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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Os artigos que compõem esta série são versões adaptadas da
dissertação de Mestrado, Os
partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil
(1987-1994): permanências e descontinuidades,
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em
1998, sob a orientação de Maurício Tragtenberg. A
banca de defesa foi composta, além do orientador, pelos
professores Isabel Maria Loureiro e Lúcio Flávio
Rodrigues de Almeida. A dissertação não foi publicada em
versão impressa e a iniciativa que ora adotamos visa
disponibilizá-la aos militantes do movimento social, estudiosos
do tema e demais interessados – afinal, a pesquisa foi
financiada por dinheiro público, através de bolsa de estudo do
CNPq.
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Contribuição
à história do marxismo no Brasil (1987-1994)
II
- O
marxismo-leninismo: entre
a negação
e a afirmação da tradição stalinista
O
PCB reorganizado
A
Conferência Extraordinária de Reorganização do PCB,
realizada nos dias 25 e 26 de janeiro de 1992, em São Paulo,
referendou a decisão de criar o Partido Comunista (PC). Este partido foi concebido
como “instrumento jurídico para a retomada do PCB” e
“herdeiro das tradições históricas, de heroísmo e combate, dos
comunistas em nosso país” (PARTIDO COMUNISTA, 1992: 02-03).
A
resolução reconheceu que o mundo passara por transformações políticas,
econômicas e militares. Mas considerou que no essencial o
capitalismo não se alterara. O desenvolvimento tecnológico, a
constituição de uma nova ordem mundial e a internacionalização
do capital, não eliminara a “natureza exploradora” desse
sistema, nem a “raiz de sua limitação histórica”: a divisão
entre explorados e exploradores. (id)
A
análise da situação internacional ressaltou a perversidade do
sistema capitalista e sua incapacidade de superar os problemas básicos
que afligem a humanidade. Por outro lado, observou-se que o
socialismo “sofreu rude golpe e grande retrocesso com o colapso do
bloco socialista e a dissolução da antiga União Soviética”. A
conferência concluiu que “talvez não se tenha a perspectiva histórica
para analisar com profundidade o que ocorreu”, mas esses
acontecimentos revelaram um elemento fundamental para uma avaliação
posterior: a “contradição entre a base da produção do sistema
socializado e centralizado” e o “tipo de relações sociais,
culturais e ideológicas” desenvolvido. (id.)
Por
fim, a resolução aprovada realçou as conquistas e avanços nas
condições de vida das massas trabalhadoras nestes países e a sua
contradição básica: a inexistência da democracia efetiva – o
que teria dificultado a participação do povo na gestão do Estado,
alienando-o. Esse seria um fator significativo que “aponta para
uma ampla reformulação nas estratégias e táticas das sociedades
socialistas” (id.).
A
conjuntura mundial, longe de decretar a morte de Marx e o fim do
socialismo, com a idealização do mercado, só confirmaria a
atualidade da luta de classes, do marxismo e a necessidade da revolução.
O processo de ruptura revolucionária, na visão do PCB,
passa “pela substituição da hegemonia da classe capitalista pela
hegemonia da classe dos operários”.
O
PCB reorganizado propôs uma plataforma de ação a partir da
oposição ao governo Collor, pela defesa das conquistas populares;
o controle social das estatais estratégicas; e, a defesa da
soberania nacional. Essas propostas fazem parte de um programa político
que objetiva “a instituição de uma base material e social com
traços socialistas que possa oferecer um patamar sólido para a
transformação radical do sistema capitalista” (id.: 03).
À
radicalidade democrática do PPS, o PCB contrapôs
uma concepção de socialismo identificado com a “democracia
substantiva, sem adjetivos, pois nele o fator fundamental operante
da sociedade é o conjunto dos cidadãos trabalhadores”. Em oposição
à idéia da nova forma-partido, defendeu a unidade de todos
os comunistas em torno de um programa mínimo. Com este intuito, a
Comissão Executiva Nacional, eleita nessa conferência, planejou
realizar reuniões com as direções do PDT, PSB, PT, PC
do B, PLP, o MR-8, personalidades comunistas e a
direção nacional da CUT. (id.)
Finalmente,
a resolução política declarou a solidariedade com o povo, o
governo de Cuba e os princípios da revolução cubana, estendendo
este sentimento às correntes progressistas e aos camaradas
comunistas de outros países, inclusive do Leste Europeu e da ex-União
Soviética. Nesse sentido, foi aprovada moção de solidariedade à Cuba
socialista e ao povo palestino. (id.)
