por JOSSYARA APARECIDA FREITAS DE SOUZA

Graduada em Ciências Sociais (UEM) e Professora de Sociologia da Rede Estadual de Ensino do Paraná.

 

RESENHA:

ABREU, Eide Sandra Azevedo. O Reparo de Objetos no Tempo do Descartável: Resistência e Preservação. Maringá: Eduem, 2004. 162 p.

 

 

O livro “O Reparo de Objetos no Tempo do Descartável – Resistência e Preservação”, foi escrito por Eide Sandra Azevedo Abreu, graduada em Ciências Sociais pela UNESP – campus de Marília/São Paulo, mestre em Sociologia e doutora em História pela UNICAMP – Campinas/São Paulo. O livro aborda uma discussão em torno de uma situação cada vez mais comum na vida de pessoas que vivem sob o objetivo do capitalismo – o consumo em escalas cada vez maiores – que se expressa através da prática da reprodução acelerada de objetos, pela simples lógica da produção de objetos feitos para não durar. Ao passo que esta discussão se desenvolve no livro, a autora trabalha sua pesquisa com a intenção de dar vozes aos que estão ou parecem esquecidos por esta caminhada capitalista que reproduz objetos num tempo cada vez mais rápido, mas que ao mesmo tempo, não consegue com todo seu avanço tecnológico, acalentar os sentimentos das pessoas que desenvolvem um carinho todo especial por determinados objetos que fizeram ou fazem parte da suas vidas.

Esta pesquisa foi realizada na cidade de Marília, no Estado de São Paulo, com pessoas que se dedicam ao conserto de objetos, tais como: guarda – chuvas, panelas, relógios, jóias, sapatos, aparelhos eletrônicos, brinquedos, e, com aquelas que usufruem desses objetos e por eles estimam, ou seja, o presente trabalho traça um caminho inverso ou alternativo à tendência do mercado, pois, retrata pessoas comuns que optam por reparar seus objetos quebrados ou danificados pelo uso, ao invés de simplesmente trocá-los por um novo.

Eide, na elaboração de sua pesquisa, demonstra um cuidado especial, quanto à aplicação da metodologia, a fim de proporcionar um caminho sério para se atingir o conhecimento, ela propõe a alternância entre o sujeito e o objeto, esta alternância tem como objetivo promover o reconhecimento de pessoas que não são do mesmo meio social que o seu. Por meio das entrevistas, ela observa os gestos, a entonação da voz, o olhar, entre outras formas de expressão que não a oral, mas, que pode revelar coisas que a própria fala não consegue ou esconde. Dessa maneira, o campo de investigação se alarga e conseqüentemente a pesquisa termina enriquecida pela estimulação de vozes “... que até aqui ficaram caladas, talvez por não encontrar quem as quisesse ouvir.” (OLIVEIRA apud ABREU, 2004: 27).

A autora faz um apanhado sobre o método de organização do trabalho nas fábricas capitalistas – que visa regular o trabalho humano no tempo do relógio (forma racional de organizar o trabalho)[1] – com isso, ela demonstra que o operário fabril passa por desgaste físico e mental, que o leva ao desenraizamento[2], e a partir disso, passa a ser visto apenas como uma mera fonte de produção, um instrumento que pode ser trocado a qualquer momento por um outro homem-instrumento, assim, torna-se claramente notável a condição do trabalhador enquanto objeto tão descartável quanto o que ele próprio produz. Isso somente se torna possível porque o mundo do trabalho nas fábricas busca o tempo útil, separando o saber do fazer, dessa maneira, o homem (operário) perde sua capacidade de raciocínio, de criatividade, restando-lhe apenas a função do fazer.

Segundo a autora, os processos produtivos atuais, subsidiam informações que demonstram que o método racional de organização do trabalho ultrapassa os limites das fábricas, e chega não somente ao comércio, aos escritórios, mas também, às relações mais pessoais, ou seja, a toda a sociedade. Fato este, observado pelos consertadores, quando falam sobre a impaciência dos jovens de hoje “... os jovens de hoje são muitos agitados; as pessoas - não sei o que está acontecendo – estão meio agitadas...” (ABREU, 2004: 120). Para alguns consertadores, os jovens não se dedicam a um ofício como o deles, porque querem tudo pronto, não tem paciência em aprender.

