por
ARMEM MAMIGONIAN Professor
Livre-Docente do Departamento de Geografia da FFLCH-USP |
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Elias
Jabbour. China
- Infra-estruturas e crescimento econômico. São
Paulo: Editora
Anita Garibaldi, 2006 (256p.)
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Decifrando
o Enigma Chinês
Por
Armem Mamigonian
Elias
Jabbour, autor de China: infra-estruturas e crescimento econômico,
freqüentou o curso de geografia na USP nos anos 1990, quando o
modelo neoliberal reduziu o Brasil à intensa exploração do
imperialismo norte-americano e impôs conformismo mesmo entre a
intelectualidade de esquerda. Entretanto, Elias tinha clara consciência
da brutalidade imposta ao povo (desemprego etc) e à nação
brasileira (dívida pública crescente, privatizações etc) e,
assim, foi, ao mesmo tempo, estudante preocupado com sua formação
intelectual, mas também militante político, com atuação
constante em prol dos interesses nacionais e populares. A soma de
preocupação intelectual e militância de esquerda deram bons
frutos. Este livro é resultado de uma dissertação feita com garra
e paixão e a aplicação das idéias de Ignácio Rangel sobre os
mecanismos de desenvolvimento econômico ajudou o autor a decifrar
seu tema.
Milton
Santos insistia na necessidade de a geografia brasileira estudar
outros países, aumentando sua área de atuação intelectual,
superando os limites impostos pela geografia dos países dominantes
(EUA e Europa). Assim sendo, a escolha da China participa desta
necessidade da geografia brasileira. Interessa também à esquerda
– ainda mais depois da queda da URSS – com a finalidade de
decifrar os segredos do modelo socialista de mercado, com espantosas
taxas de crescimento, levando a China a dobrar de tamanho
praticamente de sete em sete anos, mudando rapidamente a geografia
do mundo.
A
temática infra-estrutura se revelou feliz, pois dá destaque a um
lado fundamental da economia chinesa que nem sempre é valorizado.
Na verdade, a China não poderia ter-se lançado às exportações
sem resolver inicialmente o nó-de-estrangulamento do abastecimento
alimentar, o que foi a primeira tarefa econômica do modelo (últimos
anos da década de 1970 e primeiros da de 1980). E não poderia
obter êxito na política de instalação de Zonas Econômicas
Especiais (ZEE’ s), inicialmente no litoral meridional, sem equipá-las
com infra-estruturas modernas, apesar de pontuais no território.
Novas ZEE’ s foram se estendendo por todo o litoral (final dos
anos 1980) e logo depois elas foram interiorizadas em novos
“litorais”: o rio Yang- tsé e as regiões fronteiriças do
norte. Assim, os recursos inicialmente investidos no litoral
permitiram transferências para o interior, criando uma economia
continental crescentemente integrada e inserida na economia mundial.
Curiosamente, a China deslumbra economistas reacionários e
horroriza sociólogos “marxistas” num interessante sinal dos
tempos atuais.
Elias
Jabbour percorreu por três meses a China e visitou siderúrgicas,
ferrovias, rodovias etc. Ali houve planejamento equilibrado entre
construções de infra-estruturas gigantescas desde os anos 1990,
importações de equipamentos e implantações recentes de indústria
mecânica pesada de ponta, em joint-ventures com multinacionais do
ramo. Assim à medida que foi criando – a partir dos inícios
modestos das primeiras ZEE’ s (1982-83) – novos pólos regionais
industriais espalhados por toda a China, a preocupação por
interligações em transportes e suprimentos energéticos em escala
gigantesca tornou-se crucial. A crise asiática de 1997 obrigou o
Estado chinês a acelerar gastos públicos em infra-estruturas para
estimular o crescimento econômico nacional sem apelar para a
desvalorização cambial – opção obrigatória das economias
atingidas pela crise. Deve-se notar que somente a China e Taiwan,
com grandes reservas cambiais e sem dívidas externas
significativas, escaparam da crise. Aliás, mantendo o câmbio
intacto, a China reforçou seu prestígio regional na Ásia.
A
continuidade do crescimento econômico acelerado, marcado pelos 9,9%
em 2005, o financiamento basicamente público das infra-estruturas,
a ênfase na integração do oeste da China numa economia nacional
de caráter continental, o uso das joint-ventures como mecanismo de
absorção de tecnologia de ponta são marcas registradas do setor
estudado pelo geógrafo Elias Jabbour. Esperamos que no futuro
continue nos brindando com novas e originais pesquisas. |
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