Essa
conferência consolidou o processo de cisão do ex-PCB. De
fato, ao lançarem o PC antes mesmo da realização do denominado “X
Congresso do Partido Comunista Brasileiro”, os dissidentes já
haviam optado pela ruptura. A questão era apenas definir o momento
ideal para formalizá-la, se antes ou depois do congresso.
A
avaliação de que o grupo de Freire fraudara a correlação de forças
no interior do velho PCB com os critérios adotados para a
eleição dos delegados e, conseqüentemente, a conclusão de que a
participação nesse processo o legitimaria, foi decisiva para o
abandono do Teatro Záccaro e a posterior realização da conferência
no Colégio Roosevelt.
Em
março, realizou-se em Belo Horizonte o pleno nacional do partido,
que aprovou a palavra de ordem Fora Collor! Com a evolução
deste movimento o PC propôs a adoção de um programa mínimo como
tática para influir nas ações do futuro governo.
Esta
posição foi modificada em outubro de 1992: o PCB se
declarou em oposição ao governo Itamar, por considerar que este
representava a continuidade da política de submissão ao FMI. Nas
eleições desse ano O PCB (renovado) elegeu apenas um
vereador em todo o país: o veterano comunista Paulo Cavalcanti, em
Recife.
Em
novembro, o Partido Comunista realizou outra conferência nacional.
Reunidos no Rio de Janeiro, cerca de cem delegados aprovaram as
teses para O X Congresso convocado para março de 1993, bem
como as normas para a sua realização e sua pauta. A manutenção
da denominação X Congresso representou o não
reconhecimento e a descaracterização do congresso de janeiro de
1992, que deu lugar ao racha. E, ao mesmo tempo, expressou o
objetivo declarado de colocar-se enquanto continuidade do antigo PCB.
Por outro lado, o PCB reorganizado buscou se afirmar enquanto
ruptura com as teses que hegemonizaram o “partidão” antes da
cisão.
A
participação da militância nesta conferência diminuiu em relação
à anterior. Isto refletia o processo de transição que
caracterizou a reorganização do partido: a crise herdada do ex-PCB;
as dificuldades inerentes à reaglutinação dos elementos dispersos
(militância, linha política, enraizamento de base etc.); a perda
de quadros para outras organizações etc.
Esses
fatores também se expressaram nas críticas internas às teses
adotadas, à aproximação preferencial com organizações e
personalidades comprometidas com a herança stalinista e ainda na
polêmica sobre a participação do partido no Acordo
Internacional dos Trabalhadores (ACIT).
Já
anteriormente ao racha, Paulo Gnecco (vereador por São Paulo,
capital), havia participado da reunião que constituiu o ACIT,
realizada em Barcelona (Espanha), em janeiro de 1991. Impulsionado
por trotskistas da vertente lambertista,
este organismo teve a adesão de socialistas e comunistas,
marxistas independentes e militantes ligados ao anarquismo.
A
primeira conferência decidiu manter provisoriamente a participação
no ACIT – na qualidade de observador – e enviou Gnecco e
Mazzeo para tomar parte de mais uma reunião desta organização,
para estabelecer contatos com os partidos comunistas irmãos
e centrais sindicais européias. Na conferência seguinte, cerca de
27 delegados (30%), solicitaram que se fizesse o debate sobre essa
questão. A polêmica terminou por ser adiada.
Em
janeiro de 1993, a Comissão Executiva (CE) comunicou que, após
discutir o Acordo Internacional dos Trabalhadores, decidiu
pela não participação do partido e seus militantes neste
organismo, por considerá-lo uma “articulação trotskista” e
pelo fato de não haver “acumulação de discussão aprofundada
sobre o assunto”. “A CE reafirma que nosso partido é parte do
Movimento Comunista Internacional e que, portanto, se articula nas
organizações internacionais dos Partidos Comunistas”, concluía
(CEN/PC, 1993:10).
Os
setores favoráveis à participação no ACIT criticaram direção
executiva. Em carta aberta aos militantes, Gnecco denunciou que não
fora convidado para a reunião da executiva. Tratava-se, segundo
Gnecco, “da repetição de uma manobra golpista típica dos piores
momentos da história do Partido”. Ele acusou a CE de “bloquear
o debate antes de iniciá-lo” e de proceder de forma antidemocrática
e antiética. Para ele, a CE tomara uma atitude stalinista.
