por MIGUEL PEREIRA

Sociólogo, Mestrando em Sociologia pela UFPA

 

Quem é bárbaro?

 

A chamada da reportagem de uma emissora de TV anunciou: Ataque bárbaro! Referindo-se em tom melancólico as explosões ocorridas em Londres no dia 07 de junho de 2005. E, o jornalista de TV, com a voz embargada, clama: “É a barbárie atacando a civilização”. Desse modo, a mídia tenta fazer crer que apenas um lado é que tem razão, que deve ser justiçado, pois foras-da-lei inescrupulosos ameaçam os seres civilizados. E quem são os civilizados? Os ocidentais, e especificamente os países de mercado capitalista acreditam os empresários dos meios de comunicação.

Mas então, quem vela os corpos das milhares de crianças iraquianas destroçadas pelas bombas. Os jornalistas poderiam, ao se referir aos ataques dos Estados Unidos, pelo menos clamar com a voz embargada e emoção pusilânime: “são os bárbaros sendo atacados pela civilização”.  Será que nesse momento interessa saber qual o bárbaro que atacou primeiro? Se os cristãos nas cruzadas, com suas espadas em punho cortando cabeças dos infiéis no Oriente Médio. Ou quem atacou primeiro fora parte da versão dos esclarecidos do iluminismo que voltaram o foco para sua face, se ofuscaram e perderam o principio de defesa do humanismo e tornaram-se os bárbaros da modernidade contemporânea.

Talvez a razão se auto-destruiu fundindo-se à barbárie reflexiva que adota a crise profunda para se renovar. Assim sendo, estaríamos forçados a confirmar os postulados dos pensadores da Escola de Frankfurt, Horkheimer e Adorno, e denominarmos este instante de razão bárbara, onde o esclarecimento exalta o sujeito e ao mesmo tempo assina sua sentença de morte fazendo a civilização racionalista retornar à barbárie. Adorno e Horkheimer na década de 1950, já completamente desiludidos com a possibilidade da libertação da humanidade pelo liberalismo moderno, concluíram que o esclarecimento moderno, que se propôs a construir o processo de desencantamento do mundo, a sua desmitologização e a substituição da imaginação pelo conhecimento, se esfumaçou diante do mito que os profetas e deuses da antiguidade perenizaram no pensamento da humanidade.

Mas, por outro lado, Adorno e Horkheimer fundamentam a teoria da dialética da razão amparado pela idéia da pureza da razão, confiando num determinado curso unitário da história. Entretanto, Mattei não engrossa esse discurso, na sua opinião não existe a pureza da humanidade como uma unidade totalizante, ou seja, a nossa história é derivada de uma face impura em que habitam o homem civilizado e o bárbaro somente em um Ser. Desse modo: “Um animal ou um deus não pode cair na barbárie, pois o animal, puro instinto, ou o deus pura razão, para empregar a linguagem de Pascal, estão abaixo ou acima do humano” (Mattéi).

O bárbaro para alguns é ser inculto, desletrado com costumes antropofágicos que está num estágio inferior da evolução social e política. Civilizado são aqueles que se libertam dos costumes de suas sociedades tradicionais e, paulatinamente, adquirem comportamento moderado, caiado por um “refinamento” de conduta, ou seja, adquirem hábitos sociais e culturais que não os seus. Para outros teóricos, o que existem são civilizações que evoluem dentro de sua própria experiência e conduta, onde os indivíduos lutam internamente para crivarem os costumes inúteis à convivência em comunidade. Um bom exemplo recente são as mulheres iranianas, que sem a interferência de uma “potencia civilizadora” imperialista, empurram aos poucos as velhas regras de convivência inutilizadas por novas relações sociais.

Mas, utilizemos os conceitos iniciais para falarmos de guerra e terrorismo. A guerra, para o bem ou para o mal, é uma das formas de revelar a barbárie que está contida no discurso dos que são cunhados de bárbaros tanto quanto nos civilizados, ou seja, o civilizado e o bárbaro são os mesmos, trocam apenas de papel quando a lógica está do seu lado e quando se tem o poderio da propaganda ao seu lado.

Quem é mais bárbaro? A moderna máquina inteligente da guerra, explodindo crianças e adultos inocentes no Afeganistão, e recentemente no Iraque? Ou os aviões colidindo com as torres gêmeas no 11 de setembro torrando e soterrando inocentes. Ou a “pós-moderna” máquina de propaganda que transforma infiéis em fieis, culpados em inocentes, ou vise-versa, porque a poderosa mídia pode transformar monstros em cordeiros e cordeiros em monstros.

