Copa 2006:
o mundo em casa de amigos?
O
maior assunto do momento na Alemanha é, sem sombra de dúvidas, a
Copa do Mundo de futebol. Mesmo aqueles que, normalmente, não
apreciam o futebol, em tempos de copa do mundo passam a se
interessar. Nesta 8ª. edição, o evento será acompanhado por um público
recorde em toda a sua história: há estimativas de que mais de 2
bilhões de pessoas estarão ligadas às transmissões televisivas
dos jogos. O lema desta copa “Die Welt zu Gast bei Freunden” (o
mundo em casa de amigos) sugere que o evento simboliza a integração
de povos e culturas, um encontro de amigos que não se conhecem, mas
que pela sua afinidade comum pelo futebol se aproximam. Num mundo
supostamente globalizado, torcedores de 32 países são localmente
recebidos como “hóspedes” em um país que se orgulha por sediar
a copa pela segunda vez[1]
em
seu território. Mas, será que é esse o verdadeiro “espírito”
da Copa 2006?
Como
em outras copas, o país sede procura aproveitar a ocasião para se
“mostrar ao mundo” da forma mais positiva possível. É essa a
oportunidade que a Alemanha terá em 2006, o que políticos,
jornalistas, empresários, artistas e esportistas não se cansam de
repetir: tendo em vista este objetivo maior todos os investimentos são
justificados. De fato, além da expectativa de que a copa possa
propiciar um verdadeiro espetáculo do esporte mundial, obviamente há
um amplo espaço para vendas, propaganda e marketing diretamente
associado ao evento. Os investimentos em infraestrutura,
oficialmente anunciados, somam 1,5 bilhões de euros. Somente a
modernização de estádios (reconstrução, ampliação e reformas)
custou 1,6 bilhões de euros, dos quais o mais caro é o estádio de
Munique, o mais moderno da Europa, construído especialmente para o
mundial ao custo total de 340 milhões de euros. Soma-se a isso toda
uma rede de investimentos, como a modernização e ampliação da
rede ferroviária de transporte de passageiros, a construção da
maior estação de trem da Europa, inaugurada em Berlim em final de
maio, hotéis, restaurantes, enfim, toda uma rede de serviços que
os “amigos organizaram para a chegada dos hóspedes”.
A
exploração comercial do evento é, certamente, a maior da história,
tendo em vista a expansão do desenvolvimento e do acesso a
tecnologias de comunicação nos últimos anos e a maior facilidade
de circulação de pessoas em âmbito internacional, tanto pela
ampliação dos meios de transporte como pela diminuição de
barreiras políticas entre os países. Neste contexto, a Alemanha se
prepara para receber mais de 1 milhão de torcedores vindos das mais
diferentes partes do mundo. De acordo com a recente pesquisa da Gesellschaft
für Wirtschaftliche Strukturforschung (Instituto de Pesquisas
Econômicas Estruturais), o perfil médio dos turistas da Copa do
Mundo é o seguinte: a) viajam de avião; b) costumam se informar
regularmente via Internet e televisão; c) preferem estar em grupos;
d) têm condições de ficar em hotéis e restaurantes em torno de
11 dias; e) gastam diariamente de 100 a 200 euros. De acordo com
essa caracterização, o referido instituto estima que os torcedores
terão um gasto mínimo de 675 milhões de euros com bens de consumo
durante o período dos jogos. Somente a rede de hotéis alemães
prevê um adicional de 5,5 milhões de diárias em função da
realização do torneio no país. Segundo a agência de reservas de
hotéis World Cup Accommodations Service, organizada
oficialmente pela Fifa, os brasileiros lideram a lista de clientes
(52 mil), seguidos dos ingleses (39 mil), dos mexicanos (35 mil),
dos torcedores dos EUA (27 mil), dos argentinos (16 mil), dos
japoneses (16 mil), dos italianos (12,5 mil), australianos (12,5
mil) e holandeses (12,5 mil). O Presidente do Deutscher Hotel-
und Gaststättenverband (Associação de Hotéis e Restaurantes
da Alemanha), Ernst Fischer, prevê um potencial de faturamento
adicional de 500 milhões de euros para os hotéis durante a copa.
No
que se refere ao contexto interno da Alemanha, esse efeito positivo
da realização da copa vem sendo constantemente aproveitado para
difundir uma onda de otimismo na população. Para os que costumam
se queixar dos problemas do país e não estão convencidos das suas
qualidades positivas, o recém lançado livro “O melhor da
Alemanha”[2]
apresenta 250 argumentos, minuciosamente selecionados para aumentar
a auto-estima do povo alemão em ano de copa. Diante da crescente
insegurança social (ver artigo Neonazismo
e insegurança social na Alemanha), do aumento da
desigualdade, dos altos índices de desemprego e da estagnação
econômica, a copa do mundo pode, seguramente, servir de instrumento
político ao país sede. Como já aconteceu em outras copas, a atenção
é desviada dos problemas concretos do povo, enquanto as promessas
de crescimento econômico combinadas com o sentimento de euforia que
o futebol é capaz de provocar nos seres humanos podem servir de
legitimação à onda de conservadorismo político, neoliberalismo e
desmonte social em curso no país.