Os consertadores falam que aprenderam o ofício rapidamente, mas, em algumas de suas falas fica evidente que o tempo de aprendizado não foi tão curto quanto o declarado por eles, isso, segundo Walter Benjamim, citado no livro, demonstra que eles estão “...excluídos do adestramento dos operários fabris que lidam com máquinas.” (BENJAMIN apud ABREU, 2004: 111). Os consertadores aprendem o ofício em seu tempo, e desenvolvem o trabalho também em seu tempo, para alguns consertadores o trabalho desempenhado por eles possibilita a união entre o trabalho manual e o mental, dessa forma, fogem da regra taylorista, que só fica no limiar do trabalho manual ou do fazer.

Portanto, o trabalho dos consertadores promove o enraizamento, – o saber fazer, que liga o tempo presente da atividade com o tempo passado, quando aprenderam o ofício. Este trabalho por sua vez, é realizado num tempo diferenciado do trabalho realizado nas fábricas, é justamente o ritmo (lento) que se diferencia da aceleração capitalista. Os consertadores têm um ritmo próprio, um ritmo que eles próprios determinam, que não é marcado pelo movimento das máquinas. O trabalho geralmente vagaroso dos consertadores assemelha-se ao dos artesãos, não somente pela condição do tempo, mas, também e mais importante, pela questão da autonomia do trabalhador frente ao que se está produzindo. É desse respeito pelo que se está fazendo, que o consertador consegue a admiração dos usuários, pois estes levam seus objetos para o conserto com a intenção de tê-los novamente por perto, pois sabem que dificilmente encontrarão os mesmos objetos nas vitrines das lojas. Eles sabem que além do valor de uso (a utilidade dos objetos), estes mesmos objetos têm a força de resgatar um tempo somente existente em lembranças, estes objetos passam a ser meios para o revivamento da memória, traz histórias, lembranças, fatos que são ricos em significados para seus usuários, e que nenhum objeto industrial mais recente e mais moderno poderá substituir, a não ser pelo valor de uso, assim, muitos consertos passam da esfera de conservação para o da preservação.

Uma característica quanto à estrutura do livro, é que Eide, no intuito de dar vozes aos entrevistados, recheia o livro de falas, que enriquecem a leitura, tornando-a agradável e estimulante, além disso, a reprodução que faz das falas dos entrevistados, não está no livro para preencher lacunas (reproduzir visando quantidade), ela valoriza o que foi dito nas entrevistas coletadas, enquanto forma de expressão, por pessoas que quase sempre passam desapercebidas dentro do quadro de desenvolvimento capitalista, num ato parecido com os dos consertadores, ela acaba realizando um trabalho artesanal, o livro passa a ser uma obra única, elaborada e feita por suas próprias mãos, num misto de trabalho árduo com o prazer de realizá-lo para durar (o saber e o fazer), com o efeito de utilidade por aqueles que necessitarem de seu uso, algo como imortal “(...) não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo imortal feito por mãos mortais (...)” (ARENDT Apud ABREU, 2004: 41).

Neste sentido, o livro foi escrito para ser lido, apreciado e não simplesmente para ser consumido ou destruído. Uma obra feita para durar, para permanecer no mundo como individual, que só a autora, esta autora, poderia ter feito, um trabalho feito por quem valoriza o que se faz, justamente porque sabe fazer.

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[1] Ou método científico, elaborado por Taylor. Visa o melhor aproveitamento, os melhores procedimentos no desempenho da função. A fim de dinamizar o trabalho fabril e poupar o tempo, prevê também a divisão do trabalho entre os chefes e seus subalternos.

[2] Termo usado para designar a condição do operário que desempenha sua função baseando-se no medo da demissão e visando o salário. Não possui mais nenhum estímulo no exercício da função.

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