“A
acusação é infundada”, refuta Mazzeo. Ele argumenta que Gnecco
aderiu à esquerda no processo de cisão do partido e manteve
atividade paralela ao mesmo, com finanças, relações
internacionais e jornal próprio (Debate Comunista). O Comitê
Central e a executiva teriam realizado várias reuniões no sentido
de convencê-lo a abandonar o “paralelismo”, que conflitava com
a sua condição de dirigente comunista. Gnecco teria resistido e até
mesmo não participado de algumas reuniões.
Para
Mazzeo, ele praticou a clássica política de entrismo,
estimulado por O Trabalho, o qual estaria se aproveitando de
um momento de fragilização do partido. A divergência, então, não
era o trotskismo em si, mas a política “anti-revolucionária”
de infiltração adotada pela organização trotskista através da
atuação de Gnecco.
Quanto
ao ACIT, Mazzeo afirmou que o mesmo não tinha expressão e
influência, reduzindo-se ao lambertismo, mais alguns poucos
militantes e observadores. A política deste organismo estaria
colocando o PCB em confronto com os partidos e organizações
com quem tradicionalmente mantém relações preferenciais –
especialmente o Partido Comunista Francês. Ele admite a
influência do stalinismo no PCB, inclusive no Comitê
Central, mas salienta que seus representantes são minoritários.
De
qualquer forma, o processo de discussão sobre o caso fora “leal e
transparente”. Ainda segundo Mazzeo, o Comitê Central acabou
decidindo pela expulsão de Gnecco, após esgotar as possibilidades
de se chegar a um acordo. O Comitê Regional de São Paulo chegara a
propor a suspensão, proposta derrotada na direção nacional. “A
vida mostrou que tínhamos razão, que ele estava infiltrado”,
afirma Mazzeo em alusão aos desdobramentos posteriores, com a adesão
assumida de Gnecco à tendência petista O Trabalho.
Esta polêmica, admite Mazzeo, causou graves danos à reorganização
do partido em São Paulo.
Esse
debate expressou a heterogeneidade dos setores que levaram adiante o
projeto de reconstrução do PCB, determinada pela maior ou
menor ênfase no tocante à ortodoxia marxista-leninista. Nesse
processo se mesclaram influências que iam do stalinismo ao
luxemburguismo, passando por Lukács, Gramsci e o próprio
Trotsky. Nesse sentido, o PCB rompeu com o monolitismo teórico-ideológico
que marcou a tradição anterior.
Contudo,
se por um lado o cisma que lhe deu origem delimitou as posições e
concepções políticas e teóricas, por outro não superou em
definitivo os impasses gerados pela crítica e autocrítica em relação
ao socialismo real e a todo o arcabouço teórico e ideológico
que lhe deu sustentação por várias décadas.
As
teses aprovadas na conferência nacional refletem estes impasses. De
um lado, defende a URSS e o Leste Europeu; exalta as conquistas
sociais, econômicas e culturais do socialismo e o seu papel
“internacionalista e progressista”. De outro, reconhece a importância
do “fator democrático”, os erros gerados pela “transfiguração
do caráter do poder popular dos sovietes” e pelo imbricamento das
funções do Estado e do Partido, que provocou a “alienação das
massas” e transformou a ditadura do proletariado na ditadura do
partido único. (PCB, 1993: 06-11)
Até
aqui temos uma avaliação aparentemente consensual que extrapola o
âmbito do PCB. As contradições aparecem quando parte da análise
do significado das experiências socialistas para as proposições
políticas (teóricas e práticas). É o que podemos observar quando
a tese aprovada, ao pretender valorizar “as contribuições
importantes do movimento operário”, coloca no mesmo plano
personagens díspares e até mesmo antagônicos (como Stalin,
Trotsky, Kautsky, Bukharin, Gramsci, Lukács, Althusser e
marxistas da atualidade) e sintetiza “toda esta herança de lutas
e todo o pensamento acumulado” na expressão marxismo-leninismo.
Isso não é empecilho à defesa do rompimento com o “discurso
apologético e laudatário que durante decênios foi o marxismo
oficial da URSS” (id: 20 e 27).