Por
um mês inteiro, portanto, as atenções da população estarão,
prioritariamente, voltadas ao futebol. Porém, assistir os jogos ao
vivo no próprio país ficou difícil para os alemães: somente uma
pequena minoria teve acesso a ingressos. A maioria dos ingressos foi
destinada a patrocinadores, agências de turismo e às federações
de futebol dos 32 países participantes. Assim, por exemplo, era
mais fácil o torcedor brasileiro adquirir um ingresso no Brasil em
forma de pacote turístico (incluindo viagens e hotéis) do que um
torcedor alemão. Para os alemães, em geral, o acesso ficou
restrito à venda via Internet, onde milhões de torcedores pagaram
antecipadamente e continuam na fila de espera, aguardando os
sorteios. Inúmeras empresas também anunciaram ingressos em forma
de brindes a serem sorteados aos clientes, o que, em termos de
probabilidade, apresentou chances maiores de acesso do que a forma
oferecida oficialmente no portal da Fifa. Sem mencionar o mercado
clandestino de ingressos, muitas empresas faturaram adicionalmente
neste ano, aproveitando o “clima da copa” e a carência de
ingressos. Para um imenso público excluído do acesso aos estádios,
resta assistir os jogos pela televisão, em casa, com amigos, nos
bares ou nos diversos espaços públicos organizados exclusivamente
para essa finalidade (verdadeiros mini-estádios com transmissão
via telão).
Um
outro aspecto central da discussão que antecedeu a copa 2006 é a
política de segurança pública. O pânico provocado na Europa
pelos atentados em Madrid[3]
e Londres[4]
aumentou a preocupação com a garantia de segurança aos
torcedores. A atenção especial é dedicada ao jogo de abertura no
dia 9 de junho, em Munique, e à final, no dia 09 de julho, em
Berlim. Segundo o comitê organizador, os estádios de futebol serão,
durante a copa, os lugares mais seguros do mundo. Além dos
policiais e agentes internacionais de segurança trabalhando em rede
para impedir maiores problemas, em caso de emergência, 5 mil
soldados do exército alemão estarão à disposição da copa do
mundo. Um batalhão policial e um arsenal de equipamentos para vigia
e identificação de suspeitos tão imenso jamais foi visto numa
copa, o que, ironicamente, poderia transformar o lema “o mundo em
casa de amigos” em outro menos atraente: “o mundo como hóspede
de uma grande festa militar”[5].
Além dos Hooligans, um fenômeno conhecido na Europa, a polícia
alemã terá uma preocupação toda especial durante a copa em
território alemão: o crescimento do neonazismo no país. As
declarações do ex-porta voz Uwe-Karsten Heye[6]
em abril deste ano, afirmando a existência de regiões que os
estrangeiros deveriam evitar no país (as assim chamadas No-Go-Areas),
aumentaram a polêmica em torno da probabilidade de uma onda de violência,
provocada por grupos neonazistas aproveitando a realização da
copa. Criar pânico na população parece ser uma característica
comum da imprensa conservadora em nível mundial. Mas, diferente das
manchetes absurdas com relação ao cancelamento da copa em função
da gripe aviária, o aumento do racismo é um fenômeno real que não
pode ser subestimado e está intimamente imbricado com a crescente
insegurança social na Europa (ver artigo O
retorno da xenofobia). Diversos casos de violência
contra estrangeiros nos meses que antecederam a copa advertem que
agressões aos “hóspedes” são bastante prováveis. Os
brasileiros têm uma relativa vantagem, nesse aspecto, na Alemanha:
diferente de outros povos estrangeiros, há uma grande simpatia
pelos brasileiros. O sucesso de jogadores brasileiros no campeonato
alemão, certamente, influencia nesse aspecto, mas também a associação
impulsivamente positiva com a assim chamada “cultura
brasileira”, em moda em toda a Europa. Em recente pesquisa do
Instituto Forsa[7]
os torcedores brasileiros lideram a lista dos preferidos dos alemães,
com 32% dos entrevistados (curiosamente, os alemães colocaram a si
mesmos como torcedores preferidos em segundo lugar, com apenas 9%).
Dificilmente
todos os torcedores serão encarados como amigos pelo povo alemão;
os brasileiros, independente dos resultados da favorita seleção
canarinho, entretanto, continuam bem aceitos como “hóspedes”
nesse país. O que realmente se entende como amigo e como hóspede
em tempos de copa do mundo é outro debate: enquanto a lógica de
mercado domina o esporte, grandes eventos como este ficam reduzidos
a shows que almejam a venda de mercadorias, em primeira instância.
Se, à margem disso, ainda sobra algum espaço para a alegria e a
integração de povos e culturas, isso também tem seu valor. Afinal
de contas, quem nos próximos dias não cairá na tentação de se
alienar com o futebol, com a emoção da Copa do Mundo, com o
nacionalismo esportivo, mesmo que seja somente por alguns momentos?