por ANTÔNIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

 

O primeiro capítulo de “O Inquisidor” está disponível no site: http://www.lojaconrad.com.br/valerioevangelisti/EVANGELISTI, Valerio. O Inquisidor. [tradução Romana Ghirotti Prado]. São Paulo: Conrad Editora, 2006 (296p.)

 

Sobre velhos e novos inquisidores

 

Há livros que começamos a ler, interrompemos e não mais retomamos a leitura. São livros que se revelam desinteressantes, áridos e mesmos inúteis. Quando os lemos até o fim, o fazemos por pura obrigação – geralmente porque alguém, como o professor, decidiu que tal livro era imprescindível à nossa formação. São situações que geram traumas e até contribuem para desestimular potenciais leitores e/ou alimentar preconceitos contra determinados autores e/ou gêneros literários. Quando isso ocorre, não é fácil superar.

Há outros livros que interrompemos a leitura, apenas porque outros mais urgentes o exigem, para retomá-los mais adiante. São obras que sempre estão em nossa lista de “coisas a fazer”, e nos angustiamos porque sabemos da finitude do viver. E, ingenuamente, nos perguntamos se viveremos o suficiente para ler tudo o que almejamos.

Há, enfim, livros especiais que nos conquistam e não nos contentamos enquanto não chegamos à última palavra. São aqueles que nos marcam positivamente, que estimulam a reflexão e nos fazem crescer intelectualmente; são obras que nos incitam a conversar e escrever. “O Inquisidor”, do italiano Valerio Evagelisti[1], é, certamente, um desses livros.[2] É uma leitura que cativa do início ao fim e que, a cada capítulo que avançamos, faz pensar sobre o passado, o presente e o futuro.

Sua narrativa envolve três núcleos de histórias, desenvolvidas em tempos-espaços diferenciados (presente, passado e futuro), mas que se complementam com nexos entre suas diferentes temporalidades espaciais. No tempo presente, e assim se inicia a obra, sobressaem-se o Professor Trippler, do Departamento de Astrofísica da Universidade do Texas; o jovem Frullifer, aspirante a cientista, que tenta convencê-lo sobre uma estranha “teoria dos psicotrons”; a professora e cientista Cynthia – que significa “originário do monte Cinto” e é “um dos nomes usados para se referir à deusa Ártemis, ou Diana, para os romanos” (278-79). Aparentemente, Cynthia é uma personagem coadjuvante, mas aos poucos o autor faz emergir seu verdadeiro significado e, então, ela surge em toda a sua imponência vinculada ao culto pagão à deusa da fecundidade, da natureza e da caça, Diana.

E, assim, passamos de uma complexa teoria que promete revolucionar a física ao desenrolar de um enredo fundado em bases históricas reais, mas tratado como ficção. Imagine que você se encontra no outono de 1352, no pequeno, porém poderoso, reino de Aragão, cujo rei Pedro IV, conhecido como o Cerimonioso, “por causa de sua paixão por rituais complicados” (44), enfrenta dificuldades e intrigas políticas com a nobreza e a instituição eclesiástica. Neste reino, secundado pelos reinos menores da Catalunha, Sicília e Valência, a Inquisição, sob o comando dos dominicanos, se vê fragilizada pela influência dos franciscanos e dos judeus junto ao soberano. É uma região com forte influência muçulmana, evidente na própria arquitetura do edifício que abriga a Inquisição.

Neste contexto, destaca-se o padre dominicano Nicolau Eymerich. Eis o personagem real do título desta obra, o Inquisidor Geral do Reino de Aragão (atual Espanha), que passou à história por ter criado, em 1376, o Directorum Inquisitorum (Manual dos Inquisidores). Conhecido como o Manual de Eymerich, é um tratado sobre a fé cristã, a heresia e os hereges e a prática daquele que, em nome de Deus e da Santa Madre Igreja, deve combatê-los.

Acompanhemos a gigantesca tarefa do auto-investido Inquisidor, após a morte do Inquisidor titular vitimado pela peste. Eymerich se vê diante de um fenômeno inexplicável, que em sua forma de compreender o mundo, só pode ser obra daquele cujo nome não deve ser pronunciado. Não se trata de uma simples heresia, ou de perseguir judeus e muçulmanos, mas de desvendar o mistério do aparecimento de cadáveres bifrontes que se diluem e evaporam, sem deixar qualquer rastro da sua existência. O Inquisidor faz valer a máxima, comumente atribuída a Maquiavel, de que os fins justificam os meios. Ele manobra habilmente entre as intrigas políticas da época e não hesita em massacrar as mulheres ou usar todos os recursos materiais e imaginários para arrancar confissões e atingir os seus objetivos. Sua ação não tem limites. Ele se mostrará disposto a evocar o próprio Satanás em sua luta pela salvação da cristandade.[3]