A
contradição entre o discurso autocrítico e a manutenção dos ícones
ortodoxos “marxista-leninistas” explicita-se quando as teses
defendem, como ponto programático, o “estímulo às relações
econômicas e culturais com a China e os povos do Oriente que
continuam a construir o socialismo” (sic.). Ou, quando, professam
o apoio e solidariedade aos “camaradas que constroem o
socialismo” nos países do antigo bloco socialista, apoio
efusivamente estendido a Honecker, ex-presidente da ex-Alemanha
Oriental. (id.: 26-32) Essa análise da conjuntura internacional foi
complementada com a proposta de construção de um fórum de
partidos e grupos revolucionários como o PC do B e o MR-8,
além de grupos avulsos e parte do PT.
Por
outro lado, a formulação estratégica do PCB reflete o
esforço em romper com a concepção etapista da revolução
brasileira, tão cara ao velho “partidão” e à tradição
stalinista. A etapa “democrática, nacional-burguesa” deu lugar
ao conceito de hegemonia da classe operária e dos trabalhadores do
campo, condição considerada imprescindível para a “ruptura do
sistema social vigente” e para a abertura do “caminho para a
implantação do modo de produção socialista” (id.: 27-28).
Esta
estratégia de conquista da hegemonia pressupõe a formação de um
“bloco progressista, democrático, de esquerda”, cujo governo
teria a função de abrir “o período de transição para a
construção de uma sociedade socialista, fazendo a base material
para esta transformação” (id.).
Ela
resulta da compreensão da sociedade brasileira, cuja análise
determina o caráter da revolução “democrático e socialista,
com tarefas antiimperialistas, antilatifundiárias e
antimonopolistas”. Nesse aspecto, aproxima-se da consigna do governo
democrático e popular – ainda que com ênfase diferenciada.
As formas de luta para a consecução desse processo seriam diversas
e até mesmo imprevisíveis. Elas se relacionam com a conjuntura, a
cultura do povo, sua trajetória etc. (id.: 22-29)
A
conquista da hegemonia na concepção do PCB difere da “via
reformista-evolutiva, que acredita só ser possível a revolução
pela via pacífica”. Assim, o partido busca demarcar suas posições
das teses da revolução processual e, simultaneamente,
rejeita o “doutrinarismo esquerdista que absolutiza a luta
armada” (id.).
O
PCB não contrapõe reforma e revolução. Concebe a primeira
como parte do processo revolucionário, um estágio necessário à
acumulação para a ruptura. Sua organização se espelha no modelo
marxista-leninista de partido, regido pelo centralismo democrático.
Num esforço autocrítico, suas teses condenam o “partido monolítico,
impermeável às divergências, intolerante e dogmático”. Porém,
considera incompatível a “articulação de tendências nos órgãos
dirigentes” com o centralismo democrático.(id.: 21-22)
Em
26 de março de 1993, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
institucionalizou o divórcio comunista aprovando por unanimidade o
registro provisório do Partido Comunista. O PPS, alegando
ser o herdeiro legal do PCB, tentou impugnar: perdeu.
Pensado
como entidade civil, forma de garantir a reorganização do PCB,
o PC foi mantido paralelamente ao Movimento em Defesa do PCB
(depois denominado PCB – em defesa do PCB). Após cumprir a
função de facilitar a retomada da sigla PCB, o PC foi
extinto. Seus próprios organizadores provocaram esse desfecho ao não
cumprir as exigências legais para o seu registro definitivo –
também contribuiu para isto a preocupação em ser confundido com o
“PC”, ou seja, o caso Paulo César Farias.
O
X Congresso prosseguiu a discussão iniciada pela conferência
anterior. Em sua pauta constava a deliberação sobre as teses
aprovadas naquela conferência; posicionamento sobre a questão
sindical e a organização; sobre o regimento interno, a resolução
política e a eleição do novo Comitê Central. Este congresso
representou um momento de concentração dos esforços em torno da
estruturação do partido, de aprimoramento da sua organização e
clarificação política.
A
partir deste momento sua militância se dedicou à campanha nacional
de filiação para cumprir as exigências legais para garantir o
registro definitivo do partido.
Em 16 de maio de 1996, a presidente do partido, Zuleide Faria de
Melo, recebeu a comunicação oficial do TSE: o PCB conquistara seu
registro.
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