por
CAIO N. DE TOLEDO Professor
colaborador - voluntário, IFCH, Unicamp. Autor de ISEB: fábrica
de ideologias, 2a. ed., Editora da Unicamp, 1997 e
de Intelectuais e política no Brasil. A experiência do ISEB (org.),
Rio de Janeiro, Editora REVAN, 2005 (no prelo); do Comitê
Editorial da revista Crítica
Marxista |
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Espectros
sobre 1964
Passados
mais de 40 anos, 31 de março de 1964 continua sendo comemorado por
militares e civis que participaram do golpe de Estado que derrubou o
governo constitucional de João Goulart e bloqueou a realização de
reformas sociais e econômicas que, nos anos 1950 e 1960, eram
reivindicadas por amplos setores da sociedade brasileira.
Se
em 2004, o polêmico General Francisco Roberto de Albuquerque,
Comandante do Exército, elaborou uma moderada Ordem
do Dia sobre 1964, agora em 2006 a história foi outra. Em uma
nota – lida no dia 31 de março último para cerca de 200 mil
soldados em quartéis de todo o país –, o Comandante do Exército
exaltou o papel heróico de sua Força na “construção da Nação
brasileira”. Discorrendo sobre 1964, afirmou que 31 de março “é memória, dignificado à época
pelo incontestável apoio popular, e une-se, vigorosamente, aos
demais acontecimentos vividos, para alicerçar, em cada brasileiro,
a convicção perene de que preservar a democracia é dever
nacional”.
Determinado na missão de defender as instituições democráticas e
a nacionalidade, o Exército, vitorioso em 31 de março, nunca teria
deixado de ser “generoso com os vencidos”. Recorde-se
que, em outubro de 2004, seis meses após a sóbria Ordem do Dia
acima aludida, o Centro de
Comunicação Social do Exército – com o pleno conhecimento e
anuência de seu Comandante – publicou nota no jornal Correio
Braziliense na qual se justificava o método de tortura e
assassinato, nas dependências militares, em nome da defesa da
chamada “Revolução de 1964”. De imediato, o Ministro da
Defesa, José Viegas, manifestou veemente protesto pelo despropósito
da nota, cuja responsabilidade maior provinha de um subordinado seu
na hierarquia ministerial.
Diante
do pedido do Ministro da Defesa ao governo, propondo a demissão do
Comandante do Exército, o General – aceitando sugestão de
assessores presidenciais – recuou mediante uma “nota de retratação”.
Lula preferiu dar proteção ao General que permaneceu no cargo de
Comandante do Exército enquanto ao civil José Viegas não restou
senão a demissão do Ministério.
Mas,
não são apenas os militares que soam as trombetas em torno de
1964. Em um depoimento que foi publicado em 2003 no livro 1964
- 31 de março: o Movimento Revolucionário e sua História,
(Biblioteca do Exército Editora), o ex-czar da economia brasileira,
Delfim Netto, não poupa elogios àqueles tempos em que “éramos
felizes e não sabíamos”... (Lembremo-nos também que eram
exatamente estes os dizeres de um adesivo que o então candidato a
deputado federal, Delfim Netto, largamente distribuiu e foi afixado
nos automóveis das classes médias e da alta burguesia paulista.)
Entre as “pérolas delfinianas” encontradas na entrevista que
concedeu à História Oral do
Exército – projeto que, como esclarece o coordenador geral,
visa levar a “verdade” aos brasileiros “cativos da má-fé ou
da “ignorância” sobre 1964 –, uma se destaca pelo seu tom
debochado e agressivo.