A prepotência do Inquisidor se alimenta do seu fanatismo religioso, da crença de que expressa a vontade de Deus e é “a sua mão” em ação. Diante do receio dos soldados, em sua maioria camponeses, quanto ao suposto inimigo que enfrentariam, Eymerich declara:

“ – Satanás não é uma superstição. É uma realidade. E lembre-se de que eu estou dirigindo a expedição porque sou um soldado de Deus. Nem Lúcifer em pessoa tem poder sobre mim. – Fez uma pausa, depois acrescentou num tom mais pacato: – Mas seus homens não precisam se preocupar. Terão diante deles apenas mulheres indefesas. Pelo que entendi, elas só se tornam perigosas quando estão juntas” (214).

O Inquisidor descobre que está diante do ressurgimento do culto à Diana, a deusa romana. As mulheres, resistindo à cultura religiosa opressora, encontram em Diana o refúgio, a promessa de libertação do seu jugo milenar. A fala de Elisen, prisioneira do Inquisidor quando parecia ser ele o prisioneiro, é esclarecedora:

“Eymerich sacudiu com fúria as correntes que lhe apertavam os pulsos. – Megera estúpida! Vocês estão evocando Satanás, não Diana!

Elisen sorriu com ar de compaixão. – O estúpido é você. Já falei, Satanás nada mais é do que o reflexo do Deus de vocês, distante e desumano. Mas Diana é a deusa da fertilidade, do contato com a terra, do perfume dos bosques, da luz do luar. A deusa dos instintos, oposta ao seu Deus masculino, frio e racional. Com Diana, as mulheres, que vocês mantêm escravas, voltarão a correr pelas florestas como nos velhos tempos, a parir para si mesmas e não para vocês. – Fez uma pausa. – Mas o que você pode entender? Você pertence ao reino da lógica e da crueldade. Sua Igreja sempre tentou nos anular, nos submeter, nos arrancar da natureza. É um mundo gélido que não queremos mais. Amanhã Diana nos libertará para sempre” (236).

Voltemos ao tempo presente. O jovem aspirante a cientista, Frullifer, consegue ser aceito na instituição universitária e, além disso, tem a simpatia do governador texano aos seus projetos. Frullifer, que é virgem, se sente atraído sexualmente por Cynthia e não consegue vê-la senão enquanto objeto do seu desejo. O intelectual Frullifer, cuja teoria tornará possível a viagem humana para além da materialidade do tempo-espaço presente, é profundamente incapaz de compreender o humano e os dilemas que a instrumentalização da sua teoria envolve. Imerso em sua própria imagem, ele desconsidera que seus “novos amigos”, o governador e seus assessores, expressam o conservadorismo político e religioso, racista, sexista e homofóbico. Frullifer só consegue pensar em sua teoria e no corpo de Cynthia. Ele é surdo diante dos pedidos dela para que não apóie os “novos inquisidores”. Tentando abrir-lhe os olhos, ela argumenta:

“Aqui na astrofísica até que as mudanças não foram tantas, mas no departamento de história, sim. Um professor de história medieval foi demitido por declarar que a Inquisição foi um fenômeno abominável. No departamento de história moderna, outro foi demitido por ter escrito que a Revolução Francesa foi um evento positivo. Seu substituto explica aos alunos como foi positiva a Vendéia, fiel ao rei e à nobreza. No de história contemporânea, demitiram dois terços dos professores. Um por ter afirmado que durante a Guerra Civil Espanhola os republicanos estavam com a razão, e não Franco, e outro por ter dito que os campos de concentração nazistas eram matadouros abomináveis. Mas você se dá conta disso?” (222-23).

A própria Cynthia é demitida por não ser cristã, e sim judia. O tempo presente realimenta a Inquisição sob novas formas e argumentos. Embora se apeguem à idéia de que são guardiões da fé, os novos inquisidores também se amparam no voto popular e travestem-se de democráticos. “Houve eleições legítimas, e o reverendo Mallory foi eleito governador do Estado. Isso significa que a maioria dos cidadãos aprova o seu programa, inclusive os itens que tratam da educação”, argumenta o agente do poder estadual Matthew Hopkins (166). Ele nos coloca um dilema político fundamental: a maioria é democrática ou tirânica? O representante do poder político, em nome da maioria e mesmo com o apoio desta, tem legitimidade para impor seus valores às instituições públicas e à liberdade dos indivíduos? Se “O Inquisidor” se ampara em valores morais religiosos para impor sua tirania aos hereges, o inquisidor civil também elege seus hereges e se vê porta-voz do povo e de Deus.