Quem foi o precursor da infidelidade e da matança a inocentes? Não foram os Muçulmanos, não foram os Judeus, não foram os ocidentais. “Meu Deus!”, não foi Hitler. Essa é parte da verdade dos fatos, não a sua essência, pois todos têm culpa. O fundo da questão está na relação humana inacabada que não inclui o outro. O civilizado sou eu, o outro é o bárbaro. Para Bush, “A civilização está em perigo, ameaçada pelo terrorismo cego, pelo fanatismo frenético e pelo obscurantismo arcaico dos novos bárbaros, que são das redes islâmicas encabeçadas pelos três países do eixo do mal: Iraque, Afeganistão e a Coréia do Norte”. Para Bin Laden, o bárbaro e o infiel estão no Ocidente, representados pelos Estados Unidos, simbolizando o cristianismo individualista e o materialismo moderno (Francis Wolff, 2004).

Por trás da ignorância do outro está o princípio de que a minha civilização por ser a “perfeita” deve ser universalizada, uniformizada. Não é isso que mobiliza a cruzada pelo fim do “eixo do mal”, pela ocidentalização do mundo? A cruzada pela islamização do mundo? Será essa a dicotomização mais coerente? Barbárie e civilização, ou existe duas formas de barbáries: “a barbárie destrutiva do fanatismo versus a barbárie devastadora da civilização”(idem).

Com o fim do Império Britânico, Rooselvet antecipara a postura dos Estados Unidos frente a sua nova condição de determinar o destino do mundo, ridicularizou os britânicos e se apropriou dos slogans e da propaganda britânica para impor um modelo acabado de sociedade baseada na cultura Norte Americana (EUA): “uma civilização melhor que a que sempre conhecemos está reservada para a América e, por meio de nosso exemplo, talvez para o mundo. O destino parece ter se detido longamente” (Discurso Comemorativo dos Cinqüenta Anos da Estatua da Liberdade, NY, 28 de outubro de 1936. Citado por Meszáros, 2003)

A postura Norte Americana manteve-se com uma determinação rigorosa de conduzir o mundo sob a sua batuta e historicamente manteve subservientes os governantes britânicos, transformando-os em “cavalo de Tróia” em sua escalada de ocupação militarista aos países que teimam em não permitir serem conduzidos política e economicamente pelos EUA (Meszáros, 2003).

Em “Socialismo e Barbárie”, Meszáros conclui sua obra afirmando que Marx previu que em um futuro indeterminado haveríamos de enfrentar, forçosamente, a escolha em relação à ordem social a ser adotada, como imperativo de salvar a própria existência, pois já havia um processo crescente de desumanização das relações sociais. Rosa Luxemburgo, em outra fase da história, retomou os argumentos de Marx só que o poder destrutivo (da humanidade) da máquina militar do imperialismo ainda não era cogitado. Hoje vivemos em uma outra escala, onde o potencial qualitativo de destruição da humanidade alcançou trágicos contornos, sem que o capitalismo globalizado apresente capacidade para solucionar suas contradições.

Finalmente, o terrorismo é uma forma de guerra não declarada onde não se conhece o oponente face-a-face, diga-se de passagem, os Estados Unidos já utilizou em larga escala este instrumento, hoje condena momentaneamente por não servir aos seus propósitos que é o da intervenção direta com objetivos de ocupação imediata. Desse modo, se a guerra é o lado perverso da luta entre os povos, a guerra não declarada é utilizada com sutileza ainda mais perversa pelo poder da mídia a serviço do imperialismo, os atos são apresentados com alta carga de dramaticidade, construídas com slogans que estimulam a ignorância sobre o que é barbárie e civilização, mas que, infelizmente, são consumidas pelo o senso comum. Tudo isso comandado pelo jornalismo comprometido com os propósitos da potencia militar estadunidense que costuma encobrir os reais motivos da guerra, que é a falta de igualdade substantiva entre os povos.

Bibliografia pesquisada

Brüseke, Franz Josef. A técnica e os riscos da modernidade / Franz Josef Brüseke – Florianópolis: Ed. da UFSC.2001

Civilização e Barbárie / Org. Adauto Novaes (Francis Wolff). – São Paulo: Companhia da Letras. 2004.

Mattei, Jean-François. A barbárie interior: ensaios sobre o í-mundo moderno. São Paulo. UNESP.

Mészaros, István. O século XXI: Socialismo ou Barbárie? São Paulo. Boi tempo, 2003.

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