Na
mesma linha dos virulentos ataques do arqui-conservador economista
Eugênio Gudin – para quem o governo Goulart esteve “encarniçadamente
decidido a destruir, desmoralizar e até prostituir” a ordem econômico
e social –, Delfim Netto agora afirma: “Havia
(no governo Goulart) uma
desorganização completa. Não existia liberdade coisa alguma. A idéia
de que o Movimento de 1964 levou a uma ocupação do Governo é
falsa. O Jango abandonou o Brasil. Esses canalhas estão por ai
dizendo que iam salvar o Brasil e nós, hoje, temos uma prova
concreta do que eles produziam: uma nova Cuba". (p. 154,
tomo 5)
Tudo
leva a crer que foi para evitar “uma nova Cuba” que o ex-czar da
Economia mandou “às favas todos os escrúpulos de consciência”
– como o fez seu loquaz colega de Ministério, Cel. Jarbas
Passarinho – na reunião ministerial de dezembro de 1968 que
instituiu o AI 5, cujo efeito foi o de radicalizar a ditadura
militar com sua seqüência imediata de prisões e repressão aos
que ousavam se opor aos governos militares.
(Na entrevista publicada em 2003, Delfim reitera que, hoje, se
preciso fosse – mesmo conhecendo aquelas funestas conseqüências
– não titubearia em assinar um novo AI 5.)
Na
lógica dos “vencedores de abril de 1964”, também foi para
“salvar a democracia” e tornar o país mais “feliz” que o
ex-Ministro, em 1969, sob as ordens do banqueiro Gastão Vidigal, se
prestou a “passar o chapéu” na elegante mansão de dona
Veridiana Prado, localizada no então aristocrático bairro de
Higienópolis, na cidade de São Paulo. Como informa o jornalista
Elio Gaspari (A Ditadura Escancarada, p. 63), reunidos num prazeroso almoço,
quinze dos maiores banqueiros do país sensibilizaram-se com os
robustos e certeiros argumentos de Delfim no sentido de,
patrioticamente, financiarem a criação da Operação
Bandeirante (Oban) que
nos anos seguintes se tornaria sinônimo de repressão e morte.
Afinal, o país precisava, urgente, se livrar da canalha comunista e
de esquerda...
Na
construção de uma cultura democrática é indispensável que todos
os agentes e atores políticos, de forma sistemática e rigorosa,
exerçam a autocrítica sobre seus gestos e práticas. Assim,
partidos, movimentos e personalidades políticas de orientação
progressista – nacionalistas, humanistas cristãos, socialistas,
comunistas etc – não devem se recusar em admitir equívocos
cometidos na luta política e ideológica que antecedeu o golpe de
1964. Isso significa dizer que esses setores também têm
responsabilidade política pelos eventos que culminaram na ruptura
democrática. (Freqüentemente, esses erros se expressaram pelo
radicalismo verbal, pela subordinação política ao hesitante e
ambivalente governo Goulart, mas, sobretudo, pela incapacidade política
desses setores na organização dos trabalhadores e das camadas
populares na batalha pelas reformas sociais e na luta pela
radicalização da democracia política.) Mas, definitivamente, é
inaceitável atribuir ao conjunto das esquerdas um compromisso com o
golpismo. Não deixa de ser uma grave concessão aos ideólogos da
direita, afirmar, como faz a recente historiografia revisionista
que, no pré-1964, “todos eram golpistas”.
Se
nos anos 1960 nem todos foram golpistas, cabe àqueles que efetivamente
destruíram a institucionalidade democrática então vigente a
responsabilidade maior de reconhecerem publicamente os graves danos
e erros por eles cometidos durante os 20 anos de regime militar, a
começar pelo ato inaugural do golpe de Estado. Do ponto de vista de
uma consistente cultura democrática, é inadmissível que segmentos
importantes da sociedade civil e os setores majoritários das Forças
Armadas se recusem ao imperioso exercício da crítica e autocrítica
de seu passado.
A
defesa intransigente e a apologia dos “heróicos feitos” da
chamada “Revolução de 1964” bem como a renovada justificativa
das violências perpetradas pelo regime discricionário – tanto
por militares como por civis – em nada contribui para a consolidação
de uma cultura política democrática no Brasil.
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