para a descrição dos solos históricos
que determinaram o aparecimento e organização dos saberes nas
suas respectivas épocas.
Para
HUGHES-WARRRINGTON (2002), Foucault entende que o pensamento é
modelado por normas ou regularidades de que as pessoas não têm
consciência, o que vale para a própria definição de homem
subjacente às Ciências Humanas. Isto o levou a declarar a morte
do homem como objeto de estudo, na seqüência da morte de Deus
observada por Nietzsche.
O
livro “Vigiar e Punir: o nascimento da prisão” (1976), em
conjunto com “A Vontade de Saber” (1978) e a coletânea
brasileira “Microfísica do Poder” (1979), compõe o segundo
grande ciclo da obra de Michel Foucault. Neste, o autor
problematiza, de modo mais direto, a natureza do poder, seus
diagramas e dispositivos, com recurso ao método genealógico
emprestado de Nietsche. A aula inaugural na cátedra de História
dos Sistemas de Pensamento, batizada de “A Ordem do Discurso”
(1970), já tinha apontado para a procura das determinações do
discurso nas relações de força.
Há
diferenças metodológicas importantes entre as duas fases. Na
arqueologia, o problema era interrogar as condições de existência
dos discursos. Sua finalidade era descrever a formação dos
saberes, científicos ou não, para apontar o que permitia a sua
existência, e não a validade, como na epistemologia.
Já
na genealogia,
o objetivo não é analisar as compatibilidades e
incompatibilidades entre formações discursivas e não-discursivas,
com base na configuração de suas positividades. O que Foucault
pretendia era, em última análise, explicar o aparecimento de
saberes olhando para as condições externas a eles. Em outras
palavras, se estas são imanentes ao conhecimento, ele figura como
uma peça de um dispositivo de natureza política mais amplo.
Segundo
Deleuze (2005), a fase da arqueologia se preocupou com o
campo de saber (estrato) e, dentro deste, com o primado do
enunciado (palavra) sobre o visível (coisa). Ao final da
Arqueologia do Saber (1969), restaram duas grandes perguntas a
serem respondidas.
1
– O que unifica as formações discursivas e não-discursivas?
2
– Como se dá a interação entre elas?
Em
Vigiar e Punir, Foucault encontra a resposta para a primeira questão
numa causa comum unificadora e imanente ao campo social,
denominada de diagrama. Convinha buscar no “lado de fora”,
isto é, na exterioridade, no devir, as relações de poder
integradoras dos regimes que regem palavras e coisas.
Privilegia-se, portanto, a articulação entre os dois campos,
saber e poder, arquivo e diagrama.
Ainda
para DELEUZE (2005), Foucault avança na articulação destes
campos, ao problematizar a relação entre forma e conteúdo, função
e matéria, amparado em pares conceituais como visível/enunciável,
discursivo/não-discursivo e dispositivo/diagrama. Este último é
uma representação de todo o campo de forças, abrangendo a
multiplicidade espaço-temporal.
Ele
difere da estrutura, por sua posição perpendicular ou
transversal, marcada pela inorganicidade e definidora de práticas,
procedimentos e estratégias. Nesta perspectiva, o saber consiste
no entrelaçamento do visível (palavra) e do enunciável (coisa),
tendo o poder como sua causa imanente.
Para
POGREBINSCHI (2004), Foucault partiu da crítica à concepção
econômica de poder, centrada na funcionalidade capitalista, que o
associa ao direito. No seu olhar perspectivista,
baseado em hipóteses invertidas,
ele adotou alguns postulados, pautados nos princípios da
localidade do poder, da sua exterioridade e/ou objetivação, da
sua circularidade/transitoriedade e da ascensão.
Deste
modo, Foucault situou o poder numa triangulação com o direito e
a verdade, o que lhe confere caráter relacional e tem profundas
implicações na produção do saber. Ele buscou a superação das
concepções jurídicas, centradas na soberania e criou uma teoria
ou analítica do poder, para identificar o modo de seu exercício,
suas relações e instrumentos de observação.
As
principais formas identificadas pelo autor, na superação da
soberania, são o poder disciplinar e o biopoder, cada qual com
seus dispositivos, como o olhar hierárquico, a sanção
normalizadora e o exame, a individualização e massificação. O
direito cede lugar à técnica, e o poder desenvolve sua
positividade e produtividade, quer dizer, manifesta-se em inúmeros
mecanismos geradores de saber, multiplicadores de discursos e
difusores de mais poder.