Essa reflexão sobre o presente e o passado, sobre velhas e novas formas do pensamento e prática inquisitoriais é entremeada pela ficção de uma viagem espacial cujo “combustível” que move a nave é a energia psíquica, isto é, os “psicotrons”. Esta fantástica experiência de uma viagem psicotrônica é narrada através do depoimento de um tripulante da espaçonave Malpertuis à Comissão Interespacial de Cartagena dedicada à investigação dos fatos ocorridos. Os tripulantes desembarcam num obscuro planeta se defrontam com uma experiência semelhante àquela vivenciada pelas admiradoras da deusa Diana no tempo do Inquisidor Eymerich.

Onde estarão os deuses e deusas que um dia existiram? Se a imaginação humana era a energia que mantinha a sua existência, será possível reunir psicotrons, energia psíquica, capaz de trazê-los do seu exílio? Se criamos nossos deuses, também os matamos e somos capazes de ressuscitá-los? “Não há fantasia humana que, compartilhada intensamente por um número suficientemente amplo de indivíduos, não possa se materializar”, afirma o doutor Frullifer (273-74). É essencialmente a energia psíquica de vários e determinados indivíduos, que imaginam e crêem, que torna real o crível e o imaginado. Isto significa que a divindade existente no pensamento se faz presente na vida real. A percebemos e sentimos. Podemos conjecturar se as ideologias são, de forma semelhante, o imaginário que se materializa a partir da reunião da energia psíquica de vários indivíduos. Tanto a religião quanto as ideologias políticas pressupõem o elemento da crença no não existente no tempo presente, o paraíso e/ou a utopia escatológica, mas que pré-existe na mente de determinados indivíduos. É preciso que a massa dos indivíduos concretos se apropriem das idéias que, a princípio, estão nas cabeças de poucos. Quando um número significativo de indivíduos concentra-se sobre a mesma idéia, a mesma imaginação, esta ganha força e se torna real – pelo menos para estes indivíduos. A religião e a ideologia comprovariam esta teoria?

O pastor governador, como um Inquisidor à moda moderna, não recusa a ciência; pelo contrário, sua preocupação é como conciliá-la com a religião e fortalecê-la. Como Eymerich, que não hesita em evocar Satanás para atingir os seus desígnios, os novos inquisidores mostram-se dispostos a passar por cima das próprias crenças, desde que isto contribua para ampliar o controle e lhes dêem meios eficazes para manter o pleno domínio. Afinal, se os inquisidores controlam o pensamento, dominam também a capacidade dos indivíduos criarem seus deuses e utopias. Os novos inquisidores, aceitam viver a experiência, testar a teoria de Frullifer. O leitor pode imaginar o resultado...

“O Inquisidor” é um livro contemporâneo. Ele possibilita a reflexão sobre temas como a intolerância religiosa, política, racial, relativa ao gênero etc. Não é apenas ficção, é também uma narrativa histórica medieval e um olhar fecundo sobre o desenvolvimento do imaginário conservador presente em nosso tempo, o qual se materializa em ações e atitudes políticas e religiosas. Os novos inquisidores estão à espreita e, como no tempo de “O Inquisidor”, se consideram “soldados de Deus”. No mundo imaginado por eles não há espaço para personagens como Cynthia e o professor Tripler; talvez personagens como Frullifer, que vêem a ciência e a si mesmos acima do que ocorre na política, na religião e na sociedade, tenham um papel a cumprir, mas será o de cúmplice. No totalitarismo fundamentalista dos novos inquisidores não será possível ler livros como este... Será difícil, então, imaginar e materializar a liberdade de expressão e de religião.

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[1] Valerio Evangelisti é um dos novos autores italianos mais populares e elogiados pela crítica européia. Nascido em Bolonha, em 1952, é historiador e também ativista e articulista político. Dirigiu por uma década a revista Progetto Memoria, um periódico de história contemporânea com foco no antagonismo social. Além disso, é colaborador de diversas publicações européias, como a francesa Le Monde Diplomatique. Atualmente é diretor editorial de uma publicação dedicada à literatura fantástica e à crítica política (Carmilla) e preside o Arquivo Histórico da Nova Esquerda Marco Pezzi, em Bolonha. No Brasil, lançou também Black Flag (Conrad), uma ficção sobre a escalada da violência e da degradação humana ao longo dos séculos. O site oficial do autor é: http://www.eymerich.com/

[2] O primeiro capítulo de “O Inquisidor” está disponível no site: http://www.lojaconrad.com.br/valerioevangelisti/

[3] Eis um detalhe interessante que rompe com os esquemas maniqueístas: o mal não existe incólume em sua relação com o bem, mas ele também pode ser instrumentalizado na defesa do próprio bem, e, neste sentido, se transmuta nele. Eis-nos novamente diante de Maquiavel... Porém, e isso demonstra o quanto é injusto a atribuir a um autor todos os males, o famoso florentino nem havia nascido quando o “maquiavélico” inquisidor praticava suas atrocidades em nome do bem.

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