Em
Foucault (1979), o
autor demonstrou o deslocamento da fonte de poder dos soberanos
para as populações, reformulando a arte de governar, denominada
governamentalidade. Esta pode ser entendida como: 1 – Conjunto
de instituições, procedimentos, análises e reflexões que
permitem o exercício do poder de modo específico, com foco na
população e cujo saber era a Economia Política; 2 – A precedência
deste tipo de poder sobre os demais, produzindo um conjunto de
aparelhos e seus saberes; e 3 – A governamentalização do
Estado, na passagem da Idade Média para a Idade Moderna.
Numa
tentativa de resumo, o que se deve salientar é que, para
Foucault, o poder conforma uma relação de forças adimensionais
que fluem por pontos ou focos, mapeados pelos diagramas. Ele
constitui uma estratégia, como exercício do não-estratificado e
foge das formas estáveis do visível e do enunciável, expressas
nos arquivos. Contudo, ele precisa do campo de saber (estrato)
para se estabilizar e aparecer nos dispositivos, isto é, em seus
mecanismos disciplinares e práticas operatórias.
As
principais implicações destes conceitos para a historiografia
política são: 1 –A crítica à narrativa tradicional, com
transição do enfoque diplomático-militar para um estudo do
poder e as suas formas de distribuição pela sociedade; 2 – A
observação do caráter relacional ou estratégico do poder e do
próprio Estado, que perde seu caráter central e torna-se mais
uma das agências; 3 – O alargamento da noção de poder, para
além de um mero conjunto de leis e aparelhos; 4 – O olhar
atento para o campo de saber gêmeo ao poder, quer dizer, às práticas
discursivas e não-discursivas que podem revelar a interligação
dos focos que formam a sua anatomia, em locais e períodos
determinados; e 5 – Inovação na abordagem ao objeto, com a
incorporação de novas fontes, um padrão de narrativa renovado e
a maior duração dos acontecimentos.
Isto
significa situar a produção historiográfica numa área ainda em
formação, denominada de História Social das Relações Políticas.
Segundo GOUVEA (1998), a obra de Michel Foucault e suas repercussões
na História Cultural apresentaram as relações de poder entre os
corpos como objeto de estudo, ao invés das formações sociais e
do homem em sociedade, preconizadas por marxistas e pela Escola
dos Annales,
respectivamente.
Seus
pressupostos indicam a perda de autonomia completa do Estado
diante da sociedade e, portanto, da capacidade auto-explicativa
dos acontecimentos políticos, sem referência a outras dimensões
da sociedade (econômica, social, governamental, cultural), como
aponta a Universidade Federal do Espírito Santo (2004).
3
- Considerações finais
Após
a leitura deste artigo, é possível relembrar a centralidade de
Michel Foucault na renovação que a historiografia passa na
atualidade, como bem salienta VEYNE (1992). Seu grande mérito foi
a sistematização das contribuições de diversas escolas de
pensamento a que teve acesso durante sua formação, marcada pela
multidisciplinaridade.
Da
Psicologia às teorias da linguagem, passando por diversos ramos
da filosofia, Foucault pôde articular as suas perspectivas muitas
vezes contraditórias e, dialeticamente, superá-las. Deste modo,
o autor lançou olhares originais sobre temas importantes e
influenciou toda uma geração de teóricos, com destaque aqui
para Michel de Certeau, Jacques Revel, Roger Chartier e Paul Veyne.
Sua
ação devastadora, como denomina GOUVEA (1998), gerou uma espécie
de anti-história política, na qual devem ser buscadas
descontinuidades, em consonância com o método genealógico, e não
a linearização da narrativa da história política tradicional.
O principal resultado desta transformação, para seus seguidores,
é que a dimensão entendida como tendo maior potencial de integração
analítica de uma sociedade (em busca da História Total), é a
cultural.
Quer
dizer, pela cultura política e seus símbolos, discursos,
representações e apropriações é possível redigir uma história
do poder, na sua concepção relacional desenvolvida por Foucault,
e situar o Estado como mais um dentre muitos pontos pelos quais o
poder flui.
Vale
dizer, para finalizar, que as principais contribuições de
Foucault e do pós-estruturalismo para a produção historiográfica,
podem ser resumidos nas precauções metodológicas ou postulados
que devem ser observados pelo pesquisador (localidade,
exterioridade, circularidade e ascensão), ao navegar pelo
caleidoscópio da historiografia contemporânea, como recorda
BARROS (2004).
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Petrópolis: Editora Vozes, 2004.
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não tem essência: é operatório. Revista
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São Paulo: Editora Loyola, 2005.
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GOUVEA,
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Disponível em http://www.ufes.br/ppghis.
Acessado em 30/09/2004.
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se escreve a